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Não tão aventureiro quanto Guimarães, mas igualmente importante no processo de interiorização dos sertões, foi o italiano Pedro Leolino Mariz. Nascido em Roma e, estando na Cidade da Bahia na segunda década do XVIII, foi enviado para o norte de Minas Gerais sob as ordens do quarto vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes Cesar de
197
Ibid.
198
LANGER, Johnni. Op. cit. p. 128.
199
75 Menezes,199F
200
com o objetivo inicial de expulsar os irmãos paulistas Domingos e Francisco Dias do Prado, primeiros descobridores de ouro na região.200F
201
Em 1727, Mariz relatou as atividades em Minas Novas destacando as contendas que envolviam questões administrativas do lugar, ao tempo em que solicitou o “emprego de superintendente geral da localidade e de todas as minas da capitania, com jurisdição no cível e no crime [...] e estabelecer nelas tudo quanto respeita aos reais interesses”.201F
202
No decorrer do século XVIII, Mariz tornou-se o braço direito dos oficiais régios no combate aos amotinados do norte de Minas Gerais, e o responsável pela construção da estrada para escoamento do salitre, empreendimento que interligou os sertões da Bahia e Minas Gerais ao espaço atlântico. Com a criação das cinco intendências do ouro — Vila Rica, Ribeirão [do Carmo], Rio das Mortes, Sabará e Serro do Frio — ficou determinado que:
nas minas do governo de São Paulo quatro a saber nos Goiazes, Cuiabá, Pernágua e Paranapanema e no governo da Baia hão nas Minas do Arassuahy e Fanado com Extensão por ora às minas do mesmo governo. E como para reger a maior parte das ditas intendências se reconhecer ser conveniente que eu destine pessoas idôneas. [...] para servir de Intendente nas primeiras e ouvidor daquela comarca segundas a João Coelho Duarte e nas terceiras a Pedro Leolino Mariz.202F
203
Para evitar o descaminho do ouro tentou-se administrar os conflitos de jurisdição que alimentavam as querelas entre o governador de Minas Gerais e o vice-rei, em função das constantes descobertas em Minas Novas pelos paulistas Dias do Prado,
200
Menezes assumiu o governo do Brasil em 23 de novembro de 1720 até o ano de 1735. Em 1729 recebeu o título de conde de Sabugosa. Foi um dos encarregados pelos descobrimentos das minas de Cuiabá, Goiás e rio das Contas. Foi um dos fundadores das vilas baianas de Maragogipe, Rio das Contas e Jacobina. Ver: ACCIOLI, Ignácio. Op. cit. 1957. v. 2. p.158 e seguintes.
201
Ver também: ROCHA, José Joaquim da. Geografia histórica da capitania de Minas Gerais. Descrição geográfica, topográfica, histórica e política da capitania de Minas Gerais. Memória histórica da capitania de Minas Gerais. (Estudo crítico: Maria Efigênia Lage de Resende e Rita de Cássia Marques). Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro. Centro de Estudo Históricos e Culturais, 1995. 228p e SOUZA, Benedicto José de. Os 250 anos de Minas Novas. Revista do instituto histórico e geográfico de Minas Gerais (IHGMG), Belo Horizonte, v. XVIII, p. 169-184, 1981.
202
ANAIS BN. Volume 31. Carta de Pedro Leolino Mariz para Tomé J. da Corte Real, em relato dos seus serviços nos diferentes lugares que desempenhara no Brasil, referindo-se à prisão do famigerado Manuel Nunes Vianna, ao descobrimento das Minas Novas do Arassuahy e das minas de salitre, à criação da Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso, etc. Montes Altos, 18 de junho de 1759. p. 344-345.
203
APM. SC 46. 1735-1740. Registro de cartas e ordens régias e avisos. Ordem régia de 28.01.1736. f. 59 e APM. SC 44. 1734.1737. Registro de cartas e ordens régias, avisos, respostas e cartas do governador. f. 61.
76 família que “deu diversos bandeirantes que se tornaram célebres nos sertões. Eram, porém, aventureiros, de ordinário, ferozes, e maus. Contra os indígenas usavam de todos os meios de ataque e extermínio, mesmo os mais pérfidos, desumanos e horríveis”.203F
204
Os irmãos Domingos e Francisco Dias do Prado foram os primeiros a descobrirem ouro em Minas Novas, mas devido aos excessos no desvio de ouro, o conde de Sabugosa, em 1724, mandou prendê-los e, posteriormente, foram conduzidos para a cadeia e degolados.204F
205
O rei, conhecedor das potencialidades de Minas Novas, destacou ao vice- rei Vasco Cesar de Menezes, as qualidades da terra não só pelas riquezas minerais existentes, como também por ter solo propício à lavoura e à criação de gado:
grande porção de terra que há no sertão dessa capitania desde as Minas do Rio das Contas até o rio Pardo, rio Verde e cabeceiras do de S. Matheus eram as melhores que tinham todo o Brasil assim para a criação de gado como para a cultura de qualquer lavoura achando-se vários roteiros de Paulistas que afirmavam haverem ali minas riquíssimas de ouro e pedras preciosas205F
206
O problema que se apresentava era a presença de “gentio bárbaro” afligindo os sertanistas, daí a necessidade de munição e formação de tropas para garantir o avanço das conquistas no norte de Minas Gerais, no Sertão da Ressaca e no Alto Sertão da Bahia, especialmente em Minas Velhas do Rio de Contas, terras concebidas pelo rei como a joia mais preciosa do Brasil:
tomarei a resolução de os mandar conquistar, encarregam desta diligência ao coronel Pedro Leolino Mariz porque da sua capacidade tirareis o bom sucesso dela e com razão sendo este e outros os que concorriam com as despesas necessárias para esta expedição, e com ordem nossa fizera ajuntar no rio das Contas muitos paulistas e outras pessoas práticas no sertão [...] reputam essa grande parte do sertão
204
ACCIOLI, Ignácio. Op. cit. 1925. v. 2, p. 341.
205
Carta do conde de Sabugosa ao rei dom João V (1706-1750) de 16 de setembro de 1732. ACCIOLI, Ignácio. Op. cit. 1925. v. 2, p. 342.
206
Carta régia do rei dom João V (1706-1750) a Vasco F. Cesar de Menezes, vice-rei e capitão general do mar e terra do estado do Brasil. 22 de abril de 1728. Transcrita em ACCIOLI, Ignácio. Op. cit. 1925. v. 2, p. 363-364.
77 pela joia mais preciosa do Brasil206F
207
e que tudo o que resultasse desta expedição me darei conta.207F
208
A orientação do superintendente Mariz ao vice-rei era que, nas Minas Gerais, cada guarda-mor cuidasse dos seus descobrimentos e com “requisitos necessários e deem estes, obediência a um superior e seja este desinteresse do inteligente e de boa intenção para dar forma este país que é uma Babilônia confusa208F
209
”.209F
210
Mariz prosseguiu seu relatório descrevendo os lugares com potencialidades de extração mineral.210F
211
Em 1729, passados três anos destas conquistas, dom Lourenço de Almeida informou ao rei os resultados do trabalho de Mariz que resultou na arrecadação de mais de 870 arrobas de ouro, remetidas em pó para a Bahia, mas reconheceu que grande parte deste montante teve o descaminho como destino, situação que impossibilitou a arrecadação dos quintos reais: “nestas minas não se tira ouro que baste para se comprar mantimentos por cuja causa estão perdidos os homens todos que a ela se levava porque não lhe pagam”.211F
212
O problema do descaminho do ouro era visto pelas autoridades como oriundo da indefinição da jurisdição dos sertões de Minas Novas. A Babilônia confusa, como se referia Mariz, era o resultado de terras agregadas das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro: “recebeu terras de Ilhéus, terras de um lado a outro do São Francisco, compreendida pelas nascentes dos rios Urucuia e Pardo, a este a leste e aquele a oeste do grande rio. Da Capitania de Porto Seguro adveio-lhe a grande parte do Urucuia e Gerais”.212F
213
Num extenso relatório de 1726, Mariz informou ao vice-rei, em detalhes, as potencialidades da área que recebera para administrar. Numa descrição geográfica minuciosa, destacou as potencialidades de riquezas já comprovadas por ele, particularmente os da Serra do Tromba, cuja lagoa abrigava minas de ouro que
207
Grifo nosso.
208
Carta régia do rei dom João V (1706-1750) a Vasco F. Cesar de Menezes, vice-rei e capitão general do mar e terra do estado do Brasil. 22 de abril de 1728. Transcrita em ACCIOLI, Ignácio. Op. cit. 1925. v. 2, p. 363-364.
209
Grifo nosso
210
Anais do arquivo público e do museu do estado da Bahia. Ano III. Vols. IV e V. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1919. Carta que escreveu ao Exmo. Sr. vice-rei deste estado, o coronel Pedro Leolino Mariz. Ribeirão de N. Sra. dos Remédios. 11.06.1726. p. 204.
211
Ibid.
212
APM. SC 32. 1725-1732. Registro de cartas e ordens régias, respostas e cartas do governador da capitania ao rei. Carta de dom Lourenço de Almeida. 20.07.1729. f. 85-86v.
213
BARREIROS, Eduardo Canabrava. Episódios da Guerra dos emboabas e sua geografia. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Universidades de São Paulo, 1984. p. 21. Ver também: ANTONIL [João Antônio Andreoni]. Op. cit. 1963.
78 “continua com ela até onde se some em áreas junto ao alto Paramirim, dando volta na dita cachoeira em busca do poente em direitura e pela estrada que se tem aberto em conta 20 léguas de distância, em toda ela mostra a dita pinta [...] o ouro emana de algum monte junto à dita cachoeira”.213F
214
Mariz ratificou as informações que Pedro Barbosa Leal, em 1725, prestara sobre as riquezas existentes nestes sertões a partir do que se registrou da memória de Moribeca, o Belchior Dias Morêa: “que promete nos seus rotei- ros, os quais acho certíssimos, e todos os sinais que vendo com os meus olhos e para admirar como o coronel Pedro Barbosa Leal é prático em todos estes desertos, é tudo quanto deles tem dito se acha tão certo, como os descrevera as ruas da Cidade da Bahia”.214F
215
Para Mariz, Belchior Dias Morêa esteve de fato nas margens do rio Paramirim de onde fizera suas entradas em buscas da minas de Prata e, assim como ele e o coronel Pedro Barbosa Leal, também vivenciou sérios problemas com os “gentios” nas terras das Minas Velhas do Rio de Contas e de Jacobina. Mariz não se esquivou de demonstrar ao vice-rei a metodologia adotada para certificar-se da presença de Morêa em terras em que empreendia suas conquistas:
o certo é que ao antigo Belchior Dias Morêa, estando aquartelado no Paramirim fez aqui sua entrada, e se deteve bastante tempo e especialmente a donde se acha o mesmo vestígios que se acham da sua gente em país donde tiraram mel com machado e cujas cicatrizes já coberta de novo pau mostrando a antiguidade do tempo em que foram cortados, acharem-se fojos215F
216 e eu os vi que o seu gentio apanhava
antas para se sustentar, e muitos dos ditos fojos estão juntos a dito marco e não podia ser outro que o de Belchior Dias Morêa, pois o ser mais moderno ele daria notícia a Marcelino Coelho de Bitancor [sic.] e seu filho, que foram os primeiros povoadores deste país e Paramirim.216F
217
214
Anais do arquivo público e do museu do estado da Bahia. Ano III. Vols. IV e V. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1919. Carta que escreveu ao Exmo. Sr. vice-rei deste estado, o coronel Pedro Leolino Mariz. Ribeirão de N. Sra. dos Remédios. 11.06.1726. p. 204.
215
Anais do arquivo público e do museu do estado da Bahia. Ano III. Vols. IV e V. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1919. Carta que escreveu ao Exmo. Sr. Vice-rei deste estado, o coronel Pedro Leolino Mariz. Ribeirão de N. Sra. dos Remédios. 11.06.1726. p. 204.
216
Cova funda ou armadilhas cuja abertura se tapa ou se disfarça com ramos a fim de que nela caiam animais ferozes.
217
Anais do arquivo público e do museu do estado da Bahia. Ano III. Vols. IV e V. Bahia: Imprensa Oficial do Estado, 1919. Carta que escreveu ao Exmo. Sr. Vice-rei deste estado, o coronel Pedro Leolino Mariz. Ribeirão de N. Sra. dos Remédios. 11.06.1726. p. 204.
79 Convicto da existência de riquezas, Mariz passou a defender, juntamente com o vice-rei, seu superior, a submissão da região de Minas Novas à jurisprudência da Capitania da Bahia. Contrariamente, o governador das Minas Gerais, dom Lourenço de Almeida, tentou convencer a coroa de que as terras descobertas pelos paulistas distavam seis dias da Vila do Príncipe do Serro Frio, ao passo que, para a Bahia, a distância não era menor do que vinte dias.217F
218
Já em 1720, o conde de Assumar entendeu que era preciso definir o problema de jurisdição dos sertões: “que se crie um novo governo em São Paulo separado desse das Minas e para se evitar a disputa que há entre os governos da capitania desse estado e ser conveniente a meu serviço se regularem os confins das Minas Gerais com o governo do Rio, da Bahia e Pernambuco”.218F
219
As complicadas divisões judiciárias e administrativas que envolviam as Capitanias da Bahia e a de Minas Gerais foram alvo de preocupações dos governos de Minas Gerais e da Bahia com a descoberta de ouro e pedras preciosas no início do século XVIII. O fato é que a ordem régia de 17 de maio de 1729 determinou que os novos territórios descobertos, Araçuaí e Fanado, ficassem pertencentes à Capitania da Bahia. Em 29 de maio do mesmo ano, expediu-se nova ordem régia criando a Vila de Minas Novas, instalada em outubro, e a vinculava, judicialmente, à comarca do Serro do Frio, e administrativa e militarmente à Capitania da Bahia. As investidas do vice-rei tentavam convencer o monarca de que os sertões de Minas Novas e Serro do Frio, apesar do descontentamento do governador de Minas Gerais, deveriam estar sob juris- dição da Capitania da Bahia: “porque deviam pertencer a esse governo os descobrimentos das minas que o vice-rei do Brasil Vasco Fernandes Cesar de Meneses mandou fazer nos distritos de Araçuaí e Fanados e [...] conservar estas minas a jurisdição do governo da Bahia”.219F
220
Em contrapartida, o governador das Minas, em portaria ao ouvidor do Serro do Frio, ordenou que fossem criadas vilas em Minas Novas do Arassuaí e Fanados, para se inibir as constantes e “repetidas mortes, roubos e insultos que se cometem no sertão desta capitania, por não haver justiça que faça reprimir e castigar os delinquentes”, pois “tem concorrido grande número de pessoas de toda a qualidade e se repetiram várias
218
SOUZA, Benedicto José de. Op. cit. 1981. p. 175.
219
APM. SC 05. 1709-1735. Registro de alvarás, ordens, decretos e cartas régias. Carta régia para dom Pedro de Almeida, Conde de Assumar de 21.02.1720. f. 68v.
220
80 desordens”,220F
221
nas localidades que tem a justiça ausente. A portaria da autoridade de Minas Gerais fez alusão clara de que a Capitania da Bahia não administrava os sertões de forma satisfatória. As descobertas, ocorridas em fins do século XVII, atraíram grande número de aventureiros de todos os pontos da Capitania de Minas Gerais e de outros lugares, pessoas que, segundo o ouvidor, estavam sem o controle da justiça.221F
222
Em 1728, assumindo a causa do governador, o ouvidor do Serro do Frio queixou-se ao monarca português acerca dos problemas de jurisdição solicitando que anexassem as terras de Minas Novas e Serro do Frio à comarca de Minas Gerais. Reconhecendo a ajuda necessária prestada por Mariz no combate aos paulistas, demonstrou não desejar conflito com o superintendente nomeado pelo vice-rei:
impedir se anexarem ao distrito da Bahia os descobrimentos que descobriu Sebastião Leme do Prado por se notória a justiça que pertencem esta comarca e ao governo de V. Exa. [...] seja servido mandar-me com a maior brevidade um cabo com guarda ou cinquenta soldados que só puderam se bater o orgulho dos ditos paulistas porque ainda que por hora nas dos mais que se acham nos dois descobrimentos com os seus índios iam se juntar se mais com o de ser que o do coronel Pedro Leolino lhe prepara o socorro.222F
223
O rei, agindo como árbitro entre o governador de Minas Gerais e o vice-rei, propôs uma alternativa intermediária sem, contudo, interferir no mérito da questão que alimentava a querela entre as autoridades metropolitanas nos trópicos: o pertencimento jurisdicional do norte de Minas Gerais à Capitania da Bahia. Apesar de ter conhecimento que a câmara de Minas Novas distava mais de 200 léguas do sertão que confinava com os da Bahia e Pernambuco, o monarca determinou que fossem criados “dois juizes neste sertão com seus tabeliães [...] um no Papagaio e outro em São Romão”.223F
224
Anos antes, em 1720, o rei enfrentara o mesmo problema nos distritos do noroeste da Capitania de Minas Gerais que resistiram à presença das autoridades régias
221
Anais do arquivo público e museu do Estado da Bahia. Ano V, Vol. VIII. Bahia. Imprensa Oficial do Estado, 1921. Portaria para o ouvidor da comarca do Serro Frio. p. 15.
222
SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do distrito diamantino. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Universidades de São Paulo, 1976. p. 41.
223
APM. SC 17. 1720-1731. Registro de cartas, provisões e patentes régias. Carta do ouvidor do Serro do Frio para o rei. 15.01.1728. f. 171.
224
81 no lugar: “resultou alterarem-se os povos contra o dito ministro impedindo-lhe que fundasse a Vila do Papagaio que vos mandaste criar por expressa ordem”.224F
225
A função exercida pelo monarca, qual seja dirimir os conflitos existentes entre o vice-rei e o governador de Minas Gerais, revelava o quanto era importante para o rei manter os diversos órgãos e poderes de império ultramarino em harmonia e, na medida possível, garantir o desempenho íntegro das funções e competências daqueles que exerciam poderes régios de forma delegada. Ao agir desta maneira, o rei legitimava suas atribuições reais diante de seus súditos, principalmente perante àqueles que eram responsáveis pela garantia do bom governo das conquistas. O poder supremo do monarca exarado nos textos das cartas patentes, ao tempo em que definia a delegação régia a ser recebida, também registrava a confiança real e a limitação do poder outorgado ao merecedor das graças reais, dádiva exclusiva do monarca que, ao outorgar o ofício, expunha as qualidades e as benesses do candidato a um cargo no governo português. A carta patente de governador das Minas recebida por dom Lourenço de Almeida, enumerou os serviços prestados por ele ao rei em diversas partes do império. Seja na Índia, China ou em Pernambuco, as conquistas e vitórias empreendidas constituíram o eixo da justificativa para a mercê doada: “conforme a confiança que faço da sua pessoa hei por bem fazer-lhe merecedor do cargo de governador e capitão geral da Capitania das Minas do Ouro de todo aqueles distritos para que o sirva por tempo de três anos e o mais enquanto lhe não mandar a sucessão”.225F
226
O rei compreendia que as débeis redes de comunicação entre ele e os administradores das conquistas, impediam as autoridades coloniais de esperarem muito tempo por uma resposta real, e por isso, muitas vezes, adiantavam-se medidas que acreditavam estar em acordo com os “interesses reais”. Tal situação pode induzir à crença de que os governadores gozavam de um poder extraordinário, pois “nos regimentos que lhes eram outorgados, estava sempre inserida a cláusula de que poderiam desobedecer às instruções aí dadas sempre que uma avaliação pontual do serviço real o justificasse”.226F
227
Ocorre que nas disputas acerca da administração do norte de Minas, as discordâncias com o vice-rei, em nenhum momento, levaram dom Lourenço a determinar ações que, na prática, representassem insubordinação em relação
225
APM. SC 05. 1709-1735. Registro de alvarás, ordens e cartas régias. Ordem régia de 16.03.1720. f. 68.
226
APM. SC 17. 1720-1731. Registro de cartas, provisões e patentes régias. Carta patente de governador das minas concedida a dom Lourenço de Almeida. Lisboa Ocidental, 23.12.1720. f. 3-4.
227
A constituição do império português. Revisão de alguns enviesamentos correntes. Antônio Manuel Hespanha. In: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda & GOUVÊA, Maria de Fátima. (Orgs.). Op. cit. 2001. p. 163-188. p. 174-175.
82 às orientações do seu superior. As formas díspares de organização social nas colônias, destoantes em relação às vigentes no reino, exigiam releituras variadas dos oficiais régios envolvidos num extenso jogo de interesse que envolvia a todos; nesse caso, o vice-rei e o governador. As exigências cotidianas de um universo cultural fortemente marcado por misturas biológicas e culturais demandavam reinterpretações constantes de práticas de poder exercidas na sede do império.
Pedro Cardim chama a atenção para o cuidado que se deve ter ao se utilizar os conceitos de “administração” e “governo”, mesmo em sociedades que se caracterizam como de antigo regime. Para ele, as atribuições destes ofícios eram bem diferentes do que entendemos atualmente: “o termo administração era sempre usado com um complemento e só raramente surge isolado”, ou seja, o termo aparece sempre associado: “administrar a casa, administrar um sacramento, administrar uma cidade, administrar a