No texto As Etapas da Vida Humana, Jung ( k, p. ) argumenta que versar sobre a do título exige “[...] traçar um quadro de toda a vida psíquica, desde seu berço até a sepultura”. Argumentou também que seu interesse se dirigia, nomeadamente, para os problemas psicoló- gicos, aspectos questionáveis e ambíguos no desenvolvimento que, por isso, ensejam respostas variadas. Essa inclinação estava relacionada ao seu trabalho como psicoterapeuta, no qual de- dicava interesse humano e psicológico às dificuldades evolutivas de seus pacientes. Conferiu, consequentemente, grande relevância ao indivíduo, seu sofrimento e sua percepção das dificul- dades da vida.
Para ele, a vida, em seu início, é função dos instintos, a função biológica orienta a ação, e, portanto, é considerada como psicologicamente não-problemática. Problemas são frutos da formação da consciência, na medida em que o homem se afasta unilateralmente de seus instin- tos, negando-os ou limitando-os. É a colisão dos instintos, já operantes na criança, e a resposta simbólica aos impasses que dela resultam que originarão a consciência. (JUNG, ). A cri- ança vive, pois, em uma condição pré-problemática.
Os problemas psicológicos derivam de embate semelhante, mas em outro grau de organi- zação. O estado problemático só existe na medida em que uma limitação exterior passa a possuir valor subjetivo e, com isso, torna-se uma limitação interior da atitude consciente. Dois impulsos passam, assim, a se contrapor na consciência. Em termos psicológicos: "[...] o estado proble- mático, a divisão interior do próprio indivíduo, ocorre quando ao lado da série dos conteúdos do eu surge uma segunda série de igual intensidade". (JUNG, k, p. ). O problema é esse estado divisão, e "[...] só o ser humano adulto é que pode ter dúvidas a seu próprio respeito e discordar de si mesmo". (JUNG, k, p. ).
Isso não quer dizer que Jung não tenha teorizado sobre da vida psíquica infantil. Com efeito, pôde até mesmo argumentar, com base em suas observações, que a criança não é um problema para si mesma, mas sim para os outros. O entendimento psicológico admite seu de- senvolvimento como problema. Quem não o faz é ela própria. Destarte, toda a compreensão dos estados problemáticos da alma é teoria do desenvolvimento adulto.
Jung ( k) admite o ciclo solar como alegoria do desenvolvimento humano e compara o surgimento da consciência com a aurora, quando o sol se ergue das trevas do inconsciente. Ao se erguer no céu, aumenta em extensão e em intensidade a sua ação sobre o mundo e parece ter como meta as alturas mais elevadas. No que diz respeito à vida psíquica, sua trajetória é individual e imprevisível, incluindo-se o seu zênite.
O meio-dia implica uma inversão do sentido do movimento, o que psicologicamente é uma inflexão dos valores cultivados durante a manhã. O sol, por assim dizer, recolhe os seus raios, mergulhando progressivamente na individuação. O crepúsculo, por sua vez, corresponde a uma segunda fase de penumbra que se assemelha à infância, pois perdas progressivas de fun- ção reconduzem, em diversos casos, o indivíduo ao estado não problemático, ao menos até onde é possível observar. Ao cabo da vida, a derradeira meta: extinguem-se a luz e o calor. A alegoria é pertinente em muitos aspectos, mas é mister aludir em maior minúcia a dimensão psicológica, sobretudo a adulta, que é nosso foco.
Enquanto governada pelos instintos, na infância, a psique parte de um estado de indife- renciação primária. Jung chama essa organização psíquica de identidade arcaica e explica: “Falo de identidade no caso de uma igualdade psicológica”. Ela difere da identificação ou do nivelamento, sendo melhor compreendida como igualdade apriorística. Consequentemente, “[...] é sempre um fenômeno inconsciente, pois a igualdade consciente sempre pressuporia [...] uma separação entre sujeito e objeto, o que suprimiria o fenômeno da identidade”. (JUNG, , p. ). Onde houver identidade não podemos falar em consciência, apenas existem reações às exigências ambientais. Parte da reação é a conformação da experiência em imagens arquetípi- cas, fundamento da diferenciação consciente.
Segue-se a essa identidade originária a primeira forma observável de adaptação psicoló- gica que Jung ( k) chamou de fase anárquica ou caótica. A capacidade de conhecer ou re- conhecer algo, realizando uma discriminação entre estímulos, é a primeira adaptação psicoló- gica que podemos observar na infância. Aparentemente, a consciência infantil inicia com a per- cepção de conexões entre as experiências, o que acontece de forma esporádica, às quais falta coesão e continuidade. Por isso, elas logo caem no esquecimento. Formam-se, no máximo, ilhas de consciência isoladas entre si pelo inconsciente.
Nesse estado, a psique da criança se encontra ainda mergulhada no contexto psíquico em que está inserida. Boa parte dos conteúdos inconscientes permanecem em identidade com a imagem dos pais. É o chamado “paraíso da infância”, isento de problemas e no qual alguém compre a função materna de nutrir, acolher e satisfazer e a paterna, de proteger e indicar a direção. Nessa fase, para a criança, as pessoas são essas funções.
Em contrapartida, a criança representa para os adultos um potencial simbólico aberto, dada a unilateralidade quase inexistente. Os adultos são os principais responsáveis por conduzir, inibir e limitar a ação do indivíduo, sufocando essa espontaneidade. Trata-se de uma contribui- ção para o desenvolvimento da consciência e, por isso mesmo, da adaptação à vida por meio de inserção no mundo da cultura. Na medida, porém, em que os adultos não tenham equilíbrio psicológico, seus complexos inconscientes irão responder ao estímulo da criança, dada sua ex- pressão pouco dirigida. A criança, por sua vez, viva a tal ponto a identidade, que acabam vi- vendo os conflitos dos pais, já que ela própria não tem sequer uma consciência passível de desequilíbrio.
Essas considerações contextualizam a já referida crítica de Jung à responsabilização exa- gerada e tendenciosa das crianças. Em seu ponto de vista, é pelo fato de os adultos fugirem de seus problemas que ela existe. Como é característico da cultura ocidental moderna, o homem dissociado hipervaloriza o eu como centro exclusivo de sua vida psíquica. Para o autor, essa é uma falha universal da educação ocidental, que delega excessivas responsabilidades às crianças, enquanto os adultos, incapazes de enxergar suas limitações, deixam-nas sobejamente de lado.
A personalidade, propriamente dita, existe em germe na criança, mas somente se desen- volverá ao longo da vida e, ainda assim, dadas certas condições. Nesse sentido, seria bom que o educador fosse capaz de olhar para si próprio a fim de evitar sobrecarregar a criança de seus próprios conflitos e preconceitos. De maneira geral, recebeu a mesma educação defeituosa de que quer salvar a criança e se ilude de que pode passar por cima disso sem educar a si próprio. Jung é taxativo nesse ponto: “Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro observar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos, como por exemplo, nosso entusi- asmo pedagógico. Talvez devêssemos dirigir esse entusiasmo para nós mesmos”. ( d, p. ). Isso decorre do fato de que, por ser dotado de um eu capaz de se problematizar reflexi- vamente, o adulto é o responsável por fornecer uma resposta simbólica aos problemas culturais em pequena e em larga escala.
Com a adaptação progressiva, as “ilhas” se associam em torno do afeto corporal e o eu ganha coesão e continuidade progressivas enquanto se aproxima da consciência. Ao desenvol- ver uma consciência de si, o indivíduo atinge o estado que Jung denominou monístico ou mo- nárquico. (JUNG, k). Nele, o indivíduo se afasta da condução segura dos instintos e a di- reção do desenvolvimento se torna cada vez mais cultural.
Esse “nascimento psicológico” ocorre, mais precisamente com a puberdade, na qual o acréscimo fisiológico de energia acentua também o eu, que se diferencia, até certo ponto da
psique dos pais. (JUNG, k). A consolidação da consciência é caracterizada pelo desenvol- vimento mais acentuado de uma das funções ectopsíquicas que também se dirige mais prefe- rencialmente em direção aos objetos (extroversão) ou ao processo subjetivo (introversão). A função dominante é reconhecida como superior, enquanto a oposta é a inferior, que permanece menos diferenciada e mais próxima dos instintos. A eficácia adaptativa da atitude consciente ante as exigências do meio externo – incluindo o meio social – é o guia fundamental da primeira fase da vida adulta. Para que exista, precisa ser capaz de exercer certa força contra a ação do inconsciente e preservar sua direção.
Quando essa progressão adaptativa é conquistada a contento, “[...] normalmente a cola- boração do inconsciente com o consciente ocorre sem atritos e perturbações, de modo que a existência do inconsciente nem é percebida” (JUNG, m, p. ). A contrapartida desse es- tado é que o afastamento da consciência em relação aos instintos resultará em um esgotamento da atitude e na necessidade de assimilação do inconsciente, em algum momento. O apego à atitude conquistada e a integração, por meio dela, à cultura estabelecida e à sociedade é o pro- cesso normal da juventude. (JUNG, k).
Ao considerar os problemas mais comuns dessa fase da vida, Jung reconheceu uma ca- racterística geral: “[...] um apego mais ou menos claro ao nível de consciência infantil, uma resistência às forças fatais existentes dentro e fora de nós que procuram envolver-nos no mundo”. (JUNG, k, p. ). O choque das exigências da vida adulta com a psique infantil, não raro, produz dificuldades. O indivíduo, involuntariamente, pode se manter vinculado a ilu- sões que colidem com a realidade, ou seja, com pressupostos que “[...] não se coadunam com as condições externas com as quais o indivíduo se depara”. (JUNG, k, p. ). Cabe notar, todavia, que muitas vezes não são os fatores externos que colidem com os pressupostos subje- tivos, mas dificuldades psíquicas internas, como as demandas produzidas pelo instinto sexual ou por um sentimento de inferioridade.
Em todos esses casos, a problematização de si aparece cedo. Ela se impõe como exigência para que a vida possa avançar em seu curso regular. As exigências imediatas da vida colidem com o apego ao paraíso da infância, forçando uma diferenciação. A solução advém com a adap- tação de “[...] tudo o que nos foi dado pelo passado às possibilidades e exigências do futuro. Limitamo-nos ao que é possível alcançar, e isso significa, psicologicamente falando, renunciar a todas as outras nossas potencialidades psíquicas”. (JUNG, k, p. ). Com isso se atingiria o ótimo da idade adulta inicial.
Cedo ou tarde, até mesmo para aquele que conseguiu se adaptar sem problemas na pri- meira fase da vida, ao chegar ao meio-dia, os objetivos iniciais da juventude se tornam inade- quados e são reorientados pelo inconsciente no sentido da individuação. (STAUDE, ). A atitude desenvolvida na adolescência, de uma forma ou outra, realizou o que lhe era possível, as exigências não são mais as mesmas, tanto intimamente quanto nas relações. O envelheci- mento do corpo, as mudanças nas expectativas sociais, a experiência consigo mesmo e a proxi- midade da morte, muitas vezes anunciadas pela perda de entes queridos, são alguns fatores que fazem apontar para outro aspecto da vida, o caminho em direção à finitude. (JUNG, k).
Com a mudança das exigências, a energia outrora investida na adaptação ao mundo exte- rior regride e ativa os núcleos inconscientes, trazendo à tona aquela parte da vida psíquica não desenvolvida nos anos pregressos. A contínua confrontação com tais conteúdos tem por conse- quência a descoberta de um sentido renovado para a vida e a realização gradual da totalidade do si-mesmo. Com isso, Jung “[...] concluiu que a tarefa da segunda metade da vida era o de- senvolvimento do self [si-mesmo], trazendo com ele maior unidade, harmonia e fundamento do que se poderia atingir só por meio do desenvolvimento do ego”. (STAUDE, , p. ).
Jung argumenta que
[...] da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desco- nhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levava até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela. (JUNG, k, p. ).
Após a meia-idade é perigoso ficar preso na atitude juvenil, pois os objetivos desta são tão inadequados ao envelhecimento quanto os da infância à juventude. (JUNG, k). É im- portante ter um objetivo no futuro, conforme as palavras de Jung: “[...] uma vida orientada para um objetivo em geral é melhor, mais rica e mais saudável do que uma vida sem objetivo”. (JUNG, k, p. ). Para que esse sentido seja construído, confronta-se, pois, a adaptação à cultura estabelecida com a criatividade psíquica que advém de fontes coletivas, i.e., comuns à humanidade. Essa ação faz o homem caminhar no sentido da individuação e da realização de sua personalidade.
A personalidade, para Jung, é um ideal de totalidade, poder de decisão e força, o que “[...] é um ideal da pessoa adulta que se pretende atribuir à infância”. (JUNG, d, p. ). Mesmo se concentrar seu esforço educacional no desenvolvimento de outras pessoas em sua mesma fase de desenvolvimento, o adulto se verá fracassar caso não se empenhe em se desenvolver, visto que “[...] ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade”. (JUNG, d, p. ). A
educação do adulto, portanto, reveste-se de tanta importância quanto a da criança, mas, enquanto para ela a educação individual é exceção, para o adulto na segunda metade da vida é regra.
Desenvolver a personalidade é atingir o melhor desenvolvimento possível de todas as potencialidades do indivíduo determinado. É alcançada somente “[...] pela máxima coragem de viver, pela afirmação absoluta do ser individual, e pela adaptação [...] a tudo o que existe de universal, e tudo isso aliado à máxima liberdade de decisão própria”. (JUNG, d, p. ). São numerosas as condições e inúmeros os desafios para realiza-la, mas é possível enunciar as principais condições invariáveis para que isso aconteça.
Em primeiro lugar vem a necessidade, que “[...] precisa ser motivada pela coação de acontecimentos internos ou externos”. (JUNG, d, p. ). De outra forma, seria apenas uma medida da consciência, que nunca é suficiente. Seria, no máximo, um individualismo, e não uma adaptação à vida em todos os seus aspectos.
Em seguida está o que Jung chamou de pistis, ou “lealdade cheia de confiança”. Com isso, quer dizer que o indivíduo precisa seguir com fidelidade à sua própria lei, considerar seu caminho de realização individual – com todos os riscos, novidades e incertezas – o melhor caminho possível a ser trilhado. Só isso fará com que não recaia em uma busca incessante por respostas nas convenções sociais.
O terceiro critério reconhecido por Jung é a designação, conceito que compreende “[...] um fator irracional, traçado pelo destino, que impele a emancipar-se da massa gregária e de seus caminhos desgastados pelo uso. Personalidade verdadeira sempre supõe designação e nela acredita, nela deposita pistis” (JUNG, d, p. ). A designação se manifesta como uma voz do íntimo, que atua tal e qual uma lei e que cobra inequivocamente uma resposta. Ela se mani- festa como uma iluminação que aponta um caminho de desenvolvimento.
A individuação, e a correlata realização da personalidade, depende tanto da manifestação das imagens do inconsciente quanto da atitude da consciência diante delas. É preciso que a necessidade e a pistis sejam capazes de mover o indivíduo a dizer sim para os conteúdos in- conscientes e desenvolver, com isso, uma atitude simbólica. A relação do inconsciente com a consciência passa, contudo, por diversos níveis de relacionamento condicionados arquetipica- mente que se apresentam como etapas de superação sucessivas.
O ponto de partida costuma ser a função social, ou persona, desenvolvida pelo eu en- quanto se adapta às exigências do mundo exterior, o que é chamado. Trata-se, realmente, de uma máscara que, longe de corresponder ao que o indivíduo é de verdade, não passa de um segmento arbitrário da psique coletiva que o indivíduo toma como sendo o que ele é. A persona
se torna, assim, uma imagem ideal à qual o indivíduo busca se moldar para conquistar sua po- sição singular diante dos outros e de si próprio. Nos termos de Jung, “[...] Ela representa um compromisso entre indivíduo e sociedade acerca daquilo que ‘alguém parece ser’: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, , p. ).
Enquanto o eu permanece identificado com a persona, tudo o mais que seja parte do si- mesmo é mantido em estado de máxima inconsciência e parece ameaçar sua impressão de se- gurança, não importa que surja como uma imagem interior ou exterior. Assim, quanto mais a atitude é unilateral, mais distante, nebulosa e aversiva se torna a voz da designação (JUNG, d), quer apareça como insight, ato impulsivo, sonhos ou na forma de alguém por quem nutrimos antipatia ou simpatia especiais. (FRANZ, ). A manifestação desses conteúdos que ferem a pretensa soberania do eu é arquetípica e marca, nas mais das vezes, o início do processo de individuação. Trata-se de uma confrontação dolorosa com conteúdos incompatíveis com a personalidade consciente.
Jung chamou de sombra essa porção da psique que se organiza a partir dos conteúdos rechaçados pelo eu que, por vezes, somos desafiados a confrontar em nós mesmos, mas que, mais comumente, atacamos no outro, negando seu valor subjetivo. (FRANZ, , p. ) A integração dos conteúdos da sombra, resultantes de sua confrontação, constitui severo problema moral pois é preciso que além de reconhecermos a existência de tais conteúdos, sejamos capazes de expressá-los conscientemente para que se possa, de fato, falar de integração à consciência. (FRANZ, ). Esses conteúdos, todavia, não são necessariamente ao que temos de ruim. Mui- tas vezes se trata de qualidades não desenvolvidas e necessárias à adaptação. (JUNG, ).
Não apenas o indivíduo projeta uma sombra. O desenvolvimento de uma cultura coletiva produz uma consciência coletiva que também resulta em uma sombra cultural. Ambas as di- mensões da cultura condicionam o desenvolvimento dos sujeitos que dela participam e os ca- racteriza. (JUNG, ). Por conseguinte, a confrontação do indivíduo com sua sombra também implica a confrontação da sombra de sua cultura, que muitas vezes surge como antagonismo com outros grupos culturais como o ódio dos nazistas contra judeus ou as segregações violentas em torno dos preconceitos sociais.
Apesar das dificuldades, o caráter histórico e pessoal da sombra, faz de seus conteúdos aqueles que são mais facilmente integráveis. Ainda assim, ao deparar com eles, o eu muitas vezes realiza um esforço adicional para rechaça-los de volta e restabelecer a persona, dando um passo atrás na individuação. Essa resistência decorre do caráter emocional, da relativa autonomia e da ação obsessiva e compulsória dos conteúdos sombrios. A persistência na unilateralidade acaba por conduzir a um sentimento de incompletude ou, em outros casos, a uma ação irrefreada da
sombra na forma de invasões, possessões ou identificações com o eu. (JUNG, ). De acordo com Marie-Louise von Franz ( , p. ), “[...] só há uma atitude que parece alcançar algum resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam sem nenhum preconceito e com a maior singeleza, e tentar descobrir qual o seu objetivo secreto e o que vem solicitar do indivíduo”.
A integração dos conteúdos sombrios produz uma transformação na atitude da consciên- cia, diminuindo-lhe o antagonismo. Sem a contaminação pela sombra, outros fatores passam a ser reconhecidos com mais clareza. Geralmente, as figuras que ganham proeminência são as funções que transmitem conteúdos criativos do inconsciente coletivo para a consciência. (JUNG, ). Trata-se das contrapartes sexuais da consciência, a imagem interior feminina no homem e a masculina na mulher que, por sua própria natureza, consistem numa alteridade nunca plenamente assimilável.
Suas manifestações iniciais partilham do afeto e da compulsão própria dos arquétipos, como a compulsão, a invasão obstinada e a aparente fundação na realidade objetiva, já que os conteúdos são reconhecidos mais facilmente como parte do outro. (JUNG, ). No caso dos arquétipos contrassexuais, os conteúdos costumam se projetar em figuras do sexo oposto, pro- duzindo diversos graus de relação, desde o apaixonamento até as brigas de casais estereotipadas e a procura da função do pai ou da mãe no outro. (FRANZ, ).
No homem, essa disposição arquetípica é chamada de anima, que personifica as tendên- cias femininas no homem, como “[...] os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféti- cas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e[...] o rela- cionamento com o inconsciente”. (FRANZ, , p. ). A primeira imagem da anima no ho- mem é de sua mãe e ela determina o caráter geral das manifestações posteriores. Ela captura o