Em seu percurso teórico, Le Breton (2009), a fim de defender o caráter adquirido, não inato das emoções, efetua uma crítica a estudiosos de diversas áreas e épocas, das raízes darwinistas à atualidade, aos quais ele filia a chamada razão naturalista (crítica essa que, em vários aspectos, dialoga com aquela de Damasio, apresentada anteriormente, pois mostra as implicações negativas de todo um percurso de biologização cega das paixões). Como defende que as emoções são sobretudo culturalmente definidas – portanto, variáveis, não universais –, o antropólogo irá se opor à tradição naturalista no tratamento das afetos, tradição esta que pretende encontrar traços fisiológicos comuns a todos os indivíduos e sociedades no que concerne à expressão das paixões. Le Breton, portanto, prossegue no clássico debate entre “a congenialidade e a aquisição, entre o papel da natureza e o papel da cultura nas relações da condição humana com o mundo, entre biologia e simbologia.” (LE BRETON, 2009, p. 180). Nessa empreitada, Le Breton centra-se no resgate dos trabalhos fundantes de Darwin sobre as emoções, em especial aqueles contidos na obra A expressão das emoções no homem e nos animais (1874), que analisa a origem e as funções das expressões faciais e corporais na espécie humana e em outras. Nas teorias darwinistas, as manifestações das emoções seriam vestígios dos comportamentos antigos cuja utilidade decorre da história de evolução das espécies e de sua seleção natural. Sob esse ponto de vista, por exemplo, a expressão de cólera implicaria necessariamente as narinas dilatadas porque, durante o combate das espécies, a boca era preenchida pela porção abocanhada do corpo do adversário e, para que a respiração se tornasse possível, o nariz tinha de se alargar para a entrada de ar.
Efetuando uma crítica severa à carência metodológica do naturalista britânico e a seu reducionismo teórico, Le Breton defende que Darwin efetuou algo como uma “botânica das emoções”, em que cada uma delas seria descritível sem qualquer referência ao homem que as
71 Durkheim, em As formas elementares da vida religiosa (apud LE BRETON, 2009, p. 111), a esse respeito,
pontua que “[...] o estado afetivo em que o grupo se encontra reflete as circunstâncias que ele atravessa, [já que] a própria sociedade exerce sobre seus membros uma pressão moral para que harmonizem seus sentimentos com a situação, [tendo em vista que] desinteressar-se equivaleria a romper os laços que o unem à coletividade.”.
experimenta, por meio de um inventário fisiológico das paixões e de sua expressão no corpo e no rosto que se pretendia universal.
Suprimindo a dimensão simbólica da manifestação das emoções, negligenciando os significados sociais e culturais que elas assumem em contextos diferentes, Darwin dissolveu ao extremo a singularidade da condição humana e das diferentes espécies animais. Mediante uma ciência natural que abarca no mesmo movimento o estudo do homem e do animal, Darwin afirmou a universalidade das emoções e de suas expressões; no mesmo movimento, ele anulou a dimensão semântica que envolve as condutas humanas no campo da afetividade. (LE BRETON, 2009, p. 189).
Mas Darwin não estava sozinho nessa empreitada de inventariar descritivamente, quase como em um dicionário, as emoções que se expressavam (e como se expressavam anatomicamente) como que à revelia dos indivíduos. Le Breton cita, nessa esteira, inúmeras referências anteriores ou posteriores a Darwin, como a do pintor Charles Le Brun (e das ilustrações de seu “alfabeto das máscaras”), do conde de Buffon (e de sua História Natural), do neurologista Duchenne de Boulogne (em seu Mecanismo da fisiologia humana ou análise eletro- fisiológica das paixões), do filósofo naturalista Herbert Spencer (em Princípios de Psicologia), do psiquiatra e cirurgião Cesare Lombroso (e seus estudos sobre frenologia e criminologia), além de vários outros fisiognomistas na esteira do naturalismo72: todos eles variantes em métodos e linhas de pesquisa, mas sempre afeitos a essa descrição exaustiva e pseudototalizante das expressões humanas a partir de bases fisiológicas e anatômicas.
Contemporaneamente, Le Breton também pontua uma série de trabalhos que parecem resgatar Darwin, mas renovando cientificamente seu vocabulário e métodos, a exemplo de J. D. Vincent, Kemper, Freitas-Magalhães, Caroll Izard, Monique de Bonis e Ekman73. Os trabalhos atuais, obviamente, enriquecem-se com as possibilidades de uso da tecnologia e de metodologias mais consistentes a seu favor (além de se diversificarem com pontos de vista bem menos sensacionalistas e mais cognitivistas), mas, sob o crivo de Le Breton, ainda assim
[...] apagam a dimensão simbólica, aderindo à mesma objetivação das emoções. Eles jamais se enfastiam de identificá-las, como se fossem botânicos da afetividade, isentos de toda significação individual e social. Ocorre que tal percepção é desmentida pela vida real, a qual destaca particularmente sua ambivalência e complexidade – a mudança incessante das diversas tonalidades afetivas, que por vezes contrastam até mesmo no decurso das horas. A busca de uma base
72 Por questões de extensão, não poderemos nos deter a cada um desses estudiosos citados nesta página e a seus
métodos, assim como às definições dos termos técnicos desse campo semântico. Para maiores informações, sugere-se a leitura de todo o capítulo “Crítica da razão naturalista”, da obra de Le Breton citada, Antropologia das Emoções: as paixões ordinárias (2009, p. 179-213).
anatomofisiológica da emoção e de sua expressão despreza as nuanças, as singularidades sociais e pessoais. Ainda que esse intento seja legítimo no interior das ciências biológicas, ele não possibilita a compreensão do homem em sociedade. [...] Na emoção [sob esse ponto de vista], o sujeito é percebido como um resto negligenciável, assim como seu grupo e seu público. (op. cit., 2009, p. 195). O psicólogo norte-americano Paul Ekman, por exemplo, retoma as ideias de Darwin por meio de uma perspectiva, em partes, cognitivista. Por meio da catalogação de um “atlas” com mais de 1000 expressões faciais obtidas “na abstração do laboratório, distante de qualquer contaminação com a vida concreta, e num contexto autista” (op. cit., p. 200), Ekman defende que algumas emoções básicas têm caráter universal (pois o ser humano armazenaria na memória representações mentais para estas), por isso levam a expressões faciais típicas e a outras tendências de ação fisiológicas automáticas previstas. Tal perspectiva seria insuficiente, dentre outros motivos, pelo fato de haver, sim, expressões faciais similares em vários povos, mas por cada cultura poder lhes atribuir significados diferentes, o que endossa as teses de Le Breton.