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7. SONUÇLAR VE ÖNERĠLER

7.2. Öneriler

Destacaremos agora o debate em torno da cientificidade da psicanálise para o território de sua discussão epistemológica atual, deslocando-o do circuito da virada do século XIX para o século XX, quando a influência do Círculo de Viena pretendia erguer um modelo único de cientificidade, o das ciências da natureza, e submeter a este todos os saberes. Neste contexto, vimos como a psicanálise foi afetada em seu projeto de estabelecimento como ciência e o quanto foi criticada em função da peculiaridade do saber que estava inaugurando. Afinal, ela configurava-se como ciência empírica ou especulação filosófica?

Ao acompanharmos a grande reviravolta que o século XX introduz à epistemologia das ciências, após o advento da Teoria da relatividade de Einstein, que acarretou o surgimento de um novo espírito científico, constatamos que os impasses pelos quais a psicanálise atravessou quanto à validação de sua modalidade de produção de conhecimento, não mais se sustenta hoje, uma vez que a própria ideia de empiria foi transformada.

Seguiremos com Mezan (2002) o fio condutor desta discussão, neste momento, com o propósito de complementar Birman na busca de esclarecer a direção da pesquisa em psicanálise, na atualidade.

Mezan procura nos situar, inicialmente, no amplo alcance histórico da problemática do conhecimento no Ocidente. Na época do Grande Racionalismo (Descartes, Espinoza, Leibniz), admitia-se a unidade da razão e a homogeneidade essencial dos conhecimentos que ela permitia atingir. Entretanto, com o transcorrer dos séculos, a multiplicação dos campos de conhecimento acarretou a constituição de uma história da ciência e esta história seria marcada por rupturas, que reconfiguram o conjunto dos conhecimentos. Cada ruptura introduz novos paradigmas que alteram o modo de pensar próprio daquela disciplina que foi revolucionada.

Mezan (2002) cita autores como Georges Canguilhem, Alexandre Koyré e Gaston Barchelard como os grandes protagonistas que endossaram a ideia de que há uma história das ciências não progressiva, ascendente e linear (das trevas à luz do conhecimento), mas uma

história descontínua, na qual a noção de ruptura com o senso comum e a construção do objeto científico são a tônica.

Da visão de uma Razão Universal, atingimos hoje com Gerárd Lebrun a ideia de que há uma racionalidade própria a cada ciência, como informa Mezan (2002):

Cada disciplina deve possuir sua própria racionalidade, razão pela qual se pode falar numa epistemologia da matemática, numa epistemologia da antropologia, e assim por diante. [...] A epistemologia lebruniana é mais dirigida, mais humilde, talvez; ela se concentra numa única disciplina e procura compreender como ela constrói seus objetos, como estabelece seus modelos de inteligibilidade, como determina os modos de validação ou de refutação de um enunciado (MEZAN, 2002, p. 455).

Esta racionalidade específica de cada ciência desencadeia um sistema autóctone de decisões e escolhas, isto é, cada disciplina elabora seus conceitos e suas teorias baseando-se em seu campo próprio de experiência, construindo, desta maneira, sua própria racionalidade:

[...] Cada ciência constrói uma racionalidade própria para dar conta dos objetos que lhe compete investigar, e portanto, esses objetos não podem apresentar todos a mesma estrutura, nem lhes pode convir o mesmo método. [...] A ciência é uma construção, mas não aleatória; ela deve respeitar o modo de ser próprio à região da realidade em que se situa seu objeto, e abordá-la com um método que ponha em evidência suas propriedades específicas (MEZAN, 2002, p. 466).

A consideração pela ideia da existência de racionalidades regionais nos mostra que a racionalidade da matemática é diferente daquela que caracteriza a economia ou a psicanálise. Sendo assim, não nos parece o cúmulo do arbitrário hoje, que cada disciplina seja legitimada dentro do seu quadro teórico e referende, neste, as suas decisões metodológicas, como parecia ser no tempo que Freud propôs, pela primeira vez, os seus conceitos.

A noção de que o objeto é construído e não apenas transposto, a partir do referente, em função de uma observação exata, é o cerne das leituras epistemológicas na atualidade:

O objeto é recortado e construído a partir do fragmento de realidade que é o seu referente, mas também a partir das consequências lógicas das teorias já existentes – o que permite a situação aparentemente paradoxal de que um objeto possa existir na teoria, sem que seu referente, aquilo a que ele possa vir a se aplicar, possua existência material (MEZAN, 2002, p. 469).

Com estas observações de Mezan, caminhamos na direção de um conhecimento que é construído, o que é diferente de pensarmos no conhecimento como mero registro daquilo que se apresenta na realidade. Esta ideia foi desenvolvida por toda a epistemologia francesa, da qual o representante mais conhecido é Gaston Barchelard.

O novo espírito científico inaugura uma nova concepção do que é a empiria: o empírico não é mais o dado concreto (“a coisa”), acessível à observação. A empiria refere-se ao objeto da forma como é captado pela via da instrumentação teórica.

Vimos Freud caminhar tateando, utilizando suas metáforas para mostrar o seu entendimento do aparelho psíquico. Acompanhamos sua luta para que a Psicanálise fosse reconhecida como ciência empírica e o quanto ele utilizava com cautela a expressão ‘construção’ para se referir ao trabalho de interpretação do analista. Acreditava-se que a ciência era real por seus objetos concretos. Agora, este objetos não se encontram mais na natureza, mas são totalmente construídos pela teoria.

O corpo, enquanto psicossexual, encontra-se presente em toda parte, mas não é acessível ao senso comum, posto que sua emergência se coaduna com as manifestações do próprio inconsciente, disseminadas nos sintomas, atos falhos, sonhos, na fala corrente e nas imagens do corpo na cultura, que frequentemente mostram-se como absurdas e enigmáticas como as imagens oníricas. O corpo para a psicanálise é metáfora, não existe na natureza; é preciso construí-lo pela mediação da teoria e do método psicanalíticos.

Em dois verbetes de enciclopédia, escrito em 1923, assim Freud descrevia o que é Psicanálise:

Psicanálise é o nome de (1) um processo de investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e (3) uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica (FREUD, 1980m, v. 18, p. 287).

Ao final da exposição do verbete “Psicanálise’, Freud acrescenta um tópico, “a Psicanálise como ciência empírica”, em que discorre o seguinte:

A Psicanálise não é, como as filosofias, um sistema que parta de alguns conceitos básicos nitidamente definidos, procurando apreender todo o universo com o auxílio deles e, uma vez completo, não possui mais lugar para novas descobertas ou para uma melhor compreensão. Pelo contrário, ela

se atém aos fatos de seu campo de estudo, procura resolver os problemas imediatos da observação, sonda o caminho à frente com o auxílio da experiência, acha-se sempre incompleta e sempre pronta a corrigir ou a modificar suas teorias. Não há incongruência (não mais que no caso da química ou da física) se aos seus conceitos mais gerais falta clareza e seus postulados são provisórios; ela deixa a definição mais precisa deles aos resultados do trabalho futuro (FREUD, 1980m, v. 18, p. 307).

No primeiro trecho, a posição de Freud é clara: a Psicanálise é uma teoria sobre o funcionamento do psiquismo, elaborada a partir do método de investigação da mente humana, depreendida de sua experiência clínica com o atendimento de distúrbios neuróticos.

No segundo trecho, Freud nos mostra que pretendia que a Psicanálise fosse uma ciência natural como a física e a química, e se coloca em oposição à inserção desta no campo da filosofia. Mas esta oposição se revela insuficiente para dar conta da complexidade da Psicanálise, que, como vimos, foi se revelando como uma hermenêutica , uma ciência da interpretação dos sentidos contidos na realidade humana, que é simbólica. Contudo, Mezan (2002) argumenta que Freud tinha razão em “insistir no caráter empírico da psicanálise e com isso diferenciá-la de qualquer sistema especulativo invulnerável à prova da experiência [...]” (MEZAN, 2002, p. 486).

Assim como Birman, Mezan também considera a obra de Freud como atravessada por diferentes linguagens, que denotam uma cisão interna entre o aspecto interpretativo e o aspecto mecanicista: “a obra de Freud é uma síntese instável entre a dimensão do sentido e a dimensão da força; sua validade reside em ser uma prática da interpretação, e sua fraqueza no vocabulário mecanicista com o qual o fundador a revestiu” (MEZAN, 2002, p. 487).

Com o advento do “novo espírito científico”, inaugurado com a emergência da Teoria da relatividade de Einstein, até mesmo as ciências naturais não se representam atualmente nos moldes da ciência do século XIX, pois a sintaxe do infinitamente pequeno não mais responde aos paradigmas do empírico enquanto dado observável.

Mezan salienta que a divisão entre ciências naturais e ciências humanas reside hoje na diferença entre o método experimental e os métodos não experimentais:

O método experimental convém a objetos nos quais a singularidade é irrelevante – o fato de se tratar deste ou daquele nada significa perante o fato de ser um exemplar da categoria. Já as ciências humanas têm de levar em conta a singularidade do seu objeto, que coexiste de modo inextrincável com a dimensão supra-singular que o método também quer alcançar. Nesse sentido, o emprego do método clínico – que não é um método experimental

– obriga-nos a situar a psicanálise do lado das ciências humanas, e isso sem

tenham perdido a sua validade. Simplesmente não é mais possível utilizar o

termo empírico como equivalente a ‘da natureza’, como parecia evidente a

Freud no contexto em que elaborava suas reflexões (MEZAN, 1980, p. 486).

Quando nos debruçamos sobre o que é de fato o raciocínio analítico, percebemos a sua sutileza e o entrelaçamento que ele opera entre níveis diferentes, envolvendo os aspectos singulares, particulares e universais do objeto a ser investigado. O pressuposto da racionalidade analítica é que todos os acontecimentos e todas as manifestações psíquicas se correspondem e se articulam, formando uma trama que se particulariza em cada um de nós. Vimos a ilustração desta trama no processo de sobredeterminação dos sonhos, em que uma mesma imagem onírica é carregada de múltiplos sentidos. Ao nos dedicarmos à construção do objeto ‘corpo’ dentro deste quadro de coordenadas conceituais, percebemos que o movimento de aproximação ao objeto envolve o tecer de uma teia, cada vez mais espessa entre o observador e o observado, que é construído.

Voltando à nossa preocupação inicial, que é a de esclarecer sobre a direção da pesquisa psicanalítica hoje, entendemos que esta direção se encontra na utilização do método da psicanálise, cujo objetivo é a investigação do psiquismo que é sempre supra-individual, embora apresente um modo específico de inerência do universal no singular.

Desta forma, entendemos que a Psicanálise como método lida com o funcionamento psíquico do ser humano tanto na sua singularidade, a ser captada no âmbito da terapia (no

setting analítico), quanto nos seus aspectos sociais mais amplos, com a utilização do método,

não necessariamente à situação clínica tradicional, mas aos fenômenos sociais e culturais, que se revelam na psique embrenhada no mundo, na leitura do inconsciente, encarnado na vida cultural.

Em nossa incursão inicial sobre a noção de corpo em Freud, nos limites da primeira tópica freudiana, período compreendido entre 1893 e 1905, quando buscamos destacar as noções de corpo erógeno e corpo pulsional, encontramos três vigas de sustentação do edifício da psicanálise em nosso canteiro de obras: o inconsciente, a sexualidade e a repressão. A matéria prima da constituição do psiquismo é sexual e nasce com o primeiro desejo.

A constituição do aparelho psíquico e do corpo, enquanto psicossexual, é resultado de um longo processo de representação da realidade, o qual se desdobra em duas faces: um nível de representação manifesta e aparente, acessível à percepção consciente; e um nível de representação reprimida, latente e inconsciente, não diretamente perceptível. Este é o modo de apresentação do aparelho psíquico - a dupla face da representação - , que produz uma

linguagem metafórica, expressão do inconsciente, cujo método de interpretação coube à psicanálise construir.

A decifração desta comunicação metafórica aproxima a psicanálise da arte, pois que cultiva a abertura para uma sensibilidade, na apreensão dos fenômenos humanos, e que muitas vezes pode ser observada em uma poética ou linguagem dos poetas:

Procura da poesia

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma

Tem mil faces secretas sob a face neutra E te pergunta, sem interesse pela resposta, Pobre ou terrível, que lhe deres.

Trouxeste a chave? (ANDRADE, 2008, p. 249)

Podemos também acompanhar com Mezan (2001), um outro modo de dizer sobre a comunicação inconsciente:

Com efeito, o símbolo unifica o sexual e o inconsciente por meio da repressão: é no mesmo movimento que ele institui e afasta de si o seu sentido. O sexual lhe fornece a matéria prima, as semelhanças de forma e de função o geram como símbolo e seu enigma consiste precisamente na dupla face da repressão: como violência e como fracasso. [...] O que é inconsciente no símbolo é o seu sentido; mas ao mesmo tempo este sentido é incessantemente pronunciado, pelo fato mesmo da inocência do seu invólucro. [...] Ou seja, a ambiguidade da linguagem serve como veículo de manifestação do inconsciente, em todas as suas gradações (MEZAN, 2001, p. 110-111).

O método psicanalítico nos mostra sua utilidade como chave para adentrarmos nos meandros da comunicação inconsciente. Com esta chave, podemos decifrar palavras, sonhos, sintomas, imagens, enfim, os produtos simbólicos humanos; com esta chave nos é permitido conceber as palavras na inocência neutra do seu invólucro aparente e no seu sentido inconsciente.

Herrmann (1999), em seu livro “A psique e o eu”, dedica um capítulo especial para discutir a cientificidade da psicanálise, sob o título ‘Psicanálise, ciência e ficção’, no qual defende os direitos de ficção dentro da psicanálise. O autor assim se expressa sobre o que entende por ficção:

Vamos deixar clara a ideia: ficcional não significa falso, nem mesmo cientificamente menor, mas inserido num tipo de verdade peculiar à literatura, que é em geral mais apropriada para a compreensão do homem que a própria ciência regular. Ficção é uma hipótese que se deixou frutificar até as últimas consequências; antes de decidir sobre sua validade, é um instrumento poderoso de descoberta (HERRMANN, 1999, p. 18).

Para este autor, os casos clínicos de Freud inscrevem-se na ordem do saber literário, ficção antropológica freudiana. Na psicanálise, “instala-se um modo mito-poético de pensar, pois saltamos da fisiologia para a lógica emocional e desta para os símbolos culturais e à vida social, onde não estamos sempre certos sobre onde termina a teoria e começa o mito” (HERRMANN, 1999, p. 110).

O autor realiza uma interpretação da psicanálise que concebe o inconsciente como sendo o nosso mundo, o real psíquico que é a realidade tal qual o homem a representa. A psique é o inconsciente, estrutura produtora de sentidos que está recoberta por uma superfície representacional. É nela que devemos procurar o homem, o qual é o conjunto de suas representações (HERRMANN, 2006).

Sendo assim, as regras do inconsciente geram o sujeito e o mundo enquanto sentido, ou seja, a representação representa o mundo e o próprio homem. Esta é a teoria implícita do real, contida na psicanálise freudiana, o realismo fantástico, que concebe a realidade como representação, efeito dos sentidos inconscientes encarnados na vida cultural. Neste autor encontramos a definição de psicanálise que a aproxima da arte: “a nossa é uma ciência poética, muito provavelmente, que se funda no fato de que talvez um verso de Camões exprima uma verdade tão forte e universal quanto a observação empírica a respeito da reprodução sexuada dos mamíferos” (HERRMANN, 1999, p. 110).

Com efeito, este autor faz um convite para usarmos a psicanálise criativamente:

[...] a Psicanálise reúne disparidades e rompe coerências estabelecidas para fazer com que brotem formas novas de compreensão e novos recortes significativos no mundo humano. Em relação às ciências do homem, a Psicanálise é, portanto, um instrumento de experimentação epistemológica, pelo menos tanto quanto de cálculo do ser. Tal jogo heurístico às vezes abre uma região fértil para o pensamento alheio; outras vezes dá em nada. Este, o risco inevitável (HERRMANN, 2001, p. 251).

Este modo de obter conhecimento sobre o homem e seu mundo é fruto do emprego do método psicanalítico, não apenas como hermenêutica, como foi enfatizado em outros autores, mas também como heurística ou descoberta, aspecto que será melhor esclarecido

adiante, quando nos dedicaremos ao uso do método psicanalítico, a partir da interpretação que dele faz Fábio Herrmann.

Benzer Belgeler