Uma primeira premissa, para a interpretação sistemática do dispositivo, com vistas à sua correta aplicação, é harmonizar a desapropriação judicial com a usucapião coletiva do Estatuto da Cidade (art. 10 da Lei 10.257/2001).
Conforme Karl Larenz, “a necessidade da interpretação pode ainda resultar de que duas proposições jurídicas prescrevem para a mesma situação de facto duas consequências jurídicas que se excluem. (...) Missão da interpretação da lei é evitar a contradição entre normas, responder a questões sobre concurso de normas e concurso de regulações e delimitar, uma face às outras, as esferas de regulação, sempre que tal seja exigível.”167
Embora o art. 1.228, §§ 4º e 5º do Código Civil e o art. 10 do Estatuto da Cidade veiculem institutos distintos (respectivamente, desapropriação judicial e usucapião coletiva), com diferentes consequências, é fato que, por terem hipóteses de incidência semelhantes, pode haver um conflito que terá que ser resolvido por um dos três critérios clássicos de revogação (hierárquico, temporal e da especialidade)
Tal conflito poderá ocorrer caso se exija que os ocupantes exerçam posse de boa-fé no sentido tradicional, previsto no art. 1.201 do Código Civil: nessa situação, o preceito do art. 1.228 terá o seu âmbito de aplicação muito similar ao da usucapião coletiva e mesmo da usucapião especial (constitucional)168, o que geraria o grave problema de antinomia aludido por Larenz.
Se não, vejamos.
Art. 1.228, §§ 4º e 5º do Código Civil
Art. 1.239 (e 1.240) do Código Civil
Art. 10 do Estatuto da Cidade
1. extensa área; 1. imóvel (urbano de 1. áreas urbanas com mais de
só elemento de certeza, e precisamente o menos seguro.” (Carlos Maximiliano. Hermenêutica e Aplicação
do Direito. 19a ed. 11a tir. Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 92)
167 Op. cit., p. 441.
168 Embora esta se aplique a áreas menores, tornar-se-ia possível regularizar uma invasão, caso todos os
proprietários, individualmente, consigam-se subsumir suas situações às normas dos arts. 183 e 191 da Constituição Federal e 1.239 e 1.240 do Código Civil.
2. posse ininterrupta e de boa- fé;
3. mais de cinco anos;
4. considerável número de pessoas;
5. realização de obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante. 6. pagamento de justa indenização devida ao proprietário; até 250m² e rural de até 50 hectares); 2. posse contínua e sem oposição; 3. cinco anos; 4. estabelecimento de moradia ou produção. 5. não há pagamento;
duzentos e cinqüenta metros quadrados;
2. posse ininterrupta e sem oposição;
3. cinco anos;
4. ocupação por população de baixa renda para moradia; 5. impossibilidade de
identificar os terrenos ocupados por cada possuidor;
6. não há pagamento; É que, lendo-se no dispositivo o conceito tradicional de posse de boa-fé, do art. 1.201 do Código, sua aplicação será apenas àquelas situações em que o ocupante tem outros dois requisitos preenchidos: (i) justo título – porque seu detentor tem a presunção de boa-fé e a maior parte dos autores afirma ser difícil encontrar posse de boa-fé sem justo título; (ii) posse sem oposição – porque para o possuidor ser considerado de boa-fé, ele não pode conhecer o vício que impede a aquisição da coisa, sendo certo que a oposição por parte do proprietário implica na ciência do vício.
Os ocupantes, em tal situação, terão a possibilidade de invocar a aplicação: (a) da usucapião coletiva, do Estatuto da Cidade; (b) individualmente, da usucapião especial constitucional (urbana ou rural); (c) dependendo da situação, até mesmo da usucapião ordinária, prevista no parágrafo único do art. 1.242 (caso tenham o justo título, por óbvio).
Surgirá, assim, um conflito de normas, que poderá levar: (a) à revogação da usucapião coletiva, caso se aplique o critério cronológico; ou (b) em se utilizando o critério da especialidade, o reconhecimento de sua aplicabilidade apenas às ocupações urbanas (por ser vocação do Estatuto da Cidade a disciplina da política de desenvolvimento urbano), passando o Código Civil a ser aplicável apenas às ocupações em áreas rurais, que preencham os demais requisitos da fattispecie do § 4º do art. 1.228.
Tal interpretação – exigindo a boa-fé no sentido tradicional e, portanto, posse sem oposição ou possuidor com justo título (art. 1201, parágrafo único) –
poderá causar, ainda, uma contradição lógica interna ao próprio Código Civil, na medida em que poderá ocorrer superposição de normas para uma mesma situação, pois os §§ 4º e 5º do art. 1.228, os arts. 1.239 e 1.240 e mesmo o art. 1.242, parágrafo único serão passíveis de aplicação a um mesmo caso concreto.
Não bastasse esse conflito entre normas, toda aquela vasta gama de ocupações irregulares, consolidadas, há muitos anos, sobre imóveis abandonados pelos proprietários, ficará sem resolução e sem norma jurídica aplicável, mantendo este verdadeiro limbo que a realidade impõe.169
Mas não é só!
Adotando-se a noção de boa-fé tal qual a do art. 1.201, ter- se-ia um campo de aplicação para o art. 1.228, §§ 4º e 5º extremamente reduzido, ou mesmo inexistente.
Conforme posição de Arruda Alvim, o dispositivo seria aplicável apenas àqueles possuidores que, tendo contrato de parceria vencidos, permanecessem na posse de bens, ininterruptamente, por mais de 5 (cinco) anos.170
Por tais motivos, havendo uma interpretação que gera a antinomia de normas jurídicas, lacuna normativa e sensível redução do campo de aplicação do dispositivo, necessário que seja afastada, adotando o critério que confere eficácia à lei.
Não há razoabilidade em se criar um conflito entre normas (com a necessária aplicação dos critérios de resolução – lei superior revoga inferior; lei posterior revoga lei anterior; lei especial derroga lei geral) e em se criar uma lacuna legal (para os casos de invasões consolidadas, mas com oposição à posse), se é possível extrair uma interpretação que mantém a vigência e eficácia dos dispositivos em exame e a
169 Referimo-nos, aqui, aos vários casos, citados neste trabalho, em que: (a) o Judiciário nega as reintegrações
de posse/reivindicatórias, ao argumento de que seria um verdadeiro desastre social desalojar dezenas, centenas ou milhares de famílias; ou (b) os órgãos públicos (polícia, executivo municipal) afirmam não ter condições de cumprir as ordens de reintegração de posse. Em tais situações, bastante comuns, o invasor fica sem moradia regularizada e à margem da sociedade; o proprietário não restitui o bem, mas também não recebe indenização; o poder público não sabe de quem cobra o IPTU/ITR.
aplicabilidade do art. 1.228, §§ 4º e 5º a um leque de situações que, até a edição do Código Civil, restavam sem disciplina jurídica.
Assim é que, analisando-se os dispositivos em questão, é possível chegar a duas primeiras conclusões lógicas (e óbvias), decorrente de uma interpretação sistemática:
a) a usucapião é uma medida mais benéfica ao possuidor que se apropriou de uma área que não era sua, na medida em que a aquisição se dá de forma originária, isto é, sem as vicissitudes anteriores, e não há a necessidade de pagamento; b) a desapropriação judicial, por sua vez, é uma medida menos benéfica aos
ocupantes, na medida em que se exige o pagamento de indenização ao proprietário para aquisição da coisa, sendo necessária, ainda, a prova da realização, pelos invasores, de obras de relevante interesse econômico ou social (pressuposto este dispensado na usucapião coletiva).
Num processo de silogismo dialético, adotando-se as duas conclusões acima como duas novas premissas, chegar-se-á a outra conclusão lógica:
O instituto previsto no art. 1.228, §§ 4º e 5º atende mais ao proprietário do que a usucapião e é mais exigente para com o ocupante, razão pela qual seus requisitos devem ser mais facilmente preenchidos, sendo razoável dispensar, assim, a posse de boa-fé naquele sentido do art. 1.201 para admitir a boa-fé que comumente certos invasores têm, quando estão movidos pela necessidade e encontram uma área abandonada onde permaneceram ao menos cinco anos ininterruptamente.
Mediante a interpretação sistemática, é possível concluir que o Código Civil, ao deixar de exigir171 o requisito da posse sem oposição, representa um caminho intermediário até a usucapião coletiva, fornecendo: (i) aos moradores de grandes invasões a possibilidade de assegurar sua moradia mesmo que não preencham os requisitos do Estatuto da Cidade, pois poderão permanecer, desde que paguem o preço da
171 Aqui consideramos, novamente, ter ocorrido um silêncio eloquente, antes referido, relativamente à não
indenização fixada pelo juiz, de acordo com os critérios que acima já se apresentou; (ii) aos proprietários, um mecanismo de serem compensados naquelas inúmeras situações em que não conseguem obter ou efetivar a reintegração de posse.
A interpretação em questão representa, assim, uma forma de harmonizar o sistema, sendo certo que a aplicação do preceito com tal vocação atende a outro método hermenêutico, o da interpretação socialmente útil ou teleológica.