“Eu não quero meu filho para chorão. Hei de ensiná-lo a ser valente. Não sabes que o assassino é respeitado e temido? Não quero que chores. Quem é homem não chora; quem é homem faz chorar”. (TÁVORA, 2001:46).
Na linguagem da pistolagem, “lamber a rapadura” representa, em um primeiro instante, simplesmente um período de espera. A espera é relacionada a dois instantes, no primeiro é a espera que as pessoas interessadas têm, na socialização do menino até vir a ser um pistoleiro. No segundo instante, é a espera do pistoleiro pelo momento ideal para abater sua vítima.
O significado simbólico, para os dois momentos, é que, tanto o menino que não pode ainda “morder a rapadura”, fica “lambendo-a” até nascerem seus dentes, portanto, esperando nascer os dentes, quanto o matador, que não pode ainda atacar a sua vítima, não pode, também, simbolicamente, dar “dentadas na rapadura”.
O que desenvolvo desde o início deste capítulo se relaciona com o primeiro período de espera, a formação e conformação do habitus de pistoleiro ou a produção do “homem”, no sentido aqui já explicado.
De entrevistas que fiz com alguns delegados de polícia civil, extraí o seguinte trecho, em que um deles explica o que é “lamber a rapadura”127
Este processo lembra o relato do Padre e das três mulheres sobre Jorge .
Fulano é machão, atira bem, não tem medo de ninguém e já matou um. Então aquele dali eles ficavam observando A trajetória do garoto desde pequeno, 16 anos de idade, como foi o caso do Mainha, ele começou muito jovem, começou antes de completar a maioridade, matou um e disseram: “Olha, esse menino tem futuro, ele será o substituto de Nilson Cunha”. O tio dele. Talharam o Mainha exatamente para aquilo, pra substituir o Nilson Cunha que já estava um tanto velho não era mais aquele pistoleiro de antigamente (Entrevista realizada em 19/05/2006).
128 , e também de Mainha, que, desde cedo, segundo o relato, foi socializado para ser um matador. Foram socializados, em um trabalho contínuo de “virilização” (e, logo, “desfeminização”), procurando sensibilizar o menino com valores como a honra e a lealdade e com a violência gratificada129
Outro exemplo contundente é o de Damião Fernandes da Silva (nome verdadeiro)
como um “serviço”, ou uma proteção.
130
Meu encontro com Damião ocorreu no parlatório do presídio IPPS. No parlatório, Damião estava atrás de grades e de uma forte tela de ferro. Entre mim e ele uma pequena mesa de alvenaria. Damião, apesar de algemado e de estar atrás de grades e telas, ainda estava algemado com as mãos para trás e não havia cadeira para ele se sentar. O calor estava muito forte naquele dia, o suor corria no rosto dele. Isso o obrigava a fazer um verdadeiro contorcionismo com sua perna para enxugar o suor do seu rosto. Senti-me incomodado com aquela situação, pois do meu lado estava razoavelmente ventilado e havia uma cadeira de
, 45 anos, que se encontra preso no IPPS, condenado a mais de 219 anos de prisão por crimes de homicídio, sendo a maioria de pistolagem. Damião foi capturado pela polícia em 1997, na cidade de Icó (370 km de Fortaleza).
Ex-pistoleiro assumido, Damião hoje é pastor de uma igreja evangélica e no presídio ele fica na “ala dos irmãos”. Tive encontros com Damião, ou “Cícero”, como era conhecido quando pistoleiro. Tomei conhecimento de Damião em matérias de jornais locais sobre os crimes que ele havia cometido e cheguei a ele através de pedido formulado a COSIPE.
127
Os nomes, no tópico 3.4, não sofreram modificações.
128
A entrevista referida encontra-se no item 3.1.
129
Lembrando as palavras do padre Pedro em relação à socialização de Jorge: “dizem que cada vez que o menino via um crime o padrinho dele dava um agrado a ele, um dinheiro, uma roupa nova, uma rês...”.
130
plástico. Expressei a ele meu incômodo e ele me respondeu: “Eu tenho que ficar assim mesmo; eu sou muito perigoso” (anotação de campo).
Levei para essa entrevista uma máquina fotográfica, um gravador, bloco de notas, canetas e alguns jornais com matérias sobre ele. Damião aceitou que eu fotografasse, gravasse e confessou ex-pistoleiro arrependido do seu passado. As entrevistas foram de vez em quando interrompidas, porque Damião começava a chorar. Ao final do segundo dia de entrevistas, Damião pediu que fizesse cópia das matérias dos jornais a fim de que ele mostrasse aos outros presos as matérias de jornal que falavam sobre ele. Abaixo uma foto de Damião no momento da entrevista.
Figura 24 - Damião durante a entrevista no IPPS
Damião me contou todo o processo de sua construção social na qualidade de pistoleiro. A transcrição da entrevista com Damião rendeu 79 páginas de informações sobre sua vida. A narrativa lembrou, em parte, o relato que padre Pedro havia feito sobre a formação de Jorge131
O fazendeiro tinha os pistoleiros dele. E eu comecei a andar com ele, e aí ele começou a me instruir e me ensinar a atirar. Quando ele ia fazer os seus delitos de pistolagem eu o acompanhava. Só que eu não praticava, mas fui vendo a maneira
. Vejamos como o próprio Damião descreve esse período:
Eu estou respondendo por vários crimes. E só tem um crime que eu respondo que não foi de pistolagem. Mas, infelizmente, eu me envolvi na vida do crime logo cedo, ali na cidade Lavras de Mangabeira. Eu sou filho de um homem pobre, muito direito, um agricultor pobre [...] nós fomos com um fazendeiro. Meu pai trabalhava com ele, mas nós não sabíamos que ele praticava crime de pistolagem. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Damião narrou o processo de aproximação que o fazendeiro teve dele e, também como foi se criando nele o gosto pelas armas de fogo.
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como eles agiam. Ele foi me levando para que eu visse os crimes que ele cometia. Ele matava judiando as pessoas, cortando os pedaços. Algo terrível de se ver. Ele mandou matar o sogro por causa de problema de terra. E eu fui vendo tudo aquilo, me envolvendo até começar a matar também. Eu vi aquilo até me tornar um homem perigoso. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Em um processo simples, o fazendeiro fez com que Damião “naturalizasse” aquele tipo de morte. Ele, sem nada questionar (até por se tratar de uma criança filha de pais pobres, que eram empregados daquele fazendeiro) via os crimes à noite e treinava tiros durante o dia. O fazendeiro o disciplinava para tornar-se um pistoleiro. “Um dia, o fazendeiro mandou matar aqueles pistoleiros que faziam serviço para ele. Foi uma queima de arquivo. Aí eu assumi o lugar dos pistoleiros”. (Trecho da entrevista realizada em 13/05/2004).
Damião me contou que apesar de sua família trabalhar muito para o fazendeiro, a família dele era muito pobre. Damião cresceu sem estudo. O fazendiero, no entanto, lhe presenteava com bicicleta, roupas, dinheiro e até cavalo de vaquejada. Damião vê, atualmente, que aquela era a maneira que o fazendeiro arranjou para lhe agradar e ganhar sua confiança. “Eu não sabia que o interesse dele era me levar para a carreira da pistolagem”. (Trecho da entrevista realizada em 13/05/2004).
Com 12 anos comecei a atirar junto com o fazendeiro. Eu achava bonito ter armas. Eu usava revolver calibre 38, espingarda 12, 44, aqueles rifles antigos. E com 12 anos mesmo eu já possuía dois revólveres e não conseguia dormir sem uma arma dentro de casa. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Ele confessou que seu pai não tinha conhecimento do que estava ocorrendo com ele, não sabia que o fazendeiro o estava transformando em um pistoleiro. Em pausas da entrevista, Damião repetia: “Eu atirava muito bem naquele tempo”.
Eu participava de quase tudo com aquele fazendeiro. Eu via os pistoleiros dele matar, eu via os esquemas, andava com eles para todo canto depois da meia noite, e ouvia-os planejando os crimes. Estava junto deles e via como eles faziam a pistolagem. O fazendeiro me mostrava e dizia para eu prestar atenção. Depois ele me falou que estava me envolvendo na pistolagem porque estava me instruindo, ele estava me ensinando. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Quando estava aprendendo a atirar, ele ainda era tão novo (12 anos), que o tinha dificuldades com o “coice” das armas, o recuo que elas provocam no momento do disparo.
Com 12 anos, quando eu atirava as armas davam um coice muito grande e me balançava, quase me derrubava no chão. Porque quando se dá um tiro de 12, a arma dá um sopapo grande e eu era muito novo, não controlava ainda o sopapo. Mas fui me acostumando. Mas eu atirava muito bem. Com 15 anos eu já atirava tão bem que chamou a atenção do fazendeiro. Eu atirava muito naquela região. Eu jogava um limão para cima e cortava ao meio. Eu atirava muito mesmo, o senhor não imagina.
Porque eu gastava 200 balas por mês com esse fazendeiro só treinando. Atirava demais. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
A história de Damião é muito parecida com outras que me contaram e que ouvi dizer. Damião estava “lambendo a rapadura”, como dizem no sertão, sentindo criando a vontade de matar, vendo pessoas serem assassinadas.
Ele não confiava em todo mundo. Ele via que o meu pai era um homem direito e também achava que eu não iria falar nada para ninguém. E foi me ensinando desde criança para que eu achasse aqueles crimes uma coisa normal. Eu me tornei um homem frio. Isso se chama lamber a rapadura. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Ele relatou como foi que reagiu a primeira vez em que viu um crime de pistolagem, ainda criança.
A primeira vez que eu vi uma pessoa morrer assim foi da seguinte maneira. O fazendeiro falou, “Damião, hoje a gente vai assistir à morte daquele safado do Francisquim”, e eu pensei que era brincadeira. À noite eu saí com ele de carro. Os pistoleiros dele levaram o Francisquim para uma casa. Lá eles começaram a matar ele judiando, cortando os pedaços. O fazendeiro disse: “Olha, safado, você sabe porque vai morrer”. O fazendeiro queria comprar umas terras e Fracisquim se meteu e atrapalhou o negociou do terreno. Aí, começaram a matar, cortando ele entre os dedos, cortando os pedaços, cortaram os lábios dele, arrancaram as orelhas, os olhos. Cortaram ele vivo. Aí ele desmaiou. Foi uma morte terrível. Foi a primeira morte que eu vi. Depois de furarem ele todinho, esquartejaram ele, enrolaram o corpo em um saco e deixaram lá. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Ele disse que ficou nervoso, afinal de contas era apenas uma criança vendo esta cena que ele descreve com detalhes.
Ai, naquela hora eu comecei a me tremer todo. O fazendeiro me disse, “Olha, você tem que entender uma coisa, você está envolvido comigo nessa carreira, então você passa a ser homem daqui para frente.” E ali o senhor sabe que eu já estava mesmo envolvido com ele. A questão é que eu não fazia nada. Só via fazendo. Com o tempo eu senti vontade de mostrar que era homem igual aos outros pistoleiros. A gente fica com aquilo na cabeça, principalmente tendo começado da maneira que eu comecei, muito novo. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Damião disse que foi “domado como um animal para a vaquejada” (trecho da entrevista realizada em 13/10/2004), que de tanto conviver com aquela situação, ele foi gostando e sentindo vontade de realizar crimes de pistolagem.
Ele me criou como quem se doma um animal para a vaquejada. Ele me domou para matar gente. Ele não me deu chance de viver normal. Ele me criou para matar gente e ganhar dinheiro para ele. Foi o que ele fez comigo. E eu de tanto conviver com aquilo lá eu fiquei gostando e achando que a vida era assim mesmo, matar gente e ganhar dinheiro. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Quando o fazendeiro manda eliminar seus pistoleiros, então ele faz o convite a Damião para matar a primeira pessoa. Ele aceita e, somente para este fazendeiro ele assassina dez pessoas. “Para ele mesmo eu fiz dez crimes de pistolagem”. (Entrevista realizada em 13/10/2004).
Depois que eu matava, eu ia conferir se a pessoa estava morta mesmo. Porque o fazendeiro me dizia: ‘Olha Damião, não faça o serviço mal feito. Você olha se essa pessoa está viva para depois não lhe reconhecer e trazer problemas para a gente’. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
O fazendeiro o pagava e também lhe dava elogios, “Rapaz, você é um artista! Ele me dava corda para eu continuar matando e não afrouxar” (trecho da entrevista realizada em 13/05/2004).
O senhor pode bem imaginar o cidadão que não tem o que fazer, que vivi na vida do crime, que vive cuidando só de tirar a vida de um pai de família. Eu tinha uma pontaria que todo mundo ficava impressionado. Agora, imagina a pessoa que vive só com uma arma na mão, 24 horas ali só atirando, só brincando, só bebendo. Era essa a vida que eu levava. Naquele tempo, eu era que nem um animal. Desacreditava da Justiça. A justiça era a minha, né? Eu fazia a minha justiça. E também eu fazia a justiça do fazendeiro.
Toda mulher que se aproximava de Damião, o fazendeiro, com medo que ele revelasse os crimes praticados, o convencia a matar. “Ele dizia: ‘Damião, essa mulher vai nos denunciar à Polícia. Eu quero que você a tire de rotina132
Sua justificativa em transparecer e dar publicidade a sua antiga identidade fora a religião, pregar a verdade, porque agora ele não mais era uma pessoa que vivia do “sangue” humano, agora ele passara a viver do “sangue” místico, metafísico.
” (trecho da entrevista realizada em 13/05/2004).
Um dia um amigo meu que era caçador e sabia de algumas coisas da minha parte, me falou, ‘Damião, vocês vão enterrar quem naquele sítio?’, eu perguntei ‘Por quê?’, ‘Porque tem uma cova cavada lá no sítio’. Eu fui lá e eu vi a cova cavada. Aí, eu entendi o que o fazendeiro iria fazer, ele iria mandar me matar e colocar meu corpo naquela cova. Eu fui conversar com ele e disse que tinha certeza que aquela cova era para mim. Ele ficou assombrado comigo e eu com ele. Separamo-nos. (Entrevista realizada em 13/05/2004).
Damião não omitiu nenhum detalhe, nenhum acontecimento, não se resguardou, ao contrário, disse que fora pistoleiro e como se tornara, deu nomes e descreveu com minúcias cada crime que praticou, dando-me material necessário para elaborar sua antiga identidade associada ao habitus de pistoleiro.
132
4 OS VÁRIOS ÂNGULOS DE UM OLHAR
“Lamentava sua sorte E sua insatisfação Porque perdeu o marido Um homem bem valentão Afamado pistoleiro Que matava o ano inteiro Lá pras bandas do sertão”. (SALVINO, 2004:2).
Aqui apresento visões compostas mediante ângulos diferentes sobre os mesmos fenômenos: a pistolagem e o pistoleiro. As orações fortes, o corpo fechado, as proteções imateriais, a vaquejada, o tráfico de armas de fogo, os treinamentos de tiros, alguns utensílios utilizados por pistoleiros e as mulheres e amantes deles. São visões que procuram, discursivamente, revelar uma face, um ângulo, um ponto entre os vários que envolvem das mais intrincadas formas a pistolagem e o pistoleiro.