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Hartog defende a ideia de que os historiadores acabam naturalizando e instrumentalizando as categorias de tempo (passado, presente e futuro). Isso significa que nas produções dessa área, na maioria dos casos, não existe uma reflexão explícita sobre o passado e suas articulações com o presente e futuro. Não é possível dissociar essas três categorias de um trabalho de história. Elas encontram-se de tal modo imbricadas que nos permitem dizer que o movimento de olhar para o passado, retornar ao presente (que não pode ser despido das expectativas futuras) é, senão a única, uma

41 Comentando sobre obra de Ricoeur, Dosse (1997, p.203-204) indica que a “intencionalidade se revela

na linguagem da ação, ou seja, onde se fala da ação nos relatos, nas descrições, nas explicações, nas justificativas”. É a partir dessa característica que uma obra de história possui uma capacidade de “estruturação do campo prático pela linguagem da ação”. Dosse entende que, o momento de refiguração, momento da leitura, assinala a capacidade de uma obra histórica, a partir de sua intencionalidade configurada na narrativa, influir no campo prático. A “interioridade” do discurso histórico, sua explicação histórica, “se constitui por reapropriação, por internalização da expressão pública”.

das características mais específicas do trabalho do historiador (HARTOG, 2013, p.37). Nicolazzi (2010, p.235) indica uma tripla dimensão no olhar de Hartog sobre a história: “a diferença, a escrita, o tempo”, elementos que constituem o próprio saber histórico e também se encontraram praticamente naturalizados na prática historiográfica do início do século XX. A escrita da história é uma escrita do tempo. Ao operar seleções que compõem uma narrativa, o historiador também estabelece diferenças entre grupos, sujeitos, espaços e acontecimentos.

Portanto, um dos objetivos centrais desse capítulo é esclarecer como as categorias de tempo aparecem nas obras e nos trabalhos de Xavier e Oliveira e Reis e ordenam suas visões sobre a história da cidade e região. O que significa pensar as diferenças entre seus trabalhos, que residem nas suas formas de filiação e narração do passado (regidos por uma historicidade própria, por um olhar que percorre e experimenta diferentes tempos) que selecionam diferentes elementos dentro de uma conjuntura de possibilidades para formar a memória histórica municipal, mas também na permanência de temas entre os dois autores. Fundamentalmente, é necessário indagar onde, em suas obras lançadas em função das comemorações do centenário, é possível perceber e desnaturalizar esse movimento, esse ir e vir entre presente e passado, bem como o que é considerado passado, presente e futuro em seus trabalhos e como estão articulados na narrativa, na escrita. Também é importante pensar se existe uma continuidade, uma defesa de uma determinada ordem do tempo (um regime de historicidade), o que implica realizar uma leitura das produções anteriores a 1957 (especialmente nas obras de Xavier e Oliveira, considerado o “pai da história”). É importante esclarecer o que se busca com a noção regime de historicidade:

Com o regime de historicidade, tocamos, dessa forma, em uma das condições de possibilidade da produção de histórias: de acordo com as relações respectivas do presente, do passado e do futuro, determinados tipos de história são possíveis e outros não. (HARTOG, 2013, p.39).

Para Nicolazzi (2003, p.2), “esta noção permite conceber um espaço de possibilidades para se pensar historicamente, delineando certos limites para o pensamento e, consequentemente, definindo os possíveis locais de ruptura”. Especialmente quando pensamos nas comemorações de um centenário como um momento de (re)definição de projetos e utopias de uma sociedade, é importante esclarecer as relações que os grupos estabelecem como o tempo e as possibilidades de

produção da história que daí resultam. Entram em jogo as expectativas em relação ao futuro, que dependem em grande medida de como essa sociedade olha para o passado. O futuro e o passado estão mais presentes do que em outros momentos, como se pudessem ser tocados pelos sujeitos. A tensão existente relativa à “distância criada entre o campo da experiência, de um lado, e o horizonte de expectativa, de outro” é reduzida (HARTOG, 2013, p.39), marcando a afirmação/legitimação de um determinado pensamento histórico, ou sua ruptura, ou mesmo suas ressignifiações, perceptíveis a partir da permanência de algumas características, abandono e/ou transmutação de outras.

Nesse sentido, visando a legitimar alguns projetos, no caso de Passo Fundo, a afirmação da cidade como capital do planalto, prevaleceu uma determinada visão do passado que permitiu, privilegiou a seleção de temas, personagens, acontecimentos e lugares relevantes para tal objetivo. A obra de Xavier e Oliveira foi oficializada como “a” história. Sua percepção sobre o passado, presente e futuro (categorias, como já apontado, indissociáveis do trabalho do historiador), com a permanência de alguns elementos que marcavam seu pensamento expresso na obra Terra dos Pinheiraes de 1927 possibilitou o entrecruzamento de dois regimes de historicidade: um condizente com a percepção de passado necessária às expectativas futuras (progressista, com sua ênfase no futuro) que pairavam em torno das comemorações e marcavam o imaginário social da época (presente, sobretudo, nos discursos políticos), e outro marcado pelo saudosismo, pelo respeito e admiração do passado (presente especialmente nas obras históricas). Isso não significa, necessariamente, uma tensão, um conflito de interesses e visões. Xavier e Oliveira não era contrário ao progresso, mas observava com nostalgia suas consequências, em particular as transformações urbanas que afetavam a cidade na década de 1950. De fato, a presença de duas temporalidades históricas marcantes no universo comemorativo do centenário não representou um problema, pois as classificações e seleções realizadas pelo “pai da história” de Passo Fundo não contradiziam o discurso político carregado do pensamento progressista e trabalhista do poder político local.

Para tornar clara essa seleção dos elementos necessários para essa história, orientada por um regime de historicidade particular, é importante retomar a década de 1920, momento em que Terra dos Pinheiraes de Xavier e Oliveira é produzida e publicada, e indicar que dentro do universo de possibilidades que permeava Passo Fundo nesse momento, existiam diferentes interpretações que não lograram êxito em

marcar a história municipal, portanto, o horizonte de expectativas em torno do futuro. A obra O Puchirão do Gé Picaço, de Julio Simão publicado em 1925 pela Livraria Nacional em Passo Fundo, preocupa-se em formular algumas considerações sobre o “tipo etnológico” que formou-se no planalto. Para o autor, o “homem brasileiro” próprio da região norte do estado era o caboclo, grupo social que praticamente desaparece das obras sobre a história da cidade nas comemorações do centenário e das publicações do “pai da história” do município.

A dissertação de Ribas (2007, p.47), dedicada a uma análise das representações gauchescas em Passo Fundo, evidencia o descaso com a obra O puchirão do Gé Picaço pelos movimentos tradicionalistas locais que se baseiam, em seus discursos, nos trabalhos de Xavier e Oliveira, não apenas suas publicações sobre a história municipal, mas também em seus poemas publicados, como exemplo o autor cita os livros Pelo passado e Cartas gaúchas, deixando “evidente a disparidade entre Almeida Junior e Xavier e Oliveira na escolha do tipo humano a ser tomado como referência gentílica.” Ayres (2008, p.27-28), que empreendeu uma pesquisa sobre Almeida Junior (que adota o pseudônimo de Julio Simão), mostra que, mesmo na época da publicação do poemeto serrano, embora tenha tido o lançamento noticiado pelo jornal O Nacional em 30 de dezembro de 1925, a imprensa “não escreveu uma linha sobre o autor e seu livro”.

O advogado e jornalista Francisco de Paula Lacerda de Almeida Júnior chegou em Passo Fundo como correspondente de guerra em 1923 para um jornal em São Paulo, permanecendo na cidade até 1932. Monteiro (2010b) define O Puchirão do Gé Picaço como “uma resposta ao Poemeto Gaúcho – Antônio Chimango”, mostrando que o “biriba”, o tipo serrano e o gaúcho “guardam diferenças fundamentais [...]. Enquanto resposta literária, o Poemeto Serrano consiste na demonstração das dessemelhanças históricas, raciais e lingüísticas entre os homens da Serra e da Campanha”42. Para Almeida Júnior, a observação da vida do caboclo é importante, inicialmente, pelo desconhecimento que se tem dos homens e da vida na serra, o que leva a definição do homem do Rio Grande do Sul a ser pautada exclusivamente pela região sul do estado, a campanha gaúcha.

42 Para isso, o autor utiliza nos poemas a forma de falar própria do caboclo da serra e “emprega a velha

quadra popular, num esquema bastante raro (ABBA), e sextilhas em ABBACC. A linguagem dos poemas também é radicalmente diferente: O Puchirão do Gé Picaço está muito próximo dos poemas sertanejos de Catulo da Paixão Cearense, à época extremamente populares”. (MONTEIRO, 2010b).

A campanha, a fronteira do nosso Estado têm sido vasculhadas, observadas, estudadas pelos nossos literatos, em seus usos, costumes e tradições. Quanto á Serra, se não ha descaso por ella, ha uma absoluta ignorancia da Terra e do Homem. Não explico o phenomeno, porque, francamente, a vida do cabôco da serra é bellíssima! O ambiente em que elle labora e vive tem encantos como as stepes verdes do extremo sul do Rio Grande não suggerem. As mattas umbrosas e perfumadas que o machado progressista, mas iconoclasta, do colono vae talando aos poucos, têm outra belleza, suggerem outra inspiração que se não soffre com a visada desse mar gaio que é o pampa sulino. O typo autocthone, tambem é outro, radicalmente diverso o serrano do fronteiriço. (SIMÃO, 1925, p.6).

Além da descrição do espaço habitado pelo “tipo social da serra”, quando o autor se refere ao “machado, progressista, mas iconoclasta do colono”, está atribuindo um determinado valor dúbio à ação desse personagem histórico. Ao mesmo tempo em que lhe atribui o adjetivo “progressista” (progresso entendido aqui como responsável pelo desenvolvimento econômico e urbano da região), também o classifica como iconoclasta, visto que destrói o habitat de um grupo que acabou à margem desse progresso, os caboclos. O Elemento Estrangeiro no Povoamento de Passo Fundo (1990b), para Xavier e Oliveira, é visto como promotor do progresso43, mas para Simão esse grupo elimina sua visão idílica do espaço habitado pelo caboclo. Esse dilema existente entre o mundo urbano e rural não é exclusivo de Passo Fundo ou mesmo do Rio Grande do Sul. Ferreira (2002, p.52) mostra como “as letras” em São Paulo se dedicaram a essa questão na passagem do século XIX para o XX, onde “temas como o que é ser paulista e como a recente modernidade da região poderia conviver com os tipos humanos e os valores representados pelos sertões, ainda em processo de conquista.” Murari (2009, p.266), analisando o conto Banzo, de Coelho Neto, também identifica essa relação de duas vias entre as transformações trazidas pela modernidade, o progresso, e a consequente transformação da paisagem e dos espaços dos tipos sociais que o habitavam, pois a “destruição da natureza parecia ser uma consequência inevitável deste processo de crescimento em que os elementos de estabilidade”, a própria natureza, “esfacelavam-se frente à expansão das áreas ocupadas pelo homem, às transformações impressas por novas formas de atividade e por novas relações econômicas.”

43 No início da aludida obra, o autor já deixa clara sua intenção: “O trabalho que se vai ler, não reflete

apenas um propósito histórico, mas, também, uma homenagem que desejo prestar ao fator estrangeiro que, nos velhos tempos de Passo Fundo, trouxe para estas plagas o seu lar e operosidade, concorrendo, em escala relevante, para o desenvolvimento e progresso que elas, pela topografia, salubridade e mais favores naturais, tinham de realizar e, no dia e hoje, tão auspiciosos se mostra já”. (XAVIER E OLIVEIRA, 1990b, p. 253). Esse livro é uma reunião de artigos publicados em 1931, mandados imprimir pela prefeitura em 1957.

Na região do planalto médio rio-grandense, o que as duas obras da década de 1920 buscam é não apenas pensar como conciliar modernidade e as virtudes locais, mas como ambos os mundos podem se relacionar. A descrição do espaço presente em O puchirão representa a opção por uma seleção, uma organização do mundo diferente da história municipal “oficial” legitimada no centenário. O lugar onde se desenrolam os diversos “causos” do poema não é o mundo urbano, embora localizado próximo a Passo Fundo: “Pois foi naquelle districto,/ Distante da povoação,/ Que, durante um puchirão,/ Cheio de pinga e de grito,/ (A pinga do dono da roça,/ Os grito da gente da troça)” (SIMÃO, 1925, p.9). O mundo em que os caboclos vivem é marcado pela solidariedade, como alguns versos do poema sugerem, especialmente quando a palavra “puchirão” é explicada.

Justificando o título do livro, Simão (1925, p.12) aponta o puchirão como um costume muito antigo dos caboclos “Que é tão véio como o mundo/ E, com elle, profundo”, que pode ser considerado um grande acontecimento, pois reúne muitos trabalhadores que, além da labuta no roçado, também se envolvem em atividades, em festas, bebedeiras, músicas e participam com os próprios causos contados, como os versos do personagem/narrador do livro, o caboclo. O puchirão seria uma espécie de mutirão para realizar algum trabalho (no caso, em uma plantação): “No dia do puchirão/ Chega todo o visindario,/ Ninguem não ganha salario/ É uma ajuda de irmão.../ Sómentes o dono da roça/ Dá uma festa p‟ra tróça,/ Quando acaba a prantação./ Se come churrasco e farinha,/ Corre a pinga e denoitinha/ Se dança e hai violão,/ E sempre hai desafio, Nem que chova e faça frio...” (SIMÃO, 1925, p.13-14). O puchirão é justificado a partir de comparações com o ambiente natural. Simão sugere, por exemplo, uma comparação com as estrelas, que sozinhas, não iluminariam quase nada, mas juntas dão luz à noite. Também utiliza exemplos com os predadores, quando menciona que os tigres e os guarás apanham apenas animais que se desgarram dos rebanhos, andando sozinhos pelas matas.

Depois de descrever o lugar e o acontecimento que envolve a “caboclada” da região, bem como o valor inerente à ação que caracteriza o puchirão, Simão passa a descrever o personagem principal do encontro, o “tipo etnológico”, o caboclo. O narrador descreve uma figura caricatural, de cabelos pretos “Que nem espinho de ouriço”, com os olhos negros, “Num sembrante côr de cuia”, com um corpo curvado, “C‟as perna sempre cambota”, taxado de feio, “Mas pau torto é que dá mel...”. Esse caboclo, marcado no corpo pelo trabalho nas roças e nas matas, aprende o que sabe com

as experiências da vida, considerada um livro aberto, mas encoberto para aqueles que não conhecem a lida, o trabalho. (SIMÃO, 1925, p.15). Essa construção está muito próxima daquela descrita por Ferreira (2002, p.69) em São Paulo nos Almanachs do final do século XIX, tendo o “caipira”, associado ao “sertão” como uma designação “fabulosa dada as regiões mais longínquas do interior brasileiro, e no entanto cada vez mais próximas” em um momento de modernização onde diferentes grupos se encontravam (desenvolvimento das comunicações, ligações por estradas de ferro, etc.). Tanto o “caipira” como o “caboclo”, do ponto de vista social, identificam uma série de sujeitos – homens livres, pequenos agricultores, empregados nas fazendas, em caso mais específico do sul, indivíduos que viviam da colheita dos ervais e matas públicas (que estavam acabando nesse momento, o que reforça o sentimento de solidariedade), mas, da mesma forma como nos almanaques paulistas referidos por Ferreira, “não havia lugar para a cultura negra.”

Nessa construção narrativa são descritos, inicialmente, o lugar, a serra nos arredores de Passo Fundo, os personagens, no caso, a figura do caboclo, e o acontecimento inicial que decorre da ação dos sujeitos, o puchirão, que já apresenta o valor implícito desse trabalho, a solidariedade entre moradores do interior, que embora simplórios, sem estudos e outros recursos próprios das cidades, são solidários uns com os outros e aprendem aquilo que necessitam a partir de suas experiências. A partir desse momento, alguns “causos” são contados pelo narrador. Antes de entrar nesses causos, é importante apresentar algumas considerações sobre a relação dessas descrições no poema com a memória e a história da cidade. Cabe destacar que esse é um caso em que o livro em questão, embora não tenha o objetivo ou a aspiração de se tornar uma obra de história (é um poema resposta), joga com uma historicização de sua narrativa, na medida em que descreve um espaço geográfico localizado no interior de Passo Fundo, próximo ao município de Marau; um personagem (o caboclo), que mesmo descrito de forma genérica, através da atribuição de algumas características a todo um grupo social, pode ser identificado como sujeito histórico, existente não apenas na imaginação do poeta, mas como habitante da região serrana; e um acontecimento (o puchirão) peculiar e característico desse grupo.

O poema não remete apenas a uma construção fictícia, a região, o caboclo e o puchirão são elementos que existem e estão difundidos no cotidiano da região. Portanto, definir e diferenciar esse “caboclo” dos habitantes das cidades era muito difícil, para isso o autor apela “para os aspectos mais visíveis de uma suposta diferença cultural: os

modos de falar e de vestir, os costumes, os gestos, as músicas.” (FERREIRA, 2002, p.70) Sua caracterização, que ocorre a partir da linguagem poética que busca se assemelhar à forma como os caboclos falam (suas expressões, palavras singulares e o próprio ritmo da escrita) é que adentra no campo da ficção, da imaginação. Ocorre o que Ricoeur classificou como uma “historicização da ficção”, uma vez que os personagens podem não ter existido (nos causos contados, são feitas referências a sujeitos históricos, pessoas que existiam na sociedade do período, mas criam-se pseudônimos para esses indivíduos) e o puchirão descrito pode também não ter ocorrido. Não há como precisá- lo, datá-lo historicamente, mas eles existiam na década de 1920, embora idealizados, ficcionalizados. Novamente, a semelhança com a definição do caipira paulista na passagem do século XIX para o XX é marcante:

Embora bruto e ingênuo, o caipira era visto, paradoxalmente, como fonte de uma sabedoria popular, digna de ser resgatada numa sociedade imersa em valores pragmáticos, materialistas. O substrato romântico, como se nota, permanecia vigoroso entre os letrados, incitando-os à procura dos mananciais tidos como mais puros da cultura paulista. (FERREIRA, 2002, p.71).

O caboclo do planalto médio rio-grandense também aparece como um personagem literário que encarna os valores da solidariedade e da simplicidade de uma vida campesina e em contato com a natureza. Também é importante colocar a temporalidade da obra em foco, pois apesar de se referir a um tipo social que existia na década de 1920, realizar datações, construir uma cronologia, não faz parte do objetivo da obra, o que estabelece uma forte relação com a imaginação. O puchirão descrito, desde os trabalhos na roça até as festas, bebedeiras, as músicas e a contação de “causos”, pode muito bem relatar uma situação que esteja ocorrendo hoje no interior do planalto médio rio-grandense. Porém, esse tempo está intimamente associado com o espaço onde a história se desenrola, pois, como o autor adverte no início da obra, o “machado progressista” do colono põe em risco esse lugar idílico descrito na narrativa. Esse tempo é muito diferente da temporalização que imprime o ritmo da vida urbana, da sua aceleração, e principalmente de suas tentativas de domesticação a partir de relógios, calendários, cronologias históricas, etc. Trata-se de um tempo narrativo quase fora do tempo histórico.

Essas características, de acordo com Murari (2010, p.160), aproximam Almeida Junior (Julio Simão) da literatura regionalista que marcava o Rio Grande do Sul no início do século XX e que assumiu “relevância para a caracterização da heterogeneidade

do país, para a representação dos grupos sociais marginais em relação ao processo de modernização produtiva” que marcava o Brasil. Ao incorporar “à cultura escrita uma proposta de registro das tradições comunitárias rurais” que se encontravam ameaçadas “em face do avanço da modernidade”, da urbanização e da industrialização, esse gênero contribuiu para o conhecimento e preservação desse patrimônio simbólico de grupos que não possuíam outros meios para resguardar sua herança, seu modo de vida. Mas é necessário ressaltar que se trata de uma leitura, uma visão de intelectuais, de uma elite letrada, que pertencia ao mundo urbano e certamente isso influenciou suas descrições. De qualquer forma, grupos sociais que ainda não haviam aparecido na história oficial de Passo Fundo entram em cena a partir dessa literatura. É importante estabelecer alguns traços gerais que marcam sua escrita:

Em suas manifestações regionalistas, o mais das vezes este processo criativo mimetizava a invenção das identidades nacionais, através do estabelecimento e da reiteração de traços tidos como “típicos”: paisagem, vestimenta, hábitos alimentares, plantas e animais, cancioneiros, folclore, modos de ser, comportamentos e práticas – englobando também elementos oficiais, como o hino e a bandeira. O regionalismo cria, alimenta e difunde este acervo,

Benzer Belgeler