5. SONUÇ ve ÖNERİLER
5.2. Öneriler
A capacidade de compreensão de um fato e/ou fenômeno é potencializada se houver uma associação entre quem fala e aquilo do que se fala. O Semiárido abordado nesta pesquisa é hibrido, plasmado, cuja inteireza revela um pouco de mítico, de pobreza, de riqueza, de seca, de múltiplas culturas e de resistências (e por que não dizer existências), tudo isso sublimado pelas contradições dos processos histórico-geográficos que, ainda hoje, colocam em questão a eficiência e eficácia da técnica, da tecnologia e da política, no tocante à solução dos problemas causados pelas secas.
O Semiárido das secas (amargo para os camponeses caatingueiros17) logo se transmutaria em Semiárido do agrohidronegócio (fértil e provedor para as personas do capital), revelando um imbricado e complexo processo de existência conflituosa entre mundos-sujeitos, numa terra onde “secas” e “chuvas” são manipuladas para atender aos
17 Entende-se por camponês caatingueiro os sujeitos que vivem no campo, na região semiárida,
compreendendo os barranqueiros, geraizeiros, pescadores e os que vivem em áreas distantes dos rios, com pouca ou sem terra, sendo caracterizados por práticas socioculturais distintas, porém hibridizados e amalgamados pelas tramas espaciais intrincadas na própria dinâmica do “ser” camponês.
interesses das elites (locais, regionais, nacionais e agora também internacionais). Mais ásperas que a paisagem adusta do Semiárido têm sido as ações voltadas a atender às demandas do capital em sua ação expansionista, com aporte de grandes investimentos públicos em obras de infraestrutura, como produtos de nefastas articulações políticas, ao passo que as populações sertanejas ficam à mercê das medidas assistencialistas ainda hoje “necessárias” ao enfrentamento das mazelas sociais existentes (e resistentes) no Semiárido.
Eleger o Semiárido como cenário desta pesquisa não foi algo acidental. Trata-se de uma decisão eivada de sentido político e também cultural, porque os desígnios da seca são tão marcantes no Sertão que assumem uma materialidade na paisagem e espaço, nos discursos e nas representações socioculturais. Nesse sentido, viver no Semiárido foi preponderante para a escolha do tema e do território a serem analisados e desvendados a partir do instrumental do materialismo histórico-geográfico, pois, como destaca Harvey (2011, p. 115), “nossa única escolha é ser ou não consciente de como nossas intervenções atuam e estar pronto a mudar de rumo rapidamente quando as condições se colocarem ou quando as consequências não intencionais se tornarem mais aparentes”.
Considerando a regionalização baseada no rio São Francisco, os municípios localizados próximos ao seu curso estão divididos em: Alto São Francisco, Médio São Francisco e Baixo São Francisco. Para a referida pesquisa escolhemos como recorte espacial (Mapa 1) as regiões do Médio São Francisco (sendo analisados os municípios de Itaguaçu da Bahia e Xique-Xique) e o Submédio São Francisco (cujo foco de análise foi o município de Juazeiro) por razões muito específicas, a saber: a) constituem duas regiões de expansão do agrohidronegócio no Semiárido baiano, e no Médio São Francisco esse fenômeno começa a se estruturar, ao passo que no Submédio São Francisco já apresenta-se consolidado; b) nas referidas regiões temos a atuação marcante por parte do Estado, através da implantação de grandes projetos de irrigação; c) nelas há a ocorrência de conflitos por terra e água relacionados à implantação dos perímetros irrigados; d) estão localizadas no Semiárido baiano.
O vale do São Francisco tornou-se bastante atrativo para o grande capital ao longo das últimas quatro décadas, visto que a associação entre condições edafoclimáticas favoráveis e a pisponibilidade de infraestrutura proporcionada pelo Estado, garantem retorno financeiro aos investimentos realizados pelo setor privado, principalmente nos perímetros irrigados, promovendo uma expansão considerável
Partindo dessa premissa, a escolha do Semiárido como espaço a ser analisado deu-se em função das experiências vivenciadas por este pesquisador que, desde o curso de Mestrado18, propôs-se a pensar e a analisar as singularidades dessa região a partir dos efeitos da modernização da agricultura, devido à implantação dos projetos de irrigação e à territorialização do grande capital no campo, através da fruticultura irrigada no Perímetro Irrigado do Rio Brumado, no município de Livramento de Nossa Senhora (BA). Desse modo, a construção teórica da presente tese emana do mundo vivenciado pelo pesquisador, o lugar de onde advêm suas experiências cotidianas e com o qual se tem laços de afetividade. Há, portanto, uma fusão entre os espaços analisados nesta pesquisa e a vida do pesquisador, aspecto que, a nosso ver, facilita adentrar o cotidiano dos camponeses caatingueiros, visualizar os conflitos e interpretá-los a partir do real. Sobre essa relação entre o pesquisador e a pesquisa, Oliveira (1998) ressalta que
[...] promover a consonância entre pesquisa e biografia é altamente estimulante, pois atribui vida ao estudo, retirando da produção intelectual poeiras de artificialismo, que recobrem parte da pesquisa acadêmica ou, senão isso, que acabam contribuindo para a representação social da universidade como redoma, imagem que ainda encontra ressonância no conjunto da sociedade.(OLIVEIRA, 1998, p. 19).
Ainda sobre essa escolha, concordamos com Castro (2008, p. 295) quando faz a seguinte afirmação:
A Região Nordeste é um caso importante para investigação, seja pelo descompasso que ela apresenta quando comparada com outras regiões do país ou com a média nacional, seja pelo uso político da aparência das causas da diferenciação, aceitas pelo senso comum, seja pela ressonância que os políticos regionais obtêm no cenário nacional.
Diante disso, o pesquisador torna-se uma espécie de artesão intelectual que vai lapidando a construção do conhecimento mediante a incorporação das experiências vividas, sem, contudo, ceder às verdades cristalizadas. Ainda sobre a motivação que o levou à realização da pesquisa, buscou-se respaldo em Oliveira (2008, p. 125) quando esse revela sua paixão pela investigação ao dizer: “[...] não indaguei, pois, do surgimento da paixão: apaixonei-me apenas; e entrei na corrente, deixei o barco correr.” A escolha pelo Semiárido baiano, mais especificamente o vale do rio São Francisco, não
18 No ano de 2009 foi iniciado o curso de Mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás –
Campus Catalão, sob a orientação da professora Doutora Helena Angélica de Mesquita, cujo título é “Modernização da agricultura: expropriação camponesa e precarização do trabalho no agronegócio da manga em Livramento de Nossa Senhora (BA)”.
representa apenas uma ampliação da área de pesquisa iniciada durante o Curso de Mestrado. Significa uma tentativa mais ousada com o intuito de trazer para o debate a realidade vivenciada por milhões de sertanejos nordestinos que ainda hoje perecem “vítimas de um sistema de opressão e opróbrio” (OLIVEIRA, 2008, p. 130), visto que o desenvolvimento das forças produtivas não tem representado a emancipação desses sujeitos cuja função dentro da engrenagem do grande capital se resume a favorecer a sua reprodução ampliada.
Interessa analisar, no âmbito desta pesquisa, a expansão do agrohidronegócio e as disputas territoriais no Semiárido baiano a partir dos projetos públicos de irrigação, ainda que, não obstante, se tenha a compreensão de que esse fenômeno esteja associado, em um ou outro momento, à expansão da mineração, de parques eólicos, à construção de ferrovias e à produção de agrocombustíveis na região. Estas ações integram o planejamento do projeto desenvolvimentista, pensado e executado para favorecer a reprodução do capital e a consolidação da estrutura de dominação vigente.
Se, no limiar do século XXI, o Nordeste semiárido tem presenciado a territorialização do grande capital, acreditamos que “[...] não se pode reconhecer nenhum papel civilizatório para o grande capital no Nordeste; ali, como em outras partes do Brasil, é ele a opressão, o obscurantismo, a negação do futuro” (OLIVEIRA, 2008, p. 131). Nesse contexto, colocamos em questão a validade dos projetos desenvolvimentistas, bem como a racionalidade economicista utilizada para fundamentar as ações do Estado, pautadas na perspectiva da modernização do território, desconsiderando as alternativas emanadas da organização social, com base no respeito aos limites da capacidade dos ecossistemas que compõem o bioma Caatinga e à valorização das bases imateriais “[...] da cultura e dos valores identitários associados aos territórios de vida e trabalho” (CARVALHO, 2012, p. 26).
Do Nordeste algodoeiro-pecuário (OLIVEIRA, 2008) ao Nordeste dos perímetros irrigados, vê-se o surgimento de novas configurações, sendo notória a articulação Estado-capital, cujo fio lógico é a implementação de megaprojetos, criando novos circuitos de produção e apropriação do valor gerado pela mercadoria “água”. O binômio terra-água protagoniza a reinvenção ideológica do “novo Nordeste”, fortemente marcado pelos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como é o caso dos projetos de irrigação Baixio do Irecê e Salitre, numa clara imposição de modelo produtivo para essa região. O encurralamento das populações camponesas constitui-se uma forma de externalização dos custos de um intenso e acelerado processo
de privatização da terra e do uso da água, sem que haja a possibilidade de debate e escolha sobre qual modelo de desenvolvimento atende às demandas dos sujeitos que vivem nesse território. Por outro lado, cabe destacar que não há mais uma clara distinção entre o Nordeste semiárido e o Nordeste litorâneo, no que tange ao projeto de superação das disparidades regionais, por entender que há uma convergência do capital financeiro19, através da expansão da silvicultura no sul da Bahia, da fruticultura irrigada e da cana-de-açúcar nas áreas de caatinga, mediada pela apropriação da água, cuja racionalidade acaba por diluir o discurso da seca, revelando assim a contradição no seio do próprio processo de expansão do capital, em terras semiáridas do Nordeste brasileiro.
A partir da década de 1960, houve nos estados do Nordeste a criação de diversos perímetros irrigados pela CODEVASF (Quadro 1) e pelo DNOCS (Quadro 2), como medida para minimizar as disparidades regionais a partir da criação de infraestrutura de irrigação e geração de energia elétrica, com fortes impactos socioeconômicos para o campo, por representar as bases para a agricultura moderna na região. Atualmente as ações da CODEVASF estão concentradas nos sete polos de desenvolvimento: Norte de Minas, Guanambi, Formoso/Correntina, Barreiras, Irecê, Juazeiro/Petrolina e Baixo São Francisco. A política de desenvolvimento regional pensada para o Nordeste semiárido ainda tem, nos perímetros irrigados (Mapa 2), um dos pilares para a atuação do Estado no que diz respeito à geração de emprego, renda e garantia da segurança hídrica.
O projeto de “Integração” do rio São Francisco20, a implantação do Projeto Baixio de Irecê e o Projeto Salitre foram contemplados com recursos do PAC, obras ainda inacabadas. Trata-se de obras voltadas para o incremento da produção de etanol, cana-de-açúcar e fruticultura, com vistas a atender às demandas de consumo tanto interno (principalmente o Centro-Sul do país) quanto para exportação.
19 Fusão de capital industrial com capital bancário.
20 Segundo informações do Ministério da Integração Nacional, o Projeto de Integração do rio São
Francisco, além de gerar empregos e promover a inclusão social, irá garantir a segurança hídrica em 390 cidades localizadas nos estados da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, totalizando 12 milhões de pessoas.
Ao analisar o mapa 2 verifica-se que os perímetros irrigados estão concentrados, em sua maioria, nos estados da Bahia (porção norte do estado), Pernambuco e Ceará, com destaque para os polós Juazeiro/Petrolina (BA/PE), Tabuleiro de Russas21 e Jaguaribe/Apodi (CE)22 e Baixo-Açú (RN)23. Os perímetros irrigados constituem verdadeiras “manchas verdes” para onde convergem empresas do setor alimentício (Del Monte Fresh Produce, por exemplo), de insumos e de máquinas. Essas regiões são, atualmente, as maiores produtoras de manga, uva, banana do país. Os investimentos feitos na região acabaram promovendo a modernização do território, levando o Semiárido a adquirir importância singular no cenário nacional no tocante à produção frutícola, principalmente manga, uva e banana. Em função desses investimentosem construção de canais de irrigação, perímetros irrigados e barragens:
[…] novos conteúdos e impõe novos comportamentos graças às enormes possibilidades de produção e sobretudo da circulação dos insumos, dos produtos, do dinheiro, das idéias e informações, das ordens e dos homens. É a irradiação do meio técnico-científico- informacional que se instala sobre o território, em áreas contínuas no Sudeste e Sul ou constituindo manchas e pontos no resto do país (SANTOS e SILVEIRA, 2001, p.52).
Assim, em função da execução dos programas e projetos estatais, os vales dos rios São Francisco, Parnaíba e Jaguaribe tiveram suas paisagens transformadas pela geometria dos canais de irrigação, da açudagem e dos perímetros irrigados, cujos territórios representam a delimitação entre o “moderno” e o “arcaico”, bem como a divisão do Semiárido entre o DNOCS e CODEVASF. Vale destacar que, inicialmente, a atuação do DNOCS estava direcionada para o incentivoda agricultura familiar ao passo quea CODEVASF sempre esteve direcionada ao incentivodo agronegócio. Os perímetros irrigados representam um reesenho do Semiárido, cuja espacialização expressa linhas de tensão entre sujeitos e modelos de ocupação e usos distintos do território. A atuação da CODEVASF dé-se, de forma mais expressiva, nos estados da Bahia, Pernambuco e Minas Gerais (Quadro 1), sendo responsável por dotar o território de condições favoráveis para a territorialização do agrohidronegócio.
21 O Perímetro Irrigado Tabuleiros de Russas está localizado nos municípios de Russas, Limoeiro do
Norte e Morada Nova, especificamente no baixo vale do Jaguaribe, conhecido como zona de Transição Norte dos Tabuleiros de Russas.
22 A Chapada do Apodi compreende uma área de 2.421,8 km², englobando terrenos dos municípios de
Aracati, Jaguaruana, Quixeré, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Alto Santo e Potiretama (COSTA, 2009).
23 O Perímetro Irrigado Baixo-Açu esta situado nos municípios de Ipanguaçu, Alto do Rodrigues e
Quadro 1 - Projetos de irrigação sob a gestão da CODEVASF – 2014
Projeto Extensão (ha) Situação Localização
Gorutuba 4.734 Em produção Minas Gerais
Jaíba 107 Em produção Minas Gerais
Lagoa Grande 1.538 Em implantação Minas Gerais
Pirapora 1.236 Em produção Minas Gerais
Lagoa Grande 1.538 Em produção Minas Gerais Baixio do Irecê 59.375 Em implantação Bahia
Salitre 31.305 Em produção Bahia
Barreiras do Norte 1.652 Em produção Bahia
Ceraíma 408 Em produção Bahia
Curaçá 4.203 Em produção Bahia
Estreito I/III 5.884 Em produção Bahia
Mandacaru 420 Em produção Bahia
Maniçoba 4.160 Em produção Bahia
Mirorós 2.159 Em produção Bahia
Nupeba/Riacho Grande 2.853 Em produção Bahia Piloto Formoso 408 Em produção Bahia Formoso A/H 11.751 Em produção Bahia SãoDesidério/Barreiras Sul 1.718 Em produção Bahia
Tourão 14.237 Em produção Bahia
Estreito 5.844 Emprodução Bahia
Ceraíma 2.430 Em produção Bahia
Projeto Marituba 4.200 Em implantação Alagoas
Itiúba 900 Em produção Alagoas
Boacica 2.762 Em produção Alagoas
Cotiguiba/Pindoba 2.232 Em produção Sergipe Projeto Jacaré Curituba 3.105 Em implantação Sergipe
Betume 2.860 Em produção Sergipe
Propriá 1.177 Em produção Sergipe
Senador Nilo Coelho 18.563 Em produção Pernambuco
Total (ha) 203.894
Fonte: CODEVASF, 2012. Org.: DOURADO, 2014.
Os perímetros irrigados Sertão Pernambucano (33.000ha), localizado na Bahia e em Pernambuco e o Canal do Xingó (16.550ha), localizado nos estados da Bahia e de Sergipe, estão em fase de estudo. Outros dois estão em fase de elaboração dos projetos: Jequitaí (34.605ha), em Minas Gerais e Vale do Iuiú (88.306ha), na Bahia. No tocante ao DNOCS (Quadro 2), sua atuação vem reduzindo significativamente na última década, fato verificado pelo número de projetos em fase de implantação.
Quadro 2 - Projetos de irrigação sob a gestão do DNOCS – 2014
Projeto Área (ha) Situação Localização
Brumado 7.821 Em produção Bahia
Jacurici 1.100 Em produção Bahia
Vaza Barris 11.677 Em produção Bahia Araras Norte 6.407 Em produção Ceará Ayres de Souza 8.942 Em produção Ceará Baixo Acaraú 12.407 Em produção Ceará Curu-Paraipaba 12.347 Em produção Ceará Curu-Pentecoste 5.016 Em produção Ceará
Ema 352 Em produção Ceará
Forquilha 3.327 Em produção Ceará
Icó-Lima Campos 10.583 Em produção Ceará Jaguaribe-Apodi 13.229 Em produção Ceará
Jaguaruana 343 Em produção Ceará
Morada Nova 11.025 Em produção Ceará
Quixabinha 530 Em produção Ceará
Tabuleiros de Russas 18.915 Em produção Ceará Várzea do Boi 12.878 Em produção Ceará Engenheiro Arcoverde 920 Em produção Paraíba São Gonçalo 5.548 Em produção Paraíba
Sumé 837 Em produção Paraíba
Boa Vista 249 Em produção Pernambuco Cachoeira II 378 Em produção Pernambuco Custódia 1.341 Em produção Pernambuco
Moxotó 12.395 Em produção Pernambuco
Caldeirão 1.543 Em produção Piauí
Fidalgo 5.444 Em produção Piauí
Gurguéia 13.533 Em produção Piauí Lagoas do Piauí 6.689 Em produção Piauí Platôs de Guadalupe 16.879 Em produção Piauí Tabuleiros Litorâneos do Piauí 9.033 Em produção Piauí
Baixo-Açu 6.000 Em produção Rio G. do Norte Cruzeta 506 Em produção Rio G. do Norte
Itans 247 Em produção Rio G. do Norte
Pau dos Ferros 2.265 Em produção Rio G. do Norte Sabugi 1.092 Em produção Rio G. do Norte
Total (ha) 221.798
Fonte: DNOCS, 2014. Org.: DOURADO, J. A. L.
Atualmente apenas o perímetro irrigado Santa Cruz do Apodi (4.024ha), no Maranhão, está em fase de implantação, sob a responsabilidade do DNOCS. Segundo informações disponibilizadas pelo Portal Brasil (2014) , os 26 perímetros irrigados em
fase de produção, sob a gerência da CODEVASF, alcançaram, em 2013, R$1,72 bilhão em valor bruto de produção (VBP), um crescimento real de 14% em relação a 2012, atingindo uma produção de 2,68 milhões de toneladas, principalmente de frutas, numa área total cultivada de 90,9 mil hectares. Ainda de acordo com o Portal Brasil (2014), o Polo Juazeiro/Petrolina exportou 59,86 mil toneladas de frutas em 2013, principalmente manga e uva.
A CODEVASF tem atuação expressiva no Semiárido nordestino, abrangendo a implantação de perímetros irrigados, obras relacionadas ao abastecimento de água (construção de adutoras, estações de bombeamento de água, etc.), manutenção de estradas vicinais e obras de saneamento básico em comunidades próximas aos perímetros irrigados. A espacialização dos perímetros irrigados revela a importância política das elites agrárias na Bahia e no Ceará, haja vista que estes empreendimentos destinados à segurança hídrica acabam atraindo investimentos financeiros e fomentando especulação imobiliária, bem como a valorização de terras, contribuindo para o aquecimento e a valorização do mercado de terras.
É inegável que a implantação dos perímetros irrigados no Semiárido nordestino tem ocasionado mudanças profundas na agricultura desenvolvida na região, a partir da década de 1980 e mais acentuadamente nos anos 2000, com destaque para o Polo Juazeiro/Petrolina (BA/PE), Jaguaribe-Apodi (CE), Tabuleiros de Russas (CE) e Baixo Açu (RN), cuja agricultura se encontra fortemente marcada pela produção de frutas (manga, melão e abacaxi, principalmente), além da produção de cana-de-açúcar pela empresa Agrovale no município de Juazeiro (BA). Essa modernização, tanto no que se refere às formas de uso e ocupação do solo bem como no âmbito da produção (sai de cena o valor de uso e ganha destaque o valor de troca), sob encomenda das ideologias desenvolvimentistas e a serviço do marketing do grande capital, vai reduzindo as possibilidades de reprodução das existências camponesas, deformando e descaracterizando-as a serviço de um modelo homogêneo para o campo. O fenômeno da modernização agrícola trouxe progressos tecnológicos e científicos para o Semiárido, introduziu culturas que, sem as alterações impetradas, seriam impossíveis de serem cultivadas bem como o grande capital, na forma de máquinas, agrotóxicos, sementes selecionadas (geneticamente modificadas), fertilizantes, monoculturas, produção industrial e intensificou o assalariamento no campo. Ao tratar das transformações recentes por que vem passando o Nordeste, Andrade (2005) observa a ocorrência de profundas transformações na fisionomia, ao passo que as estruturas de poder continuam
sólidas.
A Bahia, o Ceará e o Rio Grande do Norte destacam-se por apresentar uma dinâmica econômica centrada na fruticultura irrigada24. Isso revela a crescente integração do Nordeste semiárido ao circuito da economia urbana, mediada pela agricultura científica, tendo como desdobramentos novo patamar de relações entre cidade e campo, em função do sopro de modernização das forças produtivas no campo. As mudanças qualitativas e quantitativas decorrentes da modernização da agricultura fomentaram diversos desdobramentos, tornando o espaço rural “[...] culturalizado, tecnificado e cada vez mais trabalhado segundo os ditames da ciência” (SANTOS, 2012, p. 47), além de remodelarem totalmente determinadas cidades, como é o caso de Juazeiro, Barreiras na Bahia, Petrolina em Pernambuco, Russas no Ceará, definidas por Elias (2006) como “cidades do agronegócio”, devido às inovações tecnológicas e à dinâmica econômica adquiridas por elas após a territorialização do grande capital. Segundo Elias (2006, p. 209), o resultado foi
uma grande metamorfose e crescimento da economia urbana das cidades próximas às produções agropecuárias modernas, paralelamente ao desenvolvimento de um novo patamar de relações entre cidade e campo, que se pode vislumbrar através dos diferentes circuitos espaciais de produção e círculos de cooperação que se estabelecem entre esses dois espaços.
Ainda nessa perspectiva, Santos (2008a, p. 49) defende que a
difusão de modernizações é assim responsável por notáveis diferenças dentro de cada país, com a criação de pólos internos. A modernização sempre vai acompanhada por uma especialização de funções que é responsável por uma hierarquia funcional. Certamente, os pontos da