Os Referenciais Curriculares Básicos (RCB) e/ou de Diretrizes Curriculares da Educação Básica dos Municípios e Estados brasileiros, em sua maioria, foram produzidos com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ministério da Educação (MEC), lançados em 1997, refrente aos dos 1º e 2º ciclos (1º ao 5º ano), e em 1998, aos dos 3º e 4º ciclos (6º ao 9º ano) do Ensino Fundamental. No Ceará, os RCBs, com duas edições e iguais critérios dos PCNs, começaram a ser elaborados em 1992, pela Secretaria da Educação do Estado, como.
[...] uma proposta curricular, a qual deveria passar por um processo contínuo de análise, envolvendo questionamentos, ajustes, supressões, atualizações, estratégias, enfim, que possibilitassem a implementação e validação da proposta pelos docentes que estivessem efetivamente desenvolvendo e avaliando currículo. (CEARÁ, 1997, p. 1).
No entanto, a pretensão que colocaria o Ceará como um dos primeiros, nessa área, não se efetivou. A fragilidade nos registros do sistema de acompanhamento pedagógico impediu a realização da proposta, contribuindo para tanto, ademais, os problemas educacionais e de gestão.
Em 1996, por ocasião da implantação da atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, norteando e impulsionando grande parte dessas reformas, a Secretaria da Educação do Ceará, através da então Coordenadoria de Desenvolvimento Técnico-
Pedagógico, retoma e atualiza essa proposta, para elaborar e lançar, em 1997, os RCBs, destinados aos anos iniciais do EF. Em novembro de 1998, são lançados e implantados os RCBs dirigidos ao período do 6º ao 9º ano23, do EF.
Os RCBs foram configurados para auxiliar os professores, juntamente com outros instrumentos, na busca de uma Educação de Qualidade para Todos, política internacional proposta pela UNESCO24, com a qual o Brasil firmou compromisso, com abrangência da proposta curricular vigente, agregando uma Concepção Global e Interdisciplinar de Currículo e visando ao desenvolvimento das dimensões cognitiva, afetiva e psicomotora. Os RCBs da SEDUC contemplaram a Organização do Ensino em Ciclos - adotado nas escolas estaduais até o ano de 2002 -, e incorporando-a e adaptando-a às novas diretrizes dos atuais PCNs.
As áreas de ensino adotadas pelos RCBs estão em consonância com a estrutura da grade curricular e também com o tipo de ensino. Do 1º ao 5º ano, os RCBs abordam as disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências Naturais, Arte- Educação e Educação Física, além de temas transversais: Ética, Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual e Pluralidade Cultural. Tais disciplinas participam da grade dos 1º e 2º ciclos do EF.
Do 6º ao 9º ano do EF, ainda ministrados através do Sistema do Telensino25 , os RCBs enfocam as áreas de Linguagens e Códigos; Ciências Naturais e Matemática; e Cultura e Sociedade; incluindo os temas transversais. Baseadas em conceitos, procedimentos e atitudes, essas áreas são as mesmas da grade escolar, disponibilizada aos professores do Sistema de Telensino, na função de Orientador da Aprendizagem das teleaula.
Diferentemente das áreas básicas, que foram norteadas pelo Telensino, os temas transversais dos RCBs assumiram a feição dos PCNs, e abordaram os mesmos assunto, acrescentando: Trabalho e Consumo, como ocorrem nos PCNs do 3º e 4º ciclos do EF.
No Ceará, os RCBs também reforçaram o papel preponderante do professor, como mediador do desenvolvimento de aprendizagens, semelhante ao que é defendido pelos PCNs
23 Nessa ocasião, a SEDUC adotava o sistema de ciclos, que correspondiam aos 1º e 2º ciclos (1ª a 4ª série) e 3º e 4º ciclos (5ª a 8ª série) do Ensino Fundamental. Nos esclarecimentos anteriores deste trabalho, optou-se por adotar a equivalência ano/série, regulamentada pela última reforma do ensino cearense.
24 Na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, promovida e coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, em Jomtien (Tailândia), no período de 5 a 9 de março de 1990, o Brasil assumiu o compromisso de viabilizar as propostas aprovadas e assumidas pelos países participantes, reunidas no documento final ―Educação para Todos: Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem‖. Em Nova Delhi (Índia), no dia 16 de dezembro de 1993, o Brasil ratifica, na Declaração de Nova Delhi. O compromisso firmado de Todos pela Educação, sobretudo quanto à qualidade dessa Educação.
25 O Sistema de Telensino do Ceará foi implantado em 7 de março de 1974, ao ensejo da inauguração da Tv Educativa do Ceará, Canal 5, criada, prioritariamente, para produzir e veicular as teleaulas da 5ª à 8ª séries do EF, buscando suprimir, assim, a demanda educacional existente nos 184 municípios, que, em grande parte, não dispunham de professor e escola com qualidade e quantidade suficientes.
(1997 e 1998) do MEC. Para tanto, requer maior atenção e comprometimento dos educadores, cujas atribuições são direcionadas para torná-los capazes de:
Ampliar a capacidade de produção e compreensão da linguagem oral, em situações comunicativas reais de uso, facilitando a interação do aluno com o meio;
Desenvolver habilidades de leitura, em textos de diferentes formatos e funções, favorecendo o acesso aos diversos bens existentes em seu meio (culturais, materiais e outros);
Desenvolver a linguagem escrita, na perspectiva do aluno-escritor capaz de produzir-textos com diferentes propósitos comunicativos; [...] (RCB, 1997, p. 7).
Baseados no informe La Educación encierra un tesouro, da Comissão Internacional sobre a Educação do Século XXI da UNESCO, os RCBs, do 1º ao 5º ano, propõem processos de aprendizagens, servindo de pilares ao desenvolvimento do educando, tematizados em: - Aprender a conhecer; - Aprender a fazer; - Aprender a conviver; -
Aprender a ser.
Nesse sentido, os RCBs apresentam cerca de 10 objetivos gerais, sendo cada um desdobrado em 15 objetivos específicos. Na disciplina de Língua Portuguesa, os RCBs (CEARÁ, 1997, p. 09) defendem quatro habilidades linguísticas básicas para o 1º ciclo, que são ―Falar, Escutar, Ler e Escrever‖, enquanto para o 2º ciclo do EF, a essas habilidades são
acrescidas as capacidades de Pensar, Analisar sua realidade e Inserir-se nela, de forma reflexiva e criativa.
Para o 1º e 2º ciclos do EF, os RCBs estabelecem três eixos curriculares:
Construindo a oralidade, Descobrindo o universo da leitura e Comunicando-se pela escrita. Como práticas escolares, destacam-se as atividades com diferentes situações comunicativas, como: ―diálogos; narração de fatos reais e/ou imaginários, utilização da língua como objeto de curiosidade e de jogo; escuta ativa de diferentes textos, ouvidos na mídia, rádio e televisão; escuta de textos da Literatura Infantil, lidos pelo professor [...]‖ (RCB, 1997, p. 12). (Destaques próprios).
A proposta é de que cada ação possibilite ênfase ao processo e não ao produto. No ato de produção do texto, será premente saber qual o propósito (para quê), o destinatário (para quem) e em que formato ou gênero de texto a mensagem será expressa (como). Para a SEDUC, ―não oferecer esses elementos ao aluno é criar obstáculos para o desenvolvimento de sua capacidade comunicativa, ou, em outras palavras, fazer da escrita um ato puramente mecânico.‖ (RCB, 1997, p. 13).
Ao conceber a linguagem em uma dimensão mais ampla, ultrapassando os limites da retórica, do verbo, os RCBs do 6º ao 9º ano do EF abrangem outros códigos, sistemas e
sinais e priorizam o ato de se comunicar. Defendem, ainda, ―a prática da intertextualidade e da interdisciplinaridade, para além do código verbal. É ampliar a noção de texto, leitura e linguagem, propiciando o encontro do verbal e do não-verbal‖. (CEARÁ, 1998, p. 20). Em Linguagens e Códigos, os conteúdos de Língua Portuguesa dos RCBs, do 6º ao 9º ano do EF, compreendem três temáticas: - Compreensão de textos (orais e escritos); - Produção de textos (orais e escritos); - Reflexão sobre a língua, incluindo os conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais, conforme esclarecimentos anteriores. (Destaques próprios).
No 3º ciclo do EF, a primeira temática dos RCBs (CEARÁ, 1998, p. 26-27) trata de oito conteúdos, indo da ―Apreensão dos elementos discursivos semânticos e gramaticais para a construção do sentindo;‖ à ―Identificação de problemas levantados durante a leitura, buscando, com isso caminhos pertinentes à sua resolução‖.
Na segunda temática, os RCBs (CEARÁ, 1998, p. 27-29) desenvolvem 10 conteúdos, iniciados com a ―Compreensão da linguagem oral, como meio de expressão, informação e comunicação‖ finalizando com a ―compreensão da importância da língua escrita, como intermediadora de valores, conceitos e princípios, percebendo conteúdos discriminatórios ou preconceituosos‖.
Na última temática do 3º ciclo do EF, os RCBs (CEARÁ, 1998, p. 29-30) abordam quatro conteúdos, enfocando o ―Reconhecimento da variabilidade lingüística‖, e ―Reconhecimento de operações linguísticas‖ que permitam o estabelecimento de relações entre forma e sentido (escolha lexical, transformação estrutural, substituição, apagamento, discurso direto e indireto)‖.
Para o 4º ciclo do EF, os RCBs (CEARÁ, 1998, p. 31-32) trazem 10 conteúdos na temática Compreensão de textos (orais e escritos), que vão da ―Compreensão da linguagem oral, articulando elementos linguísticos a outros não-verbais nos diversos textos e nas mais diversas situações comunicativas‖, ao ―Reconhecimento dos diferentes recursos expressivos/ gráficos utilizados na produção de um texto‖. (Destaques próprios).
Quanto à temática Produção de textos (orais e escritos) desse ciclo, são cinco conteúdos abordados pelos RCBs (CEARÁ, 1998, p. 33), englobando do ―Conhecimento dos diferentes recursos resultantes de operações linguísticas (escolhas, ordenação, expansão, transformação, encaixamento, inversão, apagamento)‖ à ―Compreensão da necessidade de adequar a fala, em função da reação dos interlocutores‖. (Destaques próprios).
Na última temática: Reflexão sobre a língua do 4º ciclo do EF, os RCBs (CEARÁ, 1998, p. 34) abordam seis conteúdos, merecendo destaque o ―Reconhecimento dos diferentes gêneros de texto quanto ao conteúdo temático, à construção composicional e ao
estilo, estabelecendo relação entre o texto, sua função e o público-alvo, avaliando-lhes a eficiência nos contextos sociais em que se inserem‖. (Destaques próprios).
Diferentemente dos PCNs e dos RCBs, os Planos Curriculares (PC) da SEDUC, ainda no prelo, em 2011, estão segmentados do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, abrangendo todas as disciplinas do conhecimento. Em cada ano, os conhecimentos são abordados por bimestres (1º, 2º, 3º e 4º bimestres) e segmentados em Marcos de Aprendizagem, Conteúdos e Detalhamento do Conteúdo. (Destaques próprios).
Na intenção de uma maior equitatividade entre os documentos norteadores (PCNs e RCBs) a serem analisados, sobretudo, os do 9º ano do EF, - foco desta pesquisa -, a investigação se deteve nos PCs do 6º ao 9º ano do EF. Em cada um desses anos letivos, observou-se uma homogeneidade nas ações referentes aos Marcos de Aprendizagem, bem assim, nas dos Conteúdos. Os Marcos de Aprendizagem encontram-se discriminados em nove ações, as quais direcionam o ensino nos quatro bimestres, merecendo destaques as seguintes:
5. Conheçam e utilizem os mecanismos discursivos e linguísticos responsáveis pela coerência e coesão e estabelecimento do sentido.
7. Compreendam as diversas funções comunicativas sociais da escrita, produzindo
textos de diversos tipos e formatos e observando as relações de semelhanças e diferenças quanto à forma, função e ao sentido.
8. Empreguem os sinais de pontuação percebendo o uso expressivo e sintético e
apreendam os elementos discursivos semânticos e gramaticais que interferem na construção do sentido.
9. Estabeleçam relações entre os textos lidos e outros já conhecidos, articulando os conhecimentos anteriores aos novos. (CEARÁ, 2009, p. 01, 06, 11, 16). (Destaques nossos).
As ações dos Conteúdos, nesses quatro anos letivos, estão distribuídas em quatro blocos. O primeiro comporta as relacionadas à Linguagem Oral. O segundo referencia à Leitura, a Compreensão e a Interpretação. O terceiro bloco traz ações de Produção Textual. E, por último, o quarto tratando da Variação Linguística, com semelhante relevância conferida à da Linguagem Oral, à Leitura, à Compreensão e à Interpretação, ou mesmo, à Produção Textual. (Destaques próprios).
Para cada bloco, os PCs fazem o Detalhamento do Conteúdo mais adequado aos temas abordados, tendo o grau de complexidade e abrangência relacionados, diretamente, aos fatores bimestre/ano letivo. A primeira proposta: ―Utilização da Linguagem como meio de expressão e comunicação [...]‖ (CEARÁ, 2009, p. 1, 6, 11, 16) recomenda aos quatro anos letivos, outras sugestões, a serem aplicadas a todo esse período escolar. No Detalhamento do Conteúdo, estão listadas aproximadamente 30 ações. (Destaques próprios).
Em análise dessas ações, constatou-se a possibilidade de aplicação de sete delas à proposta deste estudo: ―A aprendizagem da escrita em textos narrativos de gêneros jornalísticos em sala de aula‖, conforme se verifica a seguir:
Compreensão literal (relações de coerência: idéia principal / detalhe de apoio; relação de causa e efeito; sequência temporal; sequência espacial etc.); relações coesivas (referenciais e sequências: progressão textual; identificação do significado de palavras recorrendo ao contexto; identificação de sentido entre as palavras (sinonímia / antonímia etc.). Compreensão interpretativa / inferencial (propósito comunicativo,
informações implícitas / explícitas, fatos / opinião, extrair conclusões). Compreensão crítica (propósito comunicativo, interagir com o texto
confrontando suas próprias idéias com as que o texto apresenta).
Desenvolvimento das habilidades da escrita na produção dos diferentes
gêneros textuais: histórias em quadrinhos, fábulas, carta etc; e
reconhecimento e utilização dos tipos textuais (narração, descrição, argumentação e exposição etc.).
Produção de textos na visão processual: geração de idéias /
planejamento / levantamento de dados / esboço de texto e revisão final / editoração.
Utilização de mecanismos de estruturação textual (estrutura e organização
do texto: coerência e Coesão).
Estruturação de parágrafos (introdução, desenvolvimento, através de causa/ consequência, sequência lógica, conclusão; ordem de apresentação de imagens (objetos, lugares, pessoas). (CEARÁ, 2009, p. 01, 06, 11, 16). (Destaques próprios).
É imprescindível ressaltar a expectativa de que o aprofundamento teórico- metodológico, as análises documentais e a implementação deste estudo: ―A aprendizagem da escrita em textos narrativos de gêneros jornalísticos em sala de aula‖, em turmas do 9º ano do EF de uma escola estadual em Fortaleza, possam contribuir com as pesquisas a serem realizadas e/ou em andamento, sobre o uso de gêneros jornalísticos, na produção textual. E, sobretudo, que também auxiliem os educadores das escolas públicas na formação de alunos produtores textuais autônomos e proficientes.