A relevância dos documentos no caso Pinheirinho se remonta ao início da ocupação na região Sul de São José dos Campos em 2004, mesmo que de uma forma diferente da aqui analisada. Os documentos em questão se referem à ação judicial aberta pela massa falida da empresa Selecta S/A — titular do registro de propriedade do terreno que até então se encontrava abandonado — já no primeiro ano de existência da ocupação, em agosto de 2004 (GINJO, 2016). Diversas foram as liminares suspensas com o amparo jurídico fornecido por advogados ligados ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos ao longo dos quase oito anos de existência da ocupação, até que, no dia 16 de janeiro de 2012, milhares de panfletos foram jogados ao longo de todo o terreno do Pinheirinho pelo Helicóptero Águia da Polícia Militar do Estado de São Paulo, trazendo a seguinte mensagem:
Cidadão de bem. A reintegração da área do Pinheirinho é uma decisão da justiça e deverá ser cumprida em breve. A Polícia Militar não deseja qualquer tipo de enfrentamento. Sua colaboração é muito importante para que sua família e seus bens estejam protegidos e em segurança. Procure deixar o local antecipadamente, de maneira voluntária, evitando assim qualquer tipo de desconforto. Estamos comprometidos em proporcionar a segurança e a tranquilidade a você e aos seus familiares. Polícia Militar do Estado de São Paulo, Comando de Policiamento do Interior – 1.60
No mesmo dia, uma ação foi proposta na Justiça Federal — e é apenas nesse momento que essa esfera entra em cena no processo jurídico — para que houvesse a abstenção da ordem de reintegração de posse concedida pela Justiça Estadual, com a alegação de que a União possuía interesse em regularizar o terreno ocupado, expresso no protocolo de intenções assinado
60 Fonte: http://www.ovale.com.br/panfletos-arremessados-pelo-aguia-causam-revolta-no-pinheirinho-
1.207485 (acesso em 22 de setembro de 2016). Foto do panfleto também se encontra no anexo desse texto (Anexo
59 pouco antes (GINJO, 2015, p. 59). Na madrugada do dia seguinte, a liminar de abstenção foi concedida e a reintegração de posse foi novamente suspensa, dando fôlego para que as negociações de regularização do Pinheirinho pudessem continuar. Porém, como já colocado anteriormente, a reintegração de posse de fato veio a ocorrer no dia 22 de janeiro de 2012, ou seja, pouco menos de uma semana após a entrada da Justiça Federal no caso.
Obviamente, o processo jurídico é muito mais amplo e complexo que o descrito aqui, que foi sintetizado apenas para apontar que, no momento em que o terreno ainda estava ocupado, parte da luta dos então moradores do Pinheirinho também se dava através do amparo jurídico de aliados da ocupação; não apenas os advogados do PSTU e do Sindicato dos Metalúrgicos, mas também os defensores públicos estaduais dentro de suas competências legais. As liminares e os recursos eram motivos de apreensão e também de festa pelos moradores, como foi o caso do último agravo, no dia 20 de janeiro, que mantinha a União como polo passivo da ação cautelar, o que significava que a chance de regularização ainda existia; razão de festa para os moradores, mesmo que à beira da concretização da desocupação, poucas dezenas de horas mais tarde.
Esse cenário exemplifica o conceito de violência estrutural, intimamente relacionado não apenas com a existência da pobreza e da desigualdade social, mas também a um aparato estatal que reifica tal situação em suas próprias práticas (GUPTA, 2012), e que é apoiada, em última instância, pela ameaça de violência física (GRAEBER, 2012); violência essa que de fato ocorreu na remoção do Pinheirinho. Tal violência estrutural é tornada visível (GUPTA, 2012), então, através da luta política, que se expressa tanto na própria existência da antiga ocupação — e também na possibilidade do conjunto habitacional em construção — como nas diversas formas de documentos, além de protestos e assembleias realizadas.
Como exposto no início deste capítulo, a relevância dos documentos antes da remoção se dava de uma forma diferente se comparada ao momento posterior, mesmo que ambos os contextos tomassem as casas como centro da disputa, fosse pela permanência nelas ou por suas aquisições no Pinheirinho dos Palmares. Assim como parte da luta na antiga ocupação era suspender as liminares e caminhar para sua regularização, posteriormente parte da luta consistiu, em grande medida, em conseguir os documentos que muitas famílias necessitavam para se enquadrarem nos critérios do Programa Minha Casa Minha Vida.
Para tal propósito, foi em uma instituição do Estado, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que grande parte desses problemas tinha chance de ser resolvida. Tida como uma aliada pelo Movimento, fazendo-se presente desde a época da ocupação, a Defensoria foi o
60 órgão que auxiliou os ex-moradores a terem acesso aos documentos mais complicados de serem obtidos. É, aliás, em seu próprio prédio que se encontra um grande acervo de papéis referente aos processos coletivos e individuais que ainda estão sendo movidos pela DPESP contra a massa falida da Selecta S/A, Governo do Estado de São Paulo e, em alguns casos, a prefeitura. O número desses papéis é tão grande que armários marcados como “Pinheirinho” estão presentes até mesmo nos escritórios dos defensores públicos por falta de espaço no prédio.
Assim, visto que os documentos se movem através de diversos domínios (HULL, 2012b apud KHAN, 2013) de acordo com as características que permeiam cada tipo deles, a luta política envolvia diversas dimensões nas quais diferentes atores sociais agiam, fossem esses os(as) próprios(as) ex-moradores(as) — coordenadores(as) ou não — ou mesmo setores do Estado — como a Defensoria Pública — e até a gestão da prefeitura da época, embora a relação com essa ocorresse, ao mesmo tempo, de enfrentamento, visto que o Movimento colocava suas pautas constantemente para que o maior número de ex-moradores conseguisse obter uma casa no Pinheirinho dos Palmares. Entre os problemas mais frequentes, diferentes modos de resolução poderiam ser viáveis, envolvendo ou não terceiros como a própria Defensoria, como será explorado a seguir.