A pesquisa foi realizada em três momentos: planejamento, preparação no contexto da instituição e implementação.
No primeiro momento, utilizei meu referencial teórico-prático para elaborar a proposta Jogos espontâneo-criativos nos processos de comunicação, autonomia e integração, com objetivos, temas, procedimentos, jogos, recursos materiais, além
dos eixos constitutivos e avaliativos, base para as categorias de análise da pesquisa (Anexo 1).
Na fase de preparação, em primeiro lugar foi solicitado o consentimento da diretora para a efetivação da pesquisa, através de um ofício à instituição.
Com a aprovação da diretora, foi realizada uma reunião para a constituição da equipe de pesquisa e para o planejamento. Na reunião confirmou-se a decisão de incluir cinco famílias no grupo e de manter o critério da primeira etapa de seleção, segundo o qual a família deveria residir na Região Metropolitana. Dois jovens internos da Ala B – atendidos individualmente pela psicóloga e assistente social da equipe de apoio – que residiam na referida região ficaram como possíveis participantes da pesquisa. Nessa mesma reunião, a equipe assumiu o compromisso de estudar o projeto e de participar de todas as reuniões previstas.
O passo seguinte foi a apresentação do projeto à equipe técnica do Educandário, com o objetivo de compartilhar a proposta e de buscar o apoio da equipe para sua realização. O projeto foi aprovado e, após encaminhamento de convite de participação aos técnicos da instituição, três deles, que tinham sob sua responsabilidade três jovens da Ala B, residentes na Região Metropolitana, concordaram em ser participantes da pesquisa.
Quanto aos aspectos éticos da pesquisa, foram encaminhados e aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUC – São Paulo.
Os cinco jovens do Educandário, previamente selecionados, foram convidados pelos técnicos responsáveis pelo atendimento individual. Os adolescentes aceitaram a proposta e foram liberados para fazer o convite às suas famílias, as quais concordaram.
Em seguida, cada técnico responsável telefonou para a família explicando o projeto, colocando as normas da instituição para a realização da pesquisa e informando que os ganhos das famílias seriam relativos ao desenvolvimento familiar e não à avaliação do adolescente. A inscrição foi confirmada no momento em que o adolescente e seus familiares aceitaram voluntariamente participar do processo e de seguir suas normas. As cinco famílias convidadas aderiram ao projeto.
Foi incluída no grupo mais uma família por pedido insistente de adolescente que já havia participado do projeto anterior e que, naquele momento, vivia uma situação muito difícil no Educandário. Por problemas com doenças não houve compromisso formal dessa família de participar dos encontros. A inclusão foi realizada por opção do pesquisador, devido à necessidade e ao desejo desse jovem de vivenciar a proposta e de ter o apoio de um grupo de famílias.
Assim, o critério de seleção para a participação na pesquisa foi a família residir numa Região Metropolitana. Foram condições técnicas: prévio consentimento do técnico responsável pelo atendimento individual do jovem, compromisso dos técnicos envolvidos de participarem de reuniões de pesquisa, de modo a estarem acompanhando os processos das famílias de seus atendidos.
Depois de algumas reflexões sobre a experiência anterior, no projeto de Socialização de famílias, foi elaborado um texto com as regras e as normas de funcionamento da proposta com o grupo multifamiliar na instituição, as quais se destinavam a todos os participantes e foram implementadas durante a pesquisa de campo. Dividem-se em normas relativas à segurança, para o funcionamento do grupo dentro da instituição, e normas e orientações para o funcionamento do grupo multifamiliar durante os encontros.
a) Normas relativas à segurança, para o funcionamento do grupo dentro da instituição:
Para entrar na instituição, as famílias deveriam passar pela revista individual. Cada família teria o direito de se apresentar no encontro com, no máximo, cinco membros: o jovem interno e mais quatro de fora.
Era vedado à família trazer alimentos para os jovens internos. Nas visitas aos domingos, isso era permitido.
Durante os encontros, era proibido aos adolescentes e às famílias saírem da sala e permanecerem no pátio interno da instituição.
b) Normas e orientações derivadas da experiência e da reflexão da coordenação nos dois anos de implementação do projeto de Socialização de famílias:
Não existiria nenhuma vantagem adicional para os jovens, em termos de notas ou pontos no relatório de avaliação de desempenho no Educandário. Esse relatório é o instrumento que oferece dados e considerações dos técnicos da instituição para o Juizado responsável pelos casos. O ganho das famílias que participassem seria a possibilidade de desenvolvimento, referenciada nos objetivos da pesquisa e, para cada uma delas, a vivência e reflexão de encontros familiares quinzenais e de encontros com outras famílias na mesma situação. Essa norma tinha dois objetivos: impossibilitar a participação da família que quisesse apenas acelerar o processo de desinternamento do jovem, além de oferecer mais liberdade às famílias quanto à freqüência (presença ou ausência) aos encontros.
A família definia quais de seus membros viriam ao encontro, inclusive crianças de qualquer idade.
Haveria sempre um tempo para a família se reunir e conversar um pouco, no início do encontro, considerando a situação de separação e considerando o fortalecimento das fronteiras e da identidade da família.
Caso acontecesse isolamento do interno, por transgressão às regras da instituição, a família participaria normalmente do encontro.
Se a família não comparecesse, o jovem participaria, escolhendo uma das famílias presentes que aceitasse acolhê-lo.
Quanto à chegada dos adolescentes: alguns minutos antes do início do grupo, uma das técnicas fornecia a lista dos jovens participantes ao funcionário responsável pela Ala B, onde estavam internados, que os encaminhava para a sala, independentemente da chegada da respectiva família.
As pessoas teriam liberdade de sair à hora que quisessem. Apenas necessitavam avisar um pouco antes, para que um funcionário as acompanhasse até a saída.
A regra era que os familiares seriam acolhidos com afeto em qualquer hora que conseguissem chegar. Foi combinado um posicionamento claro da equipe de iniciar o encontro no horário previsto. Sempre haveria flexibilidade no início, tendo em vista atrasos dos ônibus e demora nos procedimentos de revista. Quanto ao horário de término, como seria oportunidade de trabalhar limites, haveria mais rigor.
No terceiro momento, realizamos a intervenção sistêmica de 12 encontros quinzenais com o grupo multifamiliar, implementando a proposta Jogos espontâneo- criativos nos processos de comunicação, autonomia e integração, composta por um conjunto sistematizado de objetivos, temas, jogos espontâneo-criativos, selecionados como facilitadores do desenvolvimento do grupo multifamiliar e como auxiliadores do processo de reflexão da pesquisa, de acordo com as categorias de análise. Tais categorias são derivadas dos eixos constitutivos e avaliativos da proposta e serão apresentados a seguir, no item 2.6. Durante a implementação, os jogos foram complementados por outros criados ou escolhidos pelas famílias. Para contextualizar a proposta, é preciso esclarecer que cada encontro teve os seguintes momentos: A) conversa inicial e jogos para iniciar a relação do grupo; B) espaço para os jogos das famílias (espaço de expressão de necessidades, interesses, conflitos, dificuldades), assim como estratégias para caminhar no seu desenvolvimento; C) espaço para jogos escolhidos com o objetivo de validar e ampliar os jogos propostos pelas famílias, na visão da coordenação; D) espaço para reflexão e compartilhamento verbal grupal sobre a vivência; E) jogos-tema (visão da família, histórias da família – estrutura, brincadeiras e outras –, comunicação consigo e com o outro, história da potência da família, dinâmica das relações familiares e grupais, padrão de relação e novas estratégias de relação); F) reflexão e compartilhamento verbal grupal sobre o encontro; G) espaço para a família definir a atividade de fechamento. Tal seqüência é flexível, pois depende do andamento do processo do grupo multifamiliar.
O contexto lúdico, promovido com o auxílio das regras dos jogos espontâneo-criativos, dinamizado pela ação e postura da coordenação, a qual tem a função de trabalhar dentro dos eixos constitutivos e avaliativos, caracteriza, compõe e diferencia a proposta. Todos os encontros foram registrados em vídeo, e os diálogos foram transcritos. O registro foi completado por fotografias. Alguns encontros também foram gravados em áudio e transcritos para estudo. Todas as famílias assinaram voluntariamente o termo de consentimento livre e informado para as gravações. Nenhum participante manifestou qualquer tipo de restrição às filmagens e fotografias.
Foi designada uma sala com espaço livre, no próprio pavilhão onde os adolescentes estavam alocados, preparada especificamente para o projeto anterior, com cadeiras removíveis. Depois do quinto encontro, como houve maciça participação das famílias, com média de 16 participantes por encontro, a instituição liberou outra sala, mais ampla e mais adequada para a proposta, em outro pavilhão.
Simultaneamente, aconteceram, uma hora antes de cada encontro, 13 reuniões dialogadas de avaliação e de discussão do planejamento com a equipe de apoio e com os 3 técnicos responsáveis pelo atendimento individual de 3 dos jovens. Por motivo de compromissos dentro da instituição, os técnicos puderam comparecer somente a algumas reuniões. A equipe tentou compensar essa dificuldade trocando informações de modo individual sempre que foi possível.
Foram realizadas mais três reuniões com toda a equipe técnica do Educandário: a primeira, de apresentação e discussão do projeto; a segunda, de acompanhamento, no tempo do sexto encontro, e a reunião final, incluindo uma primeira reflexão sobre o processo do grupo multifamiliar e levantando dados da instituição sobre os ecos do projeto.
Devido ao interesse da direção em relação ao andamento da pesquisa, aconteceram encontros de periodicidade mensal entre a equipe de coordenação e a direção, com troca de informações sobre o andamento do grupo multifamiliar e o comportamento dos jovens na instituição. Vale ressaltar que a direção do Educandário durante todo o tempo deu amplo apoio à pesquisa e à equipe responsável pelo trabalho com as famílias.
Quanto à participação da equipe de apoio, aconteceu em todos os momentos: planejamento, implementação e reflexão. Igualmente, toda a equipe sempre fez parte, juntamente com o grupo multifamiliar, da avaliação final de cada encontro.
Combinamos que a cada encontro se faria um rodízio entre os técnicos, para auxiliar a dinamizar o processo de entrada da família na instituição, normalmente demorado, devido às normas de segurança (revistas), e a manter o horário de início do grupo. Da mesma forma, conjuntamente determinamos que, em rodízio, uma das pessoas ficaria responsável pela filmagem em vídeo e as outras duas participariam
do encontro, assessorando-me: falando, refletindo, jogando, avaliando. A equipe de apoio sempre viu sua participação como processo ou possibilidade de crescimento pessoal-profissional e esse projeto como auxílio ao reconhecimento do projeto de Socialização de famílias pela instituição. Vale ressaltar que a participação nos encontros era considerada uma opção pessoal dos técnicos envolvidos, que não tiveram redução de seus encargos.
Considerando a importância das relações entre pesquisadores e pesquisados e a importância das minhas relações com a equipe de apoio, foi objetivo do grupo de coordenação manter-se sintonizado, em processo de desenvolvimento da autonomia e integração do SER e do PERTENCER (KOESTLER, 1981) enfatizando e reconhecendo o valor da ajuda mútua, nas ações de cuidar-se, cuidar do outro e permitir que o outro cuidasse de si. Desse modo, buscou-se sustentabilidade, evolução compartilhada e fluidez na interação da equipe e, na medida do possível, com a instituição, no sentido de interdependência, autonomia e integração. Assim, foram realizadas, no meu espaço profissional, reuniões mensais, de duas horas, de reflexão sobre as relações dos pesquisadores com o grupo e sobre as repercussões da pesquisa no trabalho e na vida do grupo de coordenação. Em todas as reuniões, foi utilizada a metodologia dos jogos espontâneo-criativos, dentro do possível – muitas vezes apenas por 15 minutos do tempo de uma hora disponível.
A maioria das reuniões com os profissionais foram gravadas em vídeo ou em fita cassete.
Foram planejados dez encontros, em intervalos quinzenais, com duração aproximada de duas horas, nas terças-feiras. Por pedido insistente de um adolescente, confirmado pelo grupo, foram realizados mais 2 encontros, em intervalos quinzenais, ampliando o projeto para 12 encontros. Após o término, aconteceram mais 2 encontros de acompanhamento, com espaço de 30 e de 45 dias respectivamente, os quais não foram incluídos na análise da pesquisa.
Após o término da pesquisa de campo, marquei uma entrevista com a juíza da Vara da Criança e do Adolescente, buscando orientação quanto ao modo ético de publicação das fotos e vídeo do grupo. Apresentei os termos de consentimento assinados pelas famílias e alguns critérios técnicos optativos para a não-
identificação dos participantes. Após conhecer o projeto e assistir à fita de vídeo do primeiro encontro, juntamente com outras autoridades, sugeriu a mim o encaminhamento de petição de providências – autos sob n.º 009/23004 – ao Judiciário, para autorização da publicação das fotos e imagens de vídeo, dirigida ao meio científico, utilizando para isso nomes fictícios. O pedido foi deferido em 4 de junho de 2004.
2.5 RECURSOS MATERIAIS