CAMINHO METODOLÓGICO
3.1 Objetivo
O objetivo desta pesquisa é compreender quais as razões pelas quais líderes religiosos cristãos, padres e pastores, procuram formação em cursos de graduação ou pós-graduação de psicologia, qual o significado dessa busca, para eles, e as contribuições da psicologia para as suas práticas eclesiásticas.
3.2 Método
O método de investigação de uma pesquisa depende tanto do objeto estudado quanto dos propósitos do investigador. Sendo assim, para a elaboração deste trabalho optei pela pesquisa qualitativa, em uma abordagem fenomenológica. Moreira (2004, p. 59 e 60) explica que “a
pesquisa qualitativa foca-se no ser humano enquanto agente, e cuja visão de mundo é o que realmente interessa”, e também que “sempre que se queira dar destaque à experiência de
vida das pessoas, o método de pesquisa fenomenológico pode ser adequado”.
Nesta pesquisa busquei compreender a partir da vivência de pessoas que são líderes religiosos cristãos as razões pelas quais elas procuraram uma formação em psicologia e o significado que elas dão a esta procura. Por essa razão, esta pesquisa se distancia da abordagem empírica quantitativa, pois não recorre aos procedimentos de predição, medição e controle próprios desta prática de investigação, e se define qualitativa, pois busca destacar os aspectos experienciais dos colaboradores.
De acordo com Delefosse (2001, p. 196), a “pesquisa qualitativa pode ser concebida como
um lugar de cooperação, um canteiro de discussão e discursos em construção”. Nessa perspectiva as propostas da pesquisa em fenomenologia mostraram-se como uma boa opção para este trabalho, por colocarem que a compreensão deve ser buscada na interação do sujeito com o mundo, e nos sentidos que esta interação tem para o próprio sujeito. Como afirma Forghieri (2004, p. 58), “o sentido que uma situação tem para a própria pessoa é uma
experiência intima que [...] para desvendar sua experiência o pesquisador precisa de informações a esse respeito, fornecidas pela própria pessoa”. Assim, esta pesquisa favorece a busca de compreensão do sentido que líderes religiosos dão, eles mesmos, à formação que buscaram em psicologia, em programas de graduação ou pós-graduação.
A pesquisa fenomenológica envolve um retorno à experiência mesma, de modo que se obtenha descrições que darão suporte a uma análise estrutural reflexiva que possibilite a elaboração de um entendimento dos sentidos da experiência. Parte do pensamento de que o fenômeno deve falar por si, de maneira que os significados da experiência para as pessoas que a viveram sejam alcançados. Como explica Holanda (2006, p. 371), é alcançar “o que a
experiência significa para as pessoas que tiveram a experiência em questão e que estão, portanto, aptas a dar uma descrição compreensiva desta”.
A postura fenomenológica em psicologia indica que é importante compreender os significados que os indivíduos atribuem às suas experiências, considerando-os, sempre, no seu contexto sócio-cultural e pessoal, lembrando que eles são sempre singulares, peculiares. Desse modo, a pesquisa fenomenológica implica em compreender o significado para cada pessoa, da sua experiência. Neste paradigma, nenhum conhecimento se apresenta como completo, universal, antes, todo conhecimento está sempre conectado a um contexto e a uma vivência. No entanto, considerando-se a intersubjetividade humana, a compreensão de um fenômeno abre sempre a possibilidade de compreender fenômenos semelhantes.
O pesquisador, contudo, não o é isento de sua visão de homem e de mundo, nem dos pressupostos que subjazem a esta visão. Delefosse (2001) aponta que todo pesquisador possui ele mesmo pressupostos implícitos. Assim, o pesquisador fenomenólogo precisa se posicionar de modo rigoroso a cada instante em que interroga o fenômeno e o seu próprio pensar, de modo a que possa compreender os significados atribuídos pelos colaboradores ao fenômeno estudado. Para isso, é necessário que o pesquisador coloque entre parênteses os significados
que aquela experiência tem para ele, e se abra à compreensão dos significados apresentados por seus colaboradores.
Merleau-Ponty (1973, p. 22) explica que ao pesquisador fenomenólogo “[...] é-lhe necessário
suspender o conjunto de afirmações implicadas nos dados de fato de sua vida. Suspendê-las, porém, não é negá-la [...]”, mas, como afirma Delefosse (2001, p. 164), “aprender a olhar o
que se encontra diante dos nossos olhos sem julgamento e sem relação com outra coisa. É olhar, entender e descrever aquilo que nós podemos distinguir através da palavra do outro, abandonando o senso comum assim como nossos pressupostos teóricos para ver de uma nova forma”.
Embora tenha mencionado na introdução deste trabalho, considero importante repetir aqui que sou pastor, logo, sou um líder religioso cristão, e também sou psicólogo. Ao fazer uma pesquisa como esta, e com o objetivo a que se propôs, considerei que muitas questões implícitas neste fenômeno provocariam ressonâncias em mim, por isso, busquei suspender minhas considerações pessoais e iniciais, como propõe a metodologia fenomenológica, para me abrir às diferentes formas de compreensão conforme elas se apresentaram. Fazer isso foi colocar entre parênteses as minhas próprias convicções e experiências pessoais para ir ao encontro do fenômeno tal qual ele se apresentou. Com tal atitude, como propõe Forghieri (2004), olhei para o fenômeno de maneira nova, buscando um olhar ingênuo.
Por essa razão, no inicio deste trabalho relembrei as minhas próprias experiências nesse percurso pessoal. Esse procedimento me auxiliou a refletir nos questionamentos que deram origem a esta pesquisa, e me possibilitou colocar entre parênteses os significados que a experiência tem para mim mesmo, de modo a poder me abrir aos significados oferecidos pelos colaboradores.
Realizei, previamente, um levantamento bibliográfico sobre o tema, de modo a que as idéias dos diversos autores também pudessem, em um primeiro momento, serem deixadas de lado para que fosse possível captar o que os colaboradores colocariam sobre suas experiências, mas para que pudessem, em um segundo momento, servir como suporte teórico às discussões dos significados apresentados nas entrevistas. Isso é importante porque, como afirma Antunes (2005, p. 24) “a pesquisa fenomenológica não possui sujeitos que fornecem informações, mas
facilitador ao entrevistar, o suporte proporcionado pelos teóricos pesquisados, mais a participação dos colaboradores, por certo promoveram um procedimento adequado à compreensão do tema pesquisado. “Daí as coisas podem ficar mais claras”, como diz Amatuzzi (2001, p. 15).
3.3 Colaboradores
Martinez (1994) explica que a escolha dos colaboradores de uma pesquisa depende da natureza do conhecimento que se deseja alcançar. Pereira (2009) também orienta que “na
pesquisa em psicologia fenomenológica, os sujeitos são procurados por apresentarem características que permitam o acesso ao tema em questão. Eles são escolhidos na medida em que o pesquisador reconhece neles aquela experiência que deseja estudar”.
Sendo assim, para alcançar o objetivo proposto para esta pesquisa, realizei, inicialmente, entrevistas com dois líderes religiosos cristãos, sendo uma entrevista com um padre e uma com um pastor. Para a escolha dos colaboradores usei o critério de que estivessem em atividade nas suas práticas eclesiásticas, e que tivessem buscado formação em psicologia. Pe. Geraldo, nome fictício usado para preservar o sigilo de sua identidade conforme garantido no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tem trinta e três anos de idade, atua como padre há cinco anos, e recentemente concluiu seus estudos em um programa de pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia. Meu primeiro contato com o Pe. Geraldo se deu quando participamos das aulas de uma disciplina que fizemos em comum em um programa de estudos. Quando lhe estendi o convite para ser um dos colaboradores de minha pesquisa ele se prontificou imediatamente.
O Pr. Pedro, também um nome fictício tem cinqüenta e três anos de idade, e é pastor há vinte e oito anos. Há dez anos ele é graduado em psicologia, e atualmente realiza estudos de pós- graduação Stricto Sensu nessa mesma área. Conheci o Pr. Pedro quando ele ainda era estudante de teologia, e desde então nao tivemos mais contato. Certo dia, assistindo a um programa de entrevistas pela televisão, o vi sendo entrevistado sobre temas da psicologia, e assim fiquei sabendo que ele havia se graduado em psicologia, além de teologia. Quando planejei esta pesquisa consegui fazer contato com ele, que prontamente se dispôs a participar.
Após a realização dessas entrevistas, como contraponto, para ampliar a compreensão do tema, considerei importante entrevistar um líder religioso que não tivesse buscado formação em psicologia. Considerei que sua visão poderia colaborar na compreensão das razões que levaram os colaboradores anteriormente entrevistados a procurarem conhecimentos na área da psicologia. Realizei, assim, uma terceira entrevista, com um pastor que não sentiu necessidade de obter formação em psicologia. Entrevistei o Pr. Santos, nome também fictício. Atualmente ele tem cinqüenta e quatro anos de idade, e há vinte e oito anos exerce sua prática pastoral. Conheço o Pr. Santos há muitos anos, e chegamos a trabalhar juntos durante um período. Sei que ele não tem formacão em psicologia, assim, o convidei a participar desta pesquisa, convite que ele não hesitou em atender.
Essa quantidade de colaboradores mostrou-se suficiente para que eu pudesse obter os relatos necessários para alcançar o objetivo, razão pela qual não foi necessário buscar outros colaboradores.
A distinção da função eclesiástica dos colaboradores, padre e pastor, e, por conseguinte também da denominação religiosa, uma é católica e outra protestante/evangélica, se deu por considerar que esses líderes religiosos representam duas importantes vertentes atuais do cristianismo, e porque em ambas é possível encontrar representantes que atendem ao critério estabelecido.
3.4 As entrevistas
Como procedimento, vali-me da entrevista individual e semi-estruturada. A opção de usar esse tipo de entrevista se deu porque ela possibilita ao colaborador falar mais livre e espontaneamente sobre o tema proposto. Além disso, Yazbec (2009, p. 53) sugere que desse modo “o entrevistado deixa fluir sentimentos e emoções que podem vir à tona durante a
realização das entrevistas”. Tal recurso possibilitou captar o que os colaboradores compreenderam sobre o tema, pois, como afirma Giorgi (2008, p. 398), na entrevista o “sujeito pode exprimir abundantemente seu ponto de vista”.
Dar espaço para que o entrevistado se expresse livre e espontaneamente é uma das atitudes básicas da entrevista que pretende atender a proposta da pesquisa fenomenológica. Como
declara Forghieri (2004, p. 63), nesta abordagem de pesquisa o material obtido deve “ser
constituído de relatos espontâneos e sinceros do sujeito sobre a sua vivência”, e tais relatos devem ser claros, autênticos e próximos da experiência imediata do colaborador.
Por se tratar de uma entrevista semi-estruturada, tomei o cuidado, ao entrevistar, que os colaboradores não se afastassem demais da temática proposta, de modo a poder compreender o que era dito na perspectiva do objetivo da entrevista. Desse modo, acompanhando a sugestão de Pereira (2009) fiz intervenções durante os encontros, sempre que considerei necessário esclarecer o que era dito sobre o tema proposto. Para esta autora, devem ser
“feitas observações e assinalamentos ao colaborador durante o
encontro, visando sempre a estimulá-lo para expressar melhor a sua experiência. Por isso, a entrevista se constitui, não apenas
como um momento de obtenção de informações, mas como uma busca conjunta pela vivência circunscrita através do interesse do pesquisador” (p. 64).
Para a realização das entrevistas fiz um contato prévio com aqueles colaboradores que correspondiam aos critérios estabelecidos, para informá-los a respeito do objetivo da pesquisa e convidá-los a dela participarem. Também esclareci sobre a importância de sua participação e colaboração para a pesquisa, bem como garanti o sigilo de cada um. Em dia, local e horário combinados em comum acordo com cada colaborador, as entrevistas foram realizadas, e, antes de serem iniciadas li e verifiquei se haviam compreendido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido4, que foi por cada um deles assinado. Para que não houvesse perda de informações, as entrevistas foram gravadas. O projeto de pesquisa contendo todas as informacões pertinentes e descrevendo a participação dos colaboradores e os procedimentos a serem utilizados, foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Campus Monte Alegre, que, em reunião ordinária, aprovou a sua realização, decisão publicada no Protocolo de Pesquisa de nº 097/20105.
4 Ver Anexo I
3. 5 Procedimentos para análise das entrevistas
Após a realização das entrevistas fiz uma transcrição integral do conteúdo de cada uma delas. Essas transcrições foram enviadas cada uma ao respectivo entrevistado, para que pudesse lê- la, tomar conhecimento do conteúdo transcrito e sugerir alguma adequação, caso sentisse necessidade. Em seguida fiz uma síntese, a partir de uma leitura da íntegra de cada transcrição, com o propósito de ter uma melhor visibilidade das experiências compartilhadas pelos colaboradores. A transcrição na íntegra de cada entrevista está sob os meus cuidados, entretanto, uma delas foi colocada em anexo6 para que o leitor deste trabalho possa verificar, se assim desejar, como ela se deu, e como se desenvolveu a elaboração das sínteses e da análise realizada.
A partir da síntese levantei as colocações significativas acerca do tema, ao mesmo tempo em que busquei compreender os significados dessas colocações. Apresento, assim, a colocação de cada entrevistado, e o modo como as compreendi no contexto de suas colocações. Em seguida, elaborei para cada entrevistado uma síntese interpretativa de suas colocações e de minhas compreensões. Esses procedimentos resultaram em uma interpretação que possibilitou relacionar a apreensão dos significados das experiências vividas por cada colaborador aos aspectos discutidos pelos autores lidos.
Por fim, os resultados obtidos a partir das análises e interpretações das entrevistas foram considerados em uma última parte da pesquisa, na qual apresento a compreensão obtida ao longo da pesquisa bem como suscito outras questões acerca do tema que podem ser consideradas em trabalho futuro, por este pesquisador mesmo ou por outro que se interesse pelo tema.
6 Ver Anexo III