As prim eiras reflexões éticas no século XX são m arcadas por um regresso ao utilitarism o. O princípio da ut ilidade é vist o com o a única form a de agir et icam ent e, ist o é, no m om ento da decisão sobre a acção a tom ar, o indivíduo deverá optar pela que provocar m ais efeitos positivos. São estas as acções certas, logo, são estas as acções úteis4.
1 Note-se o pendor existencialista do pensamento de Nietzsche quando coloca sob a alçada do poder de decisão individual o afastamento do que é imposto pela sociedade em que este se insere.
2 Esta posição aproxima Nietzsche igualmente dos pensadores clássicos gregos, afinal quem definiu a ética aristocrática, uma ética de virtude desenhada para um Homem ideal, o Super-homem.
3 De um ponto de vista analítico, é possível distinguir três categorias de ética, aliás, reflectidas também na existência destes diferentes movimentos:
Meta-ética – estuda a natureza da ética e do raciocínio moral. Discussões sobre se a ética é relativa ou se a acção é motivada apenas pelo interesse próprio são exemplos de discussões meta-éticas.
Ética normativa – ramo que propõe as linhas de acção do comportamento moral genérico. A resposta à questão kantiana “O que devo fazer?” é procurada por este ramo da ética.
Ética aplicada – ramo que explora casos específicos da acção humana (por exemplo, a biotecnologia ou a medicina) e procura dar resposta concreta a questões reais com que os indivíduos se possam confrontar. Este é o último ramo da ética a ter sido desenvolvido, tendo surgido no final dos anos 60.
4 G. E. Moore foi o principal representante desta corrente neo-utilitarista, expressa no seu livro Principia Ethica (1903).
Contudo, o ant igo debat e ent re ut ilit arist as e kant ianos t eve a sua cont inuação na proposta de Sir David Ross, na sua obra The Right and the Good. Para est e filósofo, não serão as consequências m as antes os princípios e as intenções que deverão nortear a acção, pois existem situações onde os benefícios são superiores aos custos m as, em contrapartida, são m oralm ente condenáveis1. Existem , então, um a série de deveres que são im postos ao Hom em pela sua própria reflexão, independentem ente da sua utilidade – os deveres prim a
facie. Em caso de conflito entre estes deveres, Ross acrescenta à visão de Kant a
possibilidade de escolha da opção que se revele m ais adaptada à situação concreta2.
No que poderá ser um a síntese ainda hoj e prevalecente nas situações de confronto ético, Toulm in acrescenta que não deverá ser apenas a intuição a m over a escolha anterior, m as antes um a avaliação dos custos e benefícios das alternativas, optando- se então pelo m al
m enor ( Toulm in, 1950) . Repare- se na ponte estabelecida entre o pensam ento tipicam ente
kant iano ( agir sob o princípio) e o pensam ento ut ilit arist a ( em caso de conflit o, opt ar pela que com portar efeitos m ais positivos) .
Na m esm a linha evolutiva de reflexões anteriores, o pensam ento existencialista do século XI X, nom eadam ente o de filósofos com o Kierkegaard ou Nietzsche, chegou até ao século XX, em bora com algum as alt erações. Das suas raízes, a ética exist encialist a3 do século XX4 guarda a sua natureza individualista ( o indivíduo é a unidade central de decisão) que se reflecte, acim a de tudo, na im portância do em penho pessoal para a concretização da acção
1 Ross exemplifica com a quebra de uma promessa: ao não cumprir uma promessa, o faltoso poderá retirar extensos benefícios, ao ponto do saldo ser positivo para a sociedade como um todo. Contudo, o acto em si é incorrecto, não obstante os benefícios daí retirados.
2 Mais uma vez Ross exemplifica: é ético não cumprir uma promessa desde que tal se deva à necessidade de evitar um acidente.
3 Existe um fervoroso debate sobre a legitimidade da construção de qualquer tipo de sistema com origem no pensamento existencialista, uma vez que o existencialismo é, por definição, impossível de generalizar e sistematizar (relembre-se que na sua origem esteve uma reacção contra os conceitos generalistas dos diversos homens tipificados) já que se foca nas decisões pessoais de cada indivíduo e defende que estas são sempre diferentes e dependentes do sujeito activo. Contudo, é possível detectar a emergência de um tecido ético comum no pensamento de todos os existencialistas, o qual poderá então ser definido como ética existencialista.
4 Os filósofos-romancistas Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou Simone Beauvoir são excelentes representantes do existencialismo do século XX.
desej ada. Kierkegaard referia-se ao em penho pessoal na procura e m anutenção da fé em Deus, enquanto que Jean- Paul Sartre generaliza este conceito defendendo que só são eticam ente válidas as crenças e ideias que estej am alinhadas com a acção que é realm ente levada a cabo. Da m esm a form a com que a fé em Deus t inha de ser act iva e constantem ente procurada, tam bém este com prom isso do hom em com a acção deverá ser activo e constante.
O segundo t raço da ét ica exist encialist a est á ligado à capacidade de decisão do indivíduo. Este é agente de decisões próprias, tem legitim idade e capacidade para as levar a cabo e deverá ser apontado com o único responsável pelas suas consequências. Note- se o peso deste segundo preceito, traduzido em angústia para o indivíduo conscientem ente exist encialist a: ele não só t em de decidir com o agir, m as ficará para sem pre ligado à decisão que tom ou, que terá repercussões e ram ificações que ele nem pode im aginar1. As repercussões não são reflectidas apenas sobre o agente m as sobre t odos os que estão à sua volta, pelo que o próprio valor da acção está ligado aos efeitos que ela terá nos outros. Num a aproxim ação ut ilit arist a, as m elhores acções são as que produzem as m elhores consequências ao nível do im pacto nos outros indivíduos.
Um últ im o preceit o ét ico est á ligado com a opção do suicídio. De fact o, o suicídio é apresentado com o a j ustificação para a recusa de lim it es ou im posições à liberdade de decisão de um indivíduo. Todas as decisões se tornam possíveis se a m orte for tom ada com o opção, j á que o indivíduo pode sem pre escolher a m orte com o a solução m ais ética perante um a determ inada situação.
Mais recentem ente, tem - se assistido a um recrudescim ento da cham ada ética da virtude2,
com raízes em Arist ót eles, S. Tom ás de Aquino ou David Hum e. Esta teoria defende que as
1 Pensamento bastante paralisante nas situações dúbias, pois o indivíduo perante a grandeza de cada um dos seus gestos preferirá não fazer gesto algum. Mas não será isso já uma acção igual a qualquer outra, com a mesma expressão de repercussões?
2 Philippa Foot e Beauchamp e Childress poderão ser identificados como os principais precursores desta linha de pensamento no século XX.
virtudes são traços de carácter socialm ente valorizados, pelo que um a virtude m oral é aquela que é m oralm ente valorizada pela sociedade, dando suporte às razões m orais ( Beaucham p e Childress, 2001) .
Note- se a relevância que é dada ao carácter para a discussão da m oral1, que irá abrir as portas à possibilidade da sua aprendizagem2. Cont udo, est a m esm a relevância im plica as críticas observadas a esta teoria: de facto, existem pessoas com bom carácter responsáveis por j uízos errados ou m ás escolhas. Os defensores da teoria cont rapõem o facto de a inclusão das virt udes na t eoria da ét ica com pletar a sua reflexão, não lhe ret irando qualquer valor. No que é hoj e o estado actual da reflexão em pírica sobre a ét ica, estes pensadores vêm propor que à análise dos resultados dos com portam entos se acrescente a análise dos seus m otivos; enfim , a síntese m ais um a vez entre pensam ento utilitarista e kantiano.