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BÖLÜM 1: KURAMSAL BİLGİLER

1.2. Öğretmen

Ao estudar a vida de Quintana e a de Van Gogh, uma grande similaridade entre elas nos intrigou. As aproximações observadas não se reduzem ao tipo de vida que cada um levava, estendem-se também aos seus gostos, tipo de afazeres e comportamentos.

Dentre as similitudes, estão os desencontros amorosos, a rejeição aos modelos acadêmicos, a dificuldade de enquadramento em escolas artísticas, o fascínio pelas leituras e pela arte, a vida solitária e itinerante com abrigos em quartos, pensões e hotéis, a identificação da arte com a vida, a preocupação em registrar a simplicidade das cenas do cotidiano e o incentivo dos irmãos Theo (para Vincent) e Milton (para Mario). Sabemos de alguns desses detalhes pelos registros das experiências que os dois artistas deixaram em suas obras.

Acerca das relações entre a vida e a obra de Mario Quintana o texto

Biografia inventada43 aponta reveladores traços, tanto de sua existência como de sua

personalidade apreendidos pela leitura de sua poesia.

Esse é um assunto que pode gerar divergências, por isso é preciso cautela, contudo, acreditamos na validade das aproximações; nesse sentido, há referência no argumento de Pareyson (1989, p. 78):

utilizar a arte para a reconstrução da biografia não implica, precisamente, o propósito ou a pretensão de extrair a biografia das obras, coisa impossível e absurda, mas significa iluminar a biografia com as obras, o que não só é possível, mas também muito oportuno e desejável.

Mario Quintana (1988, p.118), referindo-se aos dados da própria vida, expressos nas obras, questiona “ (...) o que não é autobiográfico? Até uma tela... Entre nós, quantos pintores já não se pintaram (...)”. O poeta utiliza, nesse trecho, o

43 FERNANDES, Mônica Luiza Socio. Ecos clássicos na moderna poesia de Quintana. Dissertação de mestrado. 2001.

exemplo de um auto-retrato. Para ele, a vida e a arte muitas vezes se confundem, pois, na relação eu-mundo, há uma tendência de se seguir os contornos de uma experiência individual.

Nesse assunto, Canton (2001, p. 10) mostra sua especialidade “O auto-retrato é o espelho do artista. Nele se reflete sua imagem externa, assim como seu estado de espírito e sua própria maneira de ver a arte, conforme vai usando cores, luzes, traços, formas e texturas.” Assim, reflete sua imagem e a imagem do mundo em que vive, registrando também, no recorte temporal escolhido para suas representações, as marcas de uma época, bem como seus gostos e seus valores, enfim, os traços de uma visão estritamente

pessoal.

Como se fosse um pintor, Quintana fez poemas abordando essa temática também explorada por Vincent Van Gogh em diversas fases de sua existência, o pintor passou grande parte de sua vida diante do espelho, observando o reflexo de sua imagem na tentativa de captar “a transitoriedade e a solidão do corpo. O retrato, e sobretudo o auto-retrato, confrontam com os limites da vida e da morte. Vigilância e autoconsciência” (SCHIMIDT, 1998, p. 34). Isso revela o desejo do artista em registrar a própria experiência na busca de uma auto-imagem.

Devido à atração de Quintana pelas artes plásticas, sua pena aproximou-se do pincel na criação de muitas imagens, não escapando nem mesmo da auto- representação.

O Auto-retrato de Quintana (1998b, p. 22) é o vislumbrar de uma realidade

poética, assim exposta no soneto:

No retrato que me faço - traço a traço -

às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore... às vezes me pinto coisas

de que nem há mais esperança... ou coisas que não existem mas que um dia existirão... e, desta lida, em que busco - pouco a pouco -

no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco!

O texto se apropria da linguagem plástica utilizando traços comuns a essa arte para compor, no poema, o retrato. Questiona sobre a arte final que pode ser igualada ao desenho de uma criança, acrescentando que tal desenho poderá ser corrigido por um louco.

Dessa forma, vai, aos poucos, apresentando as coisas sem descrevê-las.

É justamente pela ausência de maiores detalhes, que as imagens se formam e o auto-retrato se organiza numa profusão de idéias, algumas delas

contraditórias.

Um outro soneto não deixa dúvidas de que é um auto-retrato, embora não seja assim intitulado.

I

Escrevo diante da janela aberta. Minha caneta é cor das venezianas: Verde!... E que leves, lindas filigranas Desenha o sol na página deserta! Não sei que paisagista doidivanas Mistura os tons... acerta... desacerta.. Sempre em busca de nova descoberta, Vai colorindo as horas cotidianas... Jogos da luz dançando na folhagem! Do que eu ia escrever até me esqueço... Pra que pensar? Também sou paisagem... Vago, solúvel no ar, fico sonhando... E me transmuto... iriso-me... estremeço... Nos leves dedos que me vão pintando!

Novamente, a postura adotada pelo bardo se assemelha à de um pintor; a indicação da arte pictórica é visível no vocabulário escolhido: cor, desenha, mistura de tons, paisagista, colorindo, paisagem, jogos de luz, pintando. Por isso, entendemos que a construção do poema segue de perto a técnica de uma pintura.

Existe, nos dois poemas que tratam da imagem do eu-poético, uma semelhança na identificação do retrato aos elementos da natureza, à paisagem.

No primeiro verso deste segundo auto-retrato, existe a intenção de escrever que se perde no ato de pensar. A janela aberta representa a libertação do cotidiano e da realidade mais imediata representados pela paisagem (ou outros elementos naturais, como a árvore do primeiro poema) e, também, o desligamento da complexidade da escrita. Cônscio da dificuldade de produção com a linguagem escrita, Quintana (1998b, p. 170) expõe sua opinião sobre esse ofício, comparando-o a outros que empregam diferentes linguagens.

Bem-Aventurados

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz Que se expressam em verde

Azul Ocre Cinza Zarcão! Bem-aventurados os músicos... E os bailarinos E os mímicos E os matemáticos...

Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia... A impura linguagem dos homens!

No poema, as outras formas de expressão são vistas como formas mais puras. A matemática, fazendo parte daquele conjunto, assegura à idéia rigor ou lógica na organização dessas linguagens. Não que tais linguagens não sejam abstratas, mas seus símbolos admitem relações de causa e efeito e de semelhança, fazendo com que as relações, entre a representação e o sentido, sejam mais imediatas.

A linguagem utilizada pelo poeta exige maior grau de abstração, pois engana com seus duplos sentidos; ela é enigmática como se observa em Eu fiz um

Nos poemas que revelam os auto-retratos, há resistência à lógica, à busca das razões, ao apego às coisas mais concretas. Existe desejo de transformar pelas cores o inexpressivo cotidiano. Assim, evidencia-se a preferência aos sonhos, à esperança, às coisas que não existem, apresentados na perspectiva de uma criança, de maneira pura (corrigidos por um louco), no primeiro poema, e de um doidivanas, no segundo. A auto-imagem é construída (“que me vão pintando”) com dedos leves, traço a traço e cuidadosamente. A procura é por identidade (“busco minha eterna semelhança”), nessa busca, há a identificação com várias coisas, sem que aconteça o reconhecimento, logo nenhuma satisfaz. Portanto, a solução é a transmutação, a diluição em coisas leves e fluídas, como raios de luz, nuvem, cor, coisas vagas ou que não existem, mas que podem ser sonhadas.

Por vezes, na leitura desses dois poemas, relacionamos algumas idéias ao universo de Van Gogh. São exemplos o sol, a loucura (doidivanas), a janela verde (como é a janela de O quarto de Van Gogh em Arles44, pintado em 1889), os acertos

e os desacertos dos tons, mostrando a experimentação das cores e os efeitos inéditos dessas combinações, os jogos de luz que tornam suas pinturas irisadas.

Passando de uma arte à outra, vejamos como Van Gogh se auto-retratou em suas telas, imortalizando seu semblante. Teríamos, por certo, uma imensa galeria se o objetivo fosse colocar cada um dos seus auto-retratos. Contudo, para a idéia de apontar alguns traços de sua vida, que através da pintura se revelaram, os escolhidos bastam.

São inúmeros os registros que o artista fez de si mesmo, em parte porque não tinha outro modelo, o pintor frente ao espelho escolhia o ângulo desejado para se retratar. As várias telas que o pintor fez, com esse motivo, se comparadas entre si, podem revelar sua trajetória temporal, pois cada uma possui traços relacionados a um determinado momento de sua vida. Nessa técnica, vale considerar que o artista salienta ou rejeita formas de seu corpo, mostrando-se do jeito que pretendia ser visto, pois bem sabia o pintor que pelo rosto se julgam as pessoas.

Della Porta, citado por Manguel (2001, p. 119) deixa claro que “o rosto representa o todo das feições de uma pessoa, assim como representa os

movimentos, as paixões, os costumes”. Por isso, a preocupação em se representar com boa aparência. Em uma de suas cartas ao irmão Theo, Van Gogh45 comenta:

Hoje envio-te meu auto-retrato, tem de se observar por um tempo – espero que repares que a expressão do meu rosto se tornou mais calma, embora o olhar menos firme que antes, como me parece.

É dessa forma que o pintor se refere ao seu último Auto-retrato, pintado em setembro de 1889.

FIG. 20 Auto-retrato

Fonte: WALTHER, Ingo F. Van Gogh. Trad. Maria Odete Gonçalves-Koller: Köln:Taschen, 2000, p.73.

Os estudos de Walther (2000, p. 74) sobre esse quadro confirmam o que percebemos com a observação “O pintor retrata-se num busto a três quartos, em

frente a um fundo de espirais, num torvelinho rítmico de cor azul-verde-cinzenta”. Apesar da grande inquietação, o quadro se realiza em grande equilíbrio.

A tela em questão encontra-se no Musée d’Orsay, em Paris. Nela existe uma mudança na maneira com que o pintor habitualmente utiliza as cores. No retrato em fundo claro, os tons são apagados, as cores são frias, transmitindo o ar melancólico que o envolvia em sua solidão. Contribuem para o ar sofredor as pálpebras caídas e o contorno raso do olho que, assim como a boca cerrada, definem o semblante pesado desse auto-retrato. Contudo, ele tenta passar uma imagem serena, talvez para acalmar seu irmão, que muito se preocupou com seu estado de saúde.

Quase todas as linhas empregadas na representação são ondulantes, o seu cabelo e o seu paletó acompanham o movimento do fundo, induzindo o olhar do observador para uma fusão (da roupa com o fundo), até o envolvimento completo do ser nessa atmosfera que mostra pelas linhas em redemoinhos a condição perturbada do artista.

O maior contraste é a sua barba, pintada em vívido laranja; o uso dessa cor faz com que as outras partes do seu rosto ganhem acentuada palidez. Justamente por ser uma cor intensa, combina mais com seus quadros anteriores, porém nesse é a cor que dá um toque de vida e chama atenção duplamente, por ser a cor mais quente e por estar no ponto central da tela, lugar que, inevitavelmente, atrai o primeiro olhar.

Num outro auto-retrato, talvez o mais famoso deles, Van Gogh mostra de perto um trágico episódio vivenciado por ele. Aconteceu depois de uma briga com o amigo Gauguin, ocasião em que, transtornado, decepa uma de suas orelhas. Tempos depois, pinta um Auto-retrato com cachimbo, que denuncia o fato ocorrido.

Na interpretação de Schimidt (1998, p. 34) “ a mutilação da orelha pintada por van Gogh anuncia a mutilação definitiva. O artista incorporou a tragédia em seu próprio corpo.” Essa passagem de sua vida é retomada no Auto-retrato com orelha

ligada, pintado em janeiro de 1889.

Nesse segundo auto-retrato, diferente do apresentado anteriormente, Van Gogh está sem a barba e os cabelos ruivos, pontos que, quando presentes, iluminam

sua fisionomia. Esses elementos foram substituídos pela atadura (branca) e pela plumagem (preta) da boina que envolvem seu rosto e escondem a cor mais vibrante de sua feição.

FIG. 21 Auto-retrato com orelha ligada

Fonte: WALTHER, Ingo F. Van Gogh. Trad. Maria Odete Gonçalves-Koller: Köln:Taschen, 2000, p. 58.

Figuram, em segundo plano, um cavalete com uma tela ainda por pintar, uma gravura japonesa de cores ousadas e contornos incomuns e uma porta. Todas essas figuras encontram-se entrecortadas pela imagem do pintor. Representam coisas importantes para o artista e parece mesmo estarem ligadas a ele e ao que ele gostava.

São coisas de seu mundo: a arte da pintura, por ser a razão de sua existência; as pinturas orientais que tanto admirava, chegando, inclusive, a imitá-las

em diversos quadros como o retrato do comerciante Père Tanguy (1987/88) e A

ponte debaixo da chuva (1887); e, por último a porta, passagem do mundo conhecido

para o desconhecido, ou acesso à saída, representando, para o pintor, a grande perda desse período, a partida do amigo Gauguin com o qual conviveu de perto por alguns meses.

Com olhar fixo, seu semblante parece triste ou indiferente. Estado que ganha ênfase, com a predominância das cores frias utilizadas na pintura. Mesmo a imagem não sugerindo alegria, ela transmite serenidade. Ajudando, nesse sentido, a tela é organizada com a combinação de triângulos e retângulos, que são as figuras mais estáveis por terem bases sólidas, garantindo, assim, maior equilíbrio à composição.

O busto central é formado por um grande triângulo; o rosto é composto por vários outros triângulos menores e, distribuindo um pouco nosso olhar, temos, nas laterais, os quadrados que correspondem aos dois quadros (o do cavalete, e o da pintura japonesa).

Van Gogh parece levar a sério a idéia grega dos tempos homéricos de que o rosto, representado em plena visão frontal, atingiria deliberadamente o espectador, podendo assustar ao revelar aspectos de sua identidade mais íntima, por isso, opta pelo posicionamento de perfil.

Da Vinci tem suas anotações mencionadas por Manguel (2001, p. 128), para o renascentista,

o rosto revela indícios da natureza dos homens, seus vícios e temperamentos. As marcas que separam as bochechas dos lábios, as narinas do nariz e as cavidades oculares dos olhos mostram claramente se os homens são alegres e riem com freqüência. Homens que têm poucas marcas desse tipo são os que se ocupam em pensar. Homens cujos rostos têm riscos profundos são brutais, irascíveis e insensatos. Homens que têm linhas horizontais fortemente marcadas na testa são cheios de mágoas, admitidas ou secretas.

Analisando por esse prisma, Van Gogh, em suas auto-representações, deixa indícios de tristeza e de insensatez, mesmo tentando esconder essas marcas.

Nos mais de trinta auto-retratos46 feitos pelo artista, verificamos que em nenhum deles, ele está sorrindo, sempre se mostra com ar sério e olhar profundo, firme e penetrante.

É num auto-retrato que o artista se mostra, porém, existe a possibilidade de modificar alguns traços, de congelar o momento, de alterar um percurso e de interromper o tempo, aspecto a que todo ser humano é vulnerável e, assim, perpetuar a existência, mesmo que seja somente na obra de arte.

Estudos sobre o pintor, como o de Jen Green (2002, p. 27), esclarecem que no auto-retrato a orelha decepada parece ser a direita, isso se deve à visão invertida do pintor que procedia os registros olhando sua imagem refletida em um espelho.

Segundo Manguel (2001, p. 185) “para conhecer objetivamente quem somos, devemos nos ver de fora de nós mesmos, em algo que contém nossa imagem”. Essa visão em espelho que o artista apresenta de si, no caso de Van Gogh, parece mesmo uma auto-afirmação na busca de conhecer sua própria identidade, cumprindo, assim, a função de ir além da própria imagem.

6.3 OUTRAS RELAÇÕES ENTRE A POESIA DE QUINTANA E A PINTURA DE VAN

Benzer Belgeler