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Foucault (1979) retrata o nascimento do hospital afirmando que ele existe há milênios, mas, no século XVIII é que efetivamente descobriu-se que os hospitais não curavam como deviam.

Antes do século XVIII, o hospital primava pelo atendimento aos pobres, que ao mesmo tempo os assistia e também os separava e excluía. Os pobres representavam uma ameaça de contágio aos outros, assim o hospital servia como um lugar para recolher os pobres e proteger os outros do perigo dos primeiros (Foucault, 1979).

O hospital também era conhecido como o lugar onde as pessoas morriam. Sendo que as pessoas que lá trabalhavam não tinham como meta a cura do doente, mas sim sua salvação própria. Isto significa dizer que trabalhar em um hospital era sinônimo de caridade e de indulgência (Foucault, 1979).

Ainda segundo Foucault (1979), o hospital passou a ser medicalizado a partir da anulação de suas desordens. Aliás, o ponto inicial da reforma hospitalar foi o hospital marítimo, pelo fato de ser um ponto de desordem econômica, isto é, o traficante escondia objetos, fazia-se de doente e era levado ao hospital imediatamente após o desembarque. E esse “esconder” livrava o traficante da fiscalização alfandegária, por isso, foi instaurado o primeiro regulamento do hospital, datado do século XVII: a fiscalização dos cofres que boticários, médicos e marinheiros possuíam nos hospitais. Dessa forma, percebe-se que através da instauração do poder disciplinar, uma nova técnica de gestão dos homens foi gerida.

Sá (1993) coloca o hospital como o local onde doentes são acolhidos e doenças são tratadas, juntamente com profissionais de saúde tentando realizar suas funções em meio às limitações subjetivas e objetivas da instituição hospitalar.

A função do hospital está pautada em garantir ao paciente segurança de diagnóstico, tratamento de qualidade e, para que a recuperação se dê de forma globalizada há que se levar em conta os aspectos psicológicos desse indivíduo que se encontra hospitalizado (Sá, 1993).

Toda instituição possui o que Goffman (1992) denomina de “tendências de fechamento” (p.16), que se caracterizam pela tomada de parte do interesse e do tempo daqueles que fazem parte dela e, pela condição de prover a esses participantes modos de ser e agir peculiares a ela.

As instituições podem ser agrupadas em torno de três aspectos fundamentais. O primeiro deles é que a vida tem de ser vivida sempre num mesmo lugar e submetida a uma autoridade única. O segundo aspecto é que as atividades diárias são realizadas junto a um grupo de pessoas, que são tratadas da mesma maneira e com a obrigação da realização das mesmas coisas. E o terceiro aspecto é a realização de todas as atividades diárias em horários estabelecidos rigorosamente. Assim, são atividades obrigatórias organizadas com racionalidade a fim de que os objetivos das instituições possam ser alcançados (Goffman, 1992).

Segundo Carapinheiro (1993), a instituição hospitalar é marcada por uma simbologia característica de um mundo fechado, no qual a doença está presente. Essa simbologia institui segregações físicas e simbólicas.

A cor dos uniformes e a posição das salas dos profissionais são alguns exemplos das segregações que existem dentro do hospital. A cor branca implica em hierarquias que no geral dividem de forma ampla profissionais da saúde, doentes e profissionais da limpeza (Carapinheiro, 1993).

Ao doente fica delimitado um pequeno espaço, que são a cama e a mesinha de cabeceira. Geralmente sobre a mesinha ficam expostos alguns pertences pessoais seus como santos de sua devoção, fotos de entes queridos, dentre outros, que são elementos simbólicos representantes do seu pequeno universo privado que resistem ao despojamento (Carapinheiro, 1993).

Os elementos simbólicos que cercam o doente tendem a reduzi-lo a apenas um corpo, que é vulnerável porque possui a sua volta equipamentos para protegê-lo do perigo de morte, como o oxigênio, e, ao mesmo tempo é um corpo acessível porque está colocado em uma cama que não tem fronteiras para ser acessada (Carapinheiro, 1993).

LeShan (1992) afirma que o hospital é uma organização dirigida por administradores, caracterizada pela venda, dentre outros, de procedimentos que estejam relacionados às doenças.

Foucault (1998) também apresenta o hospital como um local onde há poder e saber, que estão sempre intrinsecamente relacionados porque as relações de poder implicam na constituição de campos de saberes e, por outro lado, o saber possibilita o exercício do poder.

Os profissionais que atuam no hospital estão a todo o momento submetidos a pressões da própria instituição hospitalar, no sentido de que aceitem suas regras como corretas e, em contrapartida, considerem errados os usuários que não concordem com elas. Isso faz com que o cuidado fique prejudicado (LeShan 1992) porque os profissionais têm seus papéis submetidos ao conflito presente entre os interesses da direção hospitalar e as necessidades das pessoas que estão sob seus cuidados. E, talvez esse seja um dos fatores estressantes para os profissionais que trabalham dentro de hospitais.

A instituição hospitalar comporta ainda a dualidade de interesses entre o corpo médico e o corpo administrativo, no sentido de que o primeiro visa as atividades curativas, e, por outro lado a instituição hospitalar preconiza a realização de atividades de acolhimento e abrigo de doentes, atividades estas que apenas reproduzem o primeiro modelo de gestão hospitalar formulado, que possuía como prioridade o acolhimento dos pobres (Foucault, 1979; Carapinheiro, 1993).

O hospital também coloca situações novas a aqueles que permanecem dentro dele por um período para receberem cuidados. Sua inerente rotina provoca uma privação de todos os referenciais de adulto, conseqüentemente é um cuidado que infantiliza, desperta passividade e dependência, que são estratégias capazes de produzir o chamado paciente bom (LeShan, 1992).

Os efeitos do processo de infantilização provocado pelo hospital podem acarretar conseqüências sérias aos seus usuários. Dentre eles, o sentimento de que não se é mais do que um objeto, uma máquina que precisa ser consertada. Isso pode levar o usuário a ter dificuldades em lutar por sua recuperação. Entretanto, uma pessoa infantilizada é confortante para a equipe (LeShan, 1992) porque ela não leva os profissionais a entrarem em contato com seus próprios sentimentos e, possibilita também, que os procedimentos possam ser realizados no tempo em que são considerados corretos, mas, que muitas vezes não é o tempo que aquele que está internado necessita.

Além de optarmos por trabalhar com as representações sociais enquanto produto, que podem ter sua construção influenciada pelas características que compõem o ambiente hospitalar, compreendemos ainda que elas estão intimamente ligadas aos modos de enfrentamento que os sujeitos utilizam para ultrapassar momentos estressantes, como é o caso da admissão hospitalar para a realização da cirurgia por câncer de mama.