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Os escritos de Engels após as revoluções de 1848 mantinham o espírito dos textos escritos com Marx durante todo o período em que participaram da redação da Nova Gazeta Renana, mantendo como principal foco político a reivindicação de uma “república alemã democrática, una e indivisível, e guerra com a Rússia, o que trazia implícito a restauração da Polônia.” 163 Neste momento, fazia parte de seu diagnóstico a avaliação crítica sobre os

insucessos da revolução alemã, concluindo como um dos seus elementos principais a sombra de um possível conflito com a Rússia que “pairava” no ar.

Marx e Engels acreditavam na persistência de uma ameaça a qualquer possibilidade revolucionária naquela conjuntura, que se estenderia como ameaça igualmente aos governos liberais, com mínimas liberdades garantidas de associação e organização política, passando a

163 ENGELS, Friedrich.Marx e a “Nova Gazeta Renana” 1848/1849. In: Obras escolhidas. São Paulo:

aplicar este diagnóstico ao contexto político dos exilados da revolução alemã na França. A ideia era de que estas estruturas persistiriam onde haveria uma predisposição à conquista e a garantia de direitos, resumida na ideia de “povos revolucionários.”

A política externa que propúnhamos era bem simples: defender todo povo revolucionário e apelar para a guerra geral da Europa revolucionária contra o baluarte da reação europeia: a Rússia. Desde 24 de fevereiro,164 estava claro para nós que a revolução só tinha um inimigo

verdadeiramente temível, a Rússia, e que esse inimigo se veria tanto mais forçado a lançar-se à luta quanto mais o movimento se estendesse a toda a Europa. Os acontecimentos de Viena, Milão e Berlim deviam retardar o ataque russo, mas esse ataque se aproximava das fronteiras da Rússia. No entanto, se lograsse arrastar a Alemanha à guerra contra a Rússia, acabar-se-iam os Habsburgos e os Hohenzollern, e a revolução estaria triunfante em toda a linha. 165

Nesta passagem, Engels apresenta o que seria considerada como a conjuntura política no período imediatamente anterior, principalmente nos fatores externos à fronteira dos estados em que ocorriam processos revolucionários em 1848, como vários estados do que veio a se tornar a Alemanha, assim como a Hungria, Polônia, Áustria e França. Este entendimento articula as condições políticas internas que caracterizaram a guerra civil com as externas, pensando-as em um contexto de tensões diplomáticas internacionais segundo o pressuposto de uma relação de cobertura de países com princípios comuns, como progressistas e conservadores, inseridos em um contexto ainda mais amplo de alianças e conflitos políticos. Este tipo de entendimento, de certo modo mostra como no pensamento de Engels passam a ser relacionadas estas formas de ação política para além de uma mera determinação local, como um caso em que “a estrutura interna dos Estados determina não só a forma e o uso da força militar, mas o comportamento exterior em geral.”166

Na forma da avaliação política anterior do jovem Engels revolucionário, buscava-se ir além de uma análise que acredita ver os conflitos externos como disposições independentes, à revelia da conjuntura interna. Na verdade, estes fatos se cruzariam e, para se pensar a possibilidade de uma revolução, torna-se importante esperar a eclosão de um sentido favorável nos conflitos externos ou induzi-los, gerando a ocasião propícia de uma intervenção política que resultasse numa transformação social, vendo “as guerras de sua época – marcadas pelo choque entre a Europa dinástica e a Europa burguesa – como uma oportunidade para o desencadeamento da revolução” como colocou oão Roberto Martins Filho no comentário

164 “Quando o império austríaco apela à ajuda Russa para conter a revolução polonesa que até então tinha conseguido vitórias seguidas e conseguiu manter o núcleo econômico do império dos Habsburgos nos principados do Danúbio e que foi novamente decisivo na Hungria resistente até 13 de agosto de 1849, restando somente a França como república herdeira das revoluções de 1848. Vide capítulo sobre “a primavera dos povos” em A Era do Capital (HOBSBAWM, Eric, Op. Cit., pp. 27–50).

165 ENGELS, Friedrich. Op. Cit, p. 147.

sobre o livro de Hal Draper.167

Apesar disso, não se realizaria em termos tão dicotômicos, apesar do diagnóstico pontual relativo a eventos do período, esta abordagem ainda assim lidava com um limite em sua validade para o contexto político de então, ao abstrair importantes aspectos do processo político interno, pois, em primeiro lugar, não se colocou durante o período a intervenção externa sem o aceno interno por parte dos governos em conflito. Certamente, a intervenção externa se fez presente no caso da repressão à revolução Húngara, quando, “no verão de 1849, o imperador austríaco solicitou ajuda ao czar Nicolau I, e a Hungria foi invadida pelo exército russo,”168 o que se é evidente, especialmente porque segundo comentadores do episódio na

época, havia possibilidade das forças de Kossuth conseguirem estabelecer uma república na Hungria.

Como, aliás, apontava Karl Korsch

De facto, também as guerras nacionais tiveram um papel na revolução de 1848. Se na Prússia como na Itália, na Áustria, na Hungria, guerras exteriores e guerras civis não se combinaram numa unidade efectiva, a brusca interrupção no seguimento do armistício de Malmoe, da guerra que a Prússia travava na Dinamarca, com vista a "libertar" o Schleswig e o Holstein, desenganou e esmoreceu todas as tendências do movimento revolucionário alemão, mais ainda talvez que as suas previsíveis repercussões políticas no plano interno. (…) A guerra revolucionária contra a Rússia, também ela não tinha nada da solução arbitrariamente concebida fora do contexto de 1848 como se poderia imaginar de forma simplista na falta de um bom conhecimento da conjuntura política e diplomática do momento. Com efeito, sabe- se hoje que na época em que a Nova Gazeta Renana fazia campanha neste sentido, o czar, por seu lado, tinha já oferecido ao príncipe da Prússia a ajuda dos seus exércitos para restabelecer à força o despotismo em Berlim e não só. Um ano depois, foram as baionetas russas que salvaram a reacção austríaca aniquilando os exércitos de Kossuth nas planícies da Hungria. Uma guerra defensiva prosseguida em comum pela Républica francesa, pela Alemanha de obediência prussiana, pela Itália piemontesa e pela Polónia insurgida, contra o regime czarista não teria podido deixar de ter efeitos favoráveis no desenvolvimento do movimento revolucionário europeu, como expôs Arthur Rosenberg, o historiador Marxista Alemão recentemente desaparecido, na sua instrutiva obra Demokratie und Sozialismus (Verlag, Albert de Lange, Amsterdam, 1938). Tal guerra não teria tido como resultado levar a revolução à parte ocidental da Rússia e deslocar o Império dos Habsburgos, abrindo assim a via da independência às nacionalidades oprimidas pela Áustria? Por outro lado teria provavelmente permitido à França evitar a ditadura Bonapartista e à Alemanha a solução panprussiana à moda de Bismark. A partir de então, o continente teria garantido dezenas de anos de progresso democrático, tanto no plano interno como no plano externo, progresso que poderia culminar um dia no nascimento de uma confederação de todos os estados da Europa.169

Quanto às consequências políticas das guerras naquele período o juízo de Engels parece algo deslocado de seu contexto, especialmente se pensarmos que a França, segundo

167 MARTINS FILHO, João Roberto. Engels & Marx: guerra e revolução. Crítica Marxista, v. 22, p. 154- 160, 2006, p. 157.

168 WALTZ, Kenneth. Op. Cit., p. 156.

169 Karl Korsch. Marx e a revolução europeia de 1848. Acessado em: http://guy- debord.blogspot.com.br/2009/06/marx-e-revolucao-europeia-de-1848-por.html último acesso: 28/02/2012

sua avaliação, ainda representaria o papel de pátria da república, especialmente se fossem atribuídas à ela um republicanismo democrático estável e apoiado na força dos trabalhadores (como o contexto dos artigos a respeito da conjuntura francesa presentes na Nova Gazeta

Renana 1848-1849, onde, mesmo após a reversão política, ainda manteriam a forma

republicana). Na verdade, a conjuntura imediatamente posterior acabou por revelar que este foi o fim dos pressupostos políticos de avanço da classe trabalhadora francesa, com a extinção da república por meio do golpe de estado Luís Bonaparte (tema do livro o 18 Brumário de

Luís Bonaparte 1852). O foco no grande inimigo externo das forças democráticas escondia,

no caso da França, o pequeno, porém poderoso inimigo interno.

Assim, mesmo que em um contexto tragicamente equivocado, ocorria aos exilados revolucionários e à classe trabalhadora a necessidade de analisar as instituições que resistam ou pareçam resistir, naquele momento, às condições repressivas ligadas às instituições do antigo regime, onde a França emergiu como um aparente modelo político distinto dos países vizinhos, colaboradores de um grande pacto conservador. Analisar este momento em que o impacto dos eventos militares se mostrou com tanta força torna importante destacar este aspecto para pensar os processos e tendências posteriores. As instituições francesas apresentariam algo específico, quanto à disposição do exército que se disporia a defender seus princípios contra ameaças externas.

No entanto, deste texto destacaríamos para o nosso caso os elementos utilizados para a análise “político-militar,” em que consta uma articulação específica entre uma política criada pela Revolução Francesa que se mostraria constitutivamente relacionada à estrutura de classes, o levèe en masse. Esta organização militar particular da França era vista por Engels como sustentáculo do liberalismo e igualmente teóricos contemporâneos como Charles Tilly também a viam a partir de ótica similar ao ligar-se a uma necessidade de observar a relação com as classes sociais para sua implementação. Entre outras, a aplicação do recrutamento maciço como instituição permanente para além de momentos de comoção realizou uma modificação na relação entre o Estado e as classes sociais, modificando a política da violência a um exercício racional relacionado às instituições de estado mantendo a instituição militar como composição que se liga não apenas a uma classe social específica que fundamenta um princípio importante do Estado.

A levée en masse (recrutamento maciço) da França em 1793 depois dessa data assinala a mudança da nacionalização para a especialização. Depois de 1850, generalizou-se em outros lugares da Europa. Mais ou menos no final do processo, as burocracias civis contiveram os militares, as obrigações legais de serviço militar estenderam-se com relativa igualdade a todas as classes sociais, a ideologia do

profissionalismo militar restringiu a participação de generais e almirantes na política civil, e declinou enormemente a possibilidade de um governo militar direto ou de um golpe de estado.170

Benzer Belgeler