1. BÖLÜM
2.2. ÖNCÜLERİ
O termo melancolia no ocidente tem suas raízes na antiguidade grega, e está ligado à teoria humoral hipocrática ou galênica, que dominou a medicina ocidental do séc IV a.C. até meados do séc XIX. Segundo a teoria humoral, o ser humano seria
regido pelo equilíbrio entre os quatro humores: sangue, bile amarela (cólera), fleuma e bile negra; as doenças seriam causadas por desequilíbrios humorais, e a melancolia estaria ligada à bile negra. Os tipos de personalidade também são definidos pela predominância dos humores, assim temos por exemplo que um indivíduo cuja constituição tivesse preponderância de bile amarela seria dito colérico, e se preponderasse a bile negra ele seria dito de disposição melancólica.
Pigeaud localiza a origem da melancolia ocidental em três fontes principais: A primeira, e aqui nasceria a melancolia como doença, no 23º Aforismo do livro VI dos Aforismos de Hipócrates: “Se tristeza (distimia) e medo duram muito, um tal estado é melancólico” (Pigeaud, 1998, p. 55). A segunda fonte seria o Problema XXX, 1 de Aristóteles (ou o Pseudo-Aristóteles) onde se correlacionam melancolia (loucura) e genialidade, e os melancólicos são caracterizados como inconstantes mas altamente criativos. A terceira fonte, pertencente às Cartas de Pseudo-Hipócrates, da segunda metade do séc I a.C, seria a carta 17, para Damagetes, onde é relatado um encontro entre Hipócrates de Cos e Demócrito de Abdera, tido como louco pela população local. Nesse hipotético encontro entre os médicos gregos, Hipócrates não considera Demócrito louco, mas ao contrário, completamente são, dissecando animais, concentrado em sua pesquisa sobre a origem da bile negra, substância responsável pela melancolia. Esta carta tem longa influência na História. Robert Burton, por exemplo, retoma-a em sua influente Anatomia da Melancolia (1621), já no início da Idade Moderna na Inglaterra, utilizando-a para justificar seu pseudônimo Demócrito Júnior, como herdeiro e sucessor do primeiro Demócrito na pesquisa sobre essa doença, seus sintomas, suas causas e suas curas.
Cerca de seis séculos depois de Aristóteles, uma manifestação melancólica patológica importante aparece entre os monges do início do cristianismo: a acedia ou
acídia. Em sua etimologia, acídia vem do latim através do grego, akedia, significando negligência, desleixo, indiferença, mágoa, prostração, desgosto, apatia do coração e da alma. É uma doença que abrange, segundo Crislip, uma série de sintomas que “afetam o estado mental do monge, seus comportamentos, interações e posturas frente a outros monges” (2004, p. 149, trad. livre). Crislip cita Evagrio Pôntico, monge do séc. IV que descreve o Demônio da Acedia, ou demônio do meio dia, como “o mais problemático dos oito pensamentos demoníacos (ou vícios, paixões, tentações)” (p. 143). É o demônio da distração, que atua através de pensamentos persistentes e desencorajadores, impedindo o monge de perfazer suas obrigações sociais, especialmente de rezar a sinaxe6 com seus irmãos. O monge tomado pela acídia está frustrado com sua vida. Deseja atingir seu potencial ascético sem no entanto a isto se dedicar; ou também desiste de vez da vida monástica; é tomado por tédio, cansaço, ennui e procura fugir das práticas ascéticas. A acídia submete o monge ao ódio à própria vida monástica, sendo que às vezes este ódio brotaria da auto-degradação que ele faz consigo mesmo ou, ainda, de um senso de superioridade sobre seus irmãos e mais velhos. O monge encontra-se crítico, intolerante, acredita que a comunidade seja responsável pelo seu estado, e lhe vem a ideia de que “o amor desapareceu dentre os irmãos e de que não há ninguém para o consolar” (p. 152, grifos nossos).
Reconhecemos aqui elementos familiares à clínica contemporânea da melancolia: a intolerância, a auto-degradação e crítica, a falta de amor, as queixas do monge acídico; a dependência do amor e dos cuidados alheios soa bastante familiar num contexto de narcisismo, que é o contexto que a Psicanálise utilizará para enxergar a melancolia. No nosso paciente era notável o quanto se ressentia de não ser bem tratado, considerado, em suma amado, em vários níveis: seja pelos seguranças e pela
secretária no local luxuoso, seja pelo aluno que não compareceu, seja pelo ex- namorado. Se nas experiências com outras pessoas não se sente amado, é sinal de que sua capacidade de se auto-amar está prejudicada ou nunca fora suficientemente desenvolvida. Veremos mais à frente, com Abraham e Freud, que a capacidade de amar do melancólico é bastante afetada, sendo esta uma importante característica nesta afecção.
Mas antes de chegarmos à Psicanálise. No início da Idade Moderna, surge uma obra de grande influência: a Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, de 1621. No frontispício da obra (Burton, 2011) encontra-se uma gravura com dez quadros ricos em elementos e símbolos, todos eles ligados à melancolia. O autor oferece um poema com uma estrofe para explicar cada um dos dez quadros, de onde extraímos os seguintes fragmentos: (1) o filósofo Demócrito de Abdera dissecando animais para localizar a fonte da melancolia ou bile negra, e escrevendo um tratado sobre a melancolia. Acima deste, o símbolo do planeta Saturno, que é o astro regente da melancolia; (2) símbolos dos Ciúmes; (3) “Solitudo” (solidão); (4) o “Inamorato” (o apaixonado); (5) o hipocondríaco; (6) o supersticioso; (7) “Maniacus”, o Louco, “irado, furioso e desesperado/Desnudo e preso por correntes” (p. 43); (8 e 9) borago e heléboro, ervas para “purgar as veias/Da melancolia, e alegrar/Do negro fumo que a causar;/E limpar a Mente da bruma/Que a nosso senso e Alma enfuma”; (10) retrato do autor da obra, autodenominado Demócrito Junior. Destes, pelo menos ciúmes, solidão, apaixonamento, hipocondria, mania(loucura)/ódio são aspectos bastante presentes na subjetividade do paciente do caso que dá ensejo a esta pesquisa. De notável também é que, ainda que sem utilizar esta terminologia, em vários pontos da obra Burton liga a melancolia a conceitos que nos remetem ao que atualmente denominamos por oralidade e predomínio excessivo do princípio do prazer.
A seguir faremos um salto de 1621 para o século XX, deixando claro, porém, que não há um “vácuo” sobre o tema nesse período. Pelo contrário, há, com o desenrolar da eras moderna e contemporânea, diversos desenvolvimentos teóricos e clínicos sobre a melancolia (Berrios, 2012), incluindo-se aí, notadamente, o abandono da teoria humoral. Porém, estes não cabem no escopo desta pesquisa. No próximo tópico abordaremos a melancolia no contexto da Psicanálise.