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Em 1961, foi publicada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 4.024)107 que normatiza e dá diretrizes para o ensino em todo o território nacional. A LDB 4024/61 reforça a educação dada no lar e na escola como um direito de todos, já estabelecido pela CF/34, e acrescenta que “à família cabe escolher o gênero de educação que deve dar a seus filhos” (Parágrafo único do Art. 2º da LDB 4024/61). No artigo 3º, a LDB 4024/61 estabelece as formas pelas quais o                                                                                                                

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As Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional passarão, a partir deste ponto, a ser denominadas pela sigla LDB seguidas do número e ano de publicação.

direito à educação será assegurado, quais sejam pela obrigação do poder público em oferecer o ensino, e pela obrigação do Estado em prover recursos a famílias em situação de desvantagem econômica. O artigo 3º, em especial, parece dar pistas de que, apesar da obrigatoriedade do ensino primário à época, e pelo discurso legal de expansão da oferta e do atendimento em níveis ulteriores de ensino, a gratuidade ainda não era o ponto central para a inserção em massa das crianças na escola, inserção esta que é uma das características mais acentuadas no estreitamento da relação entre infância e escola.

Considerando o objeto desta pesquisa, o desenvolvimento da infância em sua relação com a escola, especialmente no que tange à proximidade desta relação, foram examinadas leis para identificar as propostas que fizeram com que, na atualidade, mais de 97% das crianças entre sete e 14 anos estivessem na escola108. Dessa forma, especial atenção foi dada à análise que trata dos diferentes níveis de ensino. Nos anos 1960, a LDB 4024/61 dividia a educação em educação pré- primária; ensino primário; ensino médio; e ensino superior. Para o ensino pré- primário, a lei propõe o estímulo a empresas que tenham, entre seus funcionários, mães de crianças de até sete anos de idade, idade limite da educação pré-primária (Art. 23 e 24). Para o ensino primário, o que a lei propõe é sua obrigatoriedade a partir dos sete anos de idade, em conformidade com o que historicamente já vinha sendo estabelecido; a obrigatoriedade, para empresas com mais de 100 trabalhadores, de manter ensino gratuito para funcionários e filhos de funcionários, ou regime de bolsas de estudo, ou, em casos de propriedades rurais que não o pudessem fazer, de facilitar a frequência ou instalação de escolas públicas em suas propriedades (Art. 27, 31 e 32).

Como forma de garantia do cumprimento da obrigatoriedade, o artigo 30 da LDB 4024/61 proíbe os pais ou responsáveis, de crianças em idade de ensino compulsório, de ocupar cargos públicos ou em empresas concessionárias, porém, há uma série de situações que isenta os pais ou responsáveis desta obrigatoriedade, a saber, “... a) comprovado estado de pobreza do pai ou responsável; b) insuficiência de escolas; c) matrícula encerrada; d) doença ou anomalia grave da criança” (parágrafo único do Art. 30). Isto é, a lei isenta o Estado do cumprimento da obrigatoriedade ao dizer que insuficiência de escolas é                                                                                                                

justificativa para o seu descumprimento, assim como isenta a família sem condições financeiras. Ao mesmo tempo, libera o Estado da necessidade de apoiar famílias em condição de pobreza ou de criar formas de superá-la, ao não dar condições para que as crianças frequentem escolas durante os anos de ensino compulsório. A lei também desobriga as escolas, em si, ao determinar o término do período de matrícula como justificativa, da mesma forma que não apresenta alternativas para crianças que não podem, por motivos de saúde, deslocar-se e participar das atividades escolares.

Acerca dessas isenções de responsabilidade relativas à matrícula obrigatória no ensino primário, pode-se retomar a lei nº 301/1948, que garantia a matrícula, a qualquer tempo, dos filhos de artistas itinerantes, e questionar como seria a continuidade dessa lei. Com relação às doenças ou anomalias das crianças, em 1969, o Decreto-Lei nº 1.044 estabeleceu, considerando o direito constitucional da educação, que receberiam “... tratamento excepcional os alunos de qualquer nível de ensino, portadores de afecções congênitas ou adquiridas, infecções, traumatismo ou outras condições mórbitas, determinando distúrbios agudos ou agudizados109” (Art. 1º). Estes alunos receberiam atividades domiciliares para compensar a ausência escolar, mas os mesmos já deveriam estar matriculados, e, aos diretores, caberia a responsabilidade de autorizar tal regime. Com relação à pobreza e à insuficiência de escolas, podem ser consideradas as leis federais que buscavam ampliar as escolas oficiais (públicas) para o atendimento da população de forma mais ampla.

A CF/46 e a LDB 4024/61 preconizavam a obrigação das empresas industriais, comerciais e agrícolas de fornecer ensino primário aos seus funcionários e aos filhos destes, porém, em 1964, a Lei nº 4.440/1964 instituiu o salário- educação, contribuição de todas as empresas, independentemente do número de funcionários, à Previdência Social, num sistema de compensação de custos para cada funcionário com filhos em idade de ensino compulsório. Esta contribuição                                                                                                                

109 As características de incapacidade de frequência escolar são as que seguem: “a) incapacidade

física relativa, incompatível com a freqüência aos trabalhos escolares; desde que se verifique a conservação das condições intelectuais e emocionais necessárias para o prosseguimento da atividade escolar em novos moldes; b) ocorrência isolada ou esporádica; c) duração que não ultrapasse o máximo ainda admissível, em cada caso, para a continuidade do processo pedagógico de aprendizado, atendendo a que tais características se verificam, entre outros, em casos de síndromes hemorrágicos (tais como a hemofilia), asma, cartide, pericardites, afecções osteoarticulares submetidas a correções ortopédicas, nefropatias agudas ou subagudas, afecções reumáticas, etc” (Art. 1º do Decreto-Lei nº 1.044/1969).

correspondia “... ao custo do ensino primário dos filhos dos seus empregados em idade de escolarização obrigatória e destinado a suplementar as despesas públicas com a educação elementar” (Art. 1º). Dessa forma, as empresas que antes deveriam fornecer o ensino primário passaram a ser desobrigadas a tal, ao mesmo tempo em que aquelas que já forneciam ensino primário, por meio de escolas ou bolsas, poderiam ser isentas da nova contribuição (Art. 7º). Em 1969, é publicado Decreto- Lei que estabelece plano de distribuição do salário-educação para o ano vigente, no qual 40% dos recursos seriam destinados a redes municipais e particulares para ampliação, construção e manutenção dos espaços físicos (Art. 3º do Decreto-Lei nº 503/1969).

Para o ensino médio, que compreendia o ciclo ginasial e o ciclo colegial, a LDB 4024/61 mantinha a exigência do exame de admissão e a idade mínima de 11 anos para o primeiro ciclo, e, para o curso colegial, a exigência de certificado ginasial (Art. 36 e 37). Com relação ao ginásio, não foram feitas grandes alterações, considerando as propostas da Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1942. No entanto, o curso colegial deixou de ser dividido entre clássico e científico. Além disso, a LDB 4024/61 incorporou a normatização dos ensinos médios técnico industrial, agrícola, normal e comercial, anteriormente regulamentados por leis orgânicas de ensino próprias. Os cursos industrial, agrícola e comercial, sob a denominação de ensino técnico, eram compostos pelos ciclos ginasial, de quatro anos, e colegial, de três anos, sendo que a lei exigia que, além das disciplinas técnicas específicas de cada curso, fossem incluídas disciplinas dos cursos ginasial e colegial secundário. Em 1964, por meio do Decreto nº 53.558, foi alterada a denominação das escolas agrícolas para ginásios e colégios agrícolas, em conformidade com a LDB 4024/61, e, em 1968, a Lei nº 5.465 determina a preferência, dirigida a agricultores ou seus filhos, em cursos de ensino agrícola.

O ensino normal, por sua vez, não teve muitas alterações em relação à Lei Orgânica do Ensino Normal de 1946, mantendo a formação de regentes do ensino primário em grau ginasial e de professores do ensino primário em grau colegial e a formação de professores do ensino médio no ensino superior.

No que tange ao financiamento da educação, a LDB 4024/61 estipulou o mínimo de 12% da receita federal e de 20%, para os estados, municípios e distrito federal. O regime de bolsas de estudo foi mantido e inserido o reembolso para “... educandos que demonstrem necessidade e aptidão para estudos” (Art. 94), sendo

estabelecida a prioridade de bolsas no ensino médio para filhos menores de ex- combatentes e menores carentes, pela Lei 5.507/1968. O regime de bolsas para o ensino primário, entretanto, só era permitido “... quando, por falta de vagas, não puderem ser matriculados em estabelecimentos oficiais” (§ 4º do Art. 94 da LDB 4024/61). Além das leis de organização do ensino foram encontradas leis que tratam do financiamento da educação110, seja por meio de auxílio financeiro a determinados estabelecimentos de ensino, seja de incentivos fiscais para a educação como deduções no imposto de renda.

A LDB 4024/61 não diferencia o ensino feminino, diferentemente das leis anteriores, que davam preferência para o ensino em separado ou inseriam disciplinas de economia doméstica e/ou puericultura para as meninas111.

Ainda nos anos 1960, o Brasil foi submetido à ditadura militar, em 1964, o regime que fez promulgar uma nova Constituição em 1967, com significativas alterações feitas pela Emenda Constitucional nº1 de 1969 (EC/69). No que se refere à educação, esta Carta Constitucional mantém o direito à educação no lar e na escola para todos, aumenta a obrigatoriedade do ensino para as crianças entre sete e 14 anos de idade, garantindo a gratuidade em estabelecimentos oficiais, o que não significava necessariamente a garantia de acesso ao ensino gratuito, como se viu na LDB 4024/61. A nova Constituição mantém a obrigação das empresas em oferecer o ensino primário ou de recolher a contribuição do salário-educação, este incluído pela EC/69. Estipula ainda que os níveis de ensino ulteriores ao primário serão gratuitos para aqueles que provarem insuficiência de recursos, dando preferência, nestes casos, para a concessão de bolsas de estudo e, em se tratando de ensino superior, com reembolso posterior.

Além da Constituição, há dois decretos-lei que chamam a atenção pela sua ligação com o regime ditatorial, são eles o Decreto-Lei nº 477/1969, que definia as infrações cometidas em estabelecimentos, e o Decreto-Lei nº 869/1969, que tornava a disciplina de educação moral e cívica obrigatória em todos os graus e modalidades de ensino. No que se refere às infrações, especial ligação com o novo regime

                                                                                                               

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Ainda que seja interessante a análise da educação e sua expansão por meio de alterações no financiamento, este não é foco da análise.

111 Todas as Leis Orgânicas do Ensino, exceto a do Ensino Normal, faziam algum tipo de

diferenciação entre meninos e meninas. Em alguns casos, estipulava-se preferência por estabelecimentos separados ou classes separadas. Em outros, foram inseridas disciplinas que se destinavam exclusivamente às meninas ou uma organização diferenciada do currículo.

político é encontrada nos incisos do artigo 1º, nos quais definiam os seguintes atos como infração disciplinar:

I - Alicie ou incite à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação de atividade escolar ou participe nesse movimento; [...] III - Pratique atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados, ou dêle participe; IV - Conduza ou realize, confeccione, imprima, tenha em depósito, distribua material subversivo de qualquer natureza; [...] VI - Use dependência ou recinto escolar para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral ou à ordem pública (Art. 1º do Decreto-Lei nº 477/1969).

Na mesma linha, o decreto sobre a obrigatoriedade da disciplina educação moral e cívica que se apoiava nas “tradições nacionais” tinha como objetivo

c) o fortalecimento da unidade nacional e do sentimento de solidariedade humana; d) a culto à Pátria, aos seus símbolos, tradições, instituições e aos grandes vultos de sua história; e) o aprimoramento do caráter, com apoio na moral, na dedicação à família e à comunidade; f) a compreensão dos direitos e deveres dos brasileiros e o conhecimento da organização sócio-político- econômica do País; g) o preparo do cidadão para o exercício das atividades cívicas com fundamento na moral, no patriotismo e na ação construtiva, visando ao bem comum; h) o culto da obediência à Lei, da fidelidade ao trabalho e da integração na comunidade (Art. 2º do Decreto-Lei nº 869/1969).

Além da legislação, que passou a centralizar na LDB 4024/61 grande parte da organização da educação nacional, houve um aumento no número de crianças com acesso à escola, na primeira década de sua vigência. Os dados do Censo de 1970 mostram que, do total da população entre cinco e nove anos de idade, 44% frequentavam um estabelecimento de ensino, embora, ao considerar os dados deste grupo de idade a partir dos sete anos, idade inicial de ensino compulsório, a proporção seja de 63% das crianças entre os sete e nove anos. Com relação ao grupo das de 10 a 14 anos de idade, a frequência chegava aos 69%. O que estes dados deixam claro é que ainda se estava longe de atingir a totalidade da população em idade obrigatória de ensino, mesmo que o acesso ao ensino viesse aumentando desde a década de 1940.

Neste mesmo censo podem ser encontradas informações sobre a população economicamente ativa que, no grupo de idade de 10 a 14 anos, refere cerca de 12% de crianças, o que representava em torno de 5% do total da população

economicamente ativa no país. Estes dados mostram que, ao mesmo tempo em que as crianças se ocupavam cada vez mais do trabalho infantil escolar, cada vez menos eram encontradas em atividades de trabalho infantil manual.

4.6 A Segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: da publicação

Benzer Belgeler