SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.2 ÖNERİLER
Durante aquele período de turbulência, vários cidadãos, estrangeiros ou brasileiros, foram recolhidos ao Hospital Getúlio Vargas e ao Instituto Agrícola de Maruípe, transformados em ―presídios para os súditos do Eixo‖.317
Cytrynowicz, enfocando os campos de internação dos alemães no interior de São Paulo e o episódio da tripulação do navio Winduck, afirma que qualificar esses locais como ―campos de concentração‖ é equivocado, já que não há registros de maus-tratos.318
Já Faveri utiliza o termo ―campos de concentração‖ para definir os locais em que os estrangeiros considerados perigosos ficaram presos no Estado de Santa Catarina.319 Alguns desses espaços eram na Capital, outros no interior, onde muitas vezes os presos realizavam trabalhos forçados. A autora assinala também que a alegação de boas condições das prisões contrasta, explicitamente, com a amargura presente na memória, o que a faz desconfiar das informações oficiais. Porém, pode-se imaginar que o fato de serem retirados de suas casas, fichados e presos já se constituía em violência suficiente para deixar grandes ressentimentos.
Perazzo, por sua vez, clarifica a questão afirmando que ―campos de concentração‖ ou ―campos de internamento‖ eram termos usados na época para referir-se aos locais, normalmente presídios, utilizados para o recolhimento dos ―Súditos do Eixo‖ ou simpatizantes.320 Assim, percebe-se que a categoria não traz
consigo a ideia da presença ou ausência de violência física e psicológica. Por certo, a atitude da polícia não foi homogênea, já que tais instituições existiram em diversos lugares e apenas pesquisas locais poderiam perceber o uso da violência. Porém, como dito, ser fichado e preso já era uma violência física e simbólica que deixou uma marca indelével na vida dessas pessoas.
A autora localizou a existência de alguns desses ―campos de concentração‖ ou ―campos de internamento‖ nos seguintes Estados (Rio Grande do
317 Ofício nº 198, de 12-9-1942, expedido pela Secretaria do Interior e Justiça para DOPS. Fundo
Interior e Justiça. Pasta 50. Ano 1942. APEES.
318 Conforme Cytrynowicz (2000), os tripulantes do navio alemão Winduck ficaram no interior paulista
até o fim da guerra. O autor afirma que os ex-tripulantes guardam boas recordações do período no Brasil, enfatizando a relação tecida entre eles e a população local, que englobou jogos de futebol e casamentos.
319 FAVERI, 2004.
320 PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São
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Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Pará), assinalando a possível existência de outros. Assim, pode-se acrescentar o Estado do Espírito Santo à lista apresentada pela autora.
Como prisioneiros em Maruípe, encontramos vários pastores luteranos, lavradores, médicos, empresários, que tiveram de deixar a sua vida cotidiana depois que se tornaram um ―perigo em potencial‖. O Serviço de Identificação da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) no Estado produziu 171 prontuários. Com exceção de um, referente ao ano de 1944, todos os outros foram produzidos no ano de 1942. Na tabela, a seguir, é possível perceber que os suspeitos não se restringiam aos estrangeiros. Brasileiros, descendentes de alemães ou italianos e/ou, ainda, ex-integralistas poderiam ser considerados simpatizantes do ―Eixo‖ ou, simplesmente, receberem a alcunha de ―derrotistas‖.
Tabela 4 - Nacionalidade Nacionalidade Quantidade Brasileira 41 Brasileira (naturalizado) 2 Alemã 76 Italiana 39 Polonesa 2 Portuguesa 1 Norte-americana 3 Norte-americana (naturalizado) 1 Norueguesa 1 Argentina 1 Húngara 1 Espanhola 1
Não consta no arquivo 2
Total 171
Fonte: Prontuário DOPS. APEES.
Alguns nomes citados nos prontuários são encontrados entre aqueles que ficaram presos em Maruípe.321 É possível identificar também dois indivíduos que foram processados pelo Tribunal de Segurança Nacional (TSN).
321 Infelizmente, ainda não há livre acesso aos prontuários que se encontram no APEES. Portanto,
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Conforme Perazzo, a polícia trabalhava sob a ―lógica da suspeição ou lógica da desconfiança‖, isto é, não era necessária uma acusação formal, apenas a suspeita poderia desencadear a vigilância, a perseguição e a prisão.322 Faveri, em relação à Santa Catarina, também salienta tal procedimento: ―Era legal deter e depois averiguar a culpabilidade ou não, cuja pena variava entre ficar horas, dias, meses na cadeia local, ou apresentar-se diariamente ao delegado‖.323
Moser, em entrevistas com italianos e descendentes, em Santa Catarina, retrata a utilização da ―prisão de 24 horas‖ como forma de intimidação. Um dos seus entrevistados afirma: ―Colocavam na cadeia vinte e quatro horas, soltavam e mandavam embora estes não apareciam mais em público, falando italiano. Era mais para intimidar que eles faziam isto‖.324
Ainda no mês agosto, o secretário informava que o tenente Anphrisio Carvalho de Araújo exerceria a função de administrador do Hospital Getúlio Vargas, devendo cuidar não só da parte econômica, mas também prover alimentação e fiscalizar as pessoas ali recolhidas e toda a correspondência. Além disso, salientava que era expressamente proibida a entrada de qualquer pessoa estranha e sem autorização por escrito da DOPS, da mesma forma que nenhuma pessoa poderia ser internada ou sair do hospital sem a ordem do respectivo delegado.325 A memória,
porém, registrou uma situação bastante diferente:
Numa certa penitenciária depois de alguns meses os alemães detentos notaram que alguns companheiros não apareciam mais na hora das refeições, os familiares dos presos preocupados com o destino dos desaparecidos foram tirar satisfação junto ao carcereiro chefe, este sem pestanejar simplesmente respondeu: Por mil cruzeiros posso lhes apressar a saída.326
As cartas vigiadas não eram apenas endereçadas às famílias, mas também às próprias autoridades, revelando algumas solicitações. O Dr. Carl B. Schroeder, em 19 de outubro de 1942, entregou uma carta ao delegado em que fazia um diagnóstico médico, atestando a suposta fragilidade de alguns presos.
com a relação dos 171 prontuários produzidos pelo Serviço de Identificação da DOPS entre 1942 e 1944, contendo o n° da caixa, n° do prontuário, nome, nacionalidade, ano e local de identificação.
322
Segundo Perazzo (1999), os termos ―lógica da suspeição‖ ou ―lógica da desconfiança‖ foram utilizados pelos pesquisadores do APERJ no livro DOPS, a lógica da desconfiança.
323 FAVERI, 2004, p. 96. 324 MOSER, 2007.
325 Ofício nº 173, de 22-8-1942, expedido pela Secretaria do Interior e Justiça para o tenente
Anphrisio Carvalho de Araújo. Pasta 50. Ano 1942. Fundo Interior e Justiça. APEES.
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O Sr. K. esteve em meu tratamento no mês de abril do ano corrente. Diagnóstico – neurose do coração e herpes zoster também examinado pelo Dr. Artur Gerhardt. O Sr. G. está sofrendo, atualmente de uma ligeira arritmia. Ele é portador de uma nephrolithiase. Diagnóstico meu confirmado pela radiografia do Sr. Rousseau. O Sr. H. está sofrendo de nephrolithiase, tratado pelo Dr. Settele. O Sr. S. é portador de impaludismo crônico.327
Dr. Carl B. Schroeder também era um dos prisioneiros. No mês de outubro, João Pinto Pestana, encarregado dos seus negócios, pedia autorização da polícia para ceder a garagem da casa do citado médico para a família de ―Manoel de Tal, pescador, pobre, brasileiro‖, a fim de vigiar a respectiva casa enquanto os soldados designados para o serviço estivessem ausentes.328 Sabe-se que Carl B. Schroeder tinha ligações com as populações alemãs que viviam no Estado e cultivava a ―germanidade‖ assim como muitos outros alemães e descendentes. O referido médico, no ano de 1935, foi orador na Festa da escola de Pontal, em homenagem à Colônia Alemã. Na ocasião, cantou-se o Hino Nacional e o alemão e foram apresentadas músicas e peças teatrais realizadas ora em português, ora em alemão.329
Durante o ―quebra-quebra‖, sua residência e consultório foram depredados. Pacheco lembra que corriam boatos afirmando que, dentro do aparelho de raios x do seu consultório, havia um rádio transmissor e que submarinos se aproximavam da sua residência durante à noite.330 Boatos como esses alimentaram o imaginário da população e acenderam sentimentos de desconfiança. Mas, ao que tudo indica, o Partido Nacional Socialista Alemão (NSDAP), ou simplesmente, partido nazista, não teve grande expressão e, como já dito, angariou apenas 41 membros dentre os 623 alemães natos que viviam no Espírito Santo.331 Na memória
ficou a lembrança de que em Vitória existiu um ―[...] partidinho, uns poucos, e logo deixou de existir‖.332
327 Ofício recebido pela Secretaria do Interior e Justiça da DOPS, em 20-10-1942. A carta anexada ao
ofício indica que vários pastores luteranos necessitavam de cuidados médicos.
328 Ofício nº 45, de 3-11-1942, recebido da Delegacia do Primeiro Distrito da Capital pela Secretaria
do Interior e Justiça. Carta em anexo. Fundo Interior e Justiça. APEES.
329 Revista Vida Capichaba, n° 389, de 30-6-1935. 330 PACHECO, 1998.
331 DIETRICH, 2007.
332 MEYERFREUND, Hélmut, 70 anos. As consequências da Segunda Guerra Mundial no
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No mês de setembro de 1942, o Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP) divulgou nota afirmando que, enquanto aguardava instruções federais, a Secretaria do Interior e Justiça decidiu deixar em suas próprias residências, impedidos de receber visitas e sob vigilância policial, os alemães e italianos que estavam presos em Maruípe. As autoridades argumentavam que:
[...] esses homens terão que ser aproveitados no trabalho dos campos em benefícios da coletividade brasileira, ao invés de, como vinha sucedendo, só servirem para dispendio de dinheiro que representa, o resultado do nosso labor. Nada há, portanto, que justifique qualquer ações contrária à medida que vem de ser tomada pelos responsaveis pela ordem publica, sendo de esperar que nela vejam todos os bons brasileiros caminho seguro para defesa de nossa economia sem perigo de qualquer atividade antinacional por parte de elementos que, embora em seus lares, se acham sob controle vigilante das nossas autoridades.333
Não se sabe se houve alguma determinação em contrário ou se a medida não atingiu a todos, mas há referências de pastores luteranos presos no mês de outubro. Uma depoente afirmou que as mulheres alemãs também foram presas e libertadas depois de seis meses. As famílias estrangeiras presas que possuíam imóveis fizeram do aluguel de suas casas uma fonte de renda. Aquelas que não os possuíam enfrentaram dificuldades econômicas.334
No dia 14 do mesmo mês, outra nota oficial convocava os súditos alemães, italianos e japoneses, residentes em todo o Estado, a comparecerem à Delegacia de Ordem Política e Social em 48 horas.335 Por certo, essa situação não seria resolvida em apenas um mês.
Em outra prisão, a guerra também trouxe consequências para um brasileiro chamado Sebastião Serra de Oliveira, vulgo Camarão. Conforme o diretor da Penitenciária de Pedra d‘ Água, após elogiar os atos ―[...] deshumanos e condenaveis dos japoneses, como sendo atos de bravura, ridicularizou os fatos historicos e os grandes vultos do Brasil, pondo em dúvida a coragem, o patriotismo e a honra dos brasileiros‖.336 A atitude de Camarão transformava todos os outros
detentos de Pedra d‘Água em bons brasileiros.
333 Jornal A Gazeta, 9-9-1942. 334 INCÊNDIO nas mentes, 1990. 335 Jornal A Gazeta, 14-10-1942. 336
Ofício nº 339, de 20-8-1942, recebido pela Secretaria do Interior e Justiça da Penitenciária de Pedra d‘ Água. Fundo Interior e Justiça. APEES.
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Tornou-se então um elemento desprezível, não podendo, sequer, ser considerado brasileiro. A insólita atitude assumida pelo 758 despertou, felizmente, a mais viva repulsa de todos quantos cumprem pena neste Presidio e o afastamento desse mau elemento do meio dos bons se impõe, como medida saneadora e moralizadora. Assim sendo, determino que o sentenciado 758 fique recolhido à sua cela, até o termino de sua pena, visto ser um individuo indigno de conviver entre bons brasileiros.337