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A saúde no Brasil

Da Colônia ao Pacto pela Saúde (2006).

Assim foi no Portugal de 1500, onde os encarregados da saúde do povo eram os almotacéis, aos quais competia verificar os gêneros alimentícios, apreendendo e destruindo os que não estivessem em boas condições. Ao Brasil-Colônia eram extensivas a legislação e práticas vigentes na Corte. D. Manuel, em 1521, o Regimento do Físico-Mor e do Cirurgião-Mor do Reino, instituindo-se os Comissários- Delegados nas Províncias, inclusive no Brasil. 71Os brasileiros ainda eram os

selvagens.

Os selvagens brasileiros eram de robusta constituição física. Segundo historiadores escasseavam as moléstias quando do descobrimento. Segundo descrições deixadas pelos sacerdotes do século XVI as doenças que existiam e que atacavam os selvagens era a bouba ou piã, caracterizada pelo aparecimento de lesões cutâneas. O bócio, também conhecido como papeira, algumas parasitoses e dermatoses, reumatismo, gripe e disenterias. Situações também como mordeduras por animais venenosos, cegueira e perda de membros. Quanto a sífilis e a malária, a questão é controvertida. Quer parecer que não existiam.

O selvagem tinha nojo e horror pela doença. Apartava-se logo daquele que enfermava. Nos partos a mulher paria com a maior facilidade, seccionando ela mesma o cordão umbilical e carregava o recém-nascido para o banho no rio. Quando o doente estava desenganado pelo pajé, o indígena via-se abandonado à própria sorte e morria sem assistência nenhuma. Morto, era enterrado de cócoras, com a cabeça entre os joelhos de frente para o nascente. Algumas tribos mumificavam os corpos pelo fogo e outras conservavam o esqueleto, untado com óleos vegetais e enfeitado com penas de pássaros.

Como plantas medicinais, usava-se o caju, o ananás e o jaborandi como diuréticos; o guaraná nas disenterias; a copaíba, a pariparoba e a cabriúva na bouba e em ferimentos e outras afecções. O maracujá nas febres, a poaia e a batata-de-purga como purgativos, a contra erva e o pau-cobra nas mordeduras de serpentes, o tabaco e o jataí nas doenças pulmonares. Utilizava ainda a urina, a saliva, o sangue humano e de animais, gordura de onça, bicos, garras, chifres, osso e cabelos e ainda sapos queimados e reduzidos a pó. Os dentes, quando careados, eram arrancados com instrumentos de madeira. Para se preservar das picadas dos insetos untavam-se com fruto do jenipapeiro e do urucuzeiro. 72

Nos tempos da catequese, os jesuítas moveram campanha de descrédito aos pajés. Com isso, muitas plantas medicinais brasileiras incorporaram-se à farmacopéia brasileira e mundial. Embora não se tenha conhecimento de qual é o relatório médico mais antigo do Brasil, sabe-se que, nos três primeiros séculos de colonização, as

71Santos Filho (1980) – Este capítulo 2 – foi baseado em grande parte neste autor. 72Santos Filho (1980)

únicas formas de assistência médica e hospitalar disponibilizadas à população eram as enfermeiras jesuítas e as Santas Casas de Misericórdia73 .Elas precedem a própria

constituição jurídica do Estado brasileiro. Uma vez criadas, a primeira em 1543, por Tomé de Souza, que era o mandante geral da colônia, passaram a se dedicar ao atendimento de enfermos, amparo à velhice, à criança, aos hansenianos e a educação entre outros trabalhos. A assistência médica foi uma das formas de catequisar o indígena. Contava-se então, na época, com a Companhia de Jesus para atender além do indígena, os colonizadores e outros. (Santos Filho – 1980).

Chegados à Bahia em 1549, no séquito do governador geral Tomé de Sousa, os filhos de Santo Inácio aqui permaneceram até 1759, quando foram expulsos por determinação do Marquês de Pombal. Nesses dois séculos que permaneceram, ajudaram o indígena, foram os professores das primeiras letras e de artes e ofícios. Seus colégios espalharam-se por todo o território. Desses irmãos jesuítas, sabidamente, Manoel de Nóbrega e José de Anchieta.

Fizeram de tudo. Medicavam, lancetavam, sangravam e até partejavam. As cartas enviadas sobre o Brasil do século XVI, endereçadas aos superiores da Companhia de Jesus na Europa, encerram preciosos dados e observações sobre a patologia e terapêutica da época. As doenças da época e seus remédios. Já naquela época epidemias apavorantes de varíola e de sarampo, malária, disenterias, dizimavam adultos e crianças. Não poupava ninguém. A todos socorriam os jesuítas com seus parcos conhecimentos médicos e de enfermagem. Sangraram variolosos e os sarampentos. Receitavam cará nas disenterias. Contra a maleita aplicaram a quina do Peru. A quina do Peru ficou conhecida na Europa como o pó dos jesuítas. Contra o cálculo de vários tipos, receitavam caldo de ananás verde. Obtiveram êxito com a poaia, ou ipecacuanha, como purgativo. (Santos Filho – 1980).

Uma das atribuições principais de autoridades na Colônia era conceder graduação aos físicos, licenciar boticas e autorizar o exercício de atividades auxiliares da arte de curar. E em 1744, já no reinado de D.João V, foi reiterada ao então Vice-Rei do Brasil, Conde de Galvêas, em ordenação real, quanto à imposição de inspecionar as boticas de três em três anos, com percepção de taxas, bem como a apreensão e destruição de drogas alteradas.

Em 1782, por lei da Rainha D. Maria I, foi reformada a organização estabelecida, instituindo-se a Junta do Protomedicato, constituída de sete deputados com mandato de três anos. A primeira organização nacional de saúde pública no Brasil,

73No Brasil, a necessidade de internação de pacientes destituídos de recursos ou recém-chegados, sem família e sem

moradia, acarretou logo no século XVI a criação das Santas Casas da Misericórdia, segundo os moldes da estabelecida em Lisboa. O surgimento dessas coincidiu com uma nova política de ocupação de terras inaugurada pela Coroa Portuguesa, promovendo a intervenção direta dos empreendedores europeus na esfera da produção conforme a legislação das sesmarias e o estabelecimento de capitães-donatários, todos fidalgos da pequena nobreza, segundo a prática feudal lusa. Em 1548, a Coroa portuguesa resolveu intervir mais diretamente na questão do povoamento do território brasileiro, nomeando como primeiro governador-geral Tomé de Souza, fidalgo e rico aventureiro da carreira das Índias. Esse se estabeleceu na Bahia, fundando a cidade de São Salvador, capital do Brasil colonial até 1763. O governo de Tomé de Sousa (1549-1553) foi sucedido por outras quatro administrações gerais até a União Ibérica, em 1580, quando o reino de Portugal se uniu ao da Espanha. O domínio espanhol sobre o Brasil foi importante na formação das várias das nossas instituições - entre elas as Santas Casas - que se disseminaram ao longo dos séculos pelas principais cidades e vilas, com fins de dotar a colônia de estabelecimentos para a assistência hospitalar, ou seja, visando entre outras obras piedosas e de caridade também curar os enfermos.

propriamente em 1808, quando D. João VI, transferia a Corte para o Brasil, restabeleceu as funções de Físico-Mor e Cirurgião-Mor, além dos Juízes-Comissários, Delegados do Físico-Mor, com a exigência de que fossem formados por Coimbra. No mesmo Ato de 27 de fevereiro de 1808 foi criado o cargo de Provedor-Mor de Saúde da Côrte e do Estado do Brasil, embrião da Diretoria de Saúde dos Portos, com delegados nos Estados.74

Nas boticas dos colégios havia uma farmacopéia manuscrita intitulada Coleção de Receitas, onde se alinhavam drogas simples e compostas, as mais indicadas para diversas doenças. Quando sobrevinham epidemias de bexigas, os padres cediam as suas próprias casas para internação e tratamento dos variolosos. Pode-se afirmar que a medicina predominante no Brasil no século XVI foi a dos jesuítas.

Depois de instaladas as Misericórdias é que se passou a assistência com as enfermarias e boticas através do irmão-enfermeiro e do irmão-boticário. Assim, as Santas Casas de Misericórdia se espalharam pelo território brasileiro. Atualmente, via CMB - Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas, são mais de 2.000 em todo o território brasileiro. São responsáveis por mais de 175.000 leitos hospitalares do País e em muitos deles são verdadeiros centros de referência e excelência médica. As Santas Casas foram responsáveis pela criação das primeiras Escolas de Medicina e de Enfermagem.7576

Nos três primeiros séculos a medicina e a saúde praticada no Brasil basearam-se nos princípios e ensinamentos da ciência ibérica, de Portugal e Espanha. A partir do século XIX percebe-se que ela seguiu a medicina e os métodos de saúde da França. Outras teorias também tiveram seu período de moda. A homeopatia, por exemplo, doutrina lançada em Dresde (1810) por Samuel Hahnemann, foi introduzida por Benoit Jules Mure (1809-58), João Vicente Martins (1808-54) e outros que nela acreditavam. No século XIX, a doença infecciosa gastrintestinal provocada pelo vibrião colérico, descoberto em 1883, veio acrescer o quadro patológico brasileiro. A primeira epidemia começou no Pará, onde desembarcaram coléricos e por dois anos (1855-56) acarretou a morte de umas duzentas mil pessoas. (Santos Filho – 1980)

Durante o período colonial, a medicina também era exercida por pajés, feiticeiros africanos, jesuítas, cirurgiões portugueses, hispânicos e holandeses. A forma de administração, na época, dificultava a criação de ensino superior de medicina, pois isso seria uma ameaça à dependência de Portugal. Havia alguns médicos brasileiros, formados na Europa e alguns europeus que vinham exercer aqui a sua profissão. A partir do século XVIII e foi em 1773 que o Marquês de Pombal decretou a abolição das expressões diferenciadoras de “cristão-novo” e “cristão-velho” a todos igualando, e

74Santos Filho (1980)

75

http://cmb.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=16&Itemid=30&limit=1&limitstart=2

76Cerca de 2.100 Santas Casas e Hospitais sem fins lucrativos fazem a diferença para a saúde no Brasil e todas elas estão ligadas a Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas – CMB. Estima- se que 800 são Santas Casas de Misericórdia. Quase 7 milhões de internações hospitalares em 2008, das quais quase 5 milhões pelo SUS. As Santas Casas respondem por 41% das internações do SUS. Há 104 Operadoras Filantrópicas de Planos de Saúde. Empregam quase 500 mil empregos diretos e mais de 140 mil médicos autônomos. (www.cmb.org.br)

isso proporcionou que os médicos passaram a usufruir de melhor consideração social e ocupar posição social de relevo em vista de suas origens de centros europeus como Edimburgo e Montpellier. Já haviam também médicos brasileiros formados em centros europeus.

Ser médico era ser destacado na sociedade colonial. Desfrutavam de boa situação financeira e tinham grande respeitabilidade pela burguesia citadina. Alguns destacam- se. A Academia dos Felizes, fundada no RJ em 1736, teve a presidência do cirurgião- mór Mateus Saraiva. A Academia Científica de 1771, e a Sociedade Literária, de 1786- 94, ambas no Rio de Janeiro, contavam em seu seio profissionais dos mais destacados do Vice-Reino. Foram eles, José Henriques Ferreira, Ildefonso José da Costa Abreu, Maurício da Costa, Luís Borges Salgado, Vicente Gomes da Silva e Manuel Joaquim Henriques de Paiva. Este último, conceituado clínico em Lisboa, publicou várias obras medicas e retornou ao Brasil. Em 1829 faleceu no cargo de professor da Academia Médico-Cirúrgica, José Pinto de Azeredo e Francisco de Melo Franco, naturais do país, fizeram fama na metrópole.

Muitos foram os físicos no Brasil entre os séculos XVI a XVII, portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, mas merece, entretanto, um destaque a figura do médico holandês Willem Piso (1611-78), senhor que foi de cultura humanística, adquirida nos Países-Baixos, o autor da primeira parte da História Naturalis Brasilae, Amsterdam, 1648, denominada de Medicina Brasiliense. Permaneceu em Recife de 1637 a 1644. Tal obra é um verdadeiro tratado da patologia brasileira de então. Quem o trouxe para o Brasil foi o conde de Nassau. (Santos Filho – 1980)

Cirurgiões-barbeiros, cirurgiões-aprovados e cirurgiões-diplomados, tais foram os que praticaram a arte da medicina e da saúde nas populações do século XVI a princípios do século XIX. Foi um grande período. Os cirurgiões-aprovados seguiram um curso teórico-prático em hospitais. Antes disso não havia no Brasil escola para o ensino médico e isso foi o propósito para a formação de cirurgiões-barbeiros em algumas Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Militares no século XVIII.

Em 1803 o capitão-general de São Paulo, Antonio José de Franca e Horta, instituiu oficialmente no Hospital Militar uma “Aula de Cirurgia” que foi freqüentada por seis estudantes, os quais, em março de 1804, passaram por exames e foram aprovados. No início do século XIX, se não havia condições para a administração do ensino médico, já para o de cirurgia, muito menos complexo, achavam-se aptos certos hospitais e mestres. (Santos Filho – 1980).

Durante todo o período Colonial no Brasil, os problemas de saúde e higiene ficavam sob a responsabilidade das localidades. Elas tomavam medidas contra a imundície das ruas e quintais. Era necessário criar também escolas de nível superior para as inúmeras necessidades que, com uma nova corte, o país iria necessitar.

Brasil – Monarquia e Saúde

No Brasil a Constituição de 1824, primeira carta Magna,77 estabeleceu os socorros

públicos. Havia alguma preocupação com a seguridade social, sendo criado o primeiro Montepio cujo nome era montepio Geral dos Servidores.

A data de 1889 foi a dicotomia entre Reinado – Monarquia – e a República.78 Nesses

idos do final do século XIX, a igreja já tinha suas articulações estabelecidas em territórios em que o Estado ou a República nem imaginavam que existiam.

A penúria era geral. Não havia nenhum tipo de atendimento público às populações que se encontravam em São Paulo, Capital, Rio de Janeiro, Salvador e interior desses Estados. Doenças debilitantes como a Ancilostomíase79 e a Malária eram comuns em

todas as províncias.

Outras regiões como o sertão brasileiro, estados longínquos como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,80 Piauí, Roraima, Amazonas e outras regiões consideradas distantes

do governo central, não eram ainda territórios de serviços de Saúde. Higienização ainda era uma palavra pouco conhecida. Não se pode esquecer que relações com escravos e o domínio português, foram atividades durante quase três séculos, acompanhando ciclos econômicos do açúcar (1550-1570) e do café entre 1820 e 1870.81 Nesse período não havia nenhum desenvolvimento econômico e a miséria,

doenças, invalidez, indigência prevaleciam sob o mando dos exportadores de madeira, café, açúcar e da Igreja Católica que abarcava a evangelização através de mecanismos de controle e apoio do Reinado e depois da República.

No Brasil, desde a colônia até o século XX, a Igreja cumpriu funções na área da saúde e de todas as demais áreas que atendiam a população. As Santas Casas são exemplos marcantes na filantropia de saúde no Brasil. De resto, a benemerência das pessoas. Na tese de Doutorado de Aldaíza O. Sposati,82 ela retrata alguns episódios

da época- 1803 - um dos quais, em que o vigário de São Miguel informava ao governador da Capital de São Vicente (São Paulo) sobre a “impossibilidade d’elle poder existir com a insignificante porção que os moradores oferecerão a sua

77 A elaboração da Constituição do Brasil de 1824 foi bastante conturbada. Logo após a Proclamação da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, ocorreu um conflito entre radicais e conservadores na Assembleia Constituinte. A Independência do Brasil não havia se consolidado com a aclamação e coroação do Imperador, mas sim com sua Constituição. A Assembleia Constituinte iniciou seu trabalho em 3 de maio de 1823, quando o imperador Dom Pedro I discursou sobre o que esperava dos legisladores.

78O Estado brasileiro – de certa forma - surgiu contra a Revolução Francesa, como uma tentativa de prevenir nos

trópicos os supostos desmandos democráticos das Revoluções Americana e Francesa, mas com bastidores de comitê privado das classes dominantes. (Aciole – 2006).

79Transmite-se através do solo pelos ovos depositados nas fezes e daí tornam-se embrionados. Nas crianças causa amarelão, enfraquecimento e conseqüente anemia. Na década de 50 era chamada doença do Jeca Tatú. Recomendava-se higiene. Lavar as mãos e usar sapatos.

80Nessa época eram um único Estado. 81 Yida – pág. 25

subsistência e não devendo ser obrigados a contribuir com mais pela pobreza a que se vêem reduzidos”.

Com a super concentração de todas as decisões no poder central e com a maior força dos poderes do Executivo tem um federalismo que não permite diversidade nos ordenamentos legais e nas políticas públicas principalmente de Saúde dos estados e municípios.

Criação das primeiras escolas superiores

Depois da transferência da Corte Portuguesa para o país, em 1808, duas escolas de medicina foram criadas por D. João, uma em Salvador, na Bahia, em fevereiro de 1808, e outra no Rio de Janeiro. Quem foi nomeado para cuidar da fundação das escolas foi o cirurgião-mor do Reino, o brasileiro Dr. José Correia Picanço (1745- 1823). A realidade da Saúde no Brasil precisa ser vista como um grave problema que esteve latente antes da vinda de D. João VI ao Brasil e que foi sendo curada somente e lentamente ao longo das últimas gerações. No caso do Brasil aquela vinda de D. João VI, que fugia de Napoleão na Revolução Francesa deu início ao Estado brasileiro e a Saúde brasileira. Um Estado de decisões centralizadas, monárquico num território tão grande e uma diversidade de culturas e de população que nem o rei conhecia. É necessário ter uma visão do que era a população na época. Em 1822, o Brasil tinha 4,5 milhões de habitantes – menos de 3% de sua população atual – divididos em 800.000 índios, um milhão de brancos, 1,2 milhões de escravos, africanos ou seus descendentes e 1,5 milhão de mulatos, pardos, caboclos e mestiços. 83 Bem depois,

em 1884, faltando cinco dias para a Proclamação da República, ainda havia no Brasil 1.240.806 escravos. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros, forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população muito pobre e carente de tudo. A atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi criada por D.João VI, por meio de Carta Régia assinada em cinco de novembro de 1808, que determinava o estabelecimento de uma Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia no Hospital Morro do Castelo. Posteriormente, em três de outubro de 1832, durante a Regência,foi sancionada a lei que transformava as academias médico-cirúrgicas das cidades do Rio de Janeiro e de Salvador em Escolas ou Faculdades de Medicina. As duas escolas transformaram-se anos depois em Academias Médico-Cirúrgicas, obedecendo ao plano apresentado pelo Dr. Manuel Luís Álvares de Carvalho, que em 1812 foi nomeado diretor dos estudos médicos e cirúrgicos da Corte e do Estado do Brasil. Uma característica desse período foi o predomínio das chamadas doenças pestilenciais, notadamente varíola, febre amarela, malária e tuberculose.

A Academia no Rio de Janeiro instalou-se em 1813, na Santa Casa de Misericórdia,84

83Laurentino Gomes – 1822 – Nova Fronteira – RJ – 2010 – (também em história demográfica do Brasil em: http://historia_demografica.tripod.com/pop.pdf).

84 Atualizando, de 1988 a 2008, realizou 11,8 milhões de consultas, 746 mil internações e 704 mil cirurgias para os pacientes do SUS de Porto Alegre e de todo o Rio Grande do Sul – como exemplo do volume de atendimentos. (Fonte: http://www.santacasa.org.br/revista/vermateria.asp) (acessado em 13.03.2011).

e a da Bahia, também sediada na Santa Casa, só funcionaria em 1815. Havia aulas e concediam o diploma de cirurgião-aprovado ao aluno que em cinco anos cursasse as diversas cadeiras de anatomia, química, fisiologia, higiene, etiologia, patologia, terapêutica, operações, obstetrícia e clínica médica. Recebia o título de cirurgião diplomado, aquele que repetisse em mais um ano as disciplinas lecionadas nas duas últimas séries. Essas academias perduraram até 1832.

Santos Filho,(1980) destaca, que nesse ano, que era Regência, o futuro D. Pedro II, transformou-as em Faculdades de Medicina. O curso passou então para seis anos. No final do curso após defesa de tese, o aluno obtinha o diploma de doutor em medicina. Essas faculdades passaram também, até o século XX, ministrar cursos farmacêuticos em três anos, curso de obstetrícia para parteiras em um ou em dois anos e o curso odontológico, em três anos. Este último foi instituído em 1884 por uma reforma. Foi nesse período, entre o fim da Monarquia e início da República Velha, que a sociedade brasileira iniciou a constituição do seu Estado moderno, marcado pelo predomínio dos

Benzer Belgeler