1 (s[sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 2 H1 [já tem outro o- pessoal que vai- (.)o pessoal que vai fazer esse
3 negócio da- [de pagar a associação quando terminar todos de falar\= 4 M1 [(xx) (xx) quando discute uma coisa que-
5 LA =exatamente\ ([.) por isso qu^eu (xx) 6 H1 [a pessoa num sai\= 7 LA =é por isso que eu (x[x)
8 H1 [tem que pagar a
9 associação [(xx)
10 H2 [tem que pagar a associação (x[x)
11 H [<(xx) (xx) sair\>
12 <((rápido))>
Constitui uma praxe que algum pagamento seja feito no final da reunião da Associação. Nas Linhas 2 e 3, o participante H1 referencia um certo comportamento de algumas pessoas. Ele faz um truncamento e logo em seguida retoma sua descrição comportamental, formulando que o pagamento seja feito somente quando a reunião realmente tiver sido concluída (já tem outro o- pessoal que vai- (.) o pessoal que vai fazer esse negócio da- de pagar a associação quando terminar todos de falar\). A tensão do debate é referenciada na sobreposição produzida por M2 (Linha 4, quando discute uma coisa que-). Em um encadeamento rápido ao turno de H1, Laura concorda com ele e justifica uma atitude sua, relativamente ao aspecto em tela (Linha 10, exatamente\ (.) por isso qu^eu (xx)). H1 justifica que a adoção de tal regra (receber o pagamento somente quando terminar todos de falar) deve servir para reter as pessoas no recinto (Linha 6, a pessoa num sai\). Laura retoma quase os mesmos itens lexicais para reformular a justificativa do seu procedimento (Linha 7, é por isso que eu (xx)). H1 parece reformular a regra proposta, embora o final de sua fala esteja inaudível (Linhas 8 e 9, tem que pagar a associação (xx)). Em uma sobreposição de fala, o participante H2 secunda essa reformulação (Linha 10, tem que pagar a associação (xx)).
Na reunião da Associação dos Moradores dos Tipis aqui analisada, estar sentado ou em pé e/ou a implementação dos gestos de sentar, levantar, permanecer sentado ou de pé correlacionam-se com a história interacional desses indivíduos. Assim, podemos observar padrões de polidez que se manifestam em uma preocupação com a acomodação e com a comodidade dos participantes da reunião. Esses gestos também constituem recursos para a resolução de problemas que se situam na emergência da ordem interacional. Com esses procedimentos, os participantes: chamam a atenção
dos outros; mantêm essa atenção; tomam o turno; garantem a sua posse; geram assimetrias interacionais; formulam e reformulam o seu status interacional; sinalizam tensões observáveis em momentos interacionais específicos; sinalizam uma saturação do evento, indicando que a reunião deve ou deveria ser finalizada.
6.4.3 Entrando e saindo da sala: o espaço físico como critério interativo, na reunião da Associação dos Moradores dos Tipis
Os participantes da reunião da Associação dos Moradores dos Tipis eventualmente geram e gerenciam a oposição interior da sala vs exterior da sala enquanto um critério de auto-categorização e/ou de categorização de certos participantes do evento. Também eventualmente esse critério é realizado enquanto um expediente político na instauração de assimetrias momentâneas entre participantes. Trata-se de um critério dinâmico, emergente, ad hoc.
A produtividade da oposição interior da sala vs exterior da sala é observável já no início do registro, como podemos observar no Extrato 14. Tornemos a olhar para esse trecho.
Extrato 14 (68-85 seg.) (1’08’’-1’25’’) (17 seg.)
1 (ss[ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss)
2 OP [cês num vieru mas eu vim <pegar vocês lá fora\ viu/> [(he he he) ((riso)) 3 PS <gesticula com a mão esquerda>
4 PS [(he he he) ((riso))
5 RU [(he he he) ((riso))
6 H1 xxx[xx 7 H2 [tá cer[to
8 Clara [vala minha nos^se[nhora\
9 H1 [ficou em casa/ é/ 10 (ssssss[ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 11 H1 [já entramo no [lance\ 12 CR1 [sai do [mei Jô\ 13 CR2 [sai do mei Jô\ 14 (ss[ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 15 H2 [exatamente\
16 M1 a::h ((abaixando-se, saindo do foco da câmera))
17 (ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 18 M2 é mais fei\ (x[x)\
19 H1 [(xx) (x[x) (xx)\
No Extrato 14, como operador da câmera, estou próximo aos meus interlocutores Paulo Sérgio e Rute e fora da sala onde a reunião será realizada, sinalizando para eles a minha ação de filmar (Linha 2, cês num vieru mas eu vim pegar vocês lá fora\ viu/ (he he he ((riso))). Todavia, adoto, de modo encadeado, diferentes perspectivas de auto-localização relativamente a esse espaço físico e ao contato com meus interlocutores. Meus supostos deslocamentos e os diferentes modo como me auto- localizo são observáveis através de aspectos dêiticos nas escolhas lexicais.
Em uma das perspectivas, (cês num vieru), com o verbo escolhido (vir), conoto um auto-deslocamento inicial para uma localização espacial particular. Meus interlocutores não se deslocaram para esse mesmo lugar. Com efeito, falo com eles como se gerasse meu enunciado a partir de uma localização distinta da deles. Essa fala é realizada como se, no momento da enunciação, eu, por um lado, e Paulo Sérgio e Rute, por outro, estivéssemos em locais diferentes, mediados por algum aparato que permitisse uma comunicação à distância, como um telefone ou, mais adequadamente, em virtude da quantidade de participantes, uma vídeo-conferência.
Logo em seguida, altero a minha perspectiva de localização espacial (mas eu vim pegar vocês). Conoto, então outro auto-deslocamento e agora me auto-localizo em um espaço físico onde meus interlocutores se encontram. No entanto essa minha perspectiva é efêmera. Imediatamente à minha auto-localização em uma perspectiva próxima aos meus interlocutoroes, auto-localizo-me em uma outra perspectiva. Embora o efetivo lugar onde a interação está ocorrendo seja o exterior da sala, a ele me refiro como um local onde não estou (lá fora). Ou, se efetivamente fui para esse lugar (eu vim), esse lugar é um não-lugar, relativamente ao ponto para o qual todos deveriam ter ido: dentro da sala. O interior desse recinto é, pois, um local onde eu e meus interlocutores não estamos, mas para onde deveremos ou deveríamos ir.
Não há registro de alguma participação de Paulo Sérgio e Rute no desenvolvimento da reunião. O procedimento de manter-se fora da sala é conservado por Clara, embora ela atue como participante efetiva da reunião, conforme veremos na análise do Extrato 31, a seguir.
A aparente contradição ou as sucessivas mudanças na minha perspectiva de localização espacial movimentam a oposição interior da sala vs exterior da sala, na reunião da Associação. Elas sugerem também que, no domínio da fala-em-interação, a auto-localização e/ou a localização de outrem no espaço físico interacional é um processo dinâmico, que pode assumir o caráter de uma perspectiva, incluindo e dependendo de relações diversas, construídas entre os participantes, pelos participantes, para os fins práticos da atividade desenvolvida.
O caráter eventual, não-categórico, da oposição interior da sala vs exterior da sala, enquanto um critério instaurador de assimetrias interacionais, pode ser observado no Extrato 31.