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Está há dois anos na Rede, iniciou por opção sua com o Berçário II (BII), com crianças na faixa etária de 01 ano e 07 meses a 02 anos e 11 meses.

Sobre discriminação e preconceito recorda-se, que no segundo ano, foi para uma escola no lugar de uma professora, em vaga remanescente, e ficou com o BII,apesar dela ter escolhido o BI,

[...] Mas por uma questão assim da diretora achar [...] um homem no Berçário I, os pais podem não ver com bons olhos, e até também a questão do homem trabalhar com o Berçário I, então ela me colocou para trabalhar com o BII. Ela não perguntou, será que você quer trabalhar no BI? Ela falou para ir para o Berçário II. [...] Ela não viu todo esse processo que eu passei: eu fiz Magistério, participei do Projeto Educriança, fiz Pedagogia. [...] Nem perguntou, será que você tem formação? Você é homem vai para o BII (risos), pelo menos as crianças sabem falar e se houver alguma coisa, algum desrespeito com as crianças, elas vão falar.

Entretanto, esse não foi um fato isolado, aconteceu em outras escolas que trabalhou:

Na primeira escola, quando eu iniciei na Prefeitura, [...] era uma sala mista. Como a escola era nova, eles tiveram que pegar crianças que eram para o BI e eles deixaram no BII e, tinha os bebezinhos, [...] mas por eu ser homem [...] se eu tinha que trocar, era só os meninos. Elas (as professoras) mesmas dividiam, elas mesmas tomavam a frente [...].

Em outra escola esse fato se repete: “[...] eu levava os meninos ao banheiro e as outras professoras, levava as meninas ao banheiro, a não ser que tivesse uma necessidade muito grande [...] Levar no banheiro, trocar, tinha que ser com elas”.

Recorda-se que, já formado no Magistério, trabalhou em uma Creche Conveniada, como volante e, nesta época,

[...] Eu fui o único homem dessa escola. Os pais [...] aceitavam bem. Eu sentia uma certa exclusão da própria equipe. [...] Se alguém tinha que trocar, principalmente o BI, que são os menores, era o pessoal da limpeza, que nem era função delas [...].

Apesar de perceber a discriminação, o professor Alexandre não expõe seu desagrado à equipe escolar. Até mesmo ao relatar sobre o ocorrido, durante a entrevista, sorri e, como ele mesmo diz “sempre deixei quieto, essa coisa de bater de frente, mas eu percebia, mas evitava, para não entrar em discussão”. Entretanto, ao relatar as suas dificuldades nas escolas onde trabalhou, ora com a equipe escolar ora com os pais das crianças que não aceitavam “muito bem” sua presença; inclusive “uma mãe até tirou a filha dela da escola, por uma questão de eu estar na sala” e teve um pai “ele deixou bem claro, eu estava na sala, deu para escutar, não teve pudor em falar: ‘Não quero ele trocando minha filha e nem levando ela no

banheiro (pai)’”; diante dos fatos relatados, sobre esse pai e essa mãe, mostra sua tristeza e inclusive revela “a gente sente frustração, uma coisa chata [...], parece que não; mas marca”.

Sabemos que a incorporação acrítica, portanto, sem reflexão e discussão mais aprofundada das crenças e preconceitos, em que os homens são perigosos e representam uma ameaça para as crianças, muitas vezes, está baseada em alguns casos divulgados pela mídia, e que dificultam a vivência das relações no cotidiano escolar. Por outro lado, como nos lembra Sayão (2005); Ferreira (2008), essa representação que está presente no imaginário de muitas pessoas, tanto dentro como fora da creche, está baseada no poder masculino, que muitas vezes vitimiza mulheres e crianças.

Para evitar atrito com os pais, o professor Alexandre e as professoras combinavam (e ainda combinam, inclusive ressalta dar-se muito bem com a professora com quem trabalha atualmente), ele levava os meninos e elas levavam as meninas ao banheiro “eu fazia a minha função: minha função era educar, cuidar deles também, no processo da creche”. Contudo, declara que no maternal “já tem uma aceitação maior (a presença do professor homem) ou se for no BII, onde a criança está desenvolvendo a fala, a oralidade. [...]. Quanto maior a criança, ela consegue se expressar, [...] falar; quanto menor, há o receio [...]”.

Essa parece ser uma prática “comum”, não só no município de Guarulhos, mas também em São Paulo/ SP, como relatou o professor Gilberto (6.5), com relação à sua experiência na creche, na função de ADI. Além dele, outros professores entrevistados neste estudo resistem a aceitar essa imposição do que podem ou não fazer, uma vez que estão cientes do trabalho a ser realizado, que faz parte da função para a qual foram contratados.

E mesmo com a questão da afetividade “você tem que tomar todo um cuidado”, ressalta e completa, principalmente com as meninas. Segundo o professor, as crianças veem a outra professora pegando uma criança no colo e as outras (crianças) também querem “[...] eu pego cinco minutos, e depois eu falo senta lá, senta com a tia L., que é a minha parceira. Eles veem ela e também querem. E quem está de fora, vê você abraçar uma criança, pensa besteira”.

E conclui,

A verdade é essa, mancha a carreira do profissional. [...] É como eu falei, eu fiz Magistério, eu fiz Pedagogia, fiz Psicopedagogia, estou cursando Educação Física, mas pelo fato de eu ser homem e, infelizmente, a sociedade está sofrendo com o pedófilo, isso mancha a minha carreira, entre aspas; o profissionalismo, porque muitas vezes os pais e até, às vezes, os próprios profissionais da educação acham que eu não sou preparado para atuar com a criança.

A ideia que circula é que as mulheres controlam sua sexualidade ao passo que os homens são incontroláveis, posto que “a sexualidade é algo pertencente ao mundo masculino

e inexistente no feminino”, afirma Sayão (2005, p.189), baseada nos estudos de Williams (1995).

O que vigora é a representação do que é esperado para cada sexo/gênero. Para as mulheres o cuidado e educação dos/as pequeninos/as, já para os homens, é como nos diz o professor Alexandre, que enfatiza que o fato de ser homem vem antes do profissional,

Você estudou, se preparou, é descartado. É homem, você não está preparado para poder trocar, [...] poder ensinar a criança, poder educar, você tem que trabalhar com o cognitivo. Você é um homem, você tem que trabalhar com matemática, com o raciocínio lógico, com a disciplina, isso é muito forte. E você tem que trabalhar com as (crianças) mais velhas – 9, 8 anos.

Quando não é esse olhar para o professor homem como um abusador em potencial é ele enquanto disciplinador:

[...] Tem aquela questão do tradicional, por eu ser professor homem é mais severo, aquela pessoa mais tradicional, a questão do respeito – lei e ordem. [...] Muitas vezes o professor diz assim: ‘está bagunçando vou te levar para o professor Alexandre’, acha que eu sou um carrasco, só de me ver (a criança) vai entrar em pânico, [...] acha porque é homem (...).

A imagem que foi construída ao longo da história sobre os professores do sexo masculino, sustentada pelas ideias do patriarcado, e que predomina no imaginário social ainda hoje, é de um homem autoritário, disciplinador, rígido e controlador do comportamento das crianças, conforme afirmam a totalidade dos professores deste estudo, em contraposição ao “novo homem” e, consequentemente, ao “novo professor” da atualidade.

O professor Alexandre, nos dá um exemplo bastante ilustrativo. Recorda-se de uma mãe que lhe perguntou se ele era pai, quando ele estava entregando as crianças na hora da saída. Ele respondeu que não e quis saber por que a mãe havia lhe feito tal pergunta.

Ela falou: ‘porque o senhor tem UMA PACIÊNCIA!’, ou seja, porque não espera de um homem: ter paciência, falar devagarzinho com a criança, ter um cuidado. Espera-se mais aquela coisa de agressividade, de imposição, de autoritarismo. [...] É o que se espera de um homem. [...] Os pais [...] quando é professor homem [...] a visão é que o homem é mais autoritário, acha que o homem não tem sensibilidade para lidar com a criança, principalmente se for criança de Educação Infantil, criança de creche. Se for de creche então, principalmente, uma criança de um ano, dois anos, três anos, como eles são mais sensíveis, mais delicadeza, acredita que o homem vai ser muito severo, muito bruto para tratar de uma criança, cuidar de uma criança (grifo nosso).

Evidenciando, portanto, o que é representativo na prática docente das mulheres: paciência, carinho e cuidado com as crianças, diferentemente dos homens. Entretanto, quando os professores deste estudo se referem ao trabalho e comportamento das professoras, reforçam as representações a elas associadas, ressaltam o lado maternal, a delicadeza, uma maior aproximação com as crianças na demonstração de carinho como beijar, abraçar. Contudo, alguns deles sentem-se recompensados pela maneira como mantém a ordem em sala de aula.

Aquilo que os diferenciam, para alguns deles, é uma compensação, pois os reafirmam em sua masculinidade.

Questionado se ele sentia mais algum tipo de preconceito, ele diz por ele ser “jovem”, e que acha injusto. Relata que as professoras,

[...] por eu ser homem, mesmo que ainda se eu fosse casado, mas por eu ser solteiro, ainda facilita mais ainda. Elas (professoras) acham que a minha vida é mais fácil. Dizem: “ele tem mãe, tem tudo pronto em casa, chega; comida feita, roupa lavada” [...] tudo é perfeito para mim e, às vezes, acha que eu tenho que me dedicar mais, fazer tais coisas (...).

Em nenhum momento da entrevista o professor faz referência à sua cor/ raça, embora saibamos que o fato de ser negro, não pode ser ignorado e que ficou evidenciado nas diversas manifestações de preconceito e discriminação que foi alvo no decorrer de sua carreira no Magistério. Contudo, não estamos afirmando que só ele sofreu esse tipo de discriminação, mas estamos cientes que este é um fator que não pode e nem deve ser ignorado, dado os estereótipos construídos ano longo da história brasileira sobre a população negra.

Sobre trabalhar em uma profissão considerada feminina, diz sentir-se privilegiado de trabalhar na Educação Infantil, e ter a possibilidade de conhecer “mais as funções tanto de uma mulher cuidar de uma criança, quanto um homem também, ter [...] mais responsabilidade, mais conscientização, [...] essa visão mais sensível”. Contudo, relata sentir- se à margem, “[...] ainda sou um homem no mundo de mulheres [...]”, e não tem a mesma liberdade de uma mulher quanto à demonstração de afeto às crianças.

Acredita que, “talvez, se eu atuasse a partir do Ensino Fundamental, de primeira à quarta-série, ou principalmente no Fundamental II, que geralmente tem um pouco mais de atuação de homens por ser disciplinas; [...] talvez aí eu tivesse mais reconhecimento”.

Para o professor, os homens aprendem a cuidar é na prática “é você ir se despertando com a criança. Eu acho que não é diferente de uma mulher [...] você não tem aquela prática, mas você vai interagindo com a criança e vai se apegando [...] vai se vinculando a ela”.

Sobre o cuidar refere

Cuidar é [...] tanto a questão afetiva [...] como também de manter a higiene da criança. Limpar o nariz da criança, às vezes; “preciso ir ao banheiro”, acompanhar a criança se ela tiver dificuldade, amarrar um sapato, dar essa assistência para a criança. Ensinar para eles quando vai ao banheiro: lavar as mãos, fechar a torneira, você está transmitindo valores. Quando vai ao banheiro, tem que dar a descarga, a questão do cuidar e do educar. Preparar para a vida, conforme está crescendo, tem que ter responsabilidades [...]. É você saber dar autonomia, mas auxiliar.

Não há para o professor uma forma diferenciada de trabalhar com meninos e meninas, para ele “são crianças, eles têm que brincar, divertir-se”. Diz que os meninos, principalmente, se identificam com ele.

Relata gostar muito da sua profissão, e acredita ser uma referência por ser professor homem. Sobre suas práticas pedagógicas, diz interagir com as crianças ao incentivá-los a fazer “bolo, café” e que eles/elas fazem com “monta-monta”. Senta-se com as meninas brincando de boneca e os meninos também vêm brincar, e se oferecem para ser o pai da boneca. Para ele, esta é uma forma de possibilitar que ao vê-lo fazer essas coisas, os meninos também possam fazer e não fiquem tão presos aos estereótipos do que é ser homem.

Pontua que no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), do curso de Pedagogia, falou sobre “referência”, pois durante o estágio que fez em uma escola, no Ensino Fundamental, em uma 4ª série, observou a professora que dividiu meninos e meninas. Segundo ele, a professora determinou para os meninos brincar de bola e para as meninas boneca ou corda. “Não incentivou as meninas a jogar bola, não deu nem chance, nem perguntou”, desta observação surgiu sua iniciativa para escrever o seu TCC.

Com relação a essa temática, Finco (2010a, p.130) afirma,

Se, por um lado, meninas podem ter sua identidade de gênero questionada se praticam futebol, com meninos o mesmo ocorre, se eles não o fazem; se não são fanáticos pelo seu time; se não têm um time. Meninos são como que obrigados a gostar de jogar futebol. Pais, mães, amigos, amigas e até educadores/as exercem uma “pressão social” para que pratiquem essa modalidade. Aqueles que não o fizerem podem ser vistos como femininos.

O professor Alexandre, também escreveu em seu TCC, que a falta de homens no Magistério, deve-se à questão salarial, pois acredita que outros cursos como Engenharia, Administração de Empresas, proporcionaria melhores condições financeiras.

De acordo com vários/as estudiosos/as (CARVALHO, 1996; BUENO, CATANI e SOUZA, 1998; SAYÃO, 2005) os baixos salários pagos, associado ao desprestígio da profissão, é um dos principais obstáculos à adesão dos homens à carreira do Magistério.

Benzer Belgeler