• Sonuç bulunamadı

“O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra”.

(Charaudeau)

Segundo Charaudeau, “todo ato de linguagem está ligado à ação mediante as relações de força que os sujeitos mantêm entre si, relações de força que constroem simultaneamente o vínculo social” (2006, p. 17). Ele explica que toda ação é finalizada em função de um objetivo: a política, por exemplo, nasceu com o intuito de organizar a vida dos indivíduos em comunidade. Aqui, a linguagem tem um papel fundamental, pois o autor destaca que o espaço da ação política depende de um espaço de discussão.

Há duas instâncias implicadas na ação política: a primeira delas é a instância política, que é delegada e assume a realização da ação política, e a outra é a instância cidadã, que está na origem da escolha dos representantes do poder. De acordo com o autor, a instância política é contraditória: “ela chegou ao poder por uma vontade cidadã (e não autoritária), mas esta, não estando encarregada dos negócios de Estado, não conhece as regras de seu funcionamento e ignora as condições de realização da ação política” (2006, pp. 18-9). A instância política (de decisão) deve agir em função do que é possível, enquanto a instância cidadã a elegeu para realizar o que é desejável.

Ressalta Charaudeau (2006) que o poder político é conceituado de maneiras diferentes por Weber (2003), Arendt (1972) e Habermas (1990). Para Weber, o poder político está ligado à dominação e à violência por meio do Estado, que, por ter força de dominação, impõe sua autoridade sob a aparência de legalidade e, consequentemente, obriga os sujeitos a se submeterem a ela. Por outro lado, Arendt afirma que o poder político é resultado de um consentimento, visto que quem está no poder recebeu de um determinado número de pessoas o poder de agir em seu nome, consequentemente, nesse caso, o poder político não é relacionado à opressão, mas à livre opinião. Habermas posiciona-se entre os dois autores anteriormente citados, com a proposta de que existe um poder comunicativo (fora de

todo poder, pois o povo é seu iniciador e depositário) e um poder administrativo (implica relações de dominação).

Charaudeau declara inscrever-se na linha de pensamento de Habermas, pois defende uma concepção de poder político que resulta dialeticamente de dois componentes da atividade humana: “o do debate de idéias no vasto campo do espaço público” e o “do fazer político no campo mais restrito do espaço político, onde se tomam as decisões e se instituem os atos”. No entanto, Charaudeau destaca que se diferencia dos autores previamente citados pelo fato de acreditar que o campo do debate de ideias e o do fazer político são definidos segundo relações de força que exigem processos de regulação, que se desenvolvem segundo um jogo de dominação que lhes é próprio. O autor explica: “Cada um o faz misturando linguagem e ação: no primeiro é a linguagem que domina; no segundo, a ação” (2006, p. 23).

De que maneira a análise do discurso político se distingue da Filosofia Política, da Ciência Política e da História? Charaudeau explica que essas disciplinas compartilham certos pontos de vista, mas diferenciam-se no que tange a suas finalidades. A Filosofia Política está voltada para os fundamentos do pensamento político e as categorias que o compõem. A Ciência Política questiona-se menos sobre o fundamento de um tipo de pensamento do que sobre a própria ação política em relação às suas finalidades pragmáticas e a seus efeitos. A História, tradicionalmente, busca reconstruir os acontecimentos políticos do passado e construir explicações para as causas e consequências. A AD, por sua vez, contrariamente às disciplinas precedentes:

(...) não se questiona sobre a legitimidade da racionalidade política, nem sobre os mecanismos que produzem esse ou aquele comportamento político, nem sobre as explicações causais, mas sobre os discursos que tornam possíveis tanto a emergência de uma racionalidade política quanto a regulação dos fatos políticos (2006, p. 37, grifo nosso).

Na tradição da AD, discurso é geralmente conceituado como um enunciado emitido sob condições de produção definidas. Charaudeau define discurso como “atos de linguagem que circulam no mundo social e que testemunham, eles próprios, aquilo que são os universos do pensamento e de valores que se impõem em um

tempo histórico dado” (2006, p. 37). O autor destaca que o discurso político não esgota o conceito político, mas não há política sem discurso.

Osakabe adverte que o discurso não é uma “somatória livre de frases, mas um todo, semanticamente organizável, no plano da ação que o caracteriza e dos efeitos que provoca” (1999, p. 217). O autor, que alia em seu trabalho noções de AD, de Linguística e da Retórica2, faz uma distinção entre dois tipos de discursos políticos: um discurso político-teórico e um discurso de natureza político-militante (ou pragmático), que possuem diferenças com relação aos seus objetivos e auditórios:

A argumentação sociológica e o apelo emotivo, de um lado, e o ouvinte intelectualizado e o povo brasileiro, de outro, definem bem os móveis que orientam a prática de, no primeiro caso, um ato de convencer e, no segundo caso, um ato de persuasão (1999, p. 60).

O discurso político-militante, reforça o autor, visa a uma ação (obtenção de um resultado positivo em disputas eleitorais) e justifica-se apenas na medida em que é dirigido a um ouvinte cuja participação interessa ao locutor, mesmo que esse ouvinte não possua reais condições de decisão.

Para van Dijk (2008), a organização global e esquemática do discurso político é convencional, não sofrendo variações em função de restrições contextuais. Para justificar tal afirmação, o autor destaca que um discurso parlamentar tem as mesmas categorias constituintes se for feito por um político de esquerda ou de direita. Segundo ele, “o que pode variar são, de forma especial, a ordem, a proeminência, o tipo e a extensão da informação incluída nessas categorias”, variações estas que ocorrerão em função da “auto-apresentação positiva” e da “outro-apresentação negativa” (p. 225).

Com base nos estudos de Pêcheux, Osakabe afirma que o locutor deve respeitar as condições de produção de seu discurso, que são determinadas pelo conjunto de imagens ou significações que ele pressupõe existirem no locutor, além de outro conjunto de imagens ou significações que pressupõe que o locutor

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Optamos por manter os conceitos exatamente como foram utilizados pelos autores mencionados neste trabalho, dessa forma, haverá uma mescla entre os termos próprios da Retórica (como, por exemplo, “locutor”, “auditório”, “adesão” etc.) e os termos específicos da AD (como “enunciador”, enunciatário” etc.).

pressuponha existirem nele. Essas imagens são os implícitos do discurso: a imagem da dominação e seu reverso; a imagem da função pública; a imagem sobre o referente e a questão dos atos3.

A primeira das imagens que sustentam o discurso pode ser representada com a pergunta “Que imagem faço do ouvinte para lhe falar dessa forma?”, que remete a dois tipos de significações distintas: “O primeiro refere-se à relação interpessoal que se articula entre locutor e ouvinte. O segundo refere-se diretamente ao quadro de conhecimento em que o locutor situa o ouvinte” (1999, p. 70).

As imagens relativas à relação interpessoal referem-se às relações que se articulam entre locutor e ouvinte: uma relação de dominação. O autor salienta que não se trata de uma dominação psíquica ou social, mas de dominação pela posse do discurso. Na medida em que quem enuncia manipula as coordenadas do discurso, o dominador será sempre o locutor, coincida ou não essa dominação com a dominação efetiva (seja social ou psicológica). Consequentemente, ao ouvinte cabe o papel de dominado.

No entanto, se no momento da fala o locutor assume o papel de dominador do discurso, conduzindo seu ouvinte por meio da palavra, ele é dominado pelo locutor no momento do desenvolvimento do discurso, na medida em que este é situado em um quadro de significações a que ele próprio deverá obedecer, visto que suas escolhas são feitas visando a obter a adesão do auditório. O locutor pressupõe que o ouvinte possui algumas noções e as assume para si – é a imagem que o locutor tem do ouvinte que irá definir as noções que irão compor o quadro de significações.

A imagem da função pública ou da função política traz a seguinte questão: “Que imagem penso que o ouvinte faz de mim para que eu fale dessa forma?”, ou seja, trata-se da imagem que o ouvinte tem do locutor enquanto locutor político:

“[nos textos analisados pelo autor,] o que basicamente conta para essa imagem são os implícitos a respeito da função política ou da função pública”. Osakabe sugere que “a melhor forma de se saber qual é a imagem que o locutor pensa que o ouvinte faz dele é a de tentar saber a quais imagens, enquanto candidato, o locutor insiste em atender” (1999, p. 82). O que o locutor procura saber é a expectativa do ouvinte não com relação a ele (indivíduo), mas a sua função (homem público), ajustando-se ou procurando parecer ajustado à imagem que pressupõe no ouvinte.

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A terceira imagem diz respeito à imagem sobre o referente, que gera duas questões para o locutor: “Que imagem tenho do referente para falar dessa forma?” e “Que imagem penso que o ouvinte tem do referente para eu falar dessa forma?”. O autor enfatiza que a segunda pergunta é muito mais relevante do que a primeira, já que é ela que fornece a medida e a justificativa para a produção do discurso, pois “é o pressuposto de o ouvinte ter uma imagem distinta do referente que justifica da parte do locutor a produção de seu discurso” (1999, p. 91). Em outras palavras, busca-se obter a adesão daqueles que ainda não foram convencidos ou persuadidos a pensar da forma que o locutor gostaria.

A quarta e última questão trata dos atos de linguagem, praticados pelo próprio ato de discursar. O autor distingue dois atos de linguagem: os atos perlocucionários, expressos pelas ações persuadir e convencer, e um ato ilocucionário, expresso pelo

verbo argumentar. O ato perlocucionário ou perlocutório é aquele que exerce um

efeito sobre o ouvinte – por exemplo, para amedrontar –, já o ato ilocucionário ou ilocutório realiza a ação denominada pelo respectivo verbo – promessa, juramento, ordem, pedido4. Segundo Osakabe, todo discurso constitui um ato de argumentação:

Mais do que cumprir uma função de informação, constitui-se basicamente na sua própria realização um ato concreto. Isto é, constitui-se em ato pela própria realização de sua natureza argumentativa. E, como ato, ele se circunscreve nos limites de sua temporalidade, que, como afirma Perelman, tem uma força criadora, pois permite a seu agente sua reformulação e seu contínuo ajuste no tempo (1999, p. 100).

De acordo com Citelli (2006), o discurso político elabora três grandes movimentos estratégicos: divulgação, adesão, justificativa/explicação. A divulgação ocorre quando o candidato se apresenta ao público, dizendo quem é, de onde veio, o que pretende. Quer sendo governo, quer sendo oposição, os candidatos se municiam “de palavras de ordem, símbolos, bandeiras, broches; sobrevoam tucanos, reluzem estrelas, tremulam foices e martelos” (p. 86), como forma de reatualizar o discurso de divulgação.

O segundo movimento, a adesão, é intrínseco ao discurso político, visto que o propósito de divulgar tem o intuito de garantir que a opinião pública, em setores os

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mais amplos possíveis, venha a aderir às mensagens enunciadas. Mais do que manter seus adeptos, busca-se ampliar esse número, conquistar novos eleitores.

Se, por um lado, a divulgação pode gerar adesões, a manutenção ou continuidade dessas adesões dependerá da capacidade de o partido / candidato / instituição explicar e justificar suas ações. Manter aliados é de extrema importância para os partidos políticos – daí verem-se, com muita frequência, prefeitos, governadores e presidentes da República ocupando o horário nobre da televisão com pronunciamentos que explicam suas atitudes em determinadas situações.

Fairclough (1996) destaca:

Na política, cada partido opositor ou força política tenta conquistar, para o seu próprio tipo de discurso, o status de preferido e, em última instância, de discurso ‘natural’ para se falar e escrever sobre o Estado, o governo, formas de ação política e todos os aspectos da política – bem como para demarcar a própria política de outros domínios (p. 90, grifo do autor, tradução nossa).

O discurso manipulador (em que o enunciador joga com a ambivalência de seu enunciatário) geralmente resulta em decepção e, em alguns casos, suas consequências podem ser catastróficas. No âmbito da política, isso não é raro. Muitas vezes, os eleitores são levados pelo discurso do candidato, por sua fala bem articulada, por sua aparência (que é cuidadosamente trabalhada por hábeis marqueteiros), enfim, há um conjunto de elementos que poderá levar os cidadãos a elegerem um determinado político que irá, futuramente, decepcioná-los, envolvendo- se em escândalos e falcatruas. O sentimento de decepção e vergonha certamente surgirá no eleitor que imaginou ter escolhido o político mais adequado para representá-lo politicamente e, finalmente, descobre que foi manipulado por seu discurso mal-intencionado.

Breton (2005) faz algumas recomendações que podem auxiliar as pessoas a se prepararem melhor para “enfrentar as situações difíceis”, ou seja, como lidar com o discurso manipulador, que costuma ser sedutor, muitas vezes até irresistível. São elas: refletir sobre o passado (a fim de evitar erros repetidos); observar situações semelhantes (circunstâncias reais ou de ficção, como as mostradas em filmes e telenovelas, podem ajudar a preparar a pessoa para o “confronto” de uma dessas situações); desenvolver uma cultura de interiorização (ouvir a si próprio); saber

descrever (analisar uma situação como se estivesse fora dela proporciona um olhar mais objetivo, ajudando a pessoa a ficar menos envolvida e dificultando que a manipulação concretize-se); aprender a argumentar melhor (apresentar fatos, ideias, provas, razões lógicas que comprovem uma afirmação, uma tese); nunca se opor à força (considerar a situação difícil a partir de um ponto de vista totalmente diferente); preparar-se psicologicamente (estar preparado mentalmente para o que poderá vir a ocorrer).

Em resumo, terá mais chances de não ser iludido pelo discurso manipulador aquele que desenvolver uma escuta ativa, além da objetivação e da afirmação argumentada do próprio ponto de vista. Para os receptores do discurso político, essas qualidades são essenciais, pois ouvidos mais críticos evitam (ou, pelo menos, minimizam) futuras frustrações.

Para Perelman, a eficácia de um discurso demagógico, ou seja, a simulação de virtudes com objetivos escusos, depende da qualidade do auditório. “Um discurso demagógico e enganador poderia talvez persuadir um auditório de ignorantes, mas não um auditório de elite” (1987, p. 239).

O ouvinte, apesar do pressuposto de possuir uma imagem do referente distinta da que o locutor possui, não é tomado por este como um adversário. No discurso político, o ouvinte é visto como um possível aliado, de modo que o locutor atribui a uma terceira pessoa a imagem contrária a sua (ou seja, seu adversário político). Em um debate político, no entanto, o ouvinte tem um duplo papel, pois ouve o locutor e também o adversário deste:

(...) enquanto instância que o ouve, o ouvinte caracteriza-se como parceiro político, o que não justificaria o discurso, mas enquanto aquele que pode ouvir o adversário, ele é, ao mesmo tempo, portador de uma imagem contrária, mas, por não ser o adversário, é um possível aliado. Só isso pode justificar a produção do discurso (OSAKABE, 1999, p. 91).

Ao adversário cabe, em um jogo maniqueísta, o papel representativo das forças do mal, visto que sua imagem é necessariamente contrária à do locutor. Osakabe (1999, p. 104) ilustra uma tentativa de neutralização do adversário com um discurso de Getúlio Vargas, pautado na racionalidade (“clareza de raciocínio”, “concatenação dos argumentos”) e no seu realismo (“exposição serena dos fatos”):

Os doestos5 com que certos opositores gratuitos procuram feri-lo (o Governo Provisório) não lhe entibiam6 o ânimo. O melhor meio de convencer não consiste em atacar o agressor, o crítico pertinaz ou o descrente de má-fé. Cumpre não abater o adversário com as mesmas armas aleivosas7 de que ele se utiliza no afã de tudo recusar, mas dominá- lo pela clareza do raciocínio, pela concatenação dos argumentos, pela exposição serena dos fatos. Os atos são preferíveis às palavras, porque aqueles provam e estas simplesmente alegam.

Em confrontações políticas, uma das formas de atingir o adversário é evidenciando suas incompatibilidades (contradição formal): “evidenciar incompatibilidades é a essência da ironia socrática que visa ridicularizar o adversário e obrigá-lo assim a rever suas opiniões” (PERELMAN, 1987, p. 248). De acordo com o autor, o acesso a diferentes pontos de vista é fundamental para intensificar a criticidade do auditório, pois uma afirmação e uma apresentação, que, à primeira vista, parecem objetivas e imparciais, manifestam o seu caráter voluntaria ou involuntariamente tendencioso quando são confrontadas com outras enunciações, em sentido oposto. Conclui o autor: “Inevitavelmente, a confrontação, o pluralismo agudizam o sentido crítico. É graças à intervenção sempre renovada dos outros que se poderá distinguir melhor o subjetivo do objetivo” (1987, p. 243).

Osakabe (1999, p. 122) destaca que, apesar de buscar a adesão do auditório, cuja consequência será o voto, o locutor político, em fase de campanha eleitoral, costuma respeitar o direito de opção do próprio ouvinte, adequando sua imagem com a ideia do liberalismo e alertando-o para suas obrigações cívicas. O autor cita, como exemplo, os discursos de Getúlio Vargas, que utilizava essa estratégia: “Ao povo cabe decidir, na sua incontestável soberania”; “Todos os brasileiros têm não apenas o direito, mas o dever de se pronunciar por esta ou aquela candidatura no terreno eleitoral, exigindo que seu voto seja integralmente respeitado”.

Dascal endossa a importância do tema “liberdade” nos discursos realizados em contextos democráticos, citando a distinção feita por Aristóteles entre a democracia, a oligarquia, a aristocracia e a tirania. A finalidade da democracia é a liberdade; a da oligarquia, a riqueza; a da aristocracia, a educação e as leis; e a da

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Acusações desonrosas, injúrias.

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Enfraquecem.

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tirania, a defesa da polis. “Assim, em uma democracia, o discurso de um dirigente ganhará em credibilidade entre os que governam se conseguir apresentar-se como favorecendo a liberdade” (DASCAL, 2005, p. 66).

Conforme aponta Pinzani, Maquiavel, em O Príncipe, afirma que é essencial o

cuidado do príncipe (aqui entendido como o político) com as palavras durante os seus discursos:

Um príncipe deve cuidar para que jamais lhe escape da boca qualquer coisa que não contenha as cinco qualidades citadas. Ele deve parecer, para os que o virem e ouvirem, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade e todo religião. Não há nada mais necessário do que parecer ter esta última qualidade (2004, pp. 60-1).

Vale destacar o trecho da obra de Maquiavel que trata da importância de o príncipe saber dissimular, de forma velada, em seu discurso:

Assim, um príncipe prudente não pode, nem deve, guardar a palavra dada, quando isso se torna prejudicial ou quando deixem de existir as razões que o haviam levado a prometer. Se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, mas, como são maus e não mantêm sua palavra para contigo, não tens também que cumprir a tua. Tampouco faltam ao príncipe razões legítimas para desculpar sua falta de palavra. (...) Quem melhor se sai é quem melhor sabe valer-se das qualidades da raposa. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e ser grande simulador e dissimulador, pois os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades presentes, que o enganador encontrará sempre quem se deixe enganar... (MAQUIAVEL, 1996, pp. 83-4).

Amossy reforça que a questão da moralidade não eliminava nos clássicos a ideia de uma construção do orador pelo seu discurso, distinguindo a imagem real (caracteres reais) daquela que é produzida no discurso (caracteres oratórios): “(...) pode-se mostrar algo sem sê-lo; e pode-se não parecer tal, e ainda assim o ser; pois isso depende da maneira como se fala” (2005, p. 18).

De acordo com Courtine, o discurso político passa atualmente pela experiência de uma profunda transformação, com o desenvolvimento de outra política do discurso: com formas curtas, de fórmulas, de diálogos. “Um discurso político mais fluido, mais imediato que requisitaria o instante mais do que se

inscrever na memória, preferindo mais o ataque verbal do que (sic) a estratégia

discursiva” (2006, p. 84).

Nesse cenário, os grandes discursos políticos estariam fadados a desaparecer, pois a intenção é menos explicar ou convencer do que seduzir ou conquistar. Assim, “formas didáticas da retórica de uma política clássica modelada

Benzer Belgeler