A data era vinte e oito de setembro de 2013, a homenagem era para a orixá Oxum, a festa recebe o título de “presente de Oxum”, a primeira festa aberta que a pesquisadora presenciava no Ilê Axé Omo Oxé Ibá Latam, surpresa ao notar o grande número de pessoas, já ultrapassava mil pessoas logo no início por volta das catorze horas, e um grande número de crianças, pois é no presente de Oxum que tem uma festa para as crianças com mesa de doces saudando os Ibejis.
Posicionei-me logo à frente no lugar reservado para a assistência e liguei a filmadora, as crianças corriam, eu percebia que todos os adultos mais presentes na casa se preocupavam com a alimentação e constantemente alguns adultos ofereciam água e refrigerante para todas as crianças, inclusive para crianças desconhecidas, pois perguntavam assim: Qual o seu nome? Quer um suco? Água? Refrigerante? Ah!! Refrigerante você quer né?! Tentavam se aproximar à medida em que ofereciam algo, fosse para as crianças da comunidade, ou ainda, para as desconhecidas. Marcos, um filho de santo antigo da casa, me pediu para que quando eu conversasse com as crianças oferecesse
44 A fonte itálico é para destacar os episódios que possuem falas dos participantes e atividades da
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água e comida, pois segundo ele a festa seria muito longa. Pensei, que bom, estão me atribuindo funções com as crianças, estou fazendo parte do processo. Subi em uma cadeira e lá fiquei, até que Andrei puxou a minha perna e pediu para que eu o acompanhasse, me puxava com muita força e segui, percebi que ele queria pegar a câmera, então deixei, mas logo ele desistiu e saiu. Voltei para cima da cadeira e agora só conseguia filmar as crianças que estavam nos colos e ombros, pois não havia mais nenhum espaço no barracão. Pela janela observei que boa parte das crianças da comunidade estava do lado de fora brincando, alguns pulavam, outros dançavam. Gisele45, junto com Marco Antônio46, mexiam na fonte de Oxum, um mexia e outro vigiava para ver se não vinha alguém para chamar a atenção. Dei um zoom na câmera e comecei a filmar o que via pela janela, pois era impossível descer e mesmo me movimentar com tanta gente ao redor. Quando percebi que as crianças se agruparam em torno da fonte e se organizavam dividindo celulares, começavam assim como eu a gravar e fotografar as suas atividades, a dificuldade de locomoção era exclusivamente minha e dos demais adultos, pois por alguns momentos eles vinham até mim e perguntavam algo sobre a festa, pediam água, colo para ver qual orixá estava na roda. Como eu fiquei em uma cadeira ao lado da porta da cozinha, a água era fácil de acessar, mas o barracão por inteiro e o lado de fora era inviável.
A festa seguia e eu refletia acerca da noção de tempo e espaço das crianças, que são muito mais elaboradas que a minha, e por isso as tornavam muito menos limitadas para que explorassem tudo o que o ambiente dispõe.
Observei que as crianças que dormiam durante a festa eram revezadas de colo em colo, mas prioritariamente entre os homens, que assistiam à cerimônia enquanto as mulheres dançavam ou tentavam organizar um espaço para acomodar as crianças, pois carrinhos e cadeiras de bebês não estavam presentes no espaço devido ao grande número de pessoas, pois todos os que chegavam com carrinhos optavam em deixar em um corredor ao lado do barracão.
45 Gisele, neta do pai Toninho, sendo filha da filha mais velha adotada por ele, com sete anos de
idade em 2013, filha de mãe negra e pai branco, tem mais dois irmãos, Ana Clara e Carlos Eduardo (Cadu), residem em Guarulhos.
46 Marco Antônio, neto de santo do pai Toninho, em 2013 com quatro anos, irmão de Luara em
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Enquanto filmava, pude perceber que as pessoas em transe de orixá se aproximavam muito das crianças, as abraçavam, passavam as mãos em seus rostos, passavam o suor que escorria em suas testas e tórax, batiam no peito indicando que aquela criança estava protegida. E as crianças após as bênçãos recebidas voltavam a brincar, cruzavam a roda, passavam rente à cumeeira, algumas tocavam a perna do babalorixá e diziam: “viu vô?” E ele apenas acenava com a cabeça e seguia o ritual.
A festa seguiu e foi servido o ipetè47, ocorreram as três saídas do barco com três yaos48, então o presente de Oxum, o momento que nomeia a festa aconteceu por volta das dezoito horas. Do roncó49 saiu um balaio grande cheio de flores, levantado por uma oxum incorporada, ao som do ìjèsà todos gritavam “Rora Yèyé ó50”, muitos choravam, as crianças pediam colo para visualizar e algumas delas tocavam as flores do balaio e Oxum incorporada dançou em volta da cumeeira, por algumas vezes, e saiu cercada por cinco pessoas, três homens e duas mulheres. Nesse momento, algumas pessoas foram embora, outras dispersaram, foram se alimentar, mas os ogãs continuaram tocando e cantando e todos orixás dançando.
Chamou-me a atenção quando uma senhora ajeitava tecidos próxima ao trono dedicado a Xangô; ao lado dela uma mulher mais jovem segurava um bebê, elas estavam improvisando um berço, e colocaram a criança dentro da gamela de Xangô, então pegaram pratos com alimentos e refrigerantes, sentaram ao lado do trono, se alimentaram, depois foram bem próximas à roda saudar os orixás que continuavam a dançar aguardando a volta de Oxum. Fiquei indagando como o corpo do bebê deu um outro significado àquele símbolo religioso. As pessoas que passavam achavam a cena linda e fotografavam, eu seguia filmando a criança que dormia tranquilamente, como se estivesse em um lugar silencioso e tranquilo, mas os atabaques eram tocados intensamente.
47 Prato oferecido a Oxum, com a base de inhame e camarão.
48 YaÔ iniciado na religião, pessoa que ficou recolhida e passou por uma série de rituais para
poder entrar em transe.
49 Também conhecido como quarto de santo.
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Por volta das vinte horas, Oxum em estado de transe voltou, e todos saudavam, “Rora Yèyé ó”, perfume era espalhado, muitas mulheres choravam, agora com um número bem menor de pessoas era possível me locomover. Gravei quando Oxum incorporada pegou uma bebê no colo e a mãe da criança que estava no lugar da assistência chorava muito, batia em meu ombro e pedia: “Filma pra mim!”. Respondi: “Sim, conversamos depois, e te passo”. Oxum girava com a criança em seus braços bem amparada. Xangô incorporado também pegou uma criança de colo que jogou a chupeta da boca, então uma ekedi pegou a chupeta e guardou em seu pano da costa e continuou seu trabalho, a mãe da criança pediu a chupeta para a ekedi, agradeceu e ficou segurando.
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Logun ede incorporado fez uma reverência a Oxum, que lhe entregou a criança. E dançavam as crianças com os orixás em volta da cumeeira, as crianças maiores olhavam, se aproximavam, algumas falavam: Ele vai vir aqui, tia! Vai me pegar também! Mas, isso não ocorreu, algumas se decepcionavam, mas nenhuma das crianças se arriscou a “pedir colo” para algum orixá.
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