A inserção de uma empresa mineradora cria, ao estabelecer-se em dado território administrativo e por meio dos seus objetos técnicos e ações que reproduzem, uma nova dinâmica espacial que visa atender às demandas requeridas por minério. Essa nova dinâmica produtiva da mineração é sinalizada por uma territorialização própria direcionada ao atendimento, muitas vezes, das demandas externas.
Para discorrer sobre territorialização é necessário entender o conceito de território. Souza (1995), entende o território como “espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder”, que podem se manifestar tanto concreta quanto abstratamente, a partir das relações sociais. Dessa maneira, o território seria um instrumento de poder, que pode suscitar questionamentos como “quem domina ou influencia quem nesse espaço, e como” (SOUZA, 1995, p. 78-79).
Assim, a territorialização é permeada pela maneira como os agentes estabelecem o controle em um dado espaço, podendo ter a dimensão política, econômica ou cultural. Sendo assim, a territorialização atende aos interesses de quem estabelece esse espaço (HAESBAERT, 2004). No caso das empresas mineradoras é possível observar que elas criam e estabelecem os seus processos de territorialização. Segundo Haesbaert, “os objetivos dos processos de territorialização, ou seja, de dominação e de apropriação variam muito ao longo do tempo e do espaço” (HAESBAERT, 2004, p.?).
Essa territorialização se inicia a partir da procura por áreas com potencial de exploração mineral. Depois de identificadas, elas passam a ser alvo de um plano de exploração por parte de empresas mineradoras, a fim de que estas atinjam os seus objetivos apoiadas por um conjunto de objetos técnicos – tecnosfera – e por um conjunto de sistemas de ações – psicofera. Isso para que ordenem um arranjo produtivo que atenda às suas intenções empresariais. (SANTOS, 2004)
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As intenções das empresas mineradoras podem ser analisadas a partir de Santos (2004) que conceitua o uso do território, orientado pela instalação simultânea de uma tecnosfera e de uma psicosfera, as quais têm por função introduzir novos comportamentos sociais que, otimizados, buscam transformar os recursos naturais e humanos em recursos técnicos, contribuindo para a territorialização dos processos mineradores. Kahil (2010) por sua vez, ao discutir a relação empresa e território, centra-se na ideia de um uso corporativo do território, entendido por expor uma “normatividade interna da forma hegemônica de ordenamento dos sistemas de objetos e de justificação da conduta das ações (corporativas)” (KAHIL, 2010, p. 478).
A territorialização das empresas mineradoras pode ser discutida a partir do que Santos (2004) chama de tecnosfera: um conjunto de objetos técnicos que tem por finalidade adaptar-se à lógica da produção e do intercâmbio. Esses objetos, para Santos (2004), ao serem criados na atualidade, estão atrelados aos avanços da ciência e tecnologia, e podem ser visualizados no território por meio da implantação articulada de objetos técnicos. Sobre esses objetos técnicos que compõem a tecnosfera, Santos (2004) aponta que ao serem criados são arquitetados e estimulados porque “uma série de operações, intelectuais, técnicas, matérias, sociais e políticas convergem para a sua produção.” (SANTOS, 2004, p. 216)
Coexistindo com a tecnosfera, Santos (2004) ressalta que com a criação e implantação dos objetos técnicos surge a necessidade de criação de um conjunto de sistemas de ações denominado por psicosfera. Resultado da ação, a psicosfera é criada e gestada tendo como propósito contribuir para a expansão técnica-científica dos objetos, fornecendo suporte à implantação, execução e suspensão, no caso desse estudo, de atividade produtiva mineral.
Munida de diversas ferramentas e técnicas a psicosfera imprime sentidos/significados tendo por finalidade a atuação em um dado território, orientando o seu funcionamento. Para Kahil (1997), ao discorrer sobre a Psicosfera: a modernidade perversa, a psicosfera tem por fim orientar mecanismos para apaziguar conflitos, padronizar imagens, propagandear valores, tendo como produto uma nova identidade social. (KAHIL, 1997, p.217). Nesse estudo, a autora aponta para os efeitos da comunicação em massa que contribuem para uma nova identidade social marcada a partir da inserção de
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uma nova dinâmica produtiva – no nosso caso, a mineral – que se utiliza de uma tecnosfera e psicofera instalados em alguns municípios.
De acordo com Santos (2004) ambas – tecnosfera e psicosfera – são locais, mas constituem o produto de uma sociedade bem mais ampla que o lugar. Sua inspiração e suas leis têm dimensões mais amplas e mais complexas (SANTOS, 2004, p.256).
Na mineração de modo geral, a tecnosfera está relacionada às densidades técnicas que viabilizam a produção. Tendo como meio a técnica, os objetos que respondem à extração e ao beneficiamento de minérios, bem como se faz presente no escoamento da produção desses. Desse modo, podemos citar como objetos técnicos, as minas, as áreas de beneficiamentos, as estradas, ferrovias, minerodutos, portos, estações de embarque e os demais meios e locais que dão suporte à lógica produtiva, como restaurantes e pousadas.
No caso da psicosfera, segundo Santos (2004) trata-se do “reino das ideias, crenças, paixões, lugar da produção de um sentido” (p.172). O autor alerta que a psicosfera apoia, acompanha e antecede a expansão do meio técnico científico, estabelecendo regras à racionalidade ou estímulos ao imaginário. Assim, no caso específico da mineração podemos perceber que o sistema de ação que compõe a psicosfera se manifesta por meio de variados instrumentos sociais que possibilitam a instituição das tecnosferas, nesse caso temos a comunicação como nosso meio de análise.
Como o referido autor menciona, a criação dos objetos técnicos tem por função atender ao uso do território. No entanto, a distribuição desses objetos sobre o território articulado pelo ato de minerar comunica a que veio. A produção da informação gerada pelos objetos técnicos depende de quem a olha, da aproximação ou distanciamento do processo de mineração. Após confecção dos objetos técnicos e do uso do território, segundo Santos (2004), tem-se a produção de informações. Para o autor, os objetos técnicos são informações e transmitem informações. Estas, por parte da empresa, devem ser visualizadas por meio da precisão dos objetos que encontram na psicosfera um suporte de aceitabilidade social10. Kahil (1997, p.477) também diz que “os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais, já que, graças à
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Envolvimento dos agentes sociais que construíram e constroem o território fazendo com que a psicosfera e a tecnosfera, diante do seu movimento simultâneo, se efetivem em sua plenitude a partir do uso do território por parte de determinados grupos.
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extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização, eles já surgem como informação”.
As análises de Santos (2004) e Kahil (1997) aqui explicitadas contribuem para o entendimento do uso do território administrativo de Itamarati de Minas, cujo município está inserido numa extensa jazida mineral de bauxita, passando a ser o locus de projetos de extração e beneficiamento mineral por parte de empresas mineradoras. Nesse uso do território, focou-se no processo de territorialização das atividades de mineração do grupo Votorantim Metais que associada à presença de pequenos corpos minerais de bauxita passou a deter, em conjunto, um volume expressivo de jazida mineral a ser explorada e tratada.
2.2. Contextualização do processo de mineração e beneficiamento de