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Hoje foi um dia bastante tenso na escola55. No turno da tarde, iniciei meu expediente fazendo o trabalho habitual de receber os pais e os alunos no portão de entrada da escola. Nesse momento, de início do turno escolar, é possível ver o contexto das famílias, alunos que frequentemente chegam à escola com um parente, com a mãe, sozinhos, enfim. Também é ocasião em que podemos conversar um pouco com as famílias, tirar dúvidas, estar acessíveis a alguma necessidade. No turno da tarde, contudo, muitas vezes esse instante também é bem tenso, isso porque muitos integrantes das gangues do São Rafael e do São Gabriel adentram a escola para procurar algumas alunas com quem mantêm algum relacionamento amoroso.
A tensão inicia-se na própria portaria, pois o senhor que trabalha como porteiro da escola é morador do São Arcanjo, e conhece bem cada um desses jovens. Desde o início da pesquisa, ouvia histórias dessas "visitas" à escola. Muitas vezes, esses jovens queriam apenas conversar com seus afetos, trocar beijos e abraços, mas muitas vezes também a visita tinha um cunho mais íntimo. Por trás da quadra da escola havia um mato que crescera bastante, pois a escola não recebia verba há muito tempo e não tinha como mandar cortá-lo. As alunas e os respectivos jovens usavam esse espaço como uma espécie de "motel". Todos sabiam o que acontecia quando se dirigiam à quadra, mas ninguém, nem direção, nem coordenação, nem professores ou funcionários podia fazer nada para impedir, temiam a represália desses grupos, pois conheciam bem as histórias de morte e violência do bairro.
Nesta tarde, de uma segunda-feira pacata, estava ali, pronta para receber os pais, quando o porteiro avistou ao longe, caminhando em direção à escola, o jovem de 17 anos, que já tinha mais de 50 homicídios com suspeita de serem de sua autoria, Tiaguim. Tinha muita curiosidade de conhecê-lo, mas tudo ocorreu tão rápido e foi um momento tão tenso que não deu tempo de "ligar o nome à pessoa". Primeiro, a reação do seu Manuel foi de tanto susto, que só senti medo, bastante medo. Ele olhou para mim e disse com calma: -Dona Valéria, saia daqui agora. O Tiaguim chefe da gangue do São Gabriel está vindo aí. Saia agora, o negócio vai feder. Eu fiquei nervosa e disse:
-Mas para onde eu vou? O que está acontecendo?
-Vá para banheiro dos professores, não fique na direção pois é perigoso ameaça por lá. O Isaque entrou drogado hoje. É possível que ele venha matá-lo. Saia, saia!
55 Caderno de Campo, 22/04/2013.
Fiz o que ele disse. Ainda tentei procurar Isaque com os olhos enquanto ia ao banheiro. Sentia medo por ele, por mim, pelos alunos. Fiquei muito mal, pois nessa tarde eu era a única pessoa do quadro gestor na escola, já que Zélia e Emília estavam em um curso. Antes mesmo de chegar ao banheiro da sala dos professores, encontrei Isaque sentado em banco próximo, corri e o agarrei pela blusa, disse: -Venha comigo rápido. Ele saiu sem saber o porquê de minha ação, mas me acompanhou. Quando chegamos à sala dos professores, tivemos a seguinte conversa:
- O que está acontecendo?
-Sei não, tá doida, sai dessa tia, o que eu fiz agora?
-Isaque, um tal Tiaguim está aqui na escola, seu Manuel mandou me esconder no banheiro. O que aconteceu?
-Esse arrombado matou meu primo na sexta-feira. Vou vingar a morte dele,
guerreiro de fé. Sabia que tinha que vir armado. E agora?
-Vá para o banheiro, fico aqui com os professores.
Na sala tinha três professoras e o professor Francisco. Eles ouviam assustados minha conversa com Isaque. A professora Amanda interrompeu:
- Eu que não vou ficar aqui para levar bala, pode dispensar minha turma estou indo embora.
-Professora, peço calma, vou sair e conversar com o Tiaguim. Não vamos agir de forma brusca, pois podemos gerar um conflito maior do que é, ok?
Quando saí da sala, tremia de medo. Tentei respirar fundo e me dirigir novamente à portaria. De longe vi o Tiaguim conversando com Lorena e sorrindo bastante. Tentei me acalmar.
Lorena era uma das alunas mais indisciplinadas na escola. Agia como que guiada por uma "revolta pessoal". Em seu histórico também constava uma agressão física a uma professora, brigas com alunas e com alunos da escola. Ela e sua irmã, Karina (mais velha e mais atrasada nos anos escolares, de forma que estudavam na mesma sala) ocupavam um local de poder na escola, assim como Isaque. Percebia que existia um tensão entre eles, principalmente entre Isaque e Karina. Lorena, em contrapartida, gostava bastante de se divertir amorosamente com Isaque; retirei-os do mato por trás da quadra várias vezes.
O contexto familiar de Lorena também revelava alguns dados sobre sua postura na escola. Karina, a irmã mais velha, era saudada por todos os alunos como mais bonita, mais "bem feita de corpo". Ela também tinha um jeito mais calmo, só gritava ou impunha sua figura quando muito necessário. Andava e se portava como uma primeira dama, apesar de ser
a mulher de Cão e não do próprio Tiaguim, que era o chefe da gangue. Cão, entretanto, também assumia sua posição de destaque no grupo, uma vez que era ele quem orquestrava os planos de vingança e o levantamento de dinheiro por diversas vias nas atividades ilícitas, tendo o tráfico como principal ocupação, mas viabilizando redes de assalto a residências, roubos, aluguel de armas, montagem e receptação de produtos roubados, enfim.
A postura de Karina era enfatizada pelo contexto familiar. A mãe havia se casado muito jovem com um comerciante local do São Arcanjo. Seu comércio era o mais "fornido" no São Gabriel, segundo os moradores. Ele era um homem bem mais velho do que ela, cerca de 20 anos. Teve Karina aos 16 anos. Logo em seguida, cerca de três anos depois, se sentia muito só, cuidava da filha como de uma boneca, mas não via tempo para cuidar dela mesma. O marido também pouco tempo dedicava tanto à educação da filha quanto aos cuidados com a mãe. Nesse ínterim, conheceu um dos ajudantes do comércio, que vez por outra subia à sua residência, que ficava acima do estabelecimento, para deixar mantimentos a mando do marido. Nisso começou um relacionamento escondido que resultou na gravidez de Lorena. A princípio, a mãe ainda quis disfarçar que a filha era do marido, mas, como não mantinham relações, ele logo soube que não se tratava de um filho dele.
Para não acabar com a vida da mãe de sua filha, aceitou deixá-la em casa a cuidar das meninas, mas avisou que assumiria o romance com outra mulher, sem se preocupar com ela; assim, para o São Arcanjo, ela seria a "corna" e não ele (segundo relatos dos funcionários da escola, que moravam no São Arcanjo e sabiam do relacionamento da mãe de Karina com o ajudante). Karina cresceu com direito a tudo o que queria. Lorena ficava com o que sobrava da irmã. Em casa, o pai nem olhar para ela conseguia. Cresceu com ódio da situação. Também era visível a diferença física em relação a Karina, nem pareciam irmãs, apesar de Lorena ser muito bonita também. Certa vez, desabafou comigo: [...] eu nunca tive amor nessa vida, sei
que é isso não, por isso eu brinco com os homi tudo, não me apego a ninguém.
Aproximei-me deles. Seu Manuel me olhava como que se pedisse que voltasse. Perguntei a Tiaguim:
-Tudo bem? Posso lhe ajudar?
-Tudo bem, tia. A senhora me ajuda se liberar essa moça aqui, vim só buscar ela, pode ser?
Fiquei numa saia justa. Como coordenadora, não podia liberar uma aluna que já havia adentrado a escola, só com a autorização dos pais. Falei então:
- João Tiago.
-Olha, João Tiago, posso liberar ela às 5 horas, porque não vem buscá-la no final da aula?
-Só posso pegar ela agora, tenho umas paradas aí pra agilizar.
-Gostaria de te ajudar, mas não posso. Se ela não tivesse entrado na escola, mas ela entrou, só com a autorização de um responsável dela. Ajude-me. Faça assim: mande alguém de sua confiança pegar ela no fim da aula. Pode ser?
-Certo Tia... gostei da tia, pode crer, vou fazer isso tia. Valeu.
Deu um beijo em Lorena e se despediu de todos, inclusive do seu Manuel. Lorena, entretanto, virou para mim e disse:
-Mas tu é maior sujeira mermo, sai da minha frente.
Seu Manuel esperou que os dois se afastassem e também me repreendeu:
-Mas Dona Valéria, a senhora perdeu o juízo. Ele não tá aqui por causa da Lorena não! Ele quer matar o Isaque. Sexta mataram o primo do Isaque, que era chefe da gangue do São Rafael e agora a briga tá na tomada da boca. Para isso precisam matar mais umas pessoas como o irmão do Isaque, ele e outros integrantes da família dele.
-Seu Manuel, me ajude, como posso tirar o Isaque da escola? Não quero sua morte.
-Sei não... num me meto nisso não... converse com a Lorena, acho que ela pode ter uma solução.
Na minha cabeça, o melhor era chamar a polícia, mas seu Manuel disse que só nos colocaria em mais perigo. Procurei Lorena. A conversa foi assim:
-Lorena, se desarme e vamos conversar. Você gosta do Isaque não gosta? -Sai daí doida... Nan, gosto de ninguém não, só de mim.
-Mas eu sei que vocês têm alguma coisa, por que não me ajuda a ajudá-lo? -Porque vai sobrar pra mim.
-Me explique por quê?
-É o seguinte. Eu e Karina mora no São Gabriel. Quem mora lá não pode andar no São Rafael, nem se meter com ninguém de lá, pois nós é envolvida com o movimento que rola lá no São Gabriel. Karina é mulher do "Cão", eu tenho um lance com Tiaguim, porque não me prendo com ninguém, eu gosto é de curtir, mas trabalho na firma lá. Já Isaque é fiel do irmão David, e também trabalha na firma, só que na do São Rafael. Então, a gente não pode ter nada, por isso a gente só faz as coisa aqui na escola. Mas sexta mataram o primo do Isaque, que manda lá no São Rafael; agora Tiaguim e o Cão querem a boca lá do São Rafael, pra
mostrar que manda em tudo e vão matar mais gente. Sábado aconteceu um problema pro lado do Isaque. Ele queria me pegá aí mandou um menino me chamar, mas o Fabim, que ajuda o Tiaguim na endolação viu o menino dando o recado, ele acha que foi o David que mandou me chamá, já tive uma história nas moita com ele também. Daí o Fabim e o Tiaguim desceram lá no São Rafael pra matar o David, mas o Isaque e outros amigos dele lá deram rajada neles, foi
sal nos pirangueiro, que recuaram. Agora eu tenho que ficá na minha; se ele descobre que já
fiquei com os cara me mata também.
-Mas ele está aqui para matar o Isaque?
-Não sei, disse que vinha me vê. Mas quer se amostrar pra mostrar que não tem medo dos cara, que ele mostra a cara, que anda armado, que mata o Doca e ainda mostra a cara. Que manda em tudo. Sabe a mãe da Vanessa? Pois é, ela tá presa, encontraram as armas da firma na casa dela.
-Ela também trabalha para firma?
-Não. Os cara pediram e ela guardou, porque a firma compra muita coisa no comércio dela, aí ela faz esse favor pra gente, mas ela se arrombou. O pai da gente também tem um comércio, maior do que o da mãe dela, pois vende mais variedade, a gente também guarda arma lá em casa, eu mesma já aluguei um oitão maneiro pra agilizar as paradas – risos.
Lorena estava mais distraída com a conversa, ficou até simpática, coisa muito difícil se tratando dela.
-Lorena, como eu tiro o Isaque da escola sem que eles vejam?
-Pede pra ele pular o muro pelo lado da casa do Joaquim, lá é um sítio, ele sabe se entocar.
Isaque fugiu conforme a orientação de Lorena. Durante o resto da tarde, o clima foi bastante tenso. Senti a pressão dos professores que exigiam o fim da aula. Mas segurei firme. Às 16 horas, uma hora antes do termino da aula, Tiaguim mandou Fabim pegar Lorena na escola. Eu a liberei. Não poderia novamente impor a minha fala sobre a dele. Ali também ele exercia "poder", afinal o que a escola podia contra ele?
*
No dia 26 de abril de 2013, estava na portaria da escola recebendo os alunos, guando a mãe da aluna Vanessa veio deixá-la na escola. A aluna Vanessa é uma menina muito esperta e muito querida na escola. Seu destaque é sempre procurar ajudar os alunos com
deficiência, isso porque seu melhor amigo é Milton, um menino de sua sala que tem um autismo severo. Além disso, ela gosta de dançar, brincar, é muito esperta, faz parte de um projeto social conhecido na cidade de Fortaleza, que forma bailarinas profissionais, EDISCA56 , um sonho para quase todas as meninas como ela. Neste dia, imediatamente me veio à mente a história de Lorena. Confesso que não cheguei a acreditar no que ela disse, percebia da parte dela uma inveja de Vanessa, como que uma disputa pessoal. A mãe de Vanessa, Fátima, parou para conversar comigo como habitualmente. Senti a oportunidade de verificar até onde o que Lorena me contou era verdade. Disse que percebi que ela nunca mais tinha deixado Vanessa na escola, perguntei se estava doente. A princípio, desconversou, mas admitiu que se meteu em uma encrenca por causa da filha mais velha.
-Tia tu num sabe em que a gente se mete por causa de filho. Desde que Jaqueline começou o namoro com o Fabim é uma encrenca atrás da outra. Pois tu me acredita que essa menina levou uma arma para esconder lá em casa, aí o Fabim quis matar o David lá do São Rafael, irmão do Isaque, a polícia apareceu na quebrada e pegou ele com minha filha, deu uma prensa nele que admitiu que a arma tava na minha casa. Daí fui detida, acusada e enquadrada por porte de arma. Mas o Tiaguim mandou uns cara dar uma grana aos soldados, dai me soltaram no dia seguinte. Fiquei com tanta vergonha que só hoje saí de casa.
- Nossa, que difícil!
-A senhora não sabe o que é isso, sempre trabalhei, minha vida toda, nunca me envolvi com vagabundo. O pai das meninas jogava, mas num era envolvido, morreu de acidente, num foi negócio de droga não. Aí ficar detida em delegacia que nem pirangueiro... Eu já dei conselho pra ela que isso num é namoro, que esse menino é gente boa, mas vai morrer que nem os outros e pior vai levar ela junto. Eu já cuido da filha dela, mas já pensou se ela morre a menina vai sentir falta, né? Num sei que acontece com ela só quer se envolver com pirangueiro, quando vê um com uma arma parece que fica doida, aí é que ela quer.
- Como se envolveu ela com o Fabim?
-Tia "os menino", o Fabim, o Tiaguim e outros tudo anda lá no meu comercio para comprar dindim e outras coisas. Também o Tiaguim já me ajudou muito pagando gente pra não fechar o comércio. Daí as meninas conhece eles, cresceram bem dizer juntos, brincavam juntos na rua, elas gostam deles, acham legal, aí começa tudo. Ainda bem que Vanessa num
56 EDISCA é uma organização não governamental sem fins lucrativos, que desde 1991, vem promovendo o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens que se encontram em circunstâncias de vulnerabilidade social, por meio de uma educação interdimensional com centralidade na arte. Fonte: http://edisca.org.br/site/. Acesso e: 03/08/2015.
quer essa vida, só quer saber das dança dela, diz que vai estudar, vai trabalhar em um escritório e vai ser bailarina, já pensou tia? Tu acha que ela consegue?
-Consegue sim. Ela vai longe.