Segundo Oliveira (2000), existe uma distinção entre crescimento e desenvolvimento econômico. O primeiro está associado às mudanças de caráter quantitativo, como o aumento do PIB, já o segundo, implica em alterações qualitativas, verificadas através de indicadores que expressam o aumento da qualidade de vida da população (como o IDH), melhor distribuição da renda e maior acesso a serviços básicos. Para o autor, o desenvolvimento só é possível a partir da diversificação da própria produção interna, que, no entanto, não é suficiente para indicar padrões de qualidade de vida.
Uma análise do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, que é calculado pela média simples de três sub-índices, referentes às dimensões de Longevidade (IDH-L), Educação (IDH-E) e Renda (IDH-R)16, demonstra a precariedade das condições sociais da população do Norte de Minas.
QUADRO 3
Evolução do IDH de municípios do Norte de Minas em 1970, 1980, 1991 e 2000
Fonte: IBGE e IPEA/IPEADATA.
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De acordo com dados do IPEA, o sub-índice do IDH relativo à educação é obtido a partir da taxa de alfabetização e da taxa bruta de freqüência à escola; o sub-índice do IDH relativo à longevidade é obtido a partir do indicador de esperança de vida ao nascer, já o sub-índice do IDH relativo à renda é o índice usado na função da renda, normalizada com valores extremos. O IDH varia de 0 (desenvolvimento nulo) a 1,0 (maior desenvolvimento humano), de acordo com a seguinte classificação: o IDH de 0 a 0,5 indica um baixo desenvolvimento humano; de 0,5 a 0,8 indica um médio desenvolvimento humano; e de 0,8 a 1,0 indica um alto desenvolvimento humano.
Municípios 1970 1980 1991 2000 Bocaiúva 0,375 0,547 0,574 0,737 Grão Mogol 0,256 0,425 0,505 0,672 Janaúba 0,293 0,534 0,578 0,715 Januária 0,342 0,433 0,509 0,699 Montes Claros 0,472 0,720 0,719 0,784 Pirapora 0,436 0,684 0,704 0,758 Salinas 0,309 0,443 0,515 0,699
Como mostra o quadro 3, houve um crescimento do IDH, em todos os municípios da região, nas últimas décadas. O IDH do município de Montes Claros se manteve, desde 1970, o mais alto da região. De acordo com dados do IPEA (2002), apenas 7,86% dos municípios do Norte de Minas possuem um IDH em torno de 0,700. Em 80,89% dos municípios da região, o IDH médio ficou em torno de 0,600, enquanto em 11,25%, esse indicador foi inferior a 0,500. Isto quer dizer que nenhum município do Norte de Minas, nem mesmo Montes Claros, apresentou um alto IDH (acima de 0,8).
O Norte de Minas foi considerado pelo Governo de Minas Gerais uma região “fim do mundo”, pelo fato de ser “isolada”, e também, uma “região problema”, devido à baixa taxa de crescimento econômico. A fragilidade do setor social refletiu no atraso do setor econômico e vice-versa.
Muitas têm sido as explicações para o subdesenvolvimento da região. Segundo Rodrigues (2000), a causa do subdesenvolvimento advém dos seguintes fatores: intensificação das relações capitalistas; base econômica da região permaneceu estagnada, simples e pouco diversificada; baixa integração e exportação de produtos de baixo valor agregado; baixo poder aquisitivo e pobreza da população; alta concentração de renda; e organização social e política que reflete os traços paternalistas de uma estrutura social rígida.
Para Oliveira (2000), uma das possíveis explicações está ligada ao acúmulo de capital no Brasil e na região. Com o desenvolvimento do capitalismo, a classe dominante local conseguiu acumular os meios de produção e não houve espaço para a formação de um mercado interno regional e de uma classe operária combativa.
O que se percebe é que este quadro de subdesenvolvimento da região do Norte de Minas não se alterou muito com o passar do tempo, pois, de acordo com o Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) de Minas Gerais, elaborado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) que constituiu o plano estratégico do Governo do Estado de Minas Gerais para o período de 2003-2007, o estado é caracterizado por um quadro de desigualdades
regionais, em relação aos aspectos sócio-econômicos e à condição de vida da população das diversas regiões do Estado.
Dentre as diretrizes do PMDI, estão aquelas que prevêem um maior investimento para a região do Norte de Minas, juntamente com o Vale do Jequitinhonha e Mucuri, que são as regiões mais pobres do Estado. Essas regiões apresentam uma defasagem em relação à oferta de serviços de infra-estrutura básica (transportes, energia, telecomunicações, saneamento), de equipamentos sociais e apresentam uma organização produtiva ineficiente e baixa competitividade, o que acentua o “círculo vicioso” do subdesenvolvimento das condições de vida da população.
De acordo com o PMDI (2003), o PIB do Norte de Minas em comparação com o PIB das demais regiões do estado estava entre os quatro piores. A Região Central, onde vivem 35% da população do Estado (que inclui o município de Belo Horizonte e a região metropolitana) participou praticamente com metade do PIB estadual (45,6%). No extremo oposto, a Região Noroeste e o Vale do Jequitinhonha/Mucuri tiveram participações inexpressivas no PIB. Tal situação foi semelhante para o Norte de Minas que teve uma participação de 4,7% no PIB estadual.
Apesar de ter sido registrado, nos últimos anos, melhorias em relação aos indicadores sócio-econômicos de tais regiões, as mudanças não foram suficientes para reverter o quadro de desigualdade regional que se firma no estado. O analfabetismo e a mortalidade infantil, variáveis que compõem o IDH, ilustram a clivagem observada no sentido noroeste-sudeste do Estado, sendo possível dividí- lo em duas regiões, por uma linha imaginária em formato de hipérbole. Acima dessa linha estão os municípios dos Vales do Jequitinhonha/Mucuri e da região do Norte de Minas, que apresentam os piores indicadores de analfabetismo e de mortalidade infantil do Estado, que, aliados à baixa renda per capita, originam um contrastante mapa de IDH (FIG. 7).
FIGURA 7 – Mapa do IDH dos municípios mineiros
Fonte: MINAS GERAIS / CDES, 2003-2007 (base de dados – IPEA)
O PMDI foca a importância de se criar um projeto que reconheça a situação de desigualdade entre as regiões do Estado, implementando políticas regionais estruturadoras nos Vales do Jequitinhonha/Mucuri e no Norte de Minas, viabilizando a concretização de uma rede de cidades médias capazes de concorrer com a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), bem como, incentivar o desenvolvimento de arranjos produtivos que valorizem o capital social. Essa estratégia do Governo de Minas se reafirma também na atual gestão.
De acordo com dados do escritório da SUDENE (localizado em Montes Claros), a maior parte dos indicadores sociais da região do Norte de Minas registrou uma significativa melhoria. De 1960 a 1999, a taxa de analfabetismo caiu
50,4%; a expectativa de vida ao nascer apresentou um incremento de 48,9%, a taxa de mortalidade infantil reduziu-se em 50,2% e o IDH apresentou variação de 103,2% (enquanto que o IDH do país cresceu 68% no mesmo período).
Embora a SUDENE tenha exercido um importante papel, como agente transformador da estrutura sócio-econômica do Norte de Minas, e proporcionado uma melhoria dos indicadores sócio-econômicos, ela não conseguiu reverter o quadro de subdesenvolvimento da região, que apresenta ainda um relativo atraso e pobreza em relação às regiões mais desenvolvidas do estado de Minas Gerais, como aponta o próprio PMDI (2003). Para Rodrigues (2000), a atuação da SUDENE contribuiu ainda mais para intensificar as desigualdades intra-regionais, com a estimulação da expansão capitalista na região.
Os dados sócio-econômicos aqui apresentados levam a concluir que há grandes desigualdades entre os municípios da região do Norte de Minas, sendo que Montes Claros apresenta um grau de desenvolvimento superior aos demais. O item seguinte apresentará os principais fatores ou atores sociais que contribuíram para que Montes Claros adquirisse, ao longo do seu processo de formação, uma posição central no Norte de Minas, tornando-se um pólo regional.
1.2 – O “FENÔMENO URBANO” E AS TRANSFORMAÇÕES DE MONTES