De acordo com a metodologia adotada neste estudo51, a habilidade dos sujeitos na discriminação de vogais médias tônicas (/e/ - /e/; /o/ - /o/) foi medida a partir do teste de discriminação AX, composto por trinta (30) pares de palavras do português do tipo testa –
texto, bolo - bola. Ao ser apresentado aos estímulos, os quais continham tanto pares com
vogais tônicas diferentes (beco – beca) quanto pares com vogais tônicas semelhantes (foca – foco), o informante era solicitado a indicar se as vogais produzidas na primeira sílaba eram “iguais” (semelhantes) ou “diferentes” nas duas palavras.
A análise foi conduzida com base na proporção de respostas corretas obtidas para os pares constituídos por vogais diferentes (dedo – teto; bolo – bola); entretanto, diante da possibilidade de o informante escolher uma única resposta, julgou-se importante realizar, antes da análise, o levantamento da média de acertos para ambas as situações, pares iguais e pares diferentes. Essa análise permitiu observar que a média para os pares com vogal semelhante foi acima de 90% para todos os indivíduos e de que raramente foi marcada a opção “diferente” para esses pares. Com isso, rejeitou-se para a tarefa AX a possibilidade de viés decorrente de os sujeitos terem optado pela resposta “diferente” em todos os pares, o que comprometeria, pela tendência de resposta, os resultados obtidos para os pares com vogais diferentes, a partir dos quais a análise é desenvolvida.
Descartada a possibilidade de tendência da resposta “diferente” para todos os pares na discriminação, desenvolveu-se, então, a análise do desempenho de falantes nativos do espanhol, o grupo experimental, a partir da proporção de acertos obtidos para os pares com vogais diferentes na tarefa de discriminação AX. A média obtida para o grupo em ambos os tipos de contraste, vogais médias anteriores /e/ - /e/ e vogais médias posteriores /o/ - /o/, bem como o desvio padrão (DP) verificado, podem ser visualizados na TAB. 1 a seguir.
Tabela 1 – Aprendizagem fonológica: Média de discriminação para o grupo de não nativos
Fonte: A autora
De acordo com os valores apontados na tabela anterior, a média do grupo experimental, composto por falantes nativos do espanhol, na tarefa de discriminação AX, foi de 40,94 (DP = 15,42) para as vogais médias /e/ - /e/ e de 35,94 (DP = 15,98) para as vogais médias /o/ - /o/. Comparada a média de discriminação das vogais obtidas para os falantes não nativos em relação à média de discriminação apresentada para os mesmos pares de vogais pelo grupo controle, falantes nativos do português, o teste Mann Whitney revela uma diferença significativa (p < 0,05) entre os grupos, conforme demonstram os valores descritos na TAB. 2 a seguir.
Tabela 2: Aprendizagem fonológica: média de discriminação - grupo experimental e grupo controle Grupo Experimental (não nativos) (N = 32) Média (DP) Grupo Controle (Nativos) (N = 12) Média (DP) Mann- Whitney p (significância) Discriminação do contraste /e/ - /e / 40,94 (15,42) 99,16 (1,94) 0.000 0,000 Discriminação do contraste /o/ - /o/ 35,94 (15,98) 98,50 (2,50) 0.000 0,000 Fonte: A autora
Os resultados descritos na tabela anterior revelam, conforme o esperado, a dificuldade que falantes não nativos apresentam em relação aos falantes nativos no que se refere à discriminação do contraste entre vogais médias tônicas /e/ - /e/ e /o/ - /o/ do português. A discriminação de pares de palavras do tipo seca–seca, sogro-sogra, em que se observa o
contraste entre vogais abertas (/e/ e /o/) e vogais médias fechadas (/e/ e /o/), naturalmente resulta fácil para os falantes nativos do português, uma vez que a língua portuguesa contempla duas categorias diferentes para essas vogais, conforme o discutido nas seções iniciais desta
Discriminação AX
Tipo de vogal Média do
grupo Média mínima do grupo Média Máxima Do grupo DP
Vogais /e/ - /ε/ 40,94 15,00 75,00 15,42
Vogais /o/ - /o/
tese52. Falantes nativos do espanhol, entretanto, por não possuírem as vogais médias abertas /e/ e /o/ em seu sistema vocálico nativo, tendem a apresentar dificuldade em perceptualmente discriminar essas vogais em relação às vogais /e/ e /o/, também presentes em sua língua. Aparentemente, de acordo com os resultados obtidos em média, descritos nas Tabelas 1 e 2 anteriores, falantes não nativos apresentam melhor desempenho na discriminação do contraste entre as vogais médias anteriores /e/ - /e/, com média de 40,94 (DP = 15,42), em relação ao contraste entre as vogais médias posteriores /o/ - /o/, com média de 35,94 (DP = 15,98). Ao testar essa diferença, os resultados do teste T para amostras emparelhadas, apresentados na TAB. 3 a seguir, permitem comprovar que se está perante uma diferença significativa (p < 0,05) entre a discriminação de ambos os tipos de contraste, vogais médias /e/ - /e/ e vogais médias /o/ - /o/.
Tabela 3: Aprendizagem fonológica - Teste de diferenças em relação ao tipo de contraste Tarefa AX – Grupo Experimental
Média Desvio Padrão T para amostras emparelhadas p (significância) Contraste entre /e/ - /e/
vs.
40,94 15,42
(2,388 (31)) 0,023 Contraste entre /o/ - /o/ 35,94 15,98
Fonte: A autora
Observa-se que, quando comparado o desempenho dos aprendizes na discriminação do contraste entre as vogais médias anteriores /e/ - /e/ e a discriminação do contraste entre vogais médias posteriores /o/ e /o/, obtém-se uma diferença significativa (t(31) = 2,388, p = 0,023) entre as médias, o que comprova a melhor habilidade dos sujeitos na discriminação do contraste entre as vogais médias anteriores /e/ e /e/ (ex.: testa – texto) em relação ao contraste entre as vogais médias posteriores /o/ e /o/ (ex.: bolo – bola).
A melhor habilidade que ouvintes, no caso falantes nativos do espanhol, demonstram para perceber o contraste entre vogais anteriores do português em relação ao contraste entre vogais médias posteriores pode ser explicada em termos de distância física entre os pares de vogais no espaço vocálico. Seguindo a concepção de Lindblom (1986, p.38), apresentada em seção anterior53, tais resultados sustentam a hipótese de que a percepção resulta melhor para as vogais produzidas na parte da frente do trato oral, o que se explica, de acordo com o autor,
52
Cf. seção 2.1, capítulo 2
por haver maior distância perceptual entre os pares de vogais anteriores em relação aos pares de vogais posteriores.
Os pressupostos do modelo de aprendizagem fonológica SLM (FLEGE, 1995)54, são consistentes com a hipótese de que a habilidade de percepção pode ser predita com base na similaridade e na distância fonética entre os sons da L2 em relação aos sons da L1. A proposta do SLM (FLEGE, 1995) defende que, quanto mais distantes se apresentam os sons da L2 em relação aos sons da L1, maior é a probabilidade de o aprendiz perceber a diferença fonética entre os sons, e consequentemente criar para os sons da L2 uma categoria independente das categorias fonológicas da L1, previamente estabelecidas.
A dificuldade para testar a hipótese de similaridade prevista pelo SLM (FLEGE, 1995), está no fato de o modelo não deixar explícita a base teórica na qual se fundamenta para prever a distância entre os sons da L1 em relação aos sons da L2. De forma geral, o modelo prevê a similaridade fonética quando os sons da L2 e os sons da L1 são próximos um do outro no espaço fonológico, mas não são fisicamente idênticos, a exemplo do que se verifica com os pares de vogais /e/ - /e/ e /o/ e /o/ do português, em que as vogais /e/ e /o/ são similares, mas foneticamente distintas, das vogais /e/ e /o/. Pressupõe-se, nesse caso, que a distância física entre os sons, em termos de Distância Euclidiana, oferece uma pista quanto ao grau de similaridade que existe entre os sons e o quanto essa distância física “permite” a percepção da diferença fonológica das vogais pelo ouvinte não nativo. No caso, se entre /e/ - /e/ existe maior distância do que entre /o/ e /o/, faz sentido o fato de aprendizes apresentarem melhor habilidade na discriminação de vogais anteriores.
A habilidade de discriminação pela proposta do SLM (FLEGE, 1995, 2003) é prevista com base na formação ou na não formação de uma nova categoria para os sons da L2. Quando os sons da L2, no caso as vogais médias /e/ e /o/, são percebidos como equivalentes aos sons da L1, no caso /e/ e /o/, respectivamente, a premissa é de que ocorre o processo de assimilação ou a não formação de uma nova categoria para os sons da L2. Diferentemente, quando os sons da L2, /e/ e /o/, são percebidos como instâncias diferentes da L1, /e/ e /o/, ocorre a formação de uma nova categoria, ou o que a proposta de Flege (1995) prediz como processo de dissimilação.
Embora em proporções diferentes para vogais anteriores e vogais posteriores, os resultados deste estudo, em termos de média de discriminação (valor médio de 40,94 para /e/ -
/e/ e de 35,94 para /o/ -/o/) permitem confirmar a tendência de as vogais médias /e/ e /o/ do português serem percebidas por falantes nativos do espanhol como categorias equivalentes às vogais médias /e/ e /o/, respectivamente. Nesse caso, os resultados apontam para a ocorrência do processo de assimilação entre as categorias da L1 e as categorias da L2, isto é, não há formação de categorias independentes para os sons da L2.
Se aprendizes perceptualmente apresentam dificuldade para discriminar os pares de vogais do português /e/ - /e/ e /o/ - /o/ como categorias distintas, pressupõe-se que esses aprendizes tendem a apresentar também dificuldade na identificação das vogais do português /e/ e /o/ não presentes no espanhol (L1). Entretanto, parte-se do pressuposto de que não nativos, mesmo sem a habilidade para discriminar os sons da L2 em relação aos sons que são também presentes na L1, podem apresentar a habilidade de identificá-los, dado a fato de que, segundo sugerem Antoniou, Tyler e Best (2012), o processo de dissimilação, ou de formação de categorias independentes para os sons da L2, acontece primeiro no nível fonético. Ou seja, entende-se que o aprendiz, mesmo sem perceber a distinção ao comparar pares do tipo sogro – sogra, sede – sede do português, pode perceber a realização fonética de /e/ e de /o/ como levemente desviante da realização fonética de /e/ e de /o/, respectivamente, e com isso, melhor na habilidade na identificação dessas vogais. Os resultados para o teste de identificação deste estudo são apresentados na seção subsequente.