Tanto os princípios que embasaram as classtificações filosóficas dos saberes (quadro 19), quanto as próprias classificações dos saberes, das ciências (quadros 20 e 21), dividindo o conhecimento em disciplinas ou áreas de estudo, refletem a trajetória do pensamento filosófico e parecem indicar que a humanidade terá que enfrentar e resolver questões fundamentais, em diversas áreas do conhecimento (Astronomia, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Medicina, Antropologia, Genética entre outras) e sob diversos princípios nos próximos anos do século XXI: a respeito do homem (Como surgiu? Quais são seus antepassados? Qual o princípio unificador do gênero humano?) e de seus atributos: razão (Como funciona o cérebro?), linguagem (Qual é o mecanismo da comunicação humana?), psicologia (O inconsciente humano existe?), sociedade (Como conseguir a subsistência da sociedade no tempo?), política (Qual é o modelo de representação ideal?), espiritualidade (Qual é a essência do homem?), ética (Quais são os parâmetros que devem reger as ações humanas?), liberdade e privacidade (Como sobreviver mentalmente e garantir a individualidade num mundo de apelos, pressões e chantagens, automatizado e controlador?); e a respeito do universo (Como começou e quanto tempo durará? Existem outros modos de vida no universo?).
PERÍODO FILÓSOFO PRINCÍPIOS
Séc. IV a.C. Platão Tríplice divisão com base no platonismo: teoria das idéias e dos números (mente matemática); o Mito da Caverna como concepção de conhecimento; preocupação ética (política e estética) e discurso ou saber demonstrativo
- Princípio subjetivo: o fim a que as ciências se propõem
Séc. IV a.C. Aristóteles Tríplice divisão com base nas três operações a que se dedicam os homens: Pensar, Agir e Produzir - Princípio subjetivo: o homem e suas operações e o fim a que as ciências se propõem
Séc. VI Cassiodoro Trivium e Quatrivium (sete artes liberais) com base nas Palavras e nas Coisas - Princípio objetivo: a natureza
1266 R. Bacon Quádrupla divisão influenciada pelas classificações escolásticas (derivadas de Aristóteles) e pela divisão tríplice estóica e epicurista - Princípio objetivo: a natureza
1575 Huarte Tríplice divisão com base nas (três) faculdades humanas mobilizadas na aquisição de conhecimento: Memória, Razão, Imaginação (o entendimento humano é o princípio organizador da estrutura do conhecimento)
- Princípio subjetivo: o homem e suas capacidades
1605 F. Bacon Tríplice divisão com base nas (três) faculdades humanas mobilizadas na aquisição de conhecimento: Memória, Imaginação, Razão
(o entendimento humano é o princípio organizador da estrutura do conhecimento e a classificação é construída sobre asserções epistemológicas subjetivas e racionais que derivaram de uma visão de mundo que via o homem como o centro do universo)
- Princípio subjetivo: o homem e suas capacidades
1647 Descartes Tríplice divisão com base no grau de sabedoria ou clareza de idéias que o homem pode atingir em cada ciência (raiz, tronco, galhos) - Princípio subjetivo: o homem e suas capacidades
1651 Hobbes Classificação embasada no materialismo mecanicista
- Princípio objetivo: parte do conhecimento sensível ao abstrato, dos fatos concretos à teoria - Princípio subjetivo: sequência do natural ao civil
1690 Locke Classificação embasada no empirismo: a experiência como fonte de conhecimento que depois se desenvolve pelo esforço da razão - Suplanta o princípio das capacidades humanas e divide as ciências segundo seu objeto em reais e ideais
1701 Leibniz Classificação com base na Física Teórica aristotélica
- Princípio objetivo: classes aparecem como cânone das disciplinas do conhecimento
1751 Diderot e
d’Alembert
Tríplice divisão com base nas (três) faculdades humanas mobilizadas na aquisição de conhecimento: Memória, Razão, Imaginação (Classificação baconiana invertida: o entendimento humano é o princípio organizador da estrutura do conhecimento)
- Princípio subjetivo: o homem e suas capacidades
1817 Hegel Tríplice divisão, com base na Lógica Dialética. A classificação emana do espírito criador da natureza - Princípio subjetivo: a síntese dos opostos
1834 Ampère Classificação dicotômica embasada nos reinos da natureza e do espírito - Princípio subjetivo: a oposição
- Princípio objetivo: divide as ciências de acordo com a natureza do seu objeto em ciências da natureza e ciências do espírito 1842 Comte Tríplice divisão com base na classificação dos fenômenos e na ordem histórica da sua constituição e progressiva diferenciação
- Principio objetivo fundamental de coordenação: parte das ciências mais simples, fundamentais para as mais complexas e derivadas
1864 Spencer Tríplice divisão com base na classificação dos fenômenos
- Princípio objetivo fundamental de coordenação: parte das ciências abstratas para as concretas
1889 Wundt Classificação com base na distinção entre ciências formais e ciências reais. Como as ciências formais não têm objeto (são sistemas de asserções auxiliares sem objeto e sem conteúdo) essa classificação deixa intacta a unidade da ciência
- Princípio objetivo fundamental de coordenação: do abstrato ao concreto QUADRO 19- PRINCÍPIOS DAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SABERES
PERÍODO FILÓSOFO DIVISÃO DAS CIÊNCIAS
Século IV a.C. Platão
427-347 a.C.
Física Ética Lógica Século IV a.C. Aristóteles
384-322 a.C
Filosofia Teórica ou Especulativa: Teologia. Física. Matemática. Filosofia Prática: Ética. Economia. Política.
Filosofia Poiética ou Produtiva: Dialética. Retórica. Poética. Medicina. Ginástica. Gramática (aqui encontra-se a Filologia, em sua acepção mais geral, como destinada a estudar e perpetuar, através das manifestações linguísticas dos autores clássicos, o grego, pois, falado por pessoas incultas, acreditavam que tendia a corromper-se), Música.
Século VI Cassiodoro 485-580
Trivium: Ciências Sermoniais: Gramática (Filologia como um problema filosófico da origem da linguagem. Em Roma, a Gramática continua a integrar a Filosofia e os filólogos exercem a crítica literária). Dialética (Lógica). Retórica.
Quatrivium: Ciências Reais: Geometria. Aritmética. Astronomia. Música. Século XIII
(1266)
R. Bacon
1214-1294
Física: Ótica. Astronomia. Alquimia. Agricultura. Medicina. Ciências Experimentais. Filologia: Gramática. Lógica. Retórica.
Matemáticas: Aritmética. Geometria. Mecânica. Música. Arquitetura. Ética: Metafísica. Teologia. Moral.
Século XVI (1575)
Huarte
1529-1591
Artes e Ciências da Memória: História (História Natural. História Civil). Artes e Ciências da Razão: Filosofia.
Artes e Ciências da Imaginação: Poesia (Narrativa. Dramática. Parabólica). Século XVII
(1605)
F. Bacon
1561-1626
Ciências da Memória: História (História Natural. História Civil). Geografia. Ciências da Imaginação: Poesia (Narrativa. Dramática. Parabólica). Belas Artes. Ciências da Razão: Filosofia (Divina = Teologia. Natural. Humana). Matemática. Século XVII (1647) Descartes 1596-1650 Metafísica (Teologia) Física. (Matemáticas) Mecânica. Medicina. Moral Século XVII
(1651)
Hobbes
1588-1679
História História Natural. História Civil.
Filosofia Filosofia Natural. Filosofia Civil. Filosofia Mecânica (Filosofia Primeira. Matemáticas: Aritmética Geometria. Astronomia. Geografia).
Física Meteorologia. Astrologia. Mineralogia. Botânica. Zoologia. Ótica. Música. Poesia. Retórica. Lógica Ética. Estética. Política.
Século XVII (1690)
Locke
1632-1704
Ciências Reais: Naturais: Física. Filosofia Natural. Química. Teologia Natural. Biologia (Medicina). Metafísicas: Filosofia. Teologia.
Ciências Ideais: Práticas: Matemática, Ética ou Filosofia Prática (Artes Mecânicas. Belas Artes). Semióticas: Lógica. Linguística. Gênero de Vida (similar a Antropologia).
QUADRO 20 - DIVISÃO DAS CIÊNCIAS NAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SABERES
PERÍODO FILÓSOFO DIVISÃO DAS CIÊNCIAS
Século XVIII (1701)
Leibniz
1646-1716
Teologia. Jurisprudência. Medicina. Filosofia. Matemática. Física. Linguagem. História. Século XVIII (1751) Diderot 1713-1784 d’Alembert 1717-1783
História (Sagrada. Eclesiástica. Civil. Natural).
Filosofia (Metafísica Geral. Ciência de Deus. Ciência dos Homens. Ciência Natural). Poesia (Narrativa. Drama. Alegorias).
Século XIX (1817)
Hegel
1770-1831
Ciências do Absoluto: Ontologia. Teologia. Epistemologia. Ciências da Natureza: Mecânica. Física. Biologia.
Ciências do Espírito: Subjetivas: Psicologia. Objetivas: História. Absolutas: Arte, Religião, Filosofia (Direito. Ética). Século XIX
(1834)
Ampère
1775-1836
Ciências Cosmológicas: Ciências Matemáticas. Ciências Físicas. Ciências Naturais. Ciências Médicas.
Ciências Noológicas: Ciências Filosóficas. Ciências Nootécnias. Ciências Etnológicas. Ciências Políticas. Século XIX
(1842)
Comte
1798-1857
Ciências Abstratas Fundamentais: Matemática (Aritmética. Geometria. Álgebra). Astronomia (Geométrica. Mecânica) Física (Termologia. Acústica. Ótica. Eletrônica). Química (Orgânica. Inorgânica). Biologia (Fisiologia). Física Social (similar à Sociologia). Moral.
Ciências Concretas Derivadas: Engenharias. Mecânica. Geologia. Tecnologia. Medicina. Agricultura. Botânica. Zoologia. Antropologia. Sociologia. Direito. Economia. Política. História. Geografia humana. Arqueologia. Psicologia. Lógica. Estética. Cosmologia racional ou filosófica. Psicologia racional ou filosófica. Teologia racional ou filosófica.
Século XIX (1864)
Spencer
1820-1903
Ciências Abstratas: Lógica formal. Matemática. Ciências Abstrato-concretas: Mecânica. Física. Química.
Ciências Concretas: Astronomia. Mineralogia (Geologia). Biologia. Psicologia. Sociologia. Século XX
(1889)
Wundt
1832-1920
Ciências Formais: Lógica. Matemática.
Ciências Reais: Natureza: Fenomenológicas: Física. Química. Biologia. Genéticas: Cosmologia. Geologia.
Embriologia. Filogênese. Sistemáticas: Astronomia, Geografia, História Natural (Zool./Bot.). Espírito: Fenomenológicas: Psicologia. Genéticas: História. Sistemáticas: Direito. Economia. Política. QUADRO 20 - DIVISÃO DAS CIÊNCIAS NAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SABERES
conclusão FONTE: a autora.
IV a.C. IV a.C. VI XIII XVI XVII XVII XVII XVII XVII XVIII XIX XIX XIX XIX XX Platão Aristóteles Cassiodoro R. Bacon
(1266) Huarte (1575) F. Bacon(1605) Descartes (1647) Hobbes (1651) Locke (1690) Leibniz (1701) Diderot e d’Alembert (1751) Hegel (1817) Ampére (1834) Comte (1842) Spencer (1864) Wundt (1889)
C TEÓRICAS TRIVIUM TRIVIUM MEMÓRIA MEMÓRIA FATOS REAIS TEÓRICAS MEMÓRIA ABSOLUTO ABSTRATAS ABSTRATAS FORMAIS
Fís. Teol. Gram. Filol. História História Metafísica História Física Teologia História Ontologia Matemática Lógica
Formal
Lógica
Fís. Dial. Gram. Natural Natural Teologia Natural Química Jurisprud. Sagrada Teologia Astronomia Matemática Matemática
Mats. Retór. Lóg. Civil Civil Civil Biologia Medicina Eclesiástica Epistemol. Física
Retór. Geografia Filosofia Civil Química
Filosofia Matemática Natural Biologia
Teologia Física Física Social
Linguagem Moral
História
C PRÁTICAS QUATRIVIUM QUATRiVIUM RAZÃO IMAGINAÇÃO IDEAIS RAZÃO NATUREZA COSMOLÓGICAS
(Natureza)
CONCRETAS ABSTRATO- CONCRETAS
REAIS/ Natureza
Ética Ética Geom. Mat.. Filosofia Poesia Física Física Matemática Filosofia Mecânica Mats.. Engenharia Mecânica Fís/Quí/Biol.
Econ. Arit. Aritmét. Narrativa Mats. Meteorol. Ética Metafís. Física Física Mecânica Física Cosmo/Geol.
Pol. Astron. Geom. Dramática Astrologia Deus Biologia C. Naturais Geologia Química Astr/Geogr./
Mús. Mec. Parabólica Mineralogia Lógica Homem C. Médicas Tecnologia Hist. Natural
Mús. Belas Artes Botânica Linguística Natural Medicina
Arquit. Zoologia Antropolog. Sociologia
Ética. Ótica Psicologia
Metaf. Música Teol. Poesia Mor Retórica Lógica Ética Estética Política
C POÉTICAS IMAGINAÇÃO RAZÃO Ótica IMAGINAÇÃO ESPÍRITO NOOLÓGICAS
(Espírito)
CONCRETAS REAIS/ Espírito
Lóg. Dial. Fís. Poesia Filosofia Mecânica Música Poesia Psicologia Filosofia Astronomia Psicologia
Retór. Ótic. Narrativa Divina Medicina Ética Narrativa História Nootécnias Mineralogia História
Poét. Astron. Dramática Natural Moral Poesia Drama Arte Etnológicas Geologia Direito
Medi. Alquim. Parabólica Humana Alegorias Religião Políticas Biologia Economia
Ginást. Agron. Matemáticas Filosofia Psicologia Política
Gram. Méd. Sociologia
Mús. C. Exper.
QUADRO 21- DISCIPLINAS BÁSICAS (ORIGINAIS) DAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SABERES: CLASSES FONTE: a autora.
A partir dos quadros-síntese das classificações filosóficas dos saberes (classes) é possível constatar a predominância de alguns princípios e características que, desde o sistema de organização das filosofias (ciências) de Aristóteles, permanecem inspirando e influenciando os sistemas de classificação bibliográfica, como a presença de:
a) agente classificador (filósofo ou outros);
b) princípio classificatório (o fim a que as ciências se prepõem em Airstóteles, as três faculdades humanas envolvidas no ato de conhecer em Huarte de San Juan, F. Bacon, Diderot e d’Alembert entre outros);
c) conjunto de elementos (ciências) constituídos na época da classificação, ou nela já prevísiveis (Comte, Spencer, Wundt);
d) mecanismos que possibilitam a inserção de novas ciências ainda não constituídas (Ampére);
e) fio condutor já que toda classificação constroí-se no contexto das classificações anteriores do mesmo domínio (existe uma história de integração nas classificações das ciências ao longo da qual, os domínios e as divisões78 podem ser modificados e novos critérios acrescentados);
f) esquema classificatório concreto (estrutura hierárquica, quadro, árvore, figura geomética) que permite a execução das operações.
Observa-se, porém, que a rigor só é possível falar em classificações científicas a partir da Idade Moderna, especificamente, a partir do Renascimento, com o aparecimento das Ciências Naturais como ciência sistemática (séc. XVIII)79.