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Denguin, França, (1/8/1930) e faleceu em Paris, França, (23/1/2002). De origem campesina é um dos mais importantes pensadores do século XX. Sua produção intelectual, desde a década de 1960 é imensa. Desenvolveu ao longo de sua vida, centenas de trabalhos, abordando questões sobre dominação e outros estudos sobre variadas áreas do conhecimento humano: educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística e política. Embora contemporâneo Bourdieu foi um crítico satírico dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais (ENCREVÉ, P; LAGRAVE, R-M, 2005).

Em sua resenha Mustafá (2009), ao analisar o texto “A mão esquerda e a mão direita do Estado” de Bourdieu (1992), explica por que depoimentos individuais e episódicos podem representar ou tipificar o mal-estar coletivo e salienta que os trabalhadores sociais, como assistentes sociais, educadores e magistrados, são os representantes da mão esquerda do Estado e os burocratas do ministério das finanças, dos bancos e gabinetes sociais são os representantes da mão direita do Estado (MUSTAFÁ 2009, p. 77-78).

Mais tarde, em entrevista ao jornalista Juremir Machado da Silva da Folha de São Paulo (1999),sobre o texto de Bourdieu (1992), citado anteriormente, ao ser questionado o porquê da mão esquerda do Estado, de acordo com a sua expressão, pode realmente enfrentar a mão direita sem recorrer a uma perspectiva revolucionária, considerada ultrapassada? Bourdieu esclareceu que o utopismo razoável deve alimentar-se do conhecimento das tendências para se contrapor a elas, em suma, o dinheiro que não é destinado para as escolas ou creches, será, cedo ou tarde, para as prisões (Folha de São Paulo, 7/2/99).

Vários autores, alguns aqui citados, mostram que o mundo social de Bourdieu deve ser compreendido à luz de três conceitos fundamentais: campo, habitus e capital. Grande parte dos 40 anos de vida acadêmica de Bourdieu foi dedicada aos estudos no campo da educação.

A visão que considera o sucesso ou fracasso escolar como efeito das "aptidões" naturais, quanto às teorias do "capital humano", fundamentaram afirmações sobre a legitimidade das desigualdades sociais e meritocracia. Os estudos de Bourdieu estiveram centrados em tornar evidentes, os processos escolares de “reprodução cultural e social” e as “estratégias” do sistema

escolar para diferentes agentes de grupos sociais. Na sua concepção é ilusão afirmar que “o sistema escolar é um facilitador da mobilidade social”, na verdade a escola vem demonstrando ser um ambiente onde todas as diferenças de classes não são atenuadas e assim coopera com a conservação social (BOURDIEU, 1979, p.3-6).

Em artigo pulicado na revista CULT, Hey e Catani (2010), apud Bourdieu (1979), descreve que em seus escritos, ele procurou questionar, nas sociedades de classes, temática que persegue muitos intelectuais: a compreensão de como e porquê pequenos grupos de indivíduos conseguem se apoderar dos meios de dominação, permitindo nomear e representar a realidade, construindo categorias, classificações e visões de mundo às quais todos os outros são obrigados a se referir. Compreender o mundo, para ele, converte-se em poderoso instrumento de libertação – é esse procedimento que ele realiza, dentre outros domínios, no educacional.

Segundo Cunha (2007), a palavra cultura, para Bourdieu, aparece como indissociável dos efeitos da dominação simbólica e terá um lugar importante em sua obra como elemento de luta entre os sujeitos nos diferentes campos pela demarcação de posições sociais distintas. Ainda para Cunha (2007), apud Clérc (1970, p. 151), o ambiente familiar pode influenciar de diversas maneiras as possibilidades de sucesso escolar, seja durante o ano escolar, quando a criança frequenta a escola elementar, seja durante a escolaridade anterior, seja ainda na pequena infância. A ação do meio familiar sobre o sucesso escolar parece quase exclusivamente cultural, uma vez que a proporção de “bons alunos” parece aumentar com a renda e o nível do diploma do pai (CUNHA 2007, p. 512).

O conceito formulado por Bourdieu e Passeron (1964) na obra Lês héritiers, considerada uma sociologia das desigualdades sociais diante da escola e da cultura, Bourdieu e Passeron enfatizam que o sucesso escolar não é uma questão de “dom”, mas sim de orientação precoce que emana do meio familiar (BOURDIEU; PASSERON, 1964, p. 26).

Conforme Hey e Catani (2010), a dominação cultural se propaga pela cultura. Interfere diretamente no processo de dominação, “é a imposição da

cultura dominante como sendo “a cultura” que faz com que as classes dominadas atribuam sua situação subalterna à sua suposta deficiência cultural, e não à imposição pura e simples”(HEY e CATANI - artigo publicado na Revista Cult, 2010).

Ainda de acordo com Hey e Catani (2010), a função do sistema de ensino é servir de instrumento de legitimação das desigualdades sociais. Longe de ser libertadora, a escola é conservadora e mantém a dominação dos dominantes sobre as classes populares, sendo representada como um instrumento de reforço das desigualdades e como reprodutora cultural, pois há o acesso desigual à cultura segundo a origem de classe.

Nesse mesmo artigo Hey e Catani (2010) apud Bourdieu (1966), ao descrever sobre a escola conservadora e reprodutora da dominação, frente as desigualdades entre a escola e à cultura, rompe com as explicações fundadas em aptidões naturais e individuais e critica o mito do “dom”, desvendando as condições sociais e culturais que permitiriam o desenvolvimento desse mito. Citam ainda que segundo Bourdieu, “para que sejam desfavorecidos os mais favorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Tratando todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura”.

Cunha (2007, p.514), cita a obra Leshéritiers (1964), onde os autores mostram como o sistema universitário não cessa de consagrar as desigualdades por meio da transformação do privilégio social em “dom” ou “mérito individual”. Assim, segundo as análises de Bourdieu e Passeron (1964), os estudantes de origem social mais favorecida são aqueles que mais se beneficiam da cultura escolar porquanto sabem jogar as regras do jogo.

Ao estudar as fronteiras sociais existentes no sistema escolar similares àquelas que separavam a grande da pequena nobreza e esta dos simples plebeus e ainda a diferença entre alunos das grandes escolas e os das faculdades (ao analisar o campo universitário francês e o papel das

Grandes Écoles), Bourdieu desvela a crueza da desigualdade social e, ao mesmo tempo, como ela é simulada no sistema escolar e entranhada nas estruturas cognitivas dos participantes desse universo – professores, alunos, dirigentes(HEY e CATANI (2010), apud BOURDIEU).

Após esta breve discussão sobre a teoria do capital cultural Bourdieu, relacionada aos mecanismos escolares de reprodução cultural e social e as estratégias do sistema escolar para os diferentes agentes e grupos sociais, passaremos a analisar, as políticas de expansão do ensino superior no Brasil, enfatizando marco histórico do surgimento da universidade pública brasileira, elementos legais, avanços. Na sequência trataremos sobre o curso de Engenharia de Alimentos no arcabouço do ensino superior brasileiro.

3. ORIGEM, A EXPANSÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR E DO CURSO