O Amor de Perdição, visto à luz elétrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e umas idéias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo....Faz-me tristeza pensar que eu floresci nesta futilidade da novela quando as dores da alma podiam ser descritas sem grande desaire da gramática e da decência. (...) Se, por virtude de metempsicose eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta Quinta edição do Amor de Perdição quase esgotada. São Miguel de Seide, 8 de fevereiro de 1879 (CASTELO BRANCO, 2003, p. 15).
A visão de Camilo Castelo Branco acerca de sua obra permite uma breve pincelada das conseqüências que ela provoca no quadro social da época. Esse alerta foi feito quando Amor de Perdição já se encontrava na quinta edição e suas palavras projetam-se no então longínquo século XXI, em que hoje se vive, quando, no entanto, assemelham-se as “dores” e os “calões”. Na realidade, o que vem ao caso é situar a obra no contexto deste trabalho, como se fará, a seguir, para melhor apreensão do conteúdo de Espingardas e Música Clássica. A diegese, em Amor de Perdição, integra-se, exemplarmente, no elenco de características específicas da novelística
romântica e consuma, diferentemente da narrativa de Pinheiro Torres, um protótipo das linhas temáticas mais típicas da produção romanesca do período e, em particular, de Camilo.
Memórias de uma Família é o subtítulo que Camilo Castelo Branco elegeu para a obra, publicada em 1862 e, como aqui foi lembrado, escrita na cadeia da Relação do Porto, aos 24 de setembro de 1861, fato que vincula o ficcionista às suas referidas origens factuais. A dedicatória, que elege e invoca no limiar do texto um destinatário que não é apenas o leitor, mas o inspirador estético e ideológico, tem grande importância para o escritor, por acentuar a importância do mecenatismo de uma personalidade de destaque – um Ministro de Estado – Sr. António Maria de Fontes Pereira de Melo, manifestando-se Camilo consciente de uma interpretação equivocada que pudesse ser feita de tal dedicatória, não sem justificar-se, com a convicção de que o Ministro apreciava romances e era merecedor da oferta.
Desde pequeno ouvira contar, por sua tia, a história desgraçada de um tio paterno, Simão Antônio Botelho. Enquanto permanecera na cadeia, lembrara-se muitas vezes daquele parente, que, por certo, estaria inscrito nos livros das entradas e nos das saídas para o degredo. Sua curiosidade leva a folheá-los, desde os de 1800 e, ao encontrar, afinal, a notícia, pede aos contemporâneos, conhecedores de minúcias, que a detalhem, o que lhe permite formular o romance em apenas quinze dias.
Produção de grande êxito, uma espécie de estudo da alma ou a pureza do dizer, o Romeu e Julieta lusitano foi muito bem recebido pelo público, imortalizou-se por fundar-se em fatos reais, além de relatar amores impossíveis
e discutir a oposição entre a paixão e os limites impostos pela sociedade, por diversos motivos, entre os quais, rivalidades familiares.
Para centrar a estrutura da intriga nas ligações amorosas entre Simão e Teresa, o eixo da novela, é útil considerar-se, preliminarmente, o problema suscitado na análise do título e subtítulo da obra, já mencionado, pelo sentido que cada um encerra. Segundo Amaro de Oliveira (1983, apud A. Cabral, 1918), enquanto Amor de Perdição suscita no espírito e na sensibilidade do leitor uma imediata promessa de peripécia narrativa, de invenção romanesca, Memórias de Uma Família sugere debilmente a abertura de um espaço para o relato de fatos reais, de eventos vividos, ou seja, para evocação de acontecimentos históricos dos quais o autor tenha participado ou que hajam exercido determinada influência sobre sua vida.
Cabe aqui atentar para a distinção entre os conceitos de Narrativa e Memórias, dada a importância que tem para a caracterização do processo criativo de Camilo, para o estabelecimento de uma estrutura geral do livro e de sua classificação literária. Os leitores camilianos estão familiarizados com o autor, no que concerne, em especial, à confissão usual que ele elabora, de fundamentação no “real” do que narrou – ouvindo casos, lendo cartas e bilhetes verídicos ou não, conhecendo estranhas pessoas etc. Isso provoca no receptor, dada a vivacidade do artista, transitar ora para o lado histórico, ora para o novelesco, o efeito de contágio entre o “real” e o imaginário, pois até o próprio autor, já no pórtico de vida que apresenta, parece tratar de novela.
Articulando-se Amor de Perdição com Memórias de uma Família, pode- se formular a seguinte proposta: computando a perspectiva em plano histórico
os elementos memorialistas, restam os eventos efetivamente ocorridos (inventio) e imaginados e sua distribuição (dispositio) pelo espaço literário que o delimita desde o Prefácio até ao Epílogo. Como exemplos há o assentamento da entrada na Cadeia da Relação do Porto, da personagem Simão Antônio Botelho e a história abreviada da mocidade, casamento, vida familiar e profissional de Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, avô de Camilo. Encontra-se uma nota acerca do relato de um crime atribuído a Luís Botelho, tio-avô de Camilo, caído de amores por uma rapariga e também a notícia da prisão de Fernão Botelho, pai de Domingos e bisavô do escritor, nas masmorras da Junqueira, por suspeita de tentativa regicida, pelos idos de 1758. Rápida nota da paixão de uma senhora dos Açores, casada com um estudante de Coimbra, por Manuel Botelho, pai de Camilo, que a raptou e fugiu com ela para a Espanha, tornando-se desertor. Na certidão de nascimento de Simão Antônio Botelho há outra nota da qual Camilo extrai a passagem sobre o batismo do tio, em casa, por estar em perigo de morte; bem como a transcrição de uma carta do desembargador António José Dias Mosqueira, que faz prova da ação de Domingos Botelho em defesa de seu filho Simão, condenado à forca, a princípio, e em comutação de pena, depois, a degredo para a Índia.
Novo episódio versa sobre a conclusão da história dos amores de Manuel Botelho pela senhora açoriana que, a expensas do pai do amante, parte para os Açores, e, finalmente, o último parágrafo - em apenas cinco linhas, de cunho informativo - permite ao leitor ter conhecimento do destino (após a morte de Simão) das demais figuras familiares referidas no transcurso da narrativa.
Os eventos aqui transcritos são encaixes do texto ou notas, que, mesmo narrativos, parecem engendrados em estilo que nem sempre condiz com aquele que o escritor emprega na trama propriamente dita do Amor de Perdição. Considera-se, pois, após análise de tais fatos memorialistas, que a saga dos Botelhos, ao longo das três gerações que aqueles fatos cobrem, foi provocada por duas forças mestras: o Amor e a Violência. De um ângulo mais particular, tais forças geraram atos de paixão, de crime, de prisão, de degredo e de morte. Todos os três familiares mencionados, pelo perfil romanesco assumido, mostravam-se mais disponíveis para um aproveitamento novelesco importante: Luís, Manuel e Simão.
Para finalizar esta referência, pode-se concluir que Simão era, dentre eles, a personagem que suscitava uma fabulação de remate mais dramático – já que Luís havia sido perdoado por graça régia. Assim, Camilo optou por Simão, como herói da novela, cujos motivos circunstanciais, ponderosos, todavia, teriam levado a essa escolha; para a justificar, talvez baste considerar- se que inventou uma “história” para se incrustar nas memórias de família sem se desviar da rota da desgraça que as caracterizava e com as quais só Simão estaria em consonância, por sobressair-se dos demais, já que a pena do degredo por ele sofrido demandava um conflito mais denso, com um desfecho mais trágico. Atente-se ainda no episódio referente ao batismo de Simão “em casa” e “em perigo de vida”, o que configura uma espécie de sina para a desgraça, uma constante na família, pois os dados memorialistas aqui trazidos atestam a força de um determinismo agudizado, como esse augúrio de morte no momento de nascer, o que assegurava ao entrecho concebido um clima de
“má estrela”, de “fatalidade”, tanto em consonância com a obsessão romântica, quanto com as íntimas crenças de certos ascendentes de Camilo. A própria Dona Rita teria dito a Simão: “Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quis largar a vítima”. Ou então, “A irmã de meu pai, decrépita e cadavérica, disse-me que era necessário ser desgraçado para não contradizer os fados da nossa família” (CASTELO BRANCO, 2003, p. 31).
No espaço ocupado por Amor de Perdição, intervalar aos eventos apontados como Memórias de uma Família – no transcurso de tempo entre a prisão de Fernão Botelho, devido a excessos políticos e à morte de D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, irmã de Simão, em 1872, a vida de Simão Botelho consolida sua posição de personagem principal. Pela faceta infeliz, explicitada na Introdução, o autor confessa a existência atribulada aos dezoito anos, quando, na realidade, não foi para o degredo com essa idade; isto configura um engodo, mesmo que praticado com intenções ficcionais adivinháveis.
Como Camilo, no romance Amor de Perdição, se valeu de dados memorialistas, em que medida respeitou a “veracidade” dos acontecimentos, em que pontos os alterou e até onde as personagens são criações fictícias do escritor? Como sabem os leitores camilianos, o enredo de Amor de Perdição tem lugar em Viseu, Beira Alta, onde duas famílias são inimigas e separadas por questões financeiras: Simão Botelho e Teresa Albuquerque apaixonam-se, mas o pai impede-a de manter o relacionamento amoroso, tentando casá-la com o primo Baltazar Coutinho. A moça entra para um convento e lá acaba por morrer, enquanto o amado, após assassinar o rival, é preso, dispensa a ajuda
da família para sair da cadeia e é conduzido a julgamento, restando em segunda instância o degredo. Morre, ao tomar conhecimento da fatalidade ocorrida com Teresa.
Tipicamente ultra-romântico, o mundo que no livro se descortina é idealizado com personagens virtuosas e sem contradições, que embora possam contrapor-se às regras sociais, submetem-se a elas, sempre guiadas pelos sentimentos. Simão, exemplo de herói romântico, insiste no amor de Teresa, mas não consegue, passando, assim, a cometer uma série de excessos que acabam prejudicando sua relação com a amada.
Todos os atores vivem em conflito com a sociedade que lhes impõe os limites de seus deveres, espelhando a mesquinhez, a obediência cega aos ditames de vingança e os obriga aos preceitos de uma mentalidade rígida e irracional. O amor, levado ao extremo, permite aos namorados romper com padrões comportamentais e com regras sociais, mas acaba por prejudicá-los acarretando, inclusive, a demência de Mariana, a outra apaixonada por Simão. A fábula é breve, com várias peripécias, a trama central é tecida por indivíduos cujas vidas são guiadas por seus sentimentos. Em prefácio à quinta edição, Camilo se manifesta convencido, finalmente, de que o livro foi um êxito fenomenal, compara-o com O Crime do Padre Amaro (1876) e com O Primo Basílio (1878), afirmando que, para os livros de Eça de Queirós (1845-1900), foi preciso que “a arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezesseis anos”. Nem por isso O Amor de Perdição deixa de ser um texto moderno em relação à época, romântico, declamatório, marcado por desvios líricos. As personagens tocam profundamente o leitor, a exemplo de Teresa,
que pressente que não mais verá seu amado. O fato será confirmado por Simão, durante o desenvolvimento da trama, não se furtando a acreditar nos supersticiosos ditames do coração da moça.
Mariana, rival de Teresa, pré-anuncia seu triste destino deixando a marca da certeza quanto ao seu próprio futuro, o que será comprovado, pouco tempo depois. Enquanto isso dedica-se a Simão, narrando-lhe suas aflições. E se o fatalismo envolve toda a diegese e os figurantes do Amor de Perdição, alguns gestos indiciam os segredos do futuro. Na cena em que Simão é ferido, e Mariana, furtivamente, entra no quarto, ao vê-lo, põe-lhe sobre o rosto um lenço, que pode simbolizar o velar uma pessoa morta, atitude premonitória e agoureira não exclusiva de Mariana, porque é também de Simão, de Teresa e do ferrador João da Cruz, que dela compartilham, embora em Mariana se concentre a carga significativa.
O desenlace de Amor de Perdição não espanta o leitor, comove-o, dada a linha coerente e harmoniosa do comportamento de Mariana, sem tornar-se vulgar nem estereotipada; com uma aura familiar solidária, desperta a sensibilidade e mesmo a compreensão de seus atos, pela força que o escritor Camilo Castelo Branco lhe confere na fabulação. Fica patente o destino brutal das duas vítimas do Amor e do Destino. Teresa parece ter sido concebida como as meninas frágeis da literatura romântica, sem atitudes mais enérgicas, enquanto Mariana, forte, audaciosa, embora estando dentro dos padrões femininos românticos, se consuma na imagem mais complexa da mulher portuguesa, apesar de não ser destituída de carga poética, símbolo do amor sacrificial. Sublinhe-se, ainda, que os eventos ocorridos por motivo da
emboscada preparada por Baltazar, como a prisão e o julgamento, realçam sobremaneira o drama da sofrida Mariana.
O texto sedimenta o talento especial do escritor e a sensibilidade que possuía para o tratamento das questões afetivas e, uma vez percorrida em seus conjuntos, vê-se que se transforma sempre ao nível do enredo, muito variado, da disposição dos ingredientes, da tessitura episódica e do ponto de vista narrativo. O amor, que aqui não pode ser esquecido, é um dos índices valorativos da ficção camiliana de feição impetuosa e alucinante, como se verifica no Amor de Perdição, que se realiza independentemente do casamento, mas em claro litígio contra resquícios de moralismo burguês, visíveis na perturbação dos impulsos, refletindo dores de consciência provocadas pela coerção social.
De fato, o estudo da transformação em diegese de uma realidade conhecida ou vivida, a determinação dos seus processos, das suas motivações e dos seus resultados, constituem uma das tarefas mais atraentes entre quantas continuam a desafiar o saber e o engenho dos camilianistas.