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O ambiente ocupado pelos Pataxó na Bahia no início do século XIX e descrito por Maximiliano nos anos de 1815/17 mencionava matas fechadas, densas florestas, mangues, capoeiras e cerrados. Havia, ainda, um lugar chamado “os Lençóis”, porque, numa ponte

107 rochosa, trechos de areia branca refulgente se intercalam com a relva parecendo assim, do

mar, que brancos lençóis foram aí estendidos. (MAXIMILIANO, 1989, p.173).

Figura 11: Botocudos nas matas do Mucuri.

(MAXIMILIANO, 1989)

Atualmente, a área sob domínio dos Pataxó Setentrionais tem como referência a Aldeia de Barra Velha, localizada no município de Porto Seguro, dentro da área do Parque Nacional do Monte Pascoal. Este ocupa uma área 22.500ha e se estende desde o litoral até o interior baiano, onde o relevo é plano e ondulado, com vegetação caracterizada pela presença de Floresta Ombrófila Densa, Mata Atlântica e vegetação secundária em áreas alagadiças, restinga, mangue e praia. O clima é quente, com temperaturas que chegam a 38⁰C, e úmido, com 1 a 2 meses secos durante o ano. Os solos encontrados na região são o latossolo amarelo distrófico e o podzólico vermelho-amarelo distrófico (IBAMA, 200811).

A caracterização da área de Barra Velha pelos informantes enfatiza o mangue e seus recursos, o relevo plano, a floresta, os rios e o mar (Figura 12a):

Tem o caranguejo no mangue que os índio vive próximo do mangue aqui, e é da onde mais o índio sobrevive é do mangue.(...) O mangue dá sustento pra todo mundo que vive aqui. (Zé Urubaiá)

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108 Mas lá é planície. (Seu Manuel)

os Pataxós eles viviam claro que vivam ali na beira mar, mas eles vivam már da caça. Eles pescavam, caçavam também, pescavam. Maisi, eles viviam mais da floresta, porque sua vida tá mais ligada lá. (...) Mas a floresta muito mais, né. Certo que o mar é a água, né, a água. (Kanátyo)

As frutas tinha o goti, tinha o piquiá, tinha o coco da piaçaba, né, o coco da palmeira, tinha uma batata grande que é do mato também que a gente comia muito né. (Bayara)

A chegada às terras da RI Fazenda Guarani, nas montanhas de Minas Gerais (Figura 12b), causou espanto ao grupo...

Ah, quando cheguemo aqui foi um susto (...) Ah, foi tudo isso né. A gente, aí, os num vamo fica aqui. (...) Aí deixou muita gente nossa lá.

(Véio Duardo)

É, tamo na montanha, num tem, rio né? (Bayara)

Barra Velha / BA

RI Fazenda Guarani /MG

a. Planície litorânea. b. Relevo montanhoso.

Figura 12: Relevo onde foram assentadas as Aldeias na Bahia e em Minas Gerais

Ao que pude observar em campo, poucos eram os que percorriam a RI Guarani, ainda que pelo simples prazer ou curiosidade de conhecer a área. É possível que o relevo montanhoso seja um fator a ser considerado como restritivo para a comunidade e que permanecerá como obstáculo aos movimentos de adaptação do grupo ao novo ambiente. O território efetivamente utlizado pela maior parte dos habitantes da Reserva Guarani se restringia ao entorno do seu próprio domicílio e de seus parentes.

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O choque em função da diferença na paisagem, mas também, pela aparente pobreza do solo devido ao desgaste causado pelo plantio intensivo de café até meados do século passado.

Eu falei: ‘Parente, essa terra aqui é igual um pau duro e, seca desse jeito.’ (...) Então mais eu tava roçando, sem fé né, aí quando foi no mês de setembro pra agosto, nós começamo a fazê as roça. Eu plantei feijão, milho, banana, cana, plantei umas cova de melancia também no quintal. (Bayara)

A orientação de agentes da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e EMATER (Empresa e Assistência Técnica e Extensão Rural) fez da primeira impressão a respeito da baixa fertilidade do solo da Reserva, juntamente com o desconhecimento dos tipos encontrados solo na área da RI e das espécies da flora local, obstáculos superados. A comunidade conseguiu corrigir o solo e cultivar plantas adequadas ao novo ambiente em que se encontravam.

Deu, menina mas eu prantei, nós plantemo, eu mais ela [Branca] dez, dez quilos de feijão. Dez quilos de feijão. Cê credita que nós tiremo, aí deixa eu fazê isso assim, aí eu vou ajudá ocês, porque nós vamo te dá muito feijão, nós tiremo uns oito saco de feijão do quintal, num foi, Branca? E deu feijão que nóis perdimo, num demo conta de colê feijão. É, perdeu feijão. Aí que eu fui disse: ‘Não, a terra é boa mesmo, né. E aí a gente começou a trabalhar, né. Aí a FUNAI mandou as muda de laranja, a gente encheu de laranja aí no quintal, plantamo banana...

(Bayara)

Barra Velha / BA

RI Fazenda Guarani /MG

Aparente fertilidade do solo Aparente exaustão do solo

Figura 13: Aspecto do solo nos dois ambientes ocupados pelo grupo.

O clima foi outro elemento de choque para os novos habitantes da RI Guarani. De acordo com Moran (1994, p.130), os ajustes culturais às condições climáticas ocorrem

110 principalmente por meio de conhecimentos sobre habitação, vestuário e tecnologias que

aumentam o resfriamento e o aquecimento individual. Não foi diferente com o grupo que migrou da Bahia, acostumado a temperaturas elevadas e a um período chuvoso prolongado. Em suas falas, os entrevistados enfatizaram a questão climática, sobretudo em relação à temperatura.

É muito diferente. Faz muito frio, frio demais, estamos até acostumando com o frio, com uma idade dessa, mas já estamos aqui. Mas gosto daqui. (Dª Maria D’Ajuda)

Custou muito a acostumar aqui. (...) Que nós chegamos aqui no tempo do frio mesmo, no mês de julho. (Seu Manuel)

Eu mesmo vim conhecê o que era ropa quando eu tava com treze ano. Nós todo mundo andava todo mundo pelado. A única coisa que nós usava era a roupa na frente, era a tanguinha de, de fibra. De estopa. Era tirada as estopa, aí trançadinha, aí que nós usava, na frente. Lá andava todo mundo pelado. Moça, rapaiz, num tinha maldade ninhuma, né, então que depois de treze ano é que a gente veio conhecê o que era ropa. (...) E...e, nem existia, num existia, hoje eu quero... a gente aqui porque o crima é frio demais né. (Bayara) O clima frio das montanhas de Minas Gerais influenciou diretamente a escolha do vestuário do grupo (Figura 14).

Barra Velha / BA

RI Fazenda Guarani /MG

Referência ao clima, indicado pelo vestuário e pelo tom bronzeado da pele das jovens.

Figura 14: Referência ao clima através do vestuário.

Além do vestuário, as temperaturas mais baixas parecem ter exercido alguma influência sobre os hábitos noturnos dos moradores do local. De alguma forma, o clima mais

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frio que aquele com o qual estavam habituados na Bahia pode ter afetado a sociabilidade do grupo, uma vez que se recolhiam mais cedo às suas casas ou evitavam sair à noite na época do inverno. Ademais, diferente de Barra Velha, após a migração, o grupo passou a necessitar de roupas quentes para suportar temperaturas que podiam atingir mínimas de 8⁰C (IBAMA, 2008). A renda para a compra destas roupas e dos cobertores implicava em um ônus não contabilizado pelos moradores de Barra Velha – certamente é preciso considerar as freqüentes doações que o grupo recebia de visitantes, ONGs e particulares, sobretudo quando saíam para realizar suas palestras nas cidades mais importantes do estado de Minas Gerais.

O regime pluviométrico, aliado ao relevo montanhoso e à escassez de drenagens, consitutíam para o grupo outro elemento de choque em relação ao meio ambiente: a escassez de recursos hídricos (Figura 15).

É, tamo na montanha, num tem, rio né? (Bayara)

Estranhei muito, até a água, porque lá a gente tomava banho à vontade e aqui era pouquinha a água em um caninho, era escassa a água. Tinha que tomar banho no córrego e quando chovia a água ficava da cor desse barro. A gente ter que tomar banho nessa água? Era só barro, a época da chuva, a água fica da cor desse barro. (...) Não tem quem apanhe assim e bebe. Daqui não, porque ela vem dessa matona aí, vem pelo canto; o chefe colocou aquela caixa d’água ali, ela vem de uma mina, lá de cima. (Dª Maria D’Ajuda)

Barra Velha / BA

RI Fazenda Guarani /MG

Recursos hídricos: abundância Recursos hídricos: escassez

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Historicamente, o grupo mantinha uma relação estreita com o mar, o mangue e as áreas encharcadas. A escassez de recursos hídricos com a qual o grupo se deparou em Minas Gerais, pelo menos em relação à abundância a que estavam habituados na aldeia baiana, implicou em uma completa mudança de hábitos da comunidade visando a sua adaptação em termos de hábitos higiênicos, de lazer e de subsistência.

Na perspectiva da Ecologia Humana, a migração do grupo pode ser entendida como uma situação rápida de mudança. Nestas condições, as comunidades humanas reorganizam sua sabedoria acumulada e concedem aos seus membros certo grau de flexibilidade a fim de experimentarem novas formas de resolver os problemas apresentados diante das alterações ambientais (MORAN, 2000). É o caso, dentre outros, da alteração na dieta, nas alternativas de subsistência através de plantios adequados ao novo local, no comércio com as comunidades locais, nas alternativas de cura, na adaptação dos rituais, no resgate da língua e de tradições antigas com vistas à garantia de terra e venda do artesanato em nome da etnia que representam e ainda das viagens através do Estado a fim de lutar pelos seus direitos e revelar sua histórica situação de opressão e discriminação.

Benzer Belgeler