6. SONUÇ VE ÖNERİLER
6.2. Öneriler
Assim como ocorre nos demais poemas analisados no presente trabalho, um símile do qual a figura feminina participa se apresenta na primeira estrofe. Neste caso, trata-se do símile “mulher-casa”, testado ao longo das demais estrofes. Novamente o eu-poético se volta à mulher; desta vez, põe em pauta sua sedução, descrevendo-a e explicitando o efeito que causa sobre o homem. Tão familiar ao enunciador é a atração que “esse homem” sente pela mulher-casa e dita de modo tão peculiar e sensorial que, de fato, parece que se está diante de um eu-poético masculino seduzido. Portanto, o poema é exemplar do caráter masculino da enunciação dos poemas que tratam do feminino em Quaderna.
Os dois primeiros versos trazem a proposição inicial: “Tua sedução é menos / de mulher do que de casa”. Ao final do segundo verso, há dois pontos, que introduzem a justificativa inicial e sintética “pois vem de como é por dentro / ou por detrás da fachada”. Para o eu-poético, a sedução despertada pela figura feminina é tão fortemente associada à sedução de uma casa que, de algum modo, representa um atributo pertencente mais à casa que à própria mulher comumente percebida. Já nesse início, tem-se uma amostra da dimensão da subversão poética proposta por João Cabral. Longe de restringir-se ao nível sintático, a intervenção poética se dá no processo corrente de significação e inicia-se com o deslocamento da característica feminina para o objeto casa.
Esse processo de transferência de sentido se dá de maneira que da “sua sedução”, que é a sedução exercida pela figura feminina a que o eu-poético se dirige, são retiradas as características da sedução “de mulher” e acrescentadas as da sedução “de casa”. Portanto, o poema trata, a princípio, da sedução, figurativizada por determinada mulher, que uma casa exerce sobre um
homem. Assim, fica evidente que o poeta recusa o que se toma usualmente por sedução feminina na busca da construção do que é, para ele, essa tal sedução. Ou seja, está claro que ambas as formas de sedução divergem entre si.
É possível, então, remeter a sedução feminina diminuída no poema não apenas à sedução “comum”, mas, sobretudo, à sedução da mulher que figura na poesia lírica tradicional. Esta está associada ao poder e dom de gerar a vida de um ser intocável, rodeado de uma aura de mistério e idealização, indissociável dos sentimentos e emoções do eu-poético, como se sua existência apenas fizesse sentido pelo fato de ser por ele amada. Uma sedução que permanece, muitas vezes, no plano ideal, como atração pelo desconhecido e até mesmo pela sentimentalidade inspirada por tal figura. Essa, definitivamente, não é a sedução que está em pauta em “A mulher e a casa”. Portanto, para o poeta é preferível comparar a sedução pela qual se interessa à de um objeto inusitado, cujas características divergem da figura feminina pintada pela tradição lírica.
Os dois próximos versos revelam a perspectiva que irá sustentar o símile “mulher-casa” ao longo do texto: o espaço interior. Constituem, desse modo, juntamente aos dois versos iniciais, a quadra-tese, portadora do conceito chave que se desdobra a cada verso que segue. O poema, como os demais sobre o feminino em Quaderna, é a transformação dessa ideia inicial e genérica da primeira quadra na especificidade e singularidade que alcança na quadra final. Entretanto, vale salientar que o caráter de generalidade do conceito fixado na primeira estrofe não o faz menos particular, em certo sentido, dado o seu traço um tanto excêntrico. Como já observado anteriormente, aproximar a mulher de objetos como “casa” está longe de constituir uma comparação corriqueira, ainda que - e principalmente - em poesia.
Se “Tua sedução / [...] vem de como é por dentro”, logo se identifica que, para o eu- poético, o que seduz o homem não é a aparência, a beleza externa da mulher, como costuma ocorrer na lírica tradicional. No plano da expressão, do mesmo modo, a recorrência das vogais, sobretudo “a”, implica uma sonoridade totalmente aberta a ecoar nos trinta e dois versos do poema, organizados em oito quadras. Essa articulação sonora expressa a clareza da dicção poética buscada e, especialmente, a abertura dos espaços, dada a primazia atribuída aos mencionados “espaços de dentro”.
É interessante pensar que, a princípio, poderia parecer mais conveniente que o poeta se valesse de uma sonoridade mais fechada para exprimir os espaços internos, considerando que esses, de certa forma, são sempre fechados. Contudo, no decorrer do texto, é possível constatar
que a sedução analisada “vem de como é por dentro”, de forma que a origem da sedução situa-se no espaço interno da mulher-casa, mas não se restringe a esse. Até porque, é a passagem de fora para dentro que torna possível que se usufrua de um ambiente interno, do mesmo modo que a tônica do poema, como se discute posteriormente, é o ato de adentrar.
Ainda no que se refere à expressão, trata-se de uma redondilha maior, com rima toante em /a/, o que atribui um som ritmado ao poema, evocando a reiteração obstinada que soa como uma espécie de transe, fundado e fortemente marcado em “Estudos para uma bailadora andaluza”. Esse transe exprime a igualmente obcecada, posto que constante e intensa, procura pelo esclarecimento pleno do símile, de que fala Secchin, e o consequente desnudamento do poema.
A organização das estrofes é também significativa, apresentando estilo dissertativo, como nos demais poemas analisados neste trabalho, com introdução, desenvolvimento e conclusão. Neste caso, porém, a velocidade, ou a intensidade da leitura - que aumenta como nos outros - pode ser observada no nível sintático. A primeira sentença, ou a tese, constitui a primeira estrofe; a segunda, as duas próximas estrofes e a terceira e última, a mais longa delas, as cinco demais estrofes. Quanto maior o número de versos para cada sentença, menos pontos ou pausas se fazem presentes, daí a aceleração do ritmo da leitura. Tal fenômeno, aliás, corrobora o supracitado efeito de transe. Embora haja a pausa do final dos versos e das estrofes e uma eficiente pontuação composta por vírgulas, ponto e vírgulas e dois pontos, o fato de não haver o ponto final, mas um contínuo ininterrupto, instaura o sentido de uma busca obstinada para se chegar ao fim, tanto no sentido de encerramento como de objetivo.
Mais uma vez se tem a expressão do movimento do poema, ou seja, cada elemento representante do plano da expressão conduz o plano do conteúdo à abertura e à aceleração de seu movimento até chegar ao auge final, em que se atinge, entre outros aspectos, o desnudamento pleno do símile, a total coerência da conclusão e o ápice do efeito de sentido erótico.