II. DİĞER KURUMLARDAN ALINAN GÖRÜŞ VE ONAYLAR:
22. ÖNEMLİ SÖZLEŞMELER
A partir da forma como Nietzsche primordialmente encara o socratismo (como uma invenção de sentido que esqueceu seu status quo de invencionice), é possível perceber que toda e qualquer afirmação sobre o mundo, mesmo aquela que se pretenda única e absolutamente verdadeira, será sempre, pelo menos para o filósofo, uma perspectiva pela qual o homem inventa um sentido para o absurdo da existência a fim de torná-la admissível.
Desse modo, surge nas entranhas do pensamento nietzschiano o perspectivismo117, o qual, por sinal, pode servir como uma espécie de “chave de leitura” para todo o pensamento de Nietzsche. Contudo, é válido frisar que para se erigir um entendimento mais aprimorado acerca do citado perspectivismo, far-se-á necessário caracterizá-lo com um pouco mais de exatidão. E tal tarefa poderá ser bem sucedida se houver uma suficiente delimitação da diferença existente entre o perspectivismo nietzschiano e o relativismo puro e simples.
De um modo dramático e em vários aspectos de seu pensamento, Nietzsche propõe um inovador processo para a compreensão trágica da realidade: ele sugere o perspectivismo. Pois, o filósofo alemão trata a filosofia, a arte, a mitologia, a religião, a ciência, a política, a moral etc. como sendo perspectivas distintas de contemplação hermenêutica da existência. Ora, se existem perspectivas variadas de interpretação da realidade, logo não há uma única e absoluta “Verdade” sobre a totalidade da existência, isto é, para Nietzsche, sobressaem-se diferentes interpretações humanas do mundo (inclusive, infindas interpretações singulares), as quais não são só distintas entre si, mas também estão em graus diversos, não em relação a um pretenso conhecimento verdadeiro do mundo, mas sim no tocante à satisfação do homem para com o seu viver. Em outras palavras, essas diferentes perspectivas podem satisfazer, com maior ou menor intensidade, o homem, isso no que diz respeito a tornar o absurdo da vida suportável.
Acerca da desconfiança que se deve dedicar ao verdadeiro, devido ao fato de que a
117 Uma das formas de abordar o tema do perspectivismo em Nietzsche é através da etimologia do termo, o qual
é derivado obviamente da palavra perspectiva, que em alemão se escreve Perspektive que, por sua vez, advém do latim prospectu e significa: “ver através de”. Desse modo, em consonância com a postura adotada por essa pesquisa, ou seja, tentando afastar-se da interpretação metafísica acerca da obra nietzschiana, não seria possível afirmar que o perspectivismo em Nietzsche seria algo como “ver a verdade através do mundo”, mas ao contrário, o máximo que se poderia dizer é que apenas é possível ver a vida através de um olhar, de um ponto de vista, de uma interpretação. Faça-se memória daquilo que o próprio Nietzsche fala em Sobre verdade e mentira: “[...] se pudéssemos pôr-nos de acordo com o mosquito, aprenderíamos então que ele também flutua pelo ar com esse pathos e sente em si o centro esvoaçante deste mundo.” (NIETZSCHE. Sobre verdade e
mentira. 2008, p. 26.); ou seja, o olhar do homem se faz tão importante para ele apenas pelo fato de que este
olhar é o dele! Contudo, o caminho de uma filosofia etimológica em momento algum fora proposto nessa investigação, por isso percorrer-se-á uma outra senda interpretativa, isto é, tentar entender o perspectivismo nietzschiano a partir de algo mais arcaico, anterior ao próprio pensamento filosófico em foco, a saber: a técnica da perspectiva geométrica na arte pictográfica.
busca racional por uma verdade metafísica e absoluta afasta o homem de suas pulsões primordiais e, portanto, torna a vida mais difícil de ser enfrentada, – comentando o tratamento concedido à verdade pelo cristianismo – assim escreve Nietzsche em O anticristo (1895):
[...] a suspeita mais forte que existe contra a “verdade”, quando os sentimentos de prazer têm a ver com o assunto, consiste justamente em definir “o que é verdade”. A prova do “prazer” é a prova da existência do “prazer”, só isto; quem disse coisa tão estrambólica, de onde veio a certeza de que juízos verdadeiros causam mais satisfação do que falsos, e que necessariamente, de acordo com uma harmonia pré-estabelecida, trazem consigo sensações prazerosas? A experiência de todos os intelectos severos e profundamente considerados mostra o contrário. Pela verdade, foi necessário lutar passo a passo, foi preciso abandonar quase tudo que prende nosso coração, nosso amor, nossa confiança na vida. É preciso ter grandeza de alma: o serviço à verdade é o mais duro dos serviços118.
O perspectivismo em Nietzsche é uma espécie de ângulo observatório ao qual cada indivíduo fora destinado a partir do princípio de individuação; portanto, deverá ser afastada a possibilidade de conquista de qualquer tipo de verdade cabal e incondicional sobre as coisas. Na tentativa de elucidar tal posicionamento nietzschiano, assim escreve Michael Tanner em sua obra O pensamento de Nietzsche:
[...] o que interpreta e o que é interpretado estão ambos numa posição diferente daquela que lhes seria atribuída por uma epistemologia ingénua.
Estamos condenados a ver as coisas do nosso ponto de vista119, pelo que é aconselhável ter tantos pontos de vista quanto possível. Nunca vamos chegar até “às coisas elas próprias”, por nossa causa e também por não termos razão para pensar que, no sentido que habitualmente dado a essa expressão, existam tais coisas120.
Sintetizando, Nietzsche parece sugerir que não se deve aprisionar o homem nos grilhões de uma única análise soberana ou modelar da existência, tal qual tenta consumar, por exemplo, a moral vigente no Ocidente, ou seja, a moral judaico-cristã; desse modo, para o homem ser um artista trágico, nenhuma interpretação deve emergir como o paradigma de leitura da realidade. Senão, mais uma vez, o homem seria obrigado a meramente obedecer e jamais seria um autêntico “espírito livre”. Logo, é contundente postular que, em similitude ao que deve ocorrer com o ponto de vista da moralidade – a qual, segundo Nietzsche, sempre visa se impor como a única leitura de mundo no Ocidente121 –, a versão nietzschiana da vida
118 NIETZSCHE. O anticristo. 1992, § 50, p. 74 – 75. 119
Grifo nosso.
120 TANNER. O pensamento de Nietzsche. 1997, p. 81.
também não pode ser considerada a absoluta tradução da realidade, ela é apenas mais uma perspectiva, a qual simplesmente contém o mérito de convidar o homem a criar a sua própria leitura cosmológica. Portanto, é possível desconfiar que a ótica nietzschiana não deva pretender-se como suprema e inequívoca, mas deve sim atribuir-se a incumbência de buscar contemplar os demais olhares enquanto considerações possíveis (o olhar da águia em oposição ao olhar da rã). E como tais, eles (os diversos olhares sobre o mundo) se concretizam enquanto interpretações da vida, ou seja, pertinentes sentidos inventados, os quais são apropriados justamente por serem humanamente forjados (isto é, apreciações humanas, demasiadamente humanas, a respeito da existência, do mundo, da vida e do próprio homem).
Nessa direção, assim escreve Nietzsche na Genealogia da moral:
Existe apenas122uma visão perspectiva, apenas um “conhecer” perspectivo; e quanto mais123 afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais124
olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito” dela, nossa “objetividade”. 125
Ainda sobre o perspectivismo nietzschiano é oportuno destacar a interpretação de António Marques que, em seu texto Sujeito e perspectivismo, alega o seguinte:
Nesse processo reflexivo [referindo-se à meditação nietzschiana acerca dos valores que são atribuídos às coisas] emergem a relatividade e a contingência contida em toda categorização. O mesmo é dizer que a mencionada transformação [a crítica ao sujeito universalmente legislador da teoria kantiana, anteriormente exposta pelo autor, e a passagem para o sujeito “auto-afirmativo” de Nietzsche] anuncia um passo posterior, um pequeno mas decisivo avanço que Nietzsche vai realizar: conhecer, representar, categorizar é o mesmo que ocupar um lugar, um ponto de vista entre outros possíveis num vasto complexo de perspectivas126. 127
Porém, como dito anteriormente, é ainda importante notabilizar que o perspectivismo nietzschiano não se caracteriza como sendo um mero relativismo. Afinal, ao criticar a ideia de uma verdade uníssona, Nietzsche não está simplesmente buscando exaurir o dogmatismo metafísico, mas concomitantemente propõe e até postula uma perspectiva que não é superior
122 Grifo do autor. 123 Grifo do autor. 124 Grifo do autor.
125 NIETZSCHE. Genealogia da moral. 1998, Dissertação III: O que significam os ideais ascéticos? , §12, p.
109.
126 Grifo nosso.
às demais, mas que se coloca em uma posição inédita, a saber, aquele olhar que contempla outros olhares. Assim sendo, por intermédio de seu perspectivismo, o filósofo contemporâneo destrói a ideia de uma verdade única, ao passo que consegue contemplar as diversas perspectivas acerca da realidade existencial. Por conseguinte, surge uma perspectiva interpretativa que consegue aperceber-se das demais perspectivas, logo a contemplação trágica do mundo, entendendo-o como sendo um fenômeno estético e possibilitando a afirmação do viver humano, funciona não só como vetor hermenêutico, mas também como um alargamento de horizontes para fundamentar (de modo não dogmático!) a sua própria interpretação estética e existencial.
Portanto, o perspectivismo nietzschiano não se relaciona em qualquer momento ou sob qualquer hipótese com o verdadeiro. Em outros termos, o perspectivismo não lida com a verdade em qualquer âmbito. Afinal, se existem várias perspectivas do mundo, logo não é possível a existência de uma “Verdade” única e paradigmática como propõe o dogmatismo metafísico. Outrossim, a ocorrência de perspectivas diversas, tal qual propõe Nietzsche, não se constitui como a mera destruição dos sistemas metafísicos que objetivam a verdade absoluta, isto é, o perspectivismo nietzschiano não se caracteriza enquanto um tipo qualquer de ceticismo (seja em que grau for), haja vista assumir uma postura cética, grosso modo, é abertamente negar a existência da verdade, logo o cético relaciona-se negativamente com a verdade. E assim, também no ceticismo, de algum modo, a verdade ainda está em jogo.
Por fim, o perspectivismo não se constitui como sendo um relativismo puro e simples, pois o relativismo propõe que a verdade é relativa, ou seja, que existem várias verdades. E desse modo, mais uma vez, a verdade estaria na berlinda da investigação filosófica e humana. Contudo, a verdade, mesmo que relativa, não é tema da investigação nietzschiana. Logo, em Nietzsche “O problema da objetividade é de algum modo substituído pelo problema do
sentido”128
.
Desse modo, é possível inferir que o perspectivismo de Nietzsche qualifica-se como uma contemplação hermenêutica da existência absurda, uma contemplação interpretativa e inerente à estética trágica, a qual confere um sentido belo à vida, transmutando-a em algo suportável e, por conseguinte, objeto de desejo do homem. Isso de tal forma que ele sempre busque afirmar o seu viver.
E mais, deve-se ratificar que o perspectivismo nietzschiano se faz significativo não devido ao fato de que o mesmo soergue-se enquanto uma interpretação superior às demais
128 Ibid. 1989, p. 40.
interpretações humanas do mundo, pois ele é apenas uma interpretação capaz de notar a presença das demais invenções hermenêuticas do homem, as quais também visam conferir uma significação à realidade existencial.
Não obstante, é valido destacar que o perspectivismo filosófico não é uma ideia exclusiva ou mesmo originária do pensamento nietzschiano, afinal o perspectivismo já aparece em algumas meditações filosóficas de autores anteriores a Nietzsche como, por exemplo, no pensamento de Gottfried Wilhelm von Leibniz (Alemanha, 1646 – 1716), bem como em pensadores posteriores como em José Ortega y Gasset (Espanha, 1883 – 1955). Contudo, não parece inapropriado interpretar que o perspectivismo apresenta-se como um possível elã central para a compreensão da proposta reflexiva de Nietzsche acerca da existência e talvez nenhum outro pensador tenha lhe dado tanto realce.
Nesse sentido, é importante lembrar, ainda que de modo vago e sucinto, que o perspectivismo tem suas bases não na filosofia, mas sim na fruição estética pictográfica, a qual, sobretudo, a partir do Renascimento Cultural (Europa, final do século XIII a meados do século XVII), irá dispor da matemática (mais precisamente da geometria) para criar uma ilusão ótica, isso de modo que em uma obra plana, isto é, dotada de apenas duas dimensões (largura e altura), quando contemplada pelo olhar humano, surja a falsa impressão de profundidade (uma terceira dimensão) e assim, inventa-se uma nova leitura da obra de arte. 129
E mais, a criação desse fictício olhar estético na pictografia não procura ver o universo como ele é de fato, mas sim erigir um modo interpretativo de contemplação do mundo, a saber, a perspectiva do homem, ou seja, a pintura com perspectiva objetiva apreciar como o mundo pode ser visto através do fitar humano, logo tal ponto de vista não é uma tentativa de adequação ao real, mas sim uma caracterização interpretativa. Em suma, essa compreensão de adequação da obra à realidade do mundo, enquanto uma pretensa verdade, não se encontra sob o foco da pintura com perspectiva, mas o que aqui se manifesta é apenas a possibilidade de se compor um panorama interpretativo, a criação de uma hermenêutica acerca daquilo que se tem diante dos olhos. Portanto, o olhar humano necessariamente não é o perscrutador maior de toda e qualquer realidade por trás dos fenômenos, ele é apenas mais um olhar.
Especificamente sobre o perspectivismo nietzschiano, grosso modo, pode-se ainda afirmar que o mesmo caracteriza-se como uma compreensão da vida dotada de duas faculdades principais:
129 Um dos primeiros pintores, senão o primeiro, a utilizar o cálculo geométrico para criar obras pictografias com
perspectiva foi Giotto di Bondone (Itália, 1267 – 1337). Como exemplo da técnica da perspectiva realizada por Giotto pode-se citar o afresco intitulado Jesus ante Caifás (Cappella degli Scrovegni, Pádua – Itália, 1302 – 1305).
a) O perspectivismo não persegue o status de leitura verdadeira da existência, nem se relaciona com a verdade em qualquer medida (isto é, como visto acima, ele não é um dogmatismo metafísico que afirma a verdade; também não se faz um tipo de ceticismo que busca negar a verdade em sua totalidade ou em alguma porção; bem como, ele igualmente não se assinala como um mero relativismo que postula que cada interpretação do mundo é verdadeira, ou mesmo como uma fração da “Verdade” absoluta).
b) O perspectivismo nietzschiano é uma hermenêutica inventada e, por conseguinte, falsa acerca da vida (enquanto falseamento do viver, ele jamais busca concatenar- se com o verdadeiro), consequentemente o perspectivismo nietzschiano percebe a presença e o valor de tantas outras interpretações existências igualmente dissimuladas.
Em suma, o perspectivismo nietzschiano postula que aquilo que é tido como conhecimento do homem acerca do mundo, na verdade, seria fruto de meras interpretações, as quais são uma espécie de ficção útil para a autopreservação (isto é, elas servem à vontade de sobrevivência).