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A Associação Comunitária e Beneficente “Padre José Augusto Machado Moreira” é uma organização social, localizada na Rua Fernandes Tourinho, 182 – Jardim Vera Cruz, no Bairro de São Mateus, na Cidade de São Paulo, que detém como missão prestar serviços para o segmento da criança e do adolescente, desde suas primeiras atividades (Figura 6) .

Foto de Ailton Camilo.

Figura 6 – Espaço do Projeto Arte de Viver: Liberdade Assistida na Comunidade, da Associação Comunitária e Beneficente “Padre José Augusto Machado Moreira”.

No ano de 1998, o Fórum de Direitos da Criança e do Adolescente (DCA) São Mateus indicou a organização para também operacionalizar, através do Serviço Social, a Medida Socioeducativa de Liberdade Assistida para o atendimento de adolescentes, mediante convênio estabelecido com a antiga FEBEM, atualmente Fundação CASA. Neste sentido, apresenta-se como ambiência do presente processo investigativo, enquanto espaço de encontro com os sujeitos da pesquisa.

113 Informações extraídas por intermédio de documento cedido pelo Presidente da Instituição, autorizando a apropriação dos conteúdos necessários para inserções no texto da tese.

A Associação Comunitária e Beneficente “Padre José Augusto Machado Moreira”, segundo informações colhidas junto à mesma, possui identidade política que se enquadrada no chamado “Terceiro Setor”, ou seja, é uma Organização Não- Governamental (ONG) de base comunitária, criada como as demais ONG’s brasileiras na década de 1990, pois, segundo Herbert de Souza (1991, p. 140)114, o Betinho, “Depois de muito tempo trabalhando em silêncio, na obscuridade, e quase na clandestinidade, as ONG’s adquirem uma grande notoriedade no plano internacional e um progresso de reconhecimento no plano nacional”. A referida Associação, entretanto, iniciou as suas atividades da década de 1980, dentro de uma perspectiva de trabalho que se assemelha à colocação de Souza.

Esse reconhecimento no plano nacional, segundo Souza (1991, p. 140), deu-se em virtude das grandes somas aplicadas pelo Banco Mundial através dos Estados, na grande maioria, regidos “pelo regime ditatorial (décadas de 1960 a 1980)”, quando então as instituições internacionais começaram a perceber que as "quantias repassadas não chegavam aos seus destinatários, cujos programas se constituíam em profundos fracassos”.

Souza (1991) afirma:

Foi nesse momento, curiosamente quando as ditaduras entravam em crise e perdiam terreno para os movimentos de democratização, que o Banco Mundial descobriu as ONG’s. Elas eram honestas, competentes, pequenas, flexíveis e eficientes. Tinham todas as vantagens para substituir o Estado corrupto, incompetente, gigante, burocrático e ineficiente. (SOUZA, 1991, p. 140)

Em âmbito mundial, a expressão surgiu pela primeira vez na Organização das Nações Unidas (ONU), após a Segunda Guerra Mundial, com o uso da denominação em inglês Non-Governmental Organizations (NGO’s), para designar organizações supranacionais e internacionais que não foram estabelecidas por acordos governamentais.

No Brasil, a expressão era habitualmente relacionada a um universo de organizações que surgiu, em grande parte, nas décadas de 1960 e 1980, em apoio aos movimentos sociais e organizações populares e de base comunitária, com objetivos de promoção da cidadania, defesa de direitos e luta pela democracia política e social.

114 SOUZA, Herbert de. (Betinho). As ONG’s na década de 90. In: I Encontro Internacional de ONG’s e o Sistema de Agências das Nações Unidas. Rio de Janeiro, IBASE-PNUD, 1991. p. 140-144.

As primeiras ONG’s nasceram em sintonia com as finalidades e dinâmicas dos movimentos sociais, pela atuação política de proteção aos direitos sociais e fortalecimento da sociedade civil, com ênfase nos trabalhos de educação popular e na atuação na elaboração e monitoramento das políticas públicas.

O saudoso humanista Herbert de Souza (1991, p.141-143) refere que, “[...] Uma ONG se define por sua vocação política, por sua positividade política. [...] uma entidade sem fins de lucro cujo objetivo fundamental é desenvolver uma sociedade democrática”, isto é, uma sociedade fundada “nos valores da democracia – liberdade, igualdade, diversidade, participação e solidariedade. [...] As ONG’s são comitês da cidadania e surgiram para ajudar a construir a sociedade democrática com que todos sonham”.

Ao longo da década de 1990, com o surgimento de novas organizações privadas sem fins lucrativos, com perfis e perspectivas de atuação e transformações sociais muito diversas, o termo “ONG – Organizações Não-governamentais” foi apropriado por um grande conjunto de organizações, que muitas vezes não guardam semelhanças entre si.

Conforme estudo realizado pela Consultoria do Senado Federal, em 1999115:

ONG seria um grupo social organizado, sem fins lucrativos, constituído formal e autonomamente, caracterizado por ações de solidariedade no campo das políticas públicas e pelo legítimo exercício de pressões políticas em proveito de populações excluídas das condições da cidadania.(ABONG..., 2007)

No âmbito interno, as ONG’s podem ser consideradas como causa e, ao mesmo tempo, conseqüência da reivindicação de direitos e do grande aumento da necessidade de demandas características da dinâmica social. Já no âmbito externo, estas organizações também representam um duplo papel: são causa e efeito do processo de mundialização de fenômenos sociais e universalização de valores democráticos que acompanham a globalização econômica.

No Brasil, a aprovação da Constituição de 1988 teve um papel decisivo no processo de formação do Terceiro Setor. A autonomia das associações civis brasileiras é garantida como direito democrático básico no Artigo 5º da Constituição Federal:

115 ABONG. Estudo Consultoria do Senado Federal, 1999. Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais – ABONG. Disponível em: <www.abong.org.br>. Acesso em: 12 nov. 2007.

Inciso XVIII – A criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento;

Inciso XIX – As associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se no primeiro caso, o trânsito em julgado.(BRASIL. CONSTITUIÇÃO...1988)

Já na Lei da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPS)116,

Lei n. 9790/90, o entendimento do papel das ONG’s é formulado nos seguintes termos:

É necessário incluir também as chamadas ONG’s (Organizações Não- governamentais) cuja atuação não configura nenhum tipo de complementaridade ou de alinhamento aos objetivos de políticas governamentais, e nem, muitas vezes, de suplementariedade à presença do Estado. Ao lado das instituições que complementam a presença do Estado no desempenho dos seus deveres sociais e ao lado daquelas entidades que intervêm no espaço público para suprir as deficiências ou a ausência da ação do Estado, devem ser também consideradas, como de fins públicos, aquelas organizações que promovem, desde pontos de vista situados na Sociedade Civil, a defesa de direitos e a construção de novos direitos – o desenvolvimento humano, social e ambientalmente sustentável, a expansão de idéias-valores (como a ética na política), a universalização da cidadania, o ecumenismo (lato sensu), a paz, a de novos padrões de relacionamento econômico e de novos modelos produtivos e a inovação social etc. (ABONG..., 1997)

Assim, as Organizações Não-governamentais inserem-se, hoje, no Brasil, num processo de reformulação das atividades do Estado e de grandes mudanças no mercado de trabalho, estando dispersas em um grande número de atividades enquanto enfatizam o envolvimento direto da população e enfrentam problemas e necessidades que afetam o cotidiano da sociedade. Estas organizações se envolvem em movimentos populares e participam da agenda política, como fruto de um processo que caracterizou a participação das massas nos anos de 1980 e 1990.

Para Gohn (2005)117,

[...] a participação é um processo de vivência que imprime sentido e significado a um grupo ou movimento social, tornando protagonista de sua história, desenvolvendo uma consciência crítica desalienadora, agregando força sociopolítica a esse grupo ou ação coletiva, e gerando novos valores e uma cultura política nova. (GOHN, 2005, p. 30)

Na concepção de Gohn (2005, p. 31), não se trata de qualquer tipo de

116 ABONG. Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais. Documento-Base. 2. ver. 29 set. 1997, p.12. Disponível em: <www.abong.org.br>. Acesso em: nov. 2007.

117 GOHN, Maria da Glória. O protagonismo da sociedade civil. Movimentos sociais, ONG’s e redes solidárias. Coleção Questões de Nossa Época. vol. 123. São Paulo: Cortez, 2005.

participação, mas uma específica, no sentido de mudanças que possam levar à transformação social. A autora faz uma diferenciação dos conceitos de sentido e significado já trabalhados por ela anteriormente sobre participação, reforçando que “Sentido é direção, é diretriz, é orientação, é norte, é rumo, é destino que conduz a desdobramentos”. Enquanto que “Significado é o conceito de algo, como ele se define e é para os sujeitos que participam das ações coletivas, por exemplo”.

2.3.2 A trajetória histórica da Associação Comunitária “Padre José Augusto

Benzer Belgeler