Quanto à pergunta “você conhece alguém que fala diferente de você?”, um dos membros do grupo 1M reconhece que as pessoas de Jacaraú não falam diferentemente entre si, só quem é de outro Estado, como o Rio Janeiro. Assim, se os falantes de Jacaraú não falam de forma diferente, eles compartilham traços dialetais semelhantes. Portanto, possivelmente, quaisquer variantes linguísticas de fenômenos variáveis, na comunidade referida, serão avaliadas positivamente. Também verifica-se que o grupo revela questões de percepção linguística, porém, pouca consciência quanto às diferenças da fala quando comparada com a fala dos outros, enquanto que outro membro admite explicitamente a existência da diferença linguística. O que o grupo 1M pensa pode ser ilustrado pelas transcrições das falas de ABS2 e ABS1, respectivamente, nos trechos 1 e 265:
TRECHO (1): se eu conheço alguém?... NÃO... todo mundo fala a mesma maneira da minha língua como eu falo com você como qualquer um... entendeu?... porque nessa rua aqui eu gostaria de contar para você... falasse diferente se chegasse algumas pessoas nascidas e criadas no Rio... começasse falar as línguas diferentes e hoje daí ( )... todos os meus amigos nascidos e criados aqui... começa de criança e chega dez, doze e dezoito... entendeu?... é a mesma língua.... a mesma coisa... a mesma fala... entendeu?... dela e a minha são iguais... das pessoas... (ABS2).
TRECHO (2): SIM... o qui eu acho... cada uma pessoa tem um sutaque diferente... uma conversa diferenti... eu acho que sim... ehn::... eu acredito... qui:::... tem pessoas que fala diferente de mim... que sabe se expressar melhor... tem pessoa que sabe se explicar melhor... e cada um é cada um... (ABS1).
Percebe-se que as afirmações desses informantes podem remeter à noção de visão de mundo descrita por Calame-Griaule (1984 apud CHIANCA, 2014), pela qual as pessoas percebem a realidade que as circunda e atribuem-lhe um determinado valor social. Porém, esses falantes indicam essas situações de formas diferentes, no fragmento do trecho 1, o informante generaliza, enquanto que, no trecho 2, o outro falante especifica.
Já, quanto à segunda pergunta “o que você acha de sua forma de falar?”, verifica-se que o grupo 1M confunde o ato de falar como sendo espontâneo, comunicativo, carismático. Para isso, pode-se ver o trecho 3:
65 Os trechos aqui transcritos foram reproduzidos em sua totalidade tal como foram enunciados pelos respectivos
informantes, não sendo, desse modo, suprimidos, alterados ou acrescentados novos termos e /ou expressões nas transcrições em análise, mesmo que eles estejam terminando com o sinal gráfico de reticências (...) nos enunciados reproduzidos em todo o trabalho.
TRECHO (3) eu::... de falar... eu não sou muito de falar não... sou mais de ouvir... né?... eu não sei como (eu) estou dando essa entrevista... aqui pra você... porque eu não sou muito de falar... acredito que nem sabia... eu não sou muito de:::.... falar não... (JFO).
Quanto à terceira pergunta, “o que você mudaria em sua forma de falar?”, o referido grupo apresenta desejo de mudança, que pretende alterar seu modo de falar, relaciona falar com “estrutura” e reconhece que as pessoas falam diferentemente. Assim, os usos linguísticos variam conforme seja o contexto usado. Associa a fala dele com a fala do entrevistador: diga- se passagem são duas variedades distintas para o informante. Entende-se que isso demonstra a capacidade de avaliar usos sociais da língua, de um lado; e, do outro lado, verifica-se que, ou, ainda, se deseja mudar a expressão do seu falar: falar palavras bem explicadas. Seriam diferentemente pronunciadas ou com valor da norma padrão? Essa é a impressão que tem quando os informantes se referem às palavras “bem pronunciadas, bonitas, corretas”. Os trechos 4 e 5 sintetizam essas avaliações:
TRECHO 4: não... eu queria não muda/... eu queria... cumé... que minha estrutura chegasse a uma linguagem melhor... eu queria falar por u menos assim... porque realmente a fala de uma pessoa que é... por exemplo.... a sua... a sua... não é como a minha... eu às veze... a pessoa que não tem estrutura... a linguagem é diferente... entendeu?... você é diferente da minha... porque você – vamos dizer assim -- ... você está chegando na altura que você pensa em chegar... você está quase.... entendeu?... e não vai comparar com um coitado que não sabe dizer esse palavriado direito... (ABS1).
TRECHO 5: no meu modo de me expressar... né?... as palavras... né?... porque as pessoas... acho muito bonito as pessoas que se expressam com aquele:::... tem um diálogo bonito... sabe se expressar... acho muito bonito... eu gostaria... se eu pudesse... se pudesse mudar era... se expressar assim pra falar... né?... falar palavras bem explicadas... saber compreender e saber o que era que eu estava falano... (ABS2).
Finalmente, quanto à última pergunta (o que é falar certo para você?), o grupo 1M reconhece a existência da diferença linguística e compara com outros aspectos (tamanho dos dedos, aumento e diminuição de vocábulos, ou, em relação à existência de denominações religiosas diferentes, como: igrejas católica x protestantes, por exemplo). Percebe-se assim que o informante se apoia em situações cotidianas ou que estão próximas de sua convivência para expressar sua atitude relacionada aos usos da língua. O trecho 6 exibe a avaliação de FJO:
TRECHO 6: não pode falar tudo de um jeito só... não que os dedos não é igual... tem uns que fala ( ) um fala tanto... tem os mudo no meio que não pode falar... ( )... hum... um certo fala certo e outro fala errado... porque um dia é verdade e outro é mentira... aí já tá errado... é ou não é?... falar certo é tudo falar uma palavra só... é certo... mai se eu disser uma faltando uma letra?... ou adiantando uma letra tá errado... é que nem a igreja católica... a::a::... igreja evangélica... tem mais nome de que a::a:::... igreja evangélica... é ou não é?... é ou não é?... repare essa palavra... (FJO).
Ou, ainda, admite que o falar “errado” esteja ligado a determinadas palavras, à formalidade e a problemas de pronúncia. Quem não estuda fala mal e quem estuda fala bem. O grupo 1M também reconhece que há um falar “errado” e outro “certo” e que todos os falantes, escolarizados ou não, produzem-no. Que efeitos isso indica para a análise dos dados? Esse ponto será retomado posteriormente. Os trechos 7 e 8 sumarizam o que o grupo avaliou:
TRECHO 7: sim... não... o mesmo tempo sim... o mesmo tempo não... porque se dependendo da palavra errada... qui a pessoa vai falar... entendeu?... porque se a pessoa vai falar uma palavra erradas... que aquela palavra não cumbina com aquela... que você falou... realmente está errada a palavra... entendeu?... mas se você vai falar uma palavra certa... por mais que você fale enrolado e você fale puxando... completando aquela palavra certa... você é a mesma palavra dum... pessoa que tem formatura.... com certeza.... não... engaisgando a palavra errada... memo que a palavra faça esforço... porque sua pessoa que tem estrutura... tem formalidade... a palavra é mais rápida de falar de que a palavra de uma pessoa que tem... é pouco meio enrolado... falei errado alguma coisa?... (ABS1).
TRECHO 8: falar certo são palavras corretas... né?... e falar errado são palavras erradas... que às vezes a gente fala palavra errada que não era pra falar... até pessoas formadas diz coisas que não deveria falar... e a gente escuta palavra de pessoas que são formadas que a gente nem gostaria de ouvir ... (ABS2).
Esses achados apontam para o que os estudos labovianos chamam de reações subjetivas. Por exemplo, segundo Hora (2011, p. 15), as reações subjetivas constituem as diversas avaliações que tanto falantes quantos ouvintes realizam acerca de diferentes categorias sociais e, dentre elas, da língua que ouvem ou que falam. Assim, começa-se a constatar que os falantes e ouvintes têm papel central nos processos de avaliações linguísticas e atitudinais, especificamente, sobre aqueles relacionados às variedades linguísticas.
Assim, para os informantes do grupo 1M, os resultados alcançados permitem ser esboçados o quadro 866.
Quadro 8: Resultados das avaliações, atitudes e percepções do Grupo 1M
Jacarauenses e cariocas falam diferentemente; Jacarauenses não falam diferentemente entre si; Associa falar como ato espontâneo, comunicativo;
Deseja mudar o modo de falar: adquirir novas “estruturas”; e
“Falar errado” está associado com quem não estuda e vice-versa; e, também, está ligado a determinadas palavras, à formalidade e a problemas de pronúncia.
(Fonte: Próprio do autor).
66 Os quadros 8 a 13 constituem resultados sumarizados das respostas dos informantes ao Módulo Linguagem das
5.1.2 Grupo 2F (MLGS, JS, MLS). Este grupo é constituído pelos falantes mais idosos do