5. BİLGİSAYAR DESTEKLİ ÖĞRETİMİN İLKÖĞRETİM OKULLARINDA
5.7. Öğretmenlerin Eğitimi
Histoire du livre na França, Geschichte des Buchwesens na Alemanha, history of books ou of the books nos países de língua inglesa – o nome varia de lugar para lugar, mas por toda parte ela está sendo reconhecida como uma nova disciplina importante. Até se poderia chamar de história social e cultural
da comunicação impressa, se não fosse um nome tão comprido, pois sua finalidade é entender como as idéias eram transmitidas por vias impressas e como o contato com a palavra impressa afetou o pensamento e o comportamento da humanidade nos últimos quinhentos anos. (Darnton, 1990: 109)
A afirmação de Darnton permite estabelecer um primeiro balizamento: falar em história dos livros é, antes de mais nada, não falar em uma história das obras literárias. Sua delimitação reivindica esta ruptura primordial com o cânone: “Para os franceses do século XVIII, a literatura – ou a República das Letras, como diriam eles – certamente incluía Voltaire e Rousseau. Mas também incluía Pidansat de Mairobert, Moufle d’Angerville e uma legião de outros escritores que desapareceram da história literária” (ibid., p. 145). No lugar de uma perspectiva centrada na noção de obra como unidade significativa anteriormente ao público, corpo autônomo do qual interessa inferir as leis de sua própria coerência, ou se tanto um certo perfil psicológico, projeto político ou estético do autor, os próprios livros são alçados à condição de personagem da História. Estão denunciadas as exclusões e os recortes seletivos de uma literatura pouco sensível ao papel desses objetos de cuja trajetória seu próprio caminho é inseparável. Novas questões estão postas: por que certas obras e autores permanecem, contraindo o estatuto de clássicos, enquanto outros, às vezes igualmente bem- sucedidos em seu tempo, encontram seu crepúsculo muito cedo? Quais são os lugares sociais da literatura, os espaços que preenche de forma desigual, as formas como se propaga, alimenta negócios e se integra ao mundo cotidiano do homem comum?
Há que se reconhecer, por outro lado, que a jocosa nomenclatura proposta por Darnton não tem como único revés ser muito extensa. Evocar uma “história social e cultural da comunicação impressa” traz implícita a idéia de que aquilo que se persegue, através do estudo dos livros, é o resgate de uma prática fundamentalmente comunicativa. Uma expressão tal como comunicação impressa, entretanto, vem ao encontro daquilo mesmo que é pressuposto para que haja uma história dos livros, a saber, o fato de que a leitura não é uma prática propriamente comunicativa. Se na leitura tudo se passasse conforme o esquema da comunicação, isto é, como sucessiva transmissão de mensagens, pouco restaria a uma disciplina que propusesse deslocar sua atenção do texto ao livro – nesse caso, ela seria na melhor das hipóteses uma história dos acidentes no percurso da mensagem, uma história dos imprevistos, mal-entendidos e acasos. Não é este o estatuto que se lhe confere nas análises do próprio Darnton, em que fica evidente a preocupação com o caráter produtivo e não meramente transmissivo da leitura. De outra parte, o estudo de um Menocchio (cf. Ginzburg, 1997) demonstra justamente o caráter não-acidental daquilo que foi considerado em sua
própria época uma leitura divergente – estão lá, desde o início, as condições que permitem ao moleiro depreender de seus livros uma tão inesperada cosmogonia.
Uma concepção comunicativa da leitura subjaz à descrição que Darnton faz do ciclo de vida do livro, de acordo com o esquema reproduzido adiante. Se tal viés parece contrário à própria motivação dos estudos históricos sobre a leitura, nem por isso deixa de ser válido freqüentar tal esquema, ainda que se lhe proponha uma nova leitura, pelo que ele elucida sobre as diversas etapas de produção e circulação material do livro:
(...) de modo geral, os livros impressos passam aproximadamente pelo mesmo ciclo de vida. Este pode ser descrito como um circuito de comunicação que vai do autor ao editor (se não é o livreiro que assume esse papel), ao impressor, ao distribuidor, ao vendedor, e chega ao leitor. O leitor encerra o circuito porque ele influencia o autor tanto antes quanto depois do ato de composição. Os próprios autores são leitores. Lendo e se associando a outros leitores e escritores, eles formam noções de gênero e estilo, além de uma idéia geral do empreendimento literário, que afetam seus textos, quer estejam escrevendo sonetos shakespearianos ou instruções para montar um kit de rádio. Um escritor, em seu texto, pode responder a críticas a seu trabalho anterior ou antecipar reações que serão provocadas por esse texto. Ele se dirige a leitores implícitos e ouve a resposta de resenhistas explícitos. Ele transmite mensagens, transformando-as durante o percurso, conforme passam do pensamento para o texto, para a letra impressa e de novo para o pensamento. (1990: 112)
Na leitura do esquema de Darnton surge uma das questões centrais para a história dos livros: o fato de que, entre o trabalho do autor, sobre o qual se concentra o crítico literário, e aquilo que é efetivamente lido pelos leitores de uma dada sociedade, há um universo inteiro que é o da produção livreira – pelo qual a própria obra não passa incólume. Este é o universo de que se incumbe a história dos livros; a linha pontilhada que vai do autor aos leitores parece
frisar a fragilidade desse laço em relação a todo o circuito que está ao seu redor. Desse esquema relevam questões como a da proveniência do texto autoral, que passa por diversas instâncias antes de atingir o público e pode sofrer aí modificações substanciais (de que é um exemplo notório o caso da bibliothèque bleue29). Mais do que isso, a sensibilidade para uma
29Fórmula editorial bastante popular que vigorou entre o início do século XVII e meados do século XIX.
Consistia na edição de livros baratos, voltados para o grande público, na maior parte das vezes encadernados em capa azul, donde o nome pelo qual eram conhecidos. Chartier ressalta que as obras dessa “literatura de cordel” não eram originalmente destinadas a um leitor popular; tratavam-se, na maior parte das vezes, de obras cuja licença de impressão havia expirado. Os editores da Bibliothèque Bleue reeditavam-nas sob uma nova forma, direcionada para o novo público que visavam atingir, suprimindo trechos “desnecessários” ou “indevidos”, redivindindo capítulos e parágrafos e incluindo gravuras, subtítulos antecipatórios ou recapitulatórios, resumos etc. “É, pois, nas particularidades formas – tipográficas, no sentido lato do termo – das edições de cordel e nas modificações que estas impõem aos textos apropriados que é necessário reconhecer a leitura ‘popular’, entendida como um relacionamento com o texto distinto da cultura letrada” (Chartier, 1988: 131).
noção como a de autor, nunca um dado a priori, desponta através desses estudos como produção histórica mais ou menos localizável.
O esquema de Darnton salienta não só que o texto se modifica durante as etapas de sua produção, mas que estas podem determinar de antemão a escrita do texto (por exemplo, o custo dos materiais de impressão pode influenciar a extensão de uma obra, levando um editor a suprimir certas passagens, como é o caso dos editores de Troyes). Sob esse ponto de vista, a observação de Darnton sobre o caráter antecipativo e responsivo do trabalho autoral poderia ser lida por um prisma semelhante ao que propõem os estudos de linguagem de cunho sócio- interacionista, baseados na máxima bakhtiniana da palavra como arena do embate entre classes sociais (cf. Bakhtin, 1929 [2004]), a despeito do uso de termos como “comunicação” e “mensagem”. Essa aproximação é possível, mas até certo ponto, já que a lógica do esquema de Darnton, como fica explícito ao fim, não se circunscreve nas relações entre os signos, como o quer Bakhtin, mas pressupõe uma mensagem estável que viaja livre entre os domínios do pensamento, da língua e da matéria.
Uma das metas deste trabalho consiste em estabelecer um liame entre a história dos livros e a teoria lingüística exatamente neste ponto pelo qual o olhar do historiador passa sem se deter. A porta de entrada está posta no próprio esquema de Darnton: basta observar as estações de parada que constituem o ciclo de vida do livro, entre a emissão original de uma “mensagem” pelo autor e sua recepção derradeira pelo leitor. Cada estação responde por um agente ou grupo de agentes no processo de produção material do livro: editores, gráficos, fornecedores, distribuidores, livreiros, encadernadores. Nota-se que são nomes de profissões. Posto dessa forma, o esquema permite visualizar a forma como a sociedade civil se organiza em torno das técnicas de reprodução e circulação do impresso tal qual no século XVIII. Mas há um ponto que merece maior atenção: o fato de que os termos autor e leitor entram na mesma série de gráficos, fornecedores, livreiros etc. Essa justaposição permite supor que, para Darnton, tanto autor quanto leitor respondem por figuras concretas, seres individuais, ou em todo caso por funções mais ou menos profissionais. Há que se reconhecer, pelo menos, que tomar o autor como uma profissão efetua um recorte do qual ficam de fora todas as formas de autoria não-profissionais ou que jamais imprimiram seus livros. Se tal exclusão pode ser efetuada sem grandes prejuízos em um estudo da França setecentista, o mesmo não ocorre quando se tem à sua disposição um repertório de manuscritos impublicados que devem ter alguma relação com esse esquema, ainda que Darnton não lhes reserve um lugar explícito.
Tiremos uma conclusão: o esquema de Darnton toma os atos de escrever e ler como atividades de algum modo “alingüísticas”. Isto ao menos no sentido de que, para ele, autor e
leitor operam a “transmissão” de uma “mensagem” que se equipara àquela pela qual é responsável o impressor que comprime o prelo sobre a página, ou o do carroceiro que transporta um maço de livros de uma cidade a outra. A diferença é a natureza da “mensagem” em cada momento: autor e leitor emitem-na “do pensamento à língua”; o autor ainda a transmite “à matéria” com o bico de sua pena; os demais personagens na maior parte das vezes se ocupam apenas da “transmissão” de uma forma material para outra (exceto quando intervêm no texto). O que permite associar em uma mesma série leitores, autores, impressores e livreiros é, portanto, a exclusão da própria linguagem do escopo de análise. Para preencher esse hiato, Darnton cria uma mecânica etérea de movimentos que vão “do pensamento para o texto, para a letra impressa e de novo para o pensamento”, sem no entanto se deter sobre a natureza dessas transposições nada corriqueiras, o que só permite supor que tal passagem é presumidamente livre e pouco relevante para a investigação dos aspectos materiais da difusão do livro. Exatamente sobre este ponto é que se propõe estender o entendimento da história dos livros, introduzindo no esquema do ciclo de vida do impresso uma problemática do sujeito e da linguagem.
De toda forma, antes de passar a isso, é preciso reter aquilo que o esquema de Darnton oferece. A partir dele podem-se levantar uma série de questões para a compreensão da história da leitura dos impresso de RPG. Quais são as personagens e estações que compõem o seu ciclo de vida nos diferentes tempos de sua penetração? Há algumas figuras notáveis, como o jogador que traz os primeiros livros de suas viagens ao exterior e os faz circular por empréstimo e xerox, formando os primeiros grupos de jogo em torno de um número reduzido de títulos30; há também o jogador que no início dos anos 1990 conquista a autoria com a publicação dos primeiros livros de RPG em português31. É preciso considerar ainda o papel dos locais de reunião de jogadores e os locais de venda dos livros, associando-os à escassez de acervos públicos de RPG e o seu surgimento posterior em locais como as bibliotecas dos Centros Educacionais Unificados de São Paulo32. É preciso pensar, também, na produção escrita de jogadores que jamais atinge o estatuto público, ou que encontra certas formas de publicação e difusão na internet – nem todo livro escrito é um livro publicado, e nem todo livro publicado é um livro impresso. Para além daí, no entanto, cabe considerar as possibilidades de uma história da leitura e não apenas dos livros.
30 Cf. Capítulo III.2, sobre a posse e outras formas de acesso ao livro.
31 Cf. Capitulo V.2.1 e V.2.2, sobre alguns dos primeiros RPGs brasileiros, publicados no início dos anos 1990. 32 Onde ocorreram oficinas de RPG organizadas pela Ludus Culturalis entre 2003 e 2005. Ver cronologia no