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A imersão social vem ao longo dos últimos anos sendo muito utilizada como ferramenta para a compreensão de determinadas questões relacionadas ao ambiente organizacional. Em particular, podemos destacar a relevância dessa abordagem ao tentar compreender mais a fundo os motivos que levam empresas em todo o mundo a estabelecerem relações de parcerias. Begnis et al. (2005, p.13) afirmam que “a partir de 1997 os estudos sobre os relacionamentos cooperativos interorganizacionais têm avançado com o auxílio do novo enfoque trazido pela Teoria das Redes Sociais, especialmente tratando da formação de capital social como base para a formação de alianças estratégicas”.

Isso se deve em grande parte ao fato de que algumas das teorias convencionais sobre alianças e redes utilizam-se de formas de governança formais, tais como contratos e acordos de gestão em conjunto, para explicar a forma como é promovido o conhecimento e a transferência de recursos entre diversas empresas. A imersão social, ao contrário, enfatiza que as organizações podem alavancar suas competências e capacidades através do estabelecimento de laços imersos em relações sociais e em redes sociais (UZZI; GILLESPIE, 2002)

A noção de que os atores estão imersos em uma rede de relacionamentos com terceiros tem sido o centro das pesquisas sobre redes sociais nas últimas décadas, e essa idéia tem sido aplicada nas pesquisas sobre alianças (GIMENO; INSEAD, 2004). O fato é que parece cada vez mais claro que a formação de redes ou arranjos

cooperativos entre organizações é influenciada tanto por fatores sociais como econômicos (GULATI, 1998; RING; VAN DE VEN, 1994; LARSON, 1992).

Essa abordagem demonstra que o estreitamento dos laços sociais em um ambiente de negócios, através do estabelecimento de vínculos sociais de confiança e reciprocidade entre membros de diferentes empresas facilita as transações comerciais, o que leva determinados relacionamentos a possuírem um valor único, sendo essas parcerias, para as empresas, portanto, um recurso diferenciado que pode vir a gerar vantagens competitivas em relação a outras organizações do setor. Ademais, essas relações também diminuem os custos das transações, por diminuir a necessidade de complexos contratos escritos, facilitando o fluxo das transações de forma mais direta. (BARNEY; HANSEN, 1994; UZZI, 1997).

Dessa forma, quanto maiores e mais consolidadas forem as relações sociais estabelecidas pelos membros de uma empresa para com outras, maiores facilidades esta terá em formar parcerias e maiores serão as chances dessas parcerias atingirem os objetivos para os quais se propunham. Visto de outra forma, essas relações poderiam mesmo ser consideradas ativos da empresa, ou seu capital social, já que poderá vir a ser um diferencial através do qual se terá acesso a chances de se estabelecer parcerias que poderão vir a gerar vantagens competitivas.

Nesse sentido, um incremento do capital social poderá facilitar um comportamento cooperativo (NADVI, 1999). Fenton e Pettigrew (2000) demonstram a importância das relações sociais para o estabelecimento de relações de diversos tipos entre as organizações, afirmando que:

As organizações agregam valor através de relações sociais e têm uma grande interdependência interna e externa para criar, dividir e transferir conhecimento. Portanto, a base para a atividade organizacional é centrada nas relações sociais e na amplitude do contexto social dentro do qual essas empresas estão inseridas (FENTON; PETTIGREW,

2000, p.8).

Dessa forma, alguns autores defendem que os laços sociais existentes entre as firmas e seus membros são determinantes para a aproximação e o estabelecimento de

uma parceria (GULATI, 1998). No entanto, algumas alianças são estabelecidas mesmo quando os laços sociais entre os parceiros ainda são relativamente fracos ou inexistentes. Nesses casos, essas alianças costumam ter uma pequena amplitude e serem mais informais, necessitando, portanto, de pouca confiança por haver pouco risco devido ao baixo nível de integração. Ao longo do tempo, com o estabelecimento de vínculos sociais e a consolidação de confiança e reciprocidade entre os parceiros, essa aliança poderá vir a comprometer uma parte maior dos recursos dessas organizações, havendo também a possibilidade da parceria ter uma perspectiva mais de longo prazo (RING; VAN de VEN, 1994).

Assim, o estabelecimento de relações sociais consolidadas entre parceiros de uma aliança leva a um incremento da atuação em conjunto, além de reduzir a necessidade do estabelecimento de contratos formais em virtude do surgimento de laços de confiança, levando a uma diminuição dos riscos inerentes a qualquer parceria (BLUMBERG, 2001).

2.2.3. Confiança

Um dos custos de transação relevantes quando se discutiu mais acima a formação de alianças vista sob a perspectiva da ECT era a necessidade de monitoramento do parceiro para se proteger contra possíveis comportamentos oportunistas. Conforme afirmam Balestrin e Arbage (2005, p.2), “a falta de confiança nas relações da empresa com o seu ambiente e a possibilidade de comportamento oportunista por parte de alguns agentes representam questões centrais na geração dos custos de transação”. Ademais, um resultado plausível do estabelecimento de parcerias por meios estritamente formais (como, por exemplo, através da formulação de detalhados contratos) é a possibilidade de surgimento de conflitos, equívocos e mudanças nas expectativas, que muitas vezes levam a novas rodadas de negociações, gerando novos custos de transação (RING, 2002).

De fato, relações anônimas de mercado envolvem altos custos de transação que poderiam ser minimizados com a criação de uma estrutura hierárquica: “outra vantagem da organização interna é que, em comparação com o intercâmbio recorrente de

mercado, é mais provável que se elaborem códigos eficazes e que as partes as empreguem com [a existência de] confiança” (WILLIAMSON, 1991, p.42).

Contudo, a ECT não considerou, a princípio, a possibilidade do surgimento de confiança em relações de alianças consolidadas por longos períodos de tempo, variável essa que poderá gerar, em uma parceria, a redução dos custos de transação na medida em que se diminuirá consideravelmente a necessidade de monitorar o comportamento do parceiro (GULATI, 1995; SIMONIS, 2001).

Verifica-se, porém, que de forma geral a confiança não possui um papel relevante nas explanações de economistas e de outros pesquisadores que se utilizam de alguns modelos econômicos para compreender a ação dos atores econômicos (RING, 2002). Nesse sentido, Gulati et al. (2000) colocam que:

Uma importante limitação dessa escola [ECT] tem sido seu tratamento implícito de cada transação como um evento distinto. Se nós reconhecemos que qualquer transação está imersa em uma história de relações anteriores e uma vasta rede de relações, nossa análise de custos de transação e de edição de contratos precisaria ser seriamente revista (GULATI et al., 2000, p. 209).

Ring (2002) mostra que a confiança surge como variável fundamental para facilitar a realização de determinadas transações, na medida em que, através de normas e sanções pré-estabelecidas, pode atuar como substituta para os sistemas formais de controle, como contratos ou mesmo o estabelecimento de hierarquias.

Larson (1992, p.95) também coloca de forma contundente a importância da variável confiança para a formação de parcerias, em pesquisa onde procurou entender o processo pelo qual um conjunto de sete alianças altamente cooperativas foi construído e preservado. Segundo a autora, “quando perguntados o que protegia as firmas do oportunismo dos parceiros na ausência de contratos, os entrevistados repetidamente utilizaram a palavra ‘confiança’”.

A confiança, portanto, torna-se uma variável primordial quando se pretende estudar a formação de arranjos cooperativos, podendo ser considerado um dos fatores fundamentais para a redução dos custos de transação, redução essa que torna viável a

formação de determinadas redes interorganizacionais (JARILLO, 1988). Particularmente, no caso de cooperativas de produtores, os laços de confiança parecem ser ainda mais importantes para promover o dinamismo organizacional e o comprometimento dos cooperados uns com os outros (BERTOLIN, 2004).

Para Hutt et al. (2000), fatores como a freqüência da comunicação e a franqueza entre os parceiros são determinantes para a consolidação de uma relação de confiança em uma parceria. Luo (2001) mostra que confiança significa necessariamente a existência de vulnerabilidade e risco, mas baseia-se nas expectativas positivas sobre o comportamento do parceiro.

Nesse sentido, Uzzi (1997) afirma que, apesar de se saber da existência do risco inerente a uma parceria, a existência de confiança decorrente de relações sociais consolidadas levará a uma desconsideração desses riscos, o que aumenta a possibilidade de flexibilidade estratégica de uma aliança (YOUNG-YBARRA; WIERSEMA, 1999). Essa maior flexibilidade aumentará as possibilidades de sucesso da aliança na medida em que determinados processos ocorrerão com maior facilidade e naturalidade. Por exemplo, o conhecimento tácito será mais facilmente compartilhado e utilizado quando a aliança é construída com base na confiança (IRELAND et al., 2000).

Portanto, de acordo com Uzzi (1997), a confiança é uma estrutura de governança baseada muito mais em um processo heurístico do que calculativo. Larson (1992, p.95) acaba por esclarecer a existência desse processo heurístico, quando descreve o comentário de um dos executivos entrevistados: “Quando nós ligamos para dizer ‘não se preocupe com os custos’, eles sabem o que isso significa. Eles confiam que nós pagaremos e nós confiamos que eles nos pagarão um preço razoável”. Assim, o processo de tomada de decisão se torna mais fácil e ágil, reduzindo substancialmente os custos de transação.

Deste modo, verifica-se que a confiança tem papel fundamental para a formação de parcerias entre organizações. Essa confiança, como colocado anteriormente, surge em grande parte devido ao estabelecimento de vínculos sociais entre os parceiros. Contudo, Granovetter (1985) destaca que a existência de relações sociais, apesar de ser uma condição necessária para a existência de confiança, não é uma condição

suficiente, já que aumenta a vulnerabilidade dos dois lados de uma relação, que se previnem muito menos contra possíveis comportamentos oportunistas.

Nesse sentido, Friedberg e Neuville (2003) argumentam que o estabelecimento de confiança entre os parceiros reduz o oportunismo, mas, por outro lado, reduz também a proteção contra possíveis comportamentos oportunistas, podendo servir assim como incentivo à atuação do parceiro de forma a aproveitar essa maior vulnerabilidade. Portanto, verifica-se que grande parte da ocorrência desse tipo de comportamento se dá em relações sociais estabelecidas, onde as decisões são tomadas muito mais através de um processo heurístico do que por um processo calculativo. Logo, deve-se ter em mente que a existência de confiança pode agilizar o processo de escolha de um parceiro, além de reduzir custos de transação e agilizar o processo de tomada de decisão. Mas, em contrapartida, poderá aumentar os riscos de oportunismo.

Porém, Ring (2002) diferencia dois tipos de confiança, a “confiança frágil” (fragile

trust) e a “confiança elástica” (resilient trust), procurando mostrar que apenas no

primeiro caso o risco desse tipo de comportamento torna-se relevante. Na realidade, o autor afirma que em toda e qualquer tipo de transação há embutido, necessariamente, algum tipo de confiança. Nesse sentido, o conceito de confiança frágil surge como o estabelecimento de determinado nível de confiança entre os parceiros que, contudo, não exclui o risco de um comportamento oportunista. “Descrevo esse tipo de confiança que existe sob essas circunstâncias como ‘frágil’, permitindo aos atores econômicos transacionar um com o outro, mas sempre de forma cuidadosa” (RING, 2002, p.120). Esse tipo de confiança, portanto, parece se aproximar da definição dessa variável segundo a perspectiva da economia dos custos de transação, conforme afirma o autor:

A discussão desenvolvida pelos economistas dos custos de transação em relação à confiança sob a ótica do risco, de que este risco pode ser garantido através de instituições impessoais (incluindo garantias, seguros, mecanismos legais ou o estabelecimento de uma hierarquia) parece consistente com o que descrevi como confiança frágil (fragile

trust). Essas garantias provenientes de terceiras partes são

presumidamente necessárias [...] devido à suposição de que a confiança por si só não é um meio de controle suficiente para controlar possíveis

comportamentos oportunistas dos agentes econômicos (RING, 2002, p.121).

Já a ‘confiança elástica’ irá se referir àquela confiança adquirida através de relações estabelecidas por longos períodos que criam vínculos e reduzem substancialmente a possibilidade de comportamentos oportunistas. Nesse caso, a confiança se dá fundamentalmente através da credibilidade na integridade moral do parceiro, o que explica em grande parte o emprego de mecanismos de governança mais simbólicos e, portanto, menos formais, como contratos ou o estabelecimento de hierarquias, facilitando, assim, o compartilhamento de informações valiosas para ambos os parceiros.

Ademais, Ring (2002) coloca que uma relação entre dois atores econômicos pode evoluir, ao longo do tempo, de um tipo de confiança caracterizado como ‘confiança frágil’ para outro caracterizado como ‘confiança elástica’. Para que se determine que tipo de confiança é utilizado como mecanismo predominante de governança em uma determinada parceria, torna-se necessário responder algumas questões: que tipo de propriedade, ativos ou recursos serão trocados? Qual a natureza da relação entre as partes (são competidores?)? Há quanto tempo se conhecem? Ademais, o aumento da importância das transações realizadas entre os parceiros gera uma tendência de aumento do comprometimento entre eles, o que conduz a um processo de transição para o que o autor chama de ‘confiança elástica’.

Benzer Belgeler