6. SONUÇLAR VE ÖNERİLER
6.2 Öneriler
Segundo Cardoso (1999), os quilombos no Brasil representaram espaços de resistência de negros, índios e escravos brancos em geral. Nações e etnias diversas se assentaram nesses territórios, a maioria de origem africana. Entretanto, os limites geopolíticos parecem não ter importância para o estabelecimento de diálogos entre os sujeitos quilombolas e os saberes de diversas nações, de excluídos. Os quilombos existiram não só no Brasil, mas em outros países da América Latina conhecidos como palanques ou chimarrões e remetiam a um lugar de encontro de nações, de resistência, contraponto da sociedade colonial.
Mesmo sob a ameaça de chicote, o escravo negociava espaços de autonomia com os senhores, ou fazia corpo mole no trabalho, quebrava ferramentas, incendiava plantações, agredia senhores e feitores, rebelava-se individual e coletivamente [...] houve, no entanto, um tipo de resistência que poderíamos caracterizar como mais típica da escravidão — e de outras formas de trabalho forçado. Trata-se da fuga e formação de grupos de escravos fugidos (REIS, 1996, p.9).
Esse território de resistência chega a colocar em situação duvidosa o fictício sucesso do colonialismo escravagista na América Latina.
Inicialmente o quilombo mais reconhecido pela ciência acadêmica no Brasil como espaço de resistência é o quilombo de Palmares. Ele durou 100 anos e teve a maior população de homens e mulheres. Para pensar nesse palco de resistência é importante
142 lembrar que esse quilombo tornou-se um referencial para outros que surgiriam em diferentes estados brasileiros.
Os quilombos representam as primeiras ―aglomerações, formadas por escravos fugidos, durante o período colonial brasileiro‖. Os quilombos em sua maioria eram agrícolas, mas alguns eram chamados de primeiras ―cidades livres‖, onde ex-escravos negros, índios e brancos conviviam. Relembrando que o Brasil recebeu mais de 100 nações africanas diversas, além das nações indígenas aqui existentes e outras etnias européias, a diversidade cultural dentro dos quilombos e entre quilombos é algo importante a se analisar (GOMES, 2005, p. 12).
Os quilombos, também denominados por Cardoso (2002) de núcleos populacionais de resistência de ex-escravos, existiram em todo o Brasil. Os de Minas Gerais são exemplo. No estado, muitos quilombos se formaram próximos às áreas de mineração ou em regiões de acesso difícil (grotas, matas ciliares, zonas montanhosas, entre outras). Muitos deles continuam existindo.
O projeto da colônia constrói seu universo pelos instrumentos do silenciamento direto e indireto; escravidão e doutrinas na tentativa da homogeneização cultural, no esforço vão de construir uma cultura européia em território brasileiro. Nas rugosidades dos quilombos se constroem encontros e diálogos entre povos de cultura e simbologia diversas. Grupos étnicos indígenas, na diversidade de mais de 900 nações (MNU, 1995) que aqui estavam antes do período colonial, uniram-se aos povos africanos. Mais de 100 etnias africanas diversas trazidas para o País associaram-se a esses grupos autóctones brasileiros e outros oprimidos — os europeus pobres — e traduziram no território usado o hibridismo cultural possível: os quilombos, os primeiros aglomerados livres e agroecológicos.
Moura (2004) destaca que os quilombos existiram desde a chegada dos africanos no Brasil. Vieram com o desejo de liberdade e a não subjugação à condição de escravo. A terminologia quilombo passou a ser ampliada dentro do campo da antropologia de forma a contemplar os descendentes dos quilombolas, denominados de ―comunidades de remanescentes quilombolas‖.
A expressão ―comunidade remanescente de quilombos‖ passou a ser veiculada no Brasil principalmente no final da década de 80, para referir às áreas territoriais onde passaram a viver africanos e seus descendentes no período de transição que culminou com a abolição do regime de trabalho escravo, em maio de 1888. Além de descrever um amplo processo de cidadania incompleto, veio também sistematizar um conjunto dos anseios por ações em políticas públicas visando reconhecer e garantir os direitos territoriais dos descendentes dos africanos capturados, aprisionados e escravizados pelo sistema colonial português. As terras dos quilombos foram consideradas parte do
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patrimônio cultural desses grupos negros e enquanto tais deveria ser alvo de proteção por parte do Estado (LEITE; FERNANDES, 2006, p. 8).
As comunidades remanescentes de quilombo são grupos sociais cuja identidade étnica os diferencia do restante da sociedade, e que procuram manter seus costumes e tradições. O direito à terra pelos povos quilombolas é previsto no artigo n. 68 do ato das disposições constitucionais transitórios da Constituição Federal de 1988.
Se a população quilombola não é homogênea do ponto de vista étnico, consequentemente, do ponto de vista político-cultural os quilombos possuem características e funções diversas. Torna-se, então, necessário caracterizar alguns aspectos que diferenciam os quilombos, sob o olhar de diferentes autores. Moura (2004) observa que a palavra quilombo é de origem banta que, durante a escravidão no Brasil, significou ajuntamento de escravos fugidos. Moura acrescenta que o primeiro quilombo que se têm referências data de 1573, para Roger Bastide (2001), quase o início do tráfico negreiro. Moura (2004) refuta a teoria de que os quilombos no Brasil foram uma versão brasileira de estrutura homônima que floresceu em Angola nos séculos XVII e XVI.
Apesar de o termo quilombo ser um aportuguesamento da palavra kilombu, que em quimbundo significa arraial ou acampamento e coincidentemente as comunidades brasileiras de ex-escravos se organizavam sob a forma de acampamento, Moura (2004) não crê que seja possível a comprovação da hipótese da origem angolana das comunidades de escravos rebeldes. Para o autor, essa hipótese perde consistência uma vez que se considera que os primeiros escravos africanos tinham a Guiné como procedência de origem e não Angola.
Para alguns autores, o termo quilombo permite a compreensão de comunidades negras no Brasil, principalmente para o Movimento Negro, como descreve Sodré.
Ao pensarmos num agrupamento humano como os Quilombos dos Palmares ou na organização litúrgica de um terreiro contemporâneo, surge à imagem da comunidade, isto é, de uma hierarquia concreta de indivíduos interdependentes por laços de sangue, etnia, território, religião ou projeto consensual (SODRÉ, 1999, p. 20).
Anjos (2009) registrou, em 2008, um total de 207 comunidades quilombolas dentro do estado de Minas Gerais, sendo que apenas uma havia conseguido a titulação de suas terras. O número de comunidades quilombolas, segundo alguns autores, pode ser maior do que o registrado, uma vez que os levantamentos ainda são pequenos e o acesso a essas comunidades é difícil. A comunidade quilombola do Sapé aparece nessa listagem, sem, contudo ter obtido a titulação de terras até o momento.
144 Parece interessante pensar os terreiros e quilombos enquanto comunidades. Segundo Sodré (1999), ao se pensar num agrupamento humano, como o Quilombo dos Palmares, ou na organização litúrgica de um terreiro contemporâneo, surge a imagem da comunidade, isto é, de uma hierarquia concreta de indivíduos interdependentes por laços de sangue, etnia, território, religião ou projeto consensual. A produção dos saberes etnobotânicos afro-brasileiro pode solicitar uma compreensão mais complexa do que a de Sodré. O desafio que se apresenta passa por entender as formas e metamorfoses que as medições e interfaces adquirem dentro das rotas de saberes etnobotânicos desse possível projeto identitário consensual. Os processos de mediação4 são alguns dos
elementos identificados e analisados neste estudo. Costa (2006, p. 13) ratifica as questões que aqui se colocam uma vez que ―[...] é no âmbito das relações cotidianas que os padrões identitários e de sociabilidade conflitantes são negociados e apropriados‖.