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Construtivismo estruturalista é a autodenominação que Bourdieu utiliza para falar de sua perspectiva sociológica, construída na busca por superar a dicotomia entre objetivismo e subjetivismo. O autor esclarece os termos:

Por estruturalismo ou estruturalista, quero dizer que existem, no próprio mundo social e não apenas nos sistemas simbólicos – linguagem, mito, etc. -, estruturas objetivas, independentes da consciência e da vontade dos agentes, as quais são capazes de orientar ou coagir suas práticas e representações. Por construtivismo, quero dizer que há, de um lado, uma gênese social dos esquemas de percepção, pensamento e ação que são constitutivos do que chamo de habitus e, de outro, das estruturas sociais, em particular do que chamo de campos e grupos, e particularmente do que se costuma chamar de classes sociais. (BOURDIEU, 2004b, p.149).

Integra-se, em Bourdieu, a consideração de aspectos objetivos - que influenciam a prática e a representação produzida pelos agentes - e o reconhecimento da gênese social do habitus e dos campos sociais e grupos, que reserva uma especial atenção ao caráter ativo dos agentes. A contribuição do estruturalismo é pensar a realidade, não como substância, mas como conjunto de relações. Uma análise sociológica, em seu momento objetivista, constitui uma visão topológica que identifica posições relativas e relações objetivas entre posições. Constrói-se um modo de pensar relacional (BOURDIEU, 2004b).

Sob o intuito de discutir o valor heurístico da categoria estrutura, o autor problematiza a relevância do conceito na apreensão do mundo social – dos grupos, instituições e indivíduos – e das práticas sociais. Bourdieu propõe-se a uma apropriação crítica do conceito de classe social como modo de analisar a constituição social dos grupos. Cada classe social, em sua concepção, ocupa uma posição numa estrutura social historicamente construída e é afetada pelas relações que estabelece com as outras partes e que as unem ao todo da mesma estrutura. E é dessas relações historicamente constituídas entre as partes, posições (dentro da estrutura) e destas com o todo, que advém o que o autor chama de propriedades de posição. Segundo Bourdieu:

Levar a sério a noção de estrutura social supõe que cada classe social, pelo fato de ocupar uma posição numa estrutura social historicamente definida e por ser afetada pelas relações que as unem às outras partes constitutivas da estrutura, possui

propriedades de posição relativamente independentes de propriedades intrínsecas

como por exemplo um certo tipo de prática profissional ou de condições materiais de existência. (BOURDIEU, 2011b, p.3).

É preciso, no entanto, analisar a estrutura social a partir da relação indissociável no cotidiano entre propriedades de posição e propriedades de situação. Coloca-se aqui o debate sobre as possibilidades de generalização na análise sociológica de casos particulares. Nesse contexto temático, Bourdieu aponta para a necessidade de analisar com profundidade as relações que se estabelecem entre o todo da estrutura social e os seus elementos relacionados. A proposição de Bourdieu é que “as estruturas sociais de duas sociedades diferentes podem apresentar propriedades estruturalmente equivalentes, a despeito das diferenças profundas ao

nível das características objetivas das classes que as constituem” (BOURDIEU, 2011b, p.6). O autor argumenta que a análise estrutural deve levar em conta algumas questões ligadas ao contexto específico do objeto de estudo sociológico. Há uma variação no modo de explicação de acordo com a relação de independência entre propriedades de posição e propriedades de situação. Segundo Bourdieu, a abordagem estrutural não deve somente centrar-se na reflexão sobre a posição dos grupos, classes e indivíduos, mas também considerar o peso funcional destes dentro da estrutura, ou seja, deve-se considerar o “peso proporcional à contribuição dessas classes para a constituição desta estrutura” (BOURDIEU, 2011b, p.12).

Nessa discussão, a posição de um indivíduo ou de um grupo na estrutura social não pode ser definida e analisada de modo estático, vale-se aqui de uma abordagem da trajetória social e do destaque ao sentido dessa trajetória dentro de determinados contextos sociais. Em determinadas situações, em que o sentido da trajetória aponta para direções diversas, grupos situados em posições semelhantes no presente podem situar-se em lugares opostos e mesmo conflitantes no futuro. O mesmo pode acontecer com o inverso, posições opostas no presente podem levar a convergências no futuro, sempre a depender do sentido da trajetória social dos indivíduos e grupos. A discussão dos sentidos das trajetórias sociais, dentro das estruturas, já ressalta a contribuição de Bourdieu para a compreensão da dimensão simbólica das relações sociais, permeadas por uma economia das trocas simbólicas. Para Bourdieu:

Uma classe não pode ser definida apenas por sua situação e por sua posição dentro da estrutura social, isto é, pelas relações que mantém objetivamente com as outras classes sociais. Inúmeras propriedades de uma classe social provém do fato de que seus membros se envolvem deliberada ou objetivamente em relações simbólicas com os indivíduos das outras classes, e com isso exprimem diferenças de situação e de posição segundo uma lógica sistemática, tendendo a transmutá-la em distinções significantes. (BOURDIEU, 2011b, p.14).

Bourdieu considera importante a análise das práticas de socialização dos agentes, as quais se ligam diretamente às condições e posições de classe ocupadas dentro da estrutura social. Adotando uma postura crítica para com a busca da compreensão do caráter consciente dos atos dos agentes, Bourdieu destaca que a ação individual decorre, em muito, da posição do agente dentro da estrutura social. Mesmo que ainda se preserve uma autonomia relativa dos agentes, essa dimensão individual da ação é perpassada pela constituição de disposições incorporadas pelos agentes através de processos de socialização vividos em espaços sociais organizados historicamente.

Na descrição de todo o processo de construção de sua abordagem sociológica, situada entre o objetivismo e o subjetivismo, Bourdieu reconstrói-se teoricamente na passagem da física social para a fenomenologia social:

A ‘realidade social’ de que falam os objetivistas também é um objeto de percepção. E a ciência social deve tomar como objeto não apenas essa realidade, mas também a percepção dessa realidade, as perspectivas, os pontos de vista que, em função da posição que ocupam no espaço social objetivo, os agentes têm sobre a realidade.[...].A ruptura objetivista com as pré-noções, com as ideologias, com a sociologia espontânea, com as folk theories, é um momento inevitável, necessário, do trabalho científico [...] Mas é preciso operar uma segunda ruptura, mais difícil, com o objetivismo, reintroduzindo, num segundo momento, o que se precisou descartar para construir a realidade objetiva. A sociologia deve incluir uma sociologia da percepção do mundo social, isto é, uma sociologia da construção das visões de mundo, que também contribuem para a construção desse mundo. (BOURDIEU, 2004b, p.156-157).

As representações dos agentes variam de acordo com sua posição no espaço social e segundo um conjunto de disposições incorporadas através de condicionamentos sociais e históricos. Nesse contexto, o espaço social, para o autor:

[...] apresenta-se sob a forma de agentes dotados de propriedades diferentes e sistematicamente ligadas entre si[...] Tais propriedades, ao serem percebidas por agentes dotados das categorias de percepção pertinentes – capazes de perceber que jogar golfe ‘é coisa’ de grande burguês tradicional -, funcionam na própria realidade da vida social como signos: as diferenças funcionam como signos distintivos – e como signos de distinção, positiva ou negativa -, e isso inclusive à margem de qualquer intenção de distinção[...] Em outros termos, através da distribuição das propriedades, o mundo social apresenta-se, objetivamente, como um sistema simbólico que é organizado segundo a lógica da diferença, do desvio diferencial. O espaço social tende a funcionar como um espaço simbólico, um espaço de estilos de vida e de grupos de estatuto, caracterizados por diferentes estilos de vida. (BOURDIEU, 2004b, p.160).

É pela reprodução de relações objetivas entre agentes e instituições nos espaços sociais e pela constituição de disposições através das trajetórias de socialização dos agentes que a percepção do mundo é duplamente estruturada. No entanto, os objetos do mundo social guardam um elemento de incerteza e indeterminação. A pluralidade de visões de mundo e a elasticidade semântica dos conceitos/categorias precisam ser reconhecidas na busca de produzir conhecimento sobre o espaço social. A indeterminação dos objetos e a riqueza semântica das categorias utilizadas para descrever e classificar o mundo também são pertinentes para pensar as lutas simbólicas para a definição legítima do mundo social, lutas a propósito da percepção do mundo. As lutas simbólicas pela percepção legítima do mundo se expressam nas ações de representação individuais ou coletivas, que visam mostrar e fazer valer elementos específicos como realidades. Tais lutas também se refletem nas ações, que visam modificar as categorias de percepção e apreciação do mundo, ou seja, as palavras e categorias que constroem a realidade social. Nesse ínterim, as lutas simbólicas se expressam nas constantes negociações em que as categorias utilizadas remetem à construção social de identidades e de sistemas de classificação (BOURDIEU, 2004).

No presente estudo, voltado para a interpretação de práticas de psicólogos nos CSF, buscamos reconhecer a existência de estruturas, que tendem a se reproduzir influenciando e sendo reconstruídas nas relações sociais cotidianas. Tais estruturas expressam-se nas posições relativas das profissões e agentes dentro do espaço social e das relações entre as posições. Dito de outro modo, as estruturas podem ser pensadas como reproduções de posições no espaço das posições de poder, de posições no espaço do campo do poder (BOURDIEU, 2011b).

O enfoque adotado aqui se volta, especialmente, para a análise das percepções dos agentes sobre o espaço social da APS, reconhecendo a influência de vetores estruturais (relações objetivas entre posições relativas no espaço social) existentes, que influem na reprodução de posições e posicionamentos dos agentes. Estamos assim, nos posicionando no plano da abordagem dos processos intersubjetivos construídos historicamente nos espaços estudados, reconhecendo a relação entre aspectos subjetivos e objetivos no contexto das práticas em saúde. A presente tese volta-se para a análise das percepções, perspectivas e pontos de vista dos agentes, psicólogos inseridos na realidade cotidiana dos CSF. Reconhece- se aqui, a possibilidade de discutir de modo significativo parte da heterogeneidade/pluralidade das posições e posicionamentos da psicologia na ESF, bem como a possibilidade de abertura de canais de discussão e pesquisa sobre questões pertinentes à realidade social investigada, que refletem o encontro de vetores diversos que incidem nas práticas profissionais.

Benzer Belgeler