V. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.2. Öneriler
O corpo da protagonista do romance Santa Evita dialoga com muitas das concepções antigas, clássicas e modernas sobre o corpo e, sobretudo, com a noção de corpo, vivo ou morto, que surgiu na evolução do catolicismo desde a Idade Média até o presente. Mais adiante,
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aprofundaremos essas questões, por ora, cabe mencionar que, na obra de Martínez, Eva Perón se torna uma imagem a ser imitada dentro e fora da Argentina. Ela rege a moda para muitas mulheres, em especial para as esposas dos oligarcas argentinos. O processo desse corpo que suscita a admiração ocorre também, segundo o romance Santa Evita, com o corpo embalsamado da protagonista, já que ele se apresenta como um corpo atraente para o olhar e para o desejo sexual, tanto assim que vários dos personagens do romance se apaixonam pelo cadáver.
Esse é um dos aspectos mais importantes desenvolvidos em Santa Evita e diz respeito ao tratamento dado ao corpo morto em seu processo de embalsamamento e também às significações religiosas e profanas desse corpo insepulto que perambula de um lado a outro aparentemente em perfeito estado de conservação, como o corpo dos santos. De acordo com o romance, o corpo da protagonista foi mandado embalsamar para ficar imortal na memória dos argentinos, para que ela não fosse esquecida e para que esse corpo, ainda intacto, servisse como uma representação da persistência do peronismo para as novas gerações.
O corpo vivo parece representar a tentativa de implementar, ainda na década de quarenta (1940), uma revolução popular por meio da justiça social; o corpo morto visto por esse mesmo povo transforma-se em símbolo do retorno. O povo acredita que Eva Perón voltará convertida em Santa Protetora e continuará com seus propósitos políticos. O corpo morto parece negar a morte e Santa Evita, ressuscitada, voltaria para ajudar ainda mais os necessitados.
Do intenso diálogo que ocorre no romance de Martínez entre os inúmeros significados do corpo morto e o corpo de Evita, queremos destacar a questão do cheiro do corpo embalsamado de Evita. O corpo sem vida dos santos emitiria um perfume agradável; o corpo da Evita da ficção, também. Porém, essa fragrância, se por um lado nos leva ao processo de santificação de Eva, por outro nos leva também ao corpo feminino como reduto de sedução. Esse corpo, mesmo morto, continua atraindo os homens e, muito especialmente, aqueles que tinham a missão de guardar o corpo. O corpo de Evita parece assim não aceitar o destino, anônimo e escuro, que os militares lhe impunham. De sua natureza sedutora, vinculada à questão do corpo que vaga sem sepultura, teria nascido, para Martínez, a crença numa maldição contra as pessoas que ficavam perto dele, ou as que tinham como missão guardá-lo.
Embora o embalsamento visasse, de acordo com o romance, tornar o corpo de Evita uma relíquia santa, livre de corrupção e envelhecimento, e, desse modo, fixá-lo na memória do povo argentino, sua beleza e seu poder de sedução tornam esse mesmo corpo, para as oligarquias argentinas, algo monstruoso, símbolo de um malefício diabólico, como a ameaça do fim da existência dessa classe na sociedade; com a ideia de monstruosidade aparece o duplo sentido desse corpo. Salvador e santificado, para os pobres, para as oligarquias, enfeitiça e
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destrói: santo e monstro. Evita, para as oligarquias, é uma presença surgida do nada, uma exposição imprevista, uma perturbação perceptiva intensa que se nega a morrer. Enquanto viva, seu corpo e suas ações são monstruosos para essas pessoas; morta, seu corpo embalsamado simula a monstruosidade através da representação simbólica de batalha ganha contra a morte, batalha que poderia ser a motivação de luta armada para as classes sociais menos favorecidas. Se, viva, Eva é uma guerreira nascida sob o signo de Touro, morta, seu poder só aumenta.
Tauro: la humedad triunfa sobre la sequedad, la tierra sobre el fuego. El eje de su cuerpo pasa por el estómago. La nota musical que corresponde a su eternidad es Mi. El dedo con el que señala su destino es el índice. Haciaelrío, haciael este, repitió.8 (MARTÍNEZ, 1995, p.
178).
Segundo Richard Sennett (1994, p. 128), uma nova sociedade ou “ordem política” que enaltece genericamente “o corpo” corre o risco de negar as necessidades dos que não se ajustam a esse paradigma. Assim, Evita tinha um corpo político e um corpo com poder social que foram usados como meios necessários para cumprir alguns propósitos, construções que estudaremos à frente. Ainda conforme Sennett (1994, p. 132), “[...] o Estado é um corpo formado por: governante que funciona como cérebro; os conselheiros como o coração; os comerciantes como o estômago da sociedade; os soldados como as mãos; os camponeses e os trabalhadores manuais como os pés”. Sendo assim, a ordem hierarquizada do corpo humano deveria servir de modelo para a construção da nação: as cidades com suas construções e movimentos deve proteger e orientar os corpos dos cidadãos singulares e conduzir a presença do corpo político.
Nesse corpo político, Eva ocupa um lugar destacado. As práticas mortuárias que, de certa forma, perpetuam a vida nesse corpo, tornam-se, portanto, práticas que perpetuariam, também, o poder dessa personagem. Ela tem poder, parece viva e seduz seus inimigos. Talvez, por isso, Tomás Eloy Martínez, adepto do peronismo, deseje enfatizar para seus leitores a permanência desse pensamento encarnado no corpo, ora vivo, ora morto, de Eva Perón.
8 Traduçao: Touro: O triunfo da umidade sobre a secura, da terra sobre o fogo. O eixo de seu corpo passa pelo estômago. A nota musical que corresponde a sua eternidade é mi. O dedo com que assinala seu destino é o indicador. Para o rio, para o leste, repetiu. (MARTÍNEZ, 1997, p. 154)
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