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aqueles que falam da decadência do ensi­

no superior ou não têm memória, porque são velhos, ou não conhecem a história, porque são moços.

Newton SncuPira *

t1

trajetória de Newton Sucupira pela educação brasileira se confunde com a da democratização do acesso

à

uni­ versidade e, também, com a institucionalização da pós­ graduação entre nós. Esses dois fenômenos, que tiveram na década de

1960

o divisor de águas, só podem ser compreendidos se pensados em conjunto, acredita o professor. Foi a Reforma de

1968

que viabilizou a expansão e a consolidação da pós-graduação, uma

vez que previu no âmbito da vida universitária a associação de ensino e pesquisa. Antes da Reforma de

68,

qual era o lugar da pesquisa no Brasil, se pergunta Sucupira? Havia uma demanda por pesquisa des­ de a década de

1950,

ou seja, havia o pleito pela organização institu­ cional compatível com a exigência de pesquisa. Tal organização e, sobretudo, "esse fazer da pesquisa elemento fundamental, isso veio com a Reforma de

68" ,

assegura ele. Quando a Reforma estabeleceu, pela primeira vez no Brasil, a indissociação entre ensino e pesquisa, instituiu a idéia, que foi se consolidando com o passar dos anos, de

que a atividade de pesquisa é institucional, ou seja, que "U1(la nniver­ sidade não pode ser universidade sem que tenha uma programação de pesquisa ou uma política de pesquisa".' Esse é o fundamento da crença de Sucupira de que foi a Reforma de

68

que deslanchou o Parecer n'

977/65

fazendo realidade o que era ainda uma intenção.

Muito se deve à pós-graduação no Brasil. Ela foi responsável pela ampliação do parque editorial a um volume, diversidade e sofistica­ ção impossíveis de serem mantidos anteriormente. "Eu não atribuo tudo à pós-graduação", comenta Sucupira, "mas, ela atuou no senti­ do de criar-se aqui um mercado de livros científicos que antes não

havia".

Mais do que o mercado de livros - a despeito da importância desse indicador para uma reflexão sobre o aprimoramento do ensino superior em qualquer país - a mudança no padrão de relaciona­ mento dos professores com o cotidiano nniversitário é outro ganho a ser contabilizado pela nova orientação de valorizar a pesquisa no in­ terior

das

universidades.

Na Faculdade de Direito do Recife, onde estudei, por exemplo, os professores eram juristas. Só que eles iam lá, davam aula e iam embo­ ra. Não havia sentido de pesquisa, não havia maior participação.

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... ]

Qual era o lugar em que se fazia pesquisa aqui? Era o Instituto Manguinhos e, em São Paulo, o Instituto do

Café.

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Esses institutos

foram criados para debelar crises de saúde, como no caso, a febre amarela.

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como não há crises ou campanhas no campo da mate­

mática, nem da química, então não havia pesquisa ... '

Como se pressentisse as críticas rotineiras, o professor comenta:

Veja você uma coisa. Houve uma pesquisa da Capes, uma espécie de

avaliação, e apurou-se que 90% dos cursos de pós-graduação foram

aprovados. Então, o que se leu nos jornais? 10% dos cursos de pós­

graduação foram reprovados, como se aquele fosse um índice de de-

1 Newton Sucupira, depoimento concedido a Helena Bomeny, 16 fev 2001.

2 Idem.

l'lewton Sucupira e os rumos da educação superior no Brasil

cadência da pós-graduação. Em 100, 90% são aprovados e a notícia

se concentrará nos 10% ... 3

Com base em todas essas reflexões, Sucupira está convencido de que uma das medidas mais fecundas no ensino superior, uma das medidas que exibe resultados positivos e mensuráveis, é exatamente a pós-graduação.

Ao final desse percurso em torno de um personagem envolvido em políticas de educação, alguns pontos ficaram mais bem delinea­ dos em minha própria aventura intelectnal. O primeiro deles se rela­ ciona com a conexão, que me é muito cara, entre matrizes intelectnais

e direcionamento de políticas públicas. Atribuo a esse interesse mais antigo a indagação que persegui quando em contato com Newton Su­ cupira sobre a distinção que seria possível apurar entre as atnações dele e de Anísio Teixeira. A informação sobre sua fidelidade ao catoli­ cismo durante toda sua vida pública e a tentativa de cotejar esse qua­ dro de referência com aquele que orientou a conduta de Anísio Tei­ xeira, tiveram neste texto a função de ampliar a compreensão pela diferença. A associação que Sucupira fez na epígrafe que abre este livro é esclarecedora. Estabeleceu

ali

um vínculo direto entre sua for­ mação católica e a atitnde autoritária que se atribuiu. Alguns dos pila­ res da formação católica ajudam nessa conformação. A ênfase no sen­ tido de autoridade, a inexorabilidade e a valorização do estabeleci­ mento de hierarquia são os mais fortes indicadores de um certo tipo de concepção filosófica que tem desdobramento específico nas políti­

cas educacionais, por exemplo. O ministério Capanema, fortemente orientado pelos setores mais conservadores da Igreja Católica, sob a liderança de Alceu Amoroso Lima, se constituiu em uma representa­ ção típica dessa interação que cuido de aqui tratar. A crença na res­ ponsabilidade da elite sobre a formação do povo, a atribuição de pri-

oridade ao ensino superior como etapa necessária ao desenvolvimento da cultura nacional, a convicção de que a observância

à

autoridade e ao sentido de hierarquia respondem pela qualidade e excelência do sistema educadonal e, ao lado de tudo isso, a definição de iostâncias hierárquicas com responsabilidades na condução, regulamentação e fiscalização

das

ações educativas reforçam a coerência entre idéias e implementação de

políticas.

A alternativa a esse modelo foi tipicamente construída na exposi­ ção dos ideais de Anísio Teixeira. Convertido ao credo do liberalismo

norte-americano, Anísio recusaria os pilares do catolicismo valori­ zando, conseqüentemente, os ideais de igualdade (rejeição ao princí­ pio da hierarquia), e defenderia como dimensões indissociáveis os ideais de autoridade com liberdade, condicionando a primeira

à

se­ gunda. O encontro

desses

dois educadores nos permite entrar no di­ lema tocqueviliano da escolha que a modernidade constrangeu aos países entre liberdade e igualdade, e do desafio que algumas culturas se dispuseram a enfrentar ao combinar as duas dimensões na dinâ­ mica da vida social. O francês

Alexis

de Tocqueville percebera que os Estados Unidos da América do Norte seriam o contraste mais saliente com a experiência de seu próprio país, tradicionalmente engendrado nos hábitos e princípios da nobreza que não apenas consolidam a prática da desigualdade, mas a tomam como matriz de concepção da própria vida comum.

O contato mais estreito com as idéias, os pareceres, as concep­ ções e as orientações intelectuais de Newton Sucupira me deixou convencida de que suas formulações a respeito do ensino e da edu­ cação não se condicionaram ou se inspiraram no regime autoritário.

Seguindo a conclusão de Max Weber a respeito da montagem e inde­ pendência da burocracia, uma engrenagem que ganha vida própria a despeito dos regimes políticos, gostaria de deixar como sugestão final a seguinte postulação: acredito que se Nev.ton Sucupira fosse convo­ cado para formular

as bases da

regulamentação do ensino superior no Brasil de JK - o período da história política que ficou consagrado

Newton Sucupira e os rumos da educaçiio superior no Brasil

na memória historiográfica brasileira como o experimento democrá­ tico por excelência - ele não alteraria uma vírgula do que formrdou nos 16 anos em que permaneceu envolvido diretamente com o esta­

belecimento dos rumos da educação superior no Brasil. Não é maté­ ria de regime; é desdobramento de uma escolha intelectual e uma fidelidade moral constitutivas do ideal de sua formação humana -

Benzer Belgeler