Esses primeiros ensaios científicos me permitiram rever o projeto inicial do mestrado e identificar definitivamente meu problema de pesquisa, bem como os meios mais eficazes de realizá-lo. Assim, pesquisaria a problemática da sala de aula por meio de levantamentos bibliográficos e não de observações como havia pensado em princípio. Dessa forma, foi-se forjando o projeto a que me dediquei completamente nos próximos anos seguintes: A sala de
aula: uma análise de pesquisas produzidas na década de 1989-99.
Já havia iniciado o trabalho de coleta de dados na biblioteca e as dificuldades não eram poucas. Por exemplo, entender como se processava aquela numeração e a organização da biblioteca, a pesquisa eletrônica, as dissertações, teses, etc. Ou ainda, como conseguir falar com um funcionário que se encontrava sempre ocupado naquele final de ano. Eu tinha recomendações da orientadora para falar com Seu Francisco, o bibliotecário chefe, porém era preciso esperar o momento oportuno.
Do trabalho a ser desenvolvido eu trazia apenas um projeto ainda muito incipiente, algumas leituras afins e a vontade de pesquisar uma problemática com a qual eu me encontrava envolvida há quase 14 anos: a sala de aula. As dissertações e teses eram aparentemente o material mais complicado de consultar, e, apesar de estarem localizadas logo à frente da biblioteca, talvez pelo fato de eu ter tido pouco contato com este tipo de material até aquele momento, tudo parecia mais difícil. Foi então que, em uma dessas vezes em que fiquei dando voltas sem conseguir sair do lugar, peguei na estante um trabalho com o título:
Educação, trabalho e participação: um estudo baseado em experiências vividas no meio rural baiano, de Helio Vieira, defendido em 1990, na FEUSP. Bom, pensei comigo, meio
rural baiano era de onde eu tinha vindo, mas parecia impossível que fosse de fato a região de Jequié ou mesmo suas adjacências, com seus vilarejos e fazendas, onde nasci e passei grande parte da minha infância e adolescência.
De acordo com meus pais – um lavrador e uma costureira praticamente analfabetos e, de muito respeito na região – eu nasci mesmo na fazenda Palmerinha, nas imediações de Jequié e, logo depois, fomos morar em outra fazenda que era do meu avô paterno. Porém fui registrada no município mais próximo, Itaibó, subdistrito de Jequié e só mais tarde é que passamos a residir em Jequié, cidade-sede daquela região entre o sul cacaueiro e a catinga imbuzeira.
O meio rural baiano, em que Helio Vieira fez a pesquisa, faz parte da região do sertão imbuzeiro, ao lado do Rio de Contas. Já a região em que nasci, era cacaueira, de forma que eu não conhecia de perto a região retratada por Vieira. Porém, tenho alguns amigos que viveram e trabalharam lá. Do que poderia tratar tal dissertação? Passei rapidamente pelas páginas do trabalho e estava lá uma pequena entrevista com uma antiga e querida amiga do curso de Magistério. Quase não acreditei, era ela mesma. Como ele conservou o nome próprio dos sujeitos da pesquisa, eu pude reconhecê-la: Ana Maria. “Será que ele pedira consentimento aos sujeitos da pesquisa para usar seus nomes de origem? E ela, minha amiga, o que pensava disso tudo, será que tinha conhecimento dessa pesquisa?”
O trabalho de Vieira era uma pesquisa etnográfica, mas o princípio de fazer devoluções contínuas dos resultados parecia não ter sido respeitado. Eu precisava verificar melhor o trabalho e, quem sabe, até checar algumas coisas com minha amiga, ou simplesmente, contar-lhe que seu nome constava em um dos trabalhos do arquivo de teses e dissertações da FEUSP, aquilo era demais para mim. Mas, para minha surpresa, ao escrever à minha amiga contando tudo, ela não demonstrou o menor interesse. Ela parecia estar em outro momento da vida. Tudo aquilo só tinha significado para mim.
Além disso, outros trabalhos me interessaram, uns porque eram de pessoas conhecidas, outros pelo o tema, alguns pela bibliografia. E mesmo os que não tratavam da sala de aula chamavam a minha atenção e tomavam o meu tempo, pois referenciavam teóricos, autores que povoavam meu imaginário, como Sartre, Karl Max, Pierre Bourdieu e outros que já admirava dos estudos nas disciplinas e seminários. Da mesma forma, me interessavam ainda todos os trabalhos com temas ou referenciais teóricos da etnografia e do método autobiográfico e os que tratavam de Jequié, Salvador ou da Bahia.
Com certeza, essa também era a forma que encontrei para me familiarizar com um tipo de trabalho para o qual eu me julgava despreparada: consultar estante por estante, de quase todo o acervo de teses e dissertações da biblioteca da FEU-SP e posteriormente da PUC-SP, sobre o tema da sala de aula. Isso não me parecia uma coisa razoável para uma professora da escola pública da periferia de Guarulhos.
As dissertações e teses compõem uma coleção tida como especial, que fica em estantes à parte, e com a letra (T) antecedendo o número de classificação, que só podem ser emprestadas em condições especiais ou se houver mais de um exemplar no acervo. O total de volumes que compunham essa coleção, de acordo com o catálogo, provavelmente desatualizado, na época 1993, era de 1988 exemplares, atualmente esse número corresponde a 5.884 exemplares.
Havia trabalhos provenientes não só da própria FE-USP, mas também de outras unidades e de várias instituições de ensino. Mais tarde, pediria explicações a respeito do que seriam essas “condições especiais” de que falava o catálogo. Eu me perguntava se as minhas condições não seriam especiais, já que o meu objeto de estudo eram as referidas teses e dissertações? Mas eu mesma acreditava que não. Posteriormente, levei várias teses emprestadas da biblioteca para casa, inclusive algumas com um único exemplar no acervo. É claro que mediante muitas conversas e explicações relativas às tais condições especiais.
No início, as teses e dissertações sobre a 4ª Série também me chamavam muito a atenção porque tratavam de propostas de intervenção na sala de aula. Como eu me encontrava preocupada com esse assunto, cheguei até mesmo a levar algumas delas para a escola onde lecionava e mostrá-las aos meus alunos e colegas professores. O fato é que eu estava de algum modo explorando e aproveitando ao máximo o que aqueles trabalhos traziam. Em geral, boa parte dos trabalhos traduzia aquilo que mais tarde eu passaria a considerar uma armadilha. Eles construíam argumentos, quase sempre, para justificar um contexto em que o professor é o responsável direto pela crise em que se encontra a escola pública brasileira atualmente.
Apenas por um pouco de provocação literária poder-se-ia perguntar, como muitos autores já fizeram: serão os professores e sua formação causa ou conseqüência da atual crise do ensino público? Ou ainda: o que há por trás da corrida, tanto de pesquisadores, como de intelectuais, de modo geral, para fundamentar hipóteses, no mínimo ingênuas, de que o professor é mal formado e, por isso, o ensino público fracassa. Ainda que se tratasse de fato verídico, não seria o caso de continuar perguntando: qual é o tamanho desse fracasso? O que nos resta fazer do que fizeram de nós, os fracassados, já que boa parte dos pesquisadores foi ou ainda é professor? Essas e outras indagações foram aparecendo em diferentes momentos das consultas efetuadas às pesquisas. Essas e outras questões que não foi possível tratar naquele momento, são agora pontos importantes de nosso trabalho e serão tratadas com o maior aprofundamento nos próximos capítulos.