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A regularização fundiária dos territórios onde se localizam as comunidades quilombolas é executada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)/Ministério do Desenvolvimento Agrário, em parceria com os Institutos de Terras Estaduais, em diálogo com a Fundação Cultural Palmares e Ministério Público. De acordo com o Programa Brasil Quilombola, a regularização fundiária tem por objetivo a resolução dos problemas relativos à emissão do título de posse das terras e é a base para a implantação de alternativas de desenvolvimento, além de garantir a reprodução física, social e cultural de cada comunidade.

Depois da aprovação da Instrução Normativa nº 49, do INCRA, os processos de regularização fundiária passaram a ser abertos, após as comunidades terem recebido a certificação emitida pela Fundação Cultural Palmares. Em 2008, 127 comunidades foram certificadas. Ao todo, são 1.087 certidões emitidas e publicadas no Diário Oficial da União que beneficiam 1.305 comunidades.

O processo administrativo de regularização fundiária pressupõe várias etapas. No princípio, relaciona-se à abertura de processo no âmbito do INCRA, devidamente autuado, protocolado e numerado. Em 2008, foram computados 800 processos abertos de regularização fundiária de territórios quilombolas em todas as Superintendências Regionais, à exceção de Roraima, Marabá e Acre, e publicados 17 Relatórios Técnicos de Identificação (RTDI), etapa subsequente à da abertura de processos. O relatório é produzido por uma equipe multidisciplinar do INCRA, criada por Ordem de Serviço, e tem por finalidade identificar e delimitar as terras reivindicadas pelos remanescentes de quilombos.

O RTDI aborda informações cartográficas, fundiárias, agronômicas, ecológicas, geográficas, socioeconômicas, históricas e antropológicas, obtidas em campo e em instituições públicas e privadas; é composto pelas seguintes peças: relatório antropológico, levantamento fundiário, planta e memorial descritivo do perímetro da área reivindicada pelas comunidades, bem como mapeamento e indicação dos imóveis e ocupações lindeiros de todo

o seu entorno, cadastramento das famílias quilombolas, levantamento e especificação detalhada de situações em que as áreas pleiteadas estejam sobrepostas a unidades de conservação constituídas, a áreas de segurança nacional, a áreas de faixa de fronteira, a terras indígenas ou que estejam situadas em terrenos de marinha, em outras terras públicas arrecadadas pelo INCRA ou Secretaria do Patrimônio da União e em terras dos estados e municípios; parecer conclusivo. Após a sua conclusão, o relatório deve ser aprovado pelo Comitê de Decisão Regional e publicado na forma de Edital, por duas vezes consecutivas, nos diários oficiais dos Estados e da União e afixado em mural da prefeitura. A última etapa do processo de regularização ocorre após os procedimentos de desintrusão do território. O título é coletivo, pró-indiviso e em nome das associações que legalmente representam as comunidades quilombolas.

Foram publicadas, ainda, 14 portarias de reconhecimento e emitidos 13 títulos, em parceria com os Institutos de Terras do Para (ITERPA) e do Piauí (ITERPI). Desde 2005, segundo o INCRA, existem 81 relatórios técnicos publicados, 40 portarias de reconhecimento do território publicadas e 105 títulos emitidos.

Os dados do INCRA de 2008 diferem dos dados apresentados pela Comissão Pró- índio de São Paulo, uma entidade não governamental com trajetória de pesquisa e militância na área dos direitos quilombolas e indígenas. Segundo a entidade, nenhuma terra quilombola foi titulada pelo INCRA em 2008, e, em 2007, foram entregues apenas dois títulos. Ainda, segundo a mesma fonte, durante o governo Lula, até o final de 2008 apenas seis titulações foram efetivadas. No final de 2008, 380 dos 600 processos abertos pelo INCRA tinham recebido apenas um número de protocolo, ou seja, não percorreram nenhuma das etapas do processo de regularização, e apenas 10 portarias de reconhecimento de terras quilombolas foram assinadas pelo presidente do INCRA. Com relação aos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação, 19 RTIDs foram publicados, sendo seis deles republicações de anos anteriores. Esses dados somente não foram piores, de acordo com as mesmas fontes, devido aos títulos emitidos pelos estados do Pará, Piauí e Maranhão a 23 comunidades quilombolas. Com mais essas titulações, o total de comunidades quilombolas com terras regularizadas subiu para 159, apenas 5% do total de 3.000 comunidades que se estima no país (Relatório Público, CPI-SP, 2008).

Com relação aos procedimentos administrativos, há 600 processos tramitando no INCRA, 143 ações envolvendo 62 terras. Para a ONG, o atraso nas titulações de terras para as comunidades quilombolas resulta de interesses econômicos e políticos que têm atuado junto

ao Governo Federal. As discussões envolvendo a alteração das normas do INCRA para a regulamentação do processo de titulação das terras quilombolas é resultado dessas pressões.

A disparidade entre os dados apresentados pelo INCRA e os apresentados pelo Relatório Público da Comissão Pró-Índio de São Paulo indicam a tensão permanente entre os órgãos estatais, no caso, o INCRA, responsável pela titulação e o movimento quilombola. As acusações com relação ao atraso nas titulações são graves e indicam os conflitos e interesses políticos e econômicos envolvidos nos processos de titulação dos territórios onde se localizam as comunidades.

Em 18 de novembro de 2009, a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (Índios e Minorias) do Ministério Público Federal instaurou um Inquérito Civil Público com o objetivo de apurar a situação geral das políticas públicas destinadas à garantia do direito à terra das comunidades quilombolas no Brasil. O MPF justifica essa medida com base nos seguintes argumentos: há base jurídica suficiente para a garantia dos processos de titulação; há, segundo eles, estimativas oficiais que apontam a existência de mais de 3.000 comunidades de remanescentes de quilombos no país; passados mais de 21 anos de vigência da CF, apenas 105 títulos foram concedidos; o INCRA possui apenas 85 servidores para atuar nos processos de regularização fundiária em todo o território nacional; o percentual de execução orçamentária referente ao pagamento de indenização aos ocupantes de terras de remanescentes de quilombos demarcadas e tituladas foi de 0%; a Lei Orçamentária de 2009, que prevê o pagamento de indenização aos ocupantes das terras demarcadas e tituladas, com dotação inicial de R$ 28.329.295,00, empenhou e pagou apenas R$ 1.847.233,00, o que corresponde a 6,5%; a existência de indícios de que pressões políticas de determinados órgãos do Estado e de setores econômicos estariam dificultando os procedimentos de regularização de terras de remanescentes de quilombos. Com base nesses argumentos, o MPF define o quadro geral relativo às políticas públicas voltadas ao atendimento da população quilombola, em especial da sua garantia do direito a terra, como alarmante, o que denota grave e sistemática violação a direitos fundamentais positivados na Constituição Federal e em tratados internacionais dos quais o Brasil faz parte.

O INCRA justifica que parte dos atrasos das titulações deve-se às ações judiciais que questionam os RTDIs e portarias de reconhecimento; contudo, diante dos dados apresentados pelos setores da sociedade civil e do MPF, não há como negar que a política de regularização fundiária do Governo Federal é extremamente morosa e não atua em defesa dos direitos dos quilombolas.

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Benzer Belgeler