O trabalho tem uma importância central em nossa vida, tendo em vista que ele é um importante mediador social, que nos oferece as condições para nos construir enquanto sujeitos e atores sociais, assim como para adquirirmos os recursos financeiros e simbólicos indispensáveis à nossa sobrevivência. Diante dessa centralidade, as pessoas se engajam numa formação profissional, a qual lhes possibilitará a inserção numa determinada área de atuação laboral. É nesse sentido que Michener, DeLamater e Myers (2005) afirmam que a aprendizagem e a orientação para o trabalho se constitui uma importante parte do processo de socialização.
É nesse sentido que podemos classificar a formação de professores, em termos gerais, como um processo educacional destinado à preparação de determinados indivíduos para o trabalho, pois de acordo com Linhares (2011, p. 15) “[...] trabalhadores somos todos os seres humanos, na medida em que atuamos sobre a natureza, interagimos social e politicamente e, assim, produzimos bens materiais, artísticos, científicos e espirituais, e nos produzimos a nós mesmos”.
Dubar (2005, p. 53) afirma que “[...] toda interação humana supõe, de algum modo, uma relação com outrem”, sendo assim, o processo de socialização como preparação para o trabalho docente possui algumas especificidades. Inicialmente podemos entender que o trabalho docente não visa à produção de bens materiais, tampouco a ação dos professores ocorre sobre bens ou objetos físicos inertes, pois como afirma Tardif (2011, p. 49):
A atividade docente não é exercida sobre um objeto, sobre um fenômeno a ser conhecido ou uma obra a ser produzida. Ela é realizada concretamente numa rede de interações com outras pessoas, num contexto onde o elemento humano é determinante e dominante e onde estão presentes símbolos, valores, sentimentos, atitudes, que são passíveis de interpretação e decisão que possuem, geralmente, um caráter de urgência.
Nesse mesmo sentido, Tardif e Lessard (2007, p. 31) lembram que “[...] ensinar é trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos, para seres humanos”. Sendo assim, “[...] as pessoas não são um meio ou a finalidade do trabalho, mas a ‘matéria prima’ do processo interativo e o desafio primeiro das atividades dos trabalhadores” (TARDIF e LESSARD, 2007, p. 20). Pimenta (1998, p. 163) argumenta ainda que “para além da finalidade de conferir uma habilitação legal ao exercício profissional da docência, do curso de formação inicial se espera que forme o professor”.
A formação inicial de professores, de acordo com Estrela (2002, p. 18), caracteriza-se como “[...] o início institucionalmente enquadrado e formal de um processo de preparação e desenvolvimento da pessoa em ordem ao desempenho e realização profissional numa escola ao serviço de uma sociedade historicamente situada. Corroborando com essa ideia, Imbernón (2011, p. 41) alega que “o processo de formação deve dotar os professores de conhecimentos, habilidades e atitudes para desenvolver profissionais reflexivos ou investigadores”.
A interação humana está na base dos processos de socialização educacional, seja na formação de professores, seja na sua atuação enquanto profissional, em sala de aula, pois como observam Tardif e Lessard (2007, p. 28) “[...] a presença de um ‘objeto humano’ modifica profundamente a própria natureza do trabalho e a atividade do trabalhador”. Consequentemente, o próprio processo de formação docente adquire características próprias, que de acordo com Pimenta (1998, p. 164):
Dada a natureza do trabalho docente, que é ensinar como contribuição ao processo de humanização dos alunos historicamente situados, espera-se da licenciatura que desenvolva nos alunos conhecimentos e habilidades, atitudes e valores que lhes possibilitem permanentemente construir seus saberes-fazeres docentes com base nas necessidades e nos desafios que o ensino como prática social lhe coloca no cotidiano.
As ocupações profissionais que necessitam constantes interações entre os sujeitos envolvidos no processo laboral, “[...] têm a implicância de fortes mediações linguísticas e simbólicas entre os atores, bem como, da parte dos trabalhadores, de competências reflexivas de alto nível e de capacidades profissionais para gerir melhor a contingência das interações humanas na medida em que vão se realizando” (TARDIF e LESSARD, (2007, p. 20).
A formação docente se desenvolve por meio das mediações linguísticas ocorridas no interior do processo de socialização. Michener, DeLamater e Myers (2005, p. 63) definem o processo de socialização como “[...] o modo como os indivíduos aprendem e recriam
habilidades, conhecimentos, valores, motivos e papéis à sua posição em um grupo ou em uma sociedade”. Para Dubar (2005, p. 14):
[...] a socialização pode ser definida como um processo descontínuo de construção individual e coletiva e de condutas sociais que inclui três aspectos complementares: - o aspecto cognitivo, que representa a estrutura da conduta e se traduz em regras; - o aspecto afetivo, que representa a energética da conduta e se exprime em valores; - o aspecto expressivo (ou ‘conativo’), que representa os significantes da conduta e se simboliza por
signos (grifos do autor).
De acordo com Fávero (2011, p. 71), “aceitar a formação profissional como um processo significa aceitar, também, que não existe separação entre formação pessoal e formação profissional”. Sobre a interdependência entre esses dois tipos de formação, Arroyo (2011, p. 124) argumenta que a aprendizagem da docência tem início muito antes da entrada do aluno no curso de licenciatura, pois “[...] o aprendizado vem dos primeiros contatos e vivências dos mestres que por longos anos tivemos, desde o maternal. As lembranças dos mestres que tivemos podem ter sido nosso primeiro aprendizado como professores”.
Essas aprendizagens anteriores ao curso de formação ocorrem por meio da interação desse indivíduo nos diferentes grupos sociais dos quais fez ou ainda faz parte. Por meio dessas interações o indivíduo desenvolve o conjunto de regras, valores e opiniões que irão dar certa coerência sobre a sua posição social nesses, pois como afirma Dubar (2005, p. 23), “a socialização é principalmente uma construção lenta e gradual de um código simbólico que constitui [...] um ‘sistema de referência e de avaliação do real’, que permite ‘se comportar desta maneira de preferência àquela nesta ou naquela situação’”.
Conforme a divisão proposta por Berger e Luckmann (2011), a socialização pode ser de dois tipos: primária ou secundária. A socialização primária consiste naquela experimentada pelo indivíduo ainda na infância, configurando-se como um processo pelo qual esse indivíduo irá se tornar membro de uma sociedade. A socialização secundária se configura como qualquer processo, subsequente à socialização primária, pelo qual o indivíduo se introduz, enquanto sujeito já socializado, nos diversos setores de sua sociedade.
É nesse sentido que a formação docente se caracteriza como um processo de socialização secundária, a qual Dubar (2005) denomina de socialização antecipatória. A socialização antecipatória se trata de um processo pelo qual “[...] um indivíduo aprende e interioriza os valores de um grupo (de referência) ao qual deseja pertencer” (DUBAR, 2005, p. 67). O grupo de referência seria o dos professores para aqueles que ainda não o são, ou o grupo dos professores habilitados em nível superior para aqueles que já são professores,
porém não possuem formação universitária. De acordo com Michener, DeLamater e Myers (2005, p. 93) "a socialização antecipatória bem sucedida implica o estabelecimento de objetivos, o planejamento e a preparação para futuros papéis”.
A preparação para o desempenho do papel de professor ocorre durante a formação, que se caracteriza como um aprendizado relativamente longo, no qual os licenciandos têm contato com uma série de conhecimentos e precisam desenvolver os valores, atitudes e habilidades necessárias à prática profissional.
Esses aprendizados ocorrem mediante a apreensão da cultura do grupo de professores, mediada pelos códigos linguísticos utilizados pelo, ou seja, pela comunicação. Para Berger e Luckmann (2011, p. 173) a linguagem se “[...] constitui o mais importante conteúdo e mais importante instrumento da socialização”. Por sua vez, Dubar (2005, p. 101) acrescenta que “por seu caráter cultural preexistente a toda existência individual e impositor de suas categorias fundamentais ao indivíduo, a linguagem constitui, pois, o primeiro pressuposto de toda interação que engaja, na comunicação, toda uma sociedade e uma cultura”.
É nessa perspectiva que Saussure (2006, p. 16) admite que “a linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro”. Considerando essa dialética da linguagem, ou seja, esse duplo movimento entre o indivíduo e o seu meio social, Berger e Luckmann (2011, p. 59) constatam que “a linguagem é capaz não somente de construir símbolos altamente abstraídos da experiência diária, mas também de ‘fazer retornar’ estes símbolos, apresentando-os como elementos objetivamente reais da vida cotidiana”, movimentos esses que denominados de subjetivação e objetivação.
Mediante o processo de subjetivação o indivíduo apreende a realidade lhe é externa, ou seja, o conteúdo da realidade objetiva é transformado num conceito, numa imagem acústica, numa representação da realidade, que é internalizada cognitivamente (DUBAR, 2005; BERGER e LUCKMANN, 2011).
Essa seção tratou dos aspectos históricos, legais e processuais da formação docente. No que tange a história, nota-se ser bastante recente (em comparação com outros países) a atividade docente no Brasil. A partir de descompassos ela foi se construindo, num primeiro momento como uma atividade de catequização dos indígenas, passando rapidamente (segundo momento) a se ocupar da escolarização dos filhos de colonos. A escola pública e gratuita demorou muito para se instalar no Brasil e se fez com um nível de qualidade questionável. No que tange aos aspectos legais que, normatizam a atividade atualmente e as condições em que se desenvolveram essa pesquisa, verifica-se uma grande parcela de professores atuando sem titulação adequada para o exercício da profissão.
Quanto aos aspectos processuais, os descompassos pelos quais a atividade transitou, tramitou, fez com que não houvesse (ou haja) um único caminho a seguir em termos de formação. Entretanto, a maioria das políticas públicas oferece pacotes prontos que nem sempre consideram os contextos, as necessidades, os anseios, enfim a realidade do professorado. Assim, pressupõe que a formação (mesmo não sendo o único) constitui um dos principais fatores de socialização profissional da atividade docente. Se os docentes constroem seus valores, atitudes, opiniões, habilidades antes da inserção profissional e durante a formação, importante se faz estudar as representações sociais dos alunos/alunos-docentes. Na seção a seguir serão apresentados a origem, a teoria, os conceitos, os processos e as funções para a construção das representações sociais.