Os antigos mesopotâmicos, aproximadamente há 5.000 anos, já exercitavam o poder de representação tipicamente humano, transferindo pensamentos em linguagem escrita, oferecendo significativos avanços intelectivos à humanidade. Sua cultura reclamava por um sistema de registro que transcendesse a memória orgânica, incapaz de comportar a complexidade e amplitude de sua economia (BOTTÉRO, 1995).
Bottéro (1995) informa que, inicialmente, a linguagem escrita era concedida apenas a uma classe de profissionais que apresentava qualificações específicas e prestígio social para executar o trabalho de leitura e escrita:
[...] Escrever e ler era uma profissão, como a medicina, a jurisprudência e liturgia e as outras técnicas [...] Estes, escritores e pensadores, eram os verdadeiros mantenedores, pela parte superior, da cultura no que ela possuía de mais elevado e mais novo, elementos que eles filtravam de volta para a população inculta. O esplendor e a densidade de uma civilização não poderia estar nas mãos da multidão, que aliás não possui nunca o tesouro inteiro, mas de cabeças pensantes, de seus líderes, de sua elite ‘intelectual’ (p. 19-20).
Muitos são os indícios que validam a idéia de que, naquela região, entremeada por várias etnias, sobretudo semitas e sumérios, transcorreu a gênese e desenvolvimento da escrita propriamente dita: “[...] sistema de sinais próprios para codificar e fixar ‘todas as mensagens’ – ‘tudo’ o que passa pelo espírito”.
Fazendo referência a Bottéro:
[...] Além disso, podemos sobretudo constatar a que ponto essa descoberta fundamental, que permitiu aos povos da Mesopotâmia tirar, por assim dizer, o seu pensamento da cabeça ou da boca e projetá-lo na matéria, fixá-lo, propagá-lo no espaço e no tempo, a que ponto essa descoberta impressionou seu espírito, dirigindo-o para uma visão particular do mundo, uma maneira de compreendê-lo, de refletir e raciocinar; para uma ‘lógica’, um conjunto de representações, até mesmo de instituições características de seu sistema cultural, das quais algumas passaram, com ele, à nossa mais velha herança (1995, p.11).
Antes, porém, ocorreu uma evolução, partindo-se dos desenhos para as representações pictográficas e ideográficas – fiéis à realidade concreta, imediata e singular –, até as escritas cuneiformes e fonográficas, delineadas sob códigos abstratos, descartados do real (BOTTÉRO, 1995, p.12).
As primeiras marcas gráficas da humanidade, os pictogramas – símbolos componentes de um sistema gráfico representado por desenhos figurativos análogos aos objetos reais – não transcreviam nem apresentavam associação explícita com a língua oral; ao contrário, seus signos icônicos, não-arbitrários, expressavam cópias da realidade visível. Esses signos, cujos traços estilísticos usuais foram modificados e aprimorados, edificaram formas convencionais de representação das palavras e o surgimento de sistemas de escrita logográficos – notação que dispõe de um signo para cada palavra, inicialmente desvinculado de conotação sonora –, cujos caracteres evoluíram à categoria de componentes sonoros das palavras.
Essa progressão verificou-se, por exemplo, no sistema de escrita chinês que, de modo gradual, converteu os sinais inicialmente icônicos em símbolos ideográficos. Também observada nos hieróglifos egípcios – língua escrita constituída por unidades ideográficas, comparando-se muito com figuras enigmáticas – e nos caracteres cuneiformes dos sumérios, escrita fonética mais antiga de que se tem conhecimento (BOTTÉRO et al., 1995; CAGLIARI, 1992; SAMPSON, 1996).
A escrita ideográfica, enigma figurado que consiste em exprimir palavras ou frases por meio de figuras e sinais, apresentava vantagens e desvantagens dignas de observação, explica Bottéro (1995, p. 14 e 15), ao conceituar e descrever a condição primeira da evolução escrita na Mesopotâmia:
[...] está claro que se tratava apenas de uma escrita de coisas: os significados diretos desses caracteres não eram as palavras de uma língua mas, em primeiro lugar e de modo imediato, as realidades expressas por essas palavras. Por isso qualquer leitor, qualquer que seja seu idioma próprio, podia perceber imediatamente a sua significação, assim como um inglês, um italiano, um russo, um japonês compreendem muito bem, cada um por si, que não se deve fumar onde há uma tabuleta com um cigarro cortado por um traço vermelho. Em compensação, muitíssimas nuanças essenciais ao discurso falado, o qual adere sozinho exatamente os meandros dos nossos pensamentos, da nossa maneira de perceber as coisas, não eram figuráveis [...] e escapavam dessa ideografia [...].
Esse tipo de escrita resumia-se a auxiliar a memória a listar sucintamente os objetos conhecidos, atuando como mnemotécnica retrospectiva, mediante signos que denotavam íntima relação entre significantes e significados. No entanto, o número de símbolos às respectivas idéias aumentava consideravelmente. A conciliação entre signos ideográficos e língua falada constituiu-se um imperativo à evolução da escrita, com vistas à economia lingüística e livre expressão de pensamentos e sentimentos, já que os ideogramas atuavam na dimensão do concreto ou material.
Nova fase se instaurava: os signos pictográficos detentores de idéias, progressivamente, abandonavam as características reais dos objetos, aproximando-se dos sons das palavras que os representavam. Dessa maneira, o signo, daquele momento em diante, tornava presente tanto o objeto representado, quanto a palavra que o designava, notadamente os seus sons (BOTTÉRO et al., 1995; CAGLIARI, 1992; HERRENSCHMIDT, 1995; SAMPSON, 1996).
Operou-se uma revolução cognitiva por meio de um complexo processo de abstração das representações de mundo: significados e significantes se distanciaram. Progressivamente, a escrita se descarta de sua simbolização fidedigna aos objetos da vida sensível, adotando caracteres destituídos de sentido. Evoluiu-se do desenho dos artistas aos pictogramas, de caráter ideográfico, ascendendo-se a um estágio de
generalização dos símbolos existentes; bem como dos signos componentes dos códigos gráficos pictóricos aos sistemas fonéticos e cuneiformes de escrita, cada vez mais distantes da realidade imediata, haja vista se constituírem quase totalmente por unidades desprovidas de valor semântico (BOTTÉRO et al., 1995; HERRENSCHMIDT, 1995; CAGLIARI, 1992; SAMPSON, 1996).
Certamente, de acordo com Herrenschmidt (1995, p. 101),
Invenção extraordinária, a escrita torna a linguagem visível. Quanto a esse princípio, todas as escritas se parecem. Entretanto, não tornam a linguagem visível da mesma forma. Umas fazem pequenos desenhos: um carneiro para dizer “carneiro”, outras gravam sílabas: “car”, “nei”, “ro”, outras evocam sons abstratos: kh, ch, m... Umas tornam visível um objeto, uma coisa do mundo já visível, outras tornam visível uma palavra, uma sílaba, um som, uma coisa da linguagem até então apenas audível e pronunciável.
O desenvolvimento da escrita fonética se compromete mais com a forma que com o conteúdo ideográfico dos caracteres. O ideograma, “[...] realista e concreto, adquiriu um valor fonético, de algum modo desencarnado e universal”. Decerto, a escrita particularizada cede espaço às expressões objetivistas de concepções abstratas (BOTTÉRO, 1995, p.16).
A fonetização da escrita se consubstancializou a partir de dois fenômenos essenciais: da representação do som da fala, assim como também da análise sonora das palavras em ritmo silábico. Constituiu-se, então, um código silabário, através da união dos sons dos símbolos ideográficos, cujos nomes produziam quase os mesmos sons das palavras ou frases (HERRENSCHMIDT, 1995).
Admitindo componentes ideográficos e fonéticos, a escrita japonesa é composta de um derivado da escrita chinesa com símbolos gráficos que se reportam a conceitos e não a partes fônicas da cadeia falada, e outro de escrita silábica. Assim, constitui-se por dois alfabetos (kana) – sistema silábico – associado a alguns milhares de caracteres chineses (Kanji): hiragana e katakana, duas versões do mesmo conjunto de sons do Japonês. A primeira é utilizada para formar os elementos gramaticais e indicar a pronúncia japonesa dos caracteres chineses; a segunda, para transcrever palavras de origem estrangeira. A
despeito da inexistência de espaços entre as palavras, as leituras são realizadas mediante o contraste entre caracteres silábicos e chineses (SAMPSON, 1996).
A escrita alfabética, de representação fonográfica, distingue-se das demais porquanto se constitui por letras, símbolos convencionais abstratos. A origem do alfabeto como se conhece, nos dias atuais, derivar-se-ia dos contatos comerciais entre Fenícios e Aramaicos, povos de língua semita que, comercializando, se valiam da língua dos Caldeus da Babilônia (aproximadamente 1.000 a.C.), usuários de um sistema de escrita cuneiforme advindo da escrita suméria, já constituído por símbolos para as sílabas das palavras. Por conseguinte, o advento do alfabeto estaria associado às propriedades fonológicas das línguas semitas, que contribuíram para a evolução do sistema de escrita cuneiforme rumo ao princípio alfabético (CALVET, L.J., 1997).
O código fenício também contribuiu sensivelmente para a formação do alfabeto grego, que consiste numa língua indo-européia, cujas vogais se revestem de significativa importância, contrariamente às línguas semitas, que apresentavam um modelo de notação com predominância consonantal. Progressivamente, os gregos transformaram alguns dos sinais gráficos, correspondentes a consoantes inexistentes na sua língua, para servirem de base à notação das vogais. Os etruscos também intervieram nesse processo de formação do alfabeto grego e romano (CALVET, 1997).