Os resultados obtidos das análises podem ser apresentados pelos seguintes quadros:
10°
A p re se n ta çã o
Toda contente com sua crueldade, ela pretendia dizer ao rei, quando ele voltasse, que os lobos enraivecidos tinham comido a mulher dele e seus dois filhos.
Mas uma tarde, quando ela caminhava pelos jardins e quintais do castelo, como costumava fazer, para escolher algum animal cuja carne fresca pudesse comer, ouviu que de dentro de uma sala baixa vinha a voz do pequeno Dia, chorando porque a mãe queria bater nele, que se comportara mal.
E ouviu também a pequena Aurora, pedindo perdão para o irmão.
Comeu e ficou a pensar no que diria ao rei seu filho quando retornasse da guerra. O melhor seria deitar a culpa nos lôbos famintos, que em grandes bandos percorriam aquelas matas. Uma noite, porém, em que ela descera ao pátio da casa de campo a fim de farejar alguma carne fresca, ouviu lá em certo ponto um chorinho de criança.Era o menino Dia, que fizera uma travessura e fôra castigado por sua mãe.
Também ouviu a voz de Aurora pedindo à rainha que perdoasse ao irmãozinho.
C o n fl it o
A ogresa reconheceu a voz da rainha e dos filhos e, furiosa por ter sido enganada, deu ordens com uma voz aterrorizante, que fez todo mundo tremer. Mandou que no dia seguinte de manhã trouxessem um tonel imenso pra o meio do pátio, cheio de sapos, víboras, cobras e serpentes, para que lá dentro fossem jogados a rainha e seus filhos, o chefe dos mordomos, sua mulher e sua criada.
Deu ordem para que todos fossem lançados lá dentro com as mãos amarradas atrás das costas.
A Papona ficou furiosa de ter sido lograda e a grande berros ordenou que trouxessem para o pátio uma enorme tina cheia de sapos e lagartos e cobras, na qual fôssem lançados os meninos, a rainha e o cozinheiro que desobedecera as suas ordens, e a mulher dêle e mais sua criada.
Todos deveriam ser trazidos para ali de mãos amarradas. R es o lu çã o
E assim, na hora marcada, lá estavam eles. Os carrascos se preparavam para jogar todos dentro do tonel quando o rei, que não era esperado tão cedo, entrou a cavalo no pátio. A guerra tinha acabado e ele tinha vindo a galope, sem parar nem para descansar, mudando de cavalos pelo caminho.
Espantadíssimo, perguntou: - o que quer dizer este horrível espetáculo? Ninguém ousou responder e explicar.
Mas a ogresa, furiosa com essa volta inesperada, pulou de cabeça dentro do tonel e foi instantaneamente devorada pelos bichos venenosos que ela mesma mandara colocar lá dentro.
O rei ficou um pouco triste - afinal, era a mãe dele. Mas num instante se consolou com a mulher e os filhos.
Estavam já reunidos em redor da tina dos bichos horrendos aquelas pobres vítimas, à espera dum sinal da Papona, quando se ouviu um tropel. Era o rei que chegava da guerra.Entrou no pátio e ficou assombrado com o que viu, mas ninguém teve coragem de lhe explicar coisa nenhuma.
A Papona, então, vendo-se perdida, atirou- se à tina de ponta cabeça e num instante foi devorada pela bicharia faminta.
O rei não deixou de ficar triste, porque afinal de contas a Papona era sua mãe, mas no mesmo instante consolou-se no amor e carinho da bela adormecida e das duas encantadoras crianças.
E daí por diante viveram na mais completa felicidade.
10°
Episódio Versão de Canton Versão da Editora Todolivro
A p re se n ta çã o
A esfomeada parecia feliz da vida agora. Já tinha decidido contar ao príncipe que sua esposa e filhos tinham sido devorados por lobos selvagens.Passeava pelas ruas rindo sozinha, até que escutou algo estranho. Reconheceu, muito brava, a voz de Aurora e Dia, que brigavam baixinho, enquanto a mãe bronqueava com eles pela falta de modos dos dois.
Ø C o n fl it o
“Ah, era tudo mentira, então? Eles vão ver”, pensou.
Chamou outro empregado, mandou que ele preparasse uma enorme tina cheia d cobras venenosas, sapos e escorpiões, para jogar os três lá dentro, de uma só vez. Ø R es o lu çã o
Quando tudo parecia pronto, ela ouviu a voz do filho. Ele voltara da viagem mais cedo. Percebendo que nada sairia do jeito que havia planejado, a ogra, num instante de impulsividade, jogou-se, ela mesma, dentro da tina. Rapidamente foi comida pelas cobras.
O príncipe não deixou de ficar triste, afinal, tratava-se de sua mãe, mas logo se confortou ao lado dos filhos e da bela esposa.
Ø
Quanto aos papéis sociais:
No que se refere aos papéis sociais, as três versões mantêm a mesma estrutura social, ou seja, marido-esposa-filhos como membros de uma família e a sogra paterna como destruidora, e que quando não pode destruir a família constituída pelo filho, destrói-se a si própria.
a) Versão de Machado: ” Toda contente com sua crueldade, ela pretendia dizer ao rei, quando ele voltasse, que os lobos enraivecidos tinham comido a mulher dele e seus dois filhos.”
Versão de Monteiro Lobato:” Comeu e ficou a pensar no que diria ao rei seu filho quando retornasse da guerra. O melhor seria deitar a culpa nos lôbos famintos, que em grandes bandos percorriam aquelas matas.”
Versão de Canton: “Quando tudo parecia pronto, ela ouviu a voz do filho. Ele voltara da viagem mais cedo. Percebendo que nada sairia do jeito que havia planejado, a ogra, num instante de impulsividade, jogou-se, ela mesma, dentro da tina”
Na versão de Machado a focalização é dada na crueldade da rainha-regente que a faz feliz por isso. Na versão de Monteiro Lobato a focalização é dada na rainha por ter satisfeito a sua fome, enquanto que na versão de Canto, a focalização é na gula , pois utiliza-se “esfomeada”.
b) Versão de Machado: “...Os carrascos se preparavam para jogar todos dentro do tonel...”
Versão de Monteiro Lobato:”... aquelas pobres vítimas, à espera dum sinal da Papona,...”
Versão de Canton: “Quando tudo parecia pronto, ela ouviu a voz do filho....”
A diferença é relativa à inserção de um papel social que ressemantiza a rainha regente, a avó e a ogressa, em juiz. É o poder sobre a vida e a morte dos seus subordinados (família ou não). Esse papel é cancelado na versão de Canton
c) Versão de Machado:” Mas a ogresa, furiosa com essa volta inesperada, pulou de cabeça dentro do tonel e foi instantaneamente devorada pelos bichos venenosos que ela mesma mandara colocar lá dentro.”
Versão de Monteiro Lobato:” A Papona, então, vendo-se perdida, atirou-se à tina de ponta cabeça e num instante foi devorada pela bicharia faminta.”
Versão de Canton: “Percebendo que nada sairia do jeito que havia planejado, a ogra, num instante de impulsividade, jogou-se, ela mesma, dentro da tina. Rapidamente foi comida pelas cobras.”
Há diferenças para se focalizar a atitude da ogresa ao se atirar na tina. Na versão de Machado, o foco é dado na fúria, sendo que esta produz suicídio. Na versão de Monteiro Lobato a focalização é dada no fato dela ficar perdida e saber que seria punida e para não perder a autoridade suicida-se. Na versão de Canton a focalização é dada na impulsividade que causa o suicídio. Resumindo, a pessoa furiosa faz qualquer coisa, inclusiva matar a si mesmo, na segunda versão, verifica- se que o suicídio é visto como uma fuga, pois o que mais importa é a autoridade e o que os outros pensam a respeito e é melhor morrer a perder isso e na terceira, verifica-se que nem a fúria, nem a opinião alheia é motivo para matar-se, a pessoa só comete esse ato, se estiver fora de si, se não pensar, por impulso.
d) Versão de Machado:
“... quando o rei, que não era esperado tão cedo, entrou a cavalo no pátio. A guerra tinha acabado e ele tinha vindo a galope, sem parar nem para descansar, mudando de cavalos pelo caminho. “
Versão de Monteiro Lobato: quando se ouviu um tropel. Era o rei que chegava da guerra.
Versão de Canton: Ele voltara da viagem mais cedo.
Na versão de Machado a carga semântica de “ guerra” é muito grande, pois segundo as cognições sociais, guerrear era comum na Europa, em um passado remoto ( condição de produção do original – traduzido por Machado), e era em seu próprio reino que o rei buscava segurança e descanso. Na segunda versão, a carga semântica já diminui, pois no Brasil, a guerra nunca se tornou uma prática, então, utiliza-se a palavra “guerra”, mas não há especificações a respeito do retorno. Na versão de Canton, “guerra” é substituída por “viagem”, revelando que o motivo do afastamento do príncipe não é o foco, e sim seu retorno para junto de sua família e a resolução do conflito gerado por essa ausência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao término desta dissertação, revemos nossos objetivos, verificamos a hipótese e apresentamos novas perspectivas para dar continuidade a investigação realizada.
Dessa forma, retomamos nossos objetivos:
Acreditamos que os resultados obtidos de nossa pesquisa possam contribuir com os estudos identitários brasileiros, na medida em que estes foram situados na área do discurso. De forma geral, como sabemos, os estudos identitários brasileiros, vem sendo desenvolvidos na área da Etnia, da Antropologia e da História, participando, assim, das Ciências sociais. Em nossa pesquisa, os traços culturais do brasileiro foram situados em textos lingüísticos de forma a privilegiar os grupos sociais, suas cognições e as formas de representação lingüística no e pelo discurso.
No que se refere ao primeiro objetivo especifico, encontramos a versão original do conto “A bela adormecida no Bosque” e algumas de suas versões brasileiras, produzidas em tempos históricos diferentes, a saber:
Texto original de Charles Perrault, em francês, a sua tradução brasileira de Ana Maria Machado e suas versões de Monteiro Lobato, Canton e a da Editora Todolivro.
Quanto ao segundo objetivo específico: examinar os diferentes papéis sociais presentes nessas versões, acreditamos ter cumprido esse objetivo na medida em que foram levantados os papéis sociais das diferentes versões, tendo por critério o episódio narrativo onde eles se situam. Dessa forma, foram encontrados papéis sociais relativos ao Estado e à Família.
No que se refere ao terceiro objetivo específico: focalizar os valores culturais contidos nos papéis sociais representados pelos personagens do conto em questão, em suas diferentes versões”, acreditamos, também, ter cumprido esse objetivo e os resultados obtidos propiciaram situar a dinâmica de valores culturais brasileiros, no tempo. Essa dinâmica também decorre da mudança das cognições sociais inter e extra-grupais
No que se refere ao quarto objetivo específico: buscar traços culturais do brasileiro presentes nos valores contidos nos papéis sociais da história de cada versão , dependendo de contemporaneidades distintas, acreditamos, ainda, ter cumprido esse objetivo pois os traços culturais do brasileiro foram tratados no grupo familiar, no grupo de poder e nas relações jurídicas. Verificamos o valor positivo atribuído à família como sendo o mais genérico. Embora em três versões tenha ocorrido o valor negativo atribuído à sogra paterna, a versão mais atual cancela essa negatividade, de forma a serem atribuídos apenas valores culturais positivos à família, ao heroísmo e a autoridade do Estado. O traço cultural relativo à mulher sempre é positivo como valor : a que espera cem anos para cumprir o seu destino; a que é submissa ao marido que a mantém afastada do reino por dois anos com seus filhos e à atitudes da sogra. À mulher ainda é atribuído valor positivo cultural à sua beleza, dedicação e afetividade.
As diferenças indicadas nas análises propiciam que nós entendamos que os valores culturais são dinâmicos e a sua mudança decorre do fato de se enfrentar no dia a dia problemas novos para serem resolvidos, no plano do que é vivido e experenciado pelos diferentes grupos sociais.
O mesmo ocorre com os papéis sociais da estrutura da sociedade. Embora as versões mantenham os mesmos personagens do conto de Perrault, os valores atribuídos a eles propiciam uma ressemantização para as relações sociais desses papéis.
Na ultima versão analisada, estão cancelados os episódios relativos à representação negativa da avó paterna, de forma a inseri-la como um papel representado positivamente nas relações familiares sociais.
Em síntese, os resultados obtidos das análises indicam que as diferenças das versões em relação às expressões enunciadas decorrem da seleção feita pelo autor de cada versão, sendo ela guiada pelos valores culturais contidos na contemporaneidade das cognições sociais da época de produção da versão.
A hipótese orientadora desta dissertação mostrou-se adequada, pois os contos de fadas examinados propiciaram que nós detectássemos valores culturais brasileiros com raízes históricas, a partir do discurso fundador eclesiástico, com seus valores morais que determinam o funcionamento das instituições sociais. As
diferentes versões produzidas em tempos diferentes propiciaram-nos a verificação das mudanças culturais a partir da caracterização das personagens, das ações praticadas por eles, de suas funções sociais e da interação de papéis.
A pesquisa realizada propiciou o levantamento de traços culturais das raízes históricas brasileiras e a sua dinâmica de modificações em épocas diferentes. Assim, é adequado tratar os estudos culturais pelo discurso, com a seleção de contos de fadas.
Esta dissertação não se quer um trabalho concluso. Ela buscou abrir novas perspectivas para o estudo de traços culturais do brasileiro, e, em seu término, indicamos novos caminhos que possam dar continuidade aos resultados obtidos até aqui.
Assim, faz-se necessário saber quais contos de fadas povoam com maior freqüências às cognições sociais infantis e se esses variam de grupo social para grupo social; quais contos de fadas são preferidos e selecionados institucionalmente para construir cognições sociais no mundo infantil; verificar o valor social atribuído aos contos de fadas e aos contos folclóricos brasileiros e em que medida esses últimos tem merecido a atenção de nossas instituições.
A análise deste material propiciará estabelecer como os traços culturais do brasileiro variam em cada grupo social e quais traços culturais são extra-grupais, devido a conhecimentos institucionalizados públicos .
Assim sendo, seria possível conferir e progredir nossos resultados, apresentados nesta dissertação, com novas pesquisas.
Faz-se necessário, estudar, discursivamente, a cultura brasileira. A cultura é quem povoa nossas mentes, representando nosso passado, modificando-se no nosso presente e ativando nosso imaginário para projetar nosso futuro.
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