III. BÖLÜM
5.1. Öğretmen Görüşleri
A apatia preponderante no comportamento do protagonista anônimo nolliano é deixada de lado em determinadas oportunidades por força de ações, em geral imediatistas, que visam à busca de conforto pessoal, refletindo, ao seu modo, aquilo que propõe Lipovetsky (2005) ao dizer que “apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a própria situação material, desembaraçar-se dos ‘complexos’, esperar pelas férias: tornou-se possível viver sem ideais, sem finalidades transcendentais.” (p. 33). Essa vivência “sem finalidades transcendentais” resume perfeitamente a trajetória do protagonista anônimo de O
quieto animal da esquina. Não encontraremos nenhuma razão subliminar em seus atos, nenhum
ideal ou ambição arquitetada, nada que ultrapasse a rasa solução urgente do último empecilho. Corroborando a leitura do personagem como protótipo da sociedade atual, podemos dizer que ele é exemplar de uma das definições de Lipovetsky (2005) sobre a contemporaneidade como “fim do homo politicus e surgimento do homo psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.” (p. 33). Da mesma forma que a satisfação do desejo sexual, a busca por conforto pessoal – o “seu maior bem-estar” – constitui outro importante norteador para a trajetória do protagonista. Assim como no sexo, a indiferença para com o outro predomina na delineação eminentemente egoísta dessa busca.
A viagem com Kurt para tratar da doença de Gerda talvez seja o melhor exemplo para observarmos o egoísmo do personagem e seu interesse pelo conforto pessoal. Gerda está muito doente, com câncer, segundo ouvira de Amália, mas, se o motivo da viagem para o casal de alemães era a busca por tratamento para a mulher, para o protagonista era apenas uma oportunidade de desfrutar de confortos que ele jamais tivera.
[...] eu agora estava ali sentado na privada, olhando o que a porta aberta me mostrava do quarto do hotel, e eu ali, assim, só podia pensar mais uma vez que aquilo tudo tinha a aparência de pura imaginação, eu que nunca entrara num
avião ter feito aquela viagem de primeira classe, eu e Kurt ladeando Gerda, os pés em cima de almofadas, e depois chegar no Rio, entrar no quarto desse hotel no Leme, um quarto que seria todo meu, para mim que nunca ficara em hotel nenhum nem o mais fuleiro – eu, eu agora estava olhando aquele quarto de hotel onde podia ficar o dia inteiro se quisesse, vendo televisão, lendo, coçando o saco, dormindo, se bem que preferisse as horas caminhando por Copacabana, Ipanema, queria conhecer bem a cidade e vivia ansioso porque depois haveria mais, a Alemanha, a Europa [...] (NOLL, 2003b, p. 49-50).
No hotel, enquanto Kurt passa as noites com a esposa no hospital, seu filho adotivo aproveita os luxos que o dinheiro do padrasto compra. Quarto, bebida e até mesmo a simpatia das pessoas pode ser comprada, na esteira do que diz Bauman (2004, p. 43) ao concluir que “em sua versão à venda, os vínculos se transformam em mercadorias, ou seja, são transportados para um outro domínio, governado pelo mercado, e deixam de ser os tipos de vínculo capazes de satisfazer a necessidade de convívio e que só nesta podem ser concebidos e mantidos vivos”. No episódio, o protagonista se deslumbra com o conforto desfrutado e com o poder que o dinheiro de Kurt lhe dá.
Passei a mão no queixo, chamei o elevador, o cabineiro uniformizado me perguntou sorridente para qual andar, todos me sorriam naquele quatro-estrelas, me lembrei de tomar um uísque no bar do hotel, pedi primeiro andar, o barman me tratava como se eu fosse um príncipe, sim, tirei a barba lhe contei a sorrir também, o uísque escorria entre as pedras no meu copo e o barman falando que não me reconhecera com o rosto assim de bunda de bebê, depois ele voltou ao mesmo papo de sempre, me recomendava aonde ir à tarde, à noite, praia, bares, mulheres, eu pouco lhe seguia os conselhos, mas me agradava constatar que alguém ali atrás daquele balcão era capaz de se ocupar com o roteiro do meu dia apenas porque eu tinha a grana necessária para pagar aquele hotel e dar gorjetas. Eu descobria, me agradava pagar pelas gentilezas do mundo. (NOLL, 2003b, p. 51).
O último período da citação é uma bela ilustração de um importante aspecto da condição contemporânea, fundamentada no individualismo, sob a qual todos buscam unicamente a satisfação pessoal e reconhecem nos demais o direito legítimo de proceder da mesma forma. Diante da sede de poder generalizada – poder para satisfação irrestrita do ego, para “compra” da própria “liberdade” – os que detêm tal poder acabam por merecer a admiração dos demais. Assim, as relações se tornam artificiais e interesseiras. Simpatia, gentileza e amizade se transformam em moedas de troca, e, como tais, conversíveis em espécie, pecúnia.
O valor simbólico atribuído contemporaneamente ao poder de compra é um dos pontos destacado por Néstor García Canclini, em minucioso trabalho sobre a composição de uma sociedade cujos laços giram em torno de relações de consumo. Aponta o antropólogo argentino:
Existe uma lógica na construção dos signos de status e nas maneiras de comunicá-los. Os textos de Pierre Bourdieu, Arjun Appadurai e Stuart Ewen, entre outros, mostram que nas sociedades contemporâneas boa parte da racionalidade das relações sociais se constrói, mais do que na luta pelos meios de produção, da disputa pela apropriação dos meios de distinção simbólica. Há uma coerência entre os lugares onde os membros de uma classe e até de uma fração de classe se alimentam, estudam, habitam, passam as férias, naquilo que lêem e desfrutam, em como se informam e no que transmitem aos outros. Essa coerência emerge quando a visão socioantropológica busca compreender em conjunto tais cenários. A lógica que rege a apropriação dos bens enquanto objetos de distinção não é a da satisfação de necessidades, mas sim a da escassez desses bens e da impossibilidade de que os outros os possuam. (CANCLINI, 1999, p. 79-80).
Nesse sentido, a satisfação pessoal experimentada pelo protagonista no episódio exemplificado já transcende a ideia inicial de uma espécie de organismo monádico individualista, de visão restrita do indivíduo voltada apenas para si mesmo em suas necessidades mais básicas. Ele alcança, a certa altura de seu “amadurecimento”, a capacidade de enxergar-se em comparação com o corpo social a sua volta, pelo menos no que se refere às pessoas com quem ele estabelece um contato mais aproximado. Tal comparação não gera, evidentemente, nenhum sentimento solidário ou de pertencimento comunitário, mas apenas a satisfação pelo privilégio, pela capacidade de obter “bens enquanto objeto de distinção”, cuja “escassez” impossibilita “que os outros os possuam”. Não cessa, portanto, o individualismo, mas apenas sofistica-se.
Com a morte de Gerda, o pensamento mais imediato que vem ao personagem é a frustração pelo cancelamento de sua viagem à Alemanha, afinal, iriam para tratar de negócios da madrasta.
Olhei para Kurt, mas eu não tinha nada para ler no seu rosto além do cansaço. Virei os olhos para as frestas claras da persiana e não consegui deixar de pensar na viagem à Alemanha, agora na certa cancelada. (NOLL, 2003b, p. 60).
Outros episódios podem ainda ser citados para exemplificar a manifestação do egoísmo do personagem e seu interesse por conforto. Kurt é a fonte e símbolo maior desse
conforto desejado. Conforto pelo qual não poderíamos dizer que se empreende uma busca, pois a capacidade de ação do personagem está bastante aquém de tal concepção. Tudo se dá de forma muito mais sutil, semipassiva. O conforto o agrada, apetece, e se dar conta disso já é um dado suficientemente relevante para destacar um episódio. Isso ocorre logo no princípio de seu convívio na nova casa, após ser adotado pelo casal de alemães. Diante do banquete de seu primeiro almoço – lembremos de como a comida farta é um símbolo historicamente reconhecido de conforto em diversas culturas – ele sente que está “se dando bem” e que precisa agarrar aquela estranha oportunidade que, ao acaso, se apresentava ao alcance de seus dedos.
Eu nunca tinha comido tão bem, aquele vinho que eu esperava ver dali para a frente em todos os almoços, aquilo tudo me instigava a acreditar que chegara a minha vez, me agarraria com unhas e dentes àquela oportunidade única que eu não sabia de onde tinha vindo nem até onde iria, sim, eu não a deixaria escapar, mesmo que tivesse de fazer exatamente o que eles esperassem de mim, aquilo era meu, eu bem que gostaria até que não houvesse muita explicação, adquirir a certeza de que aquilo era meu bastava, e no mais seria esquecer aquele passado de merda. (NOLL, 2003b, p. 31).
Mas o egoísmo que acompanha essa busca por conforto pode ser notado mesmo antes da adoção. No início do romance, num momento em que o protagonista anônimo não havia ainda experimentado o conforto proporcionado por Kurt, a ideia de “tirar” da companhia de outras pessoas algum tipo de vantagem é um dado interessante. Na cadeia, após o estupro, pensa em se acostumar àquela situação e espera extrair uma vantagem dos demais presos: a companhia.
[...] talvez eu tivesse de me acostumar com aquilo, me aproximar daqueles caras, discutir um jeito de dar o fora dali, ou então nem esquentava com aquela situação, tirava dos cinco apenas alguma companhia, se era com eles os próximos tempos, com aqueles cinco corpos estragados e mal-cheirosos [...] (NOLL, 2003b, p. 18).30
É interessante notar o emprego do verbo “tirar” antes da palavra “companhia” ao invés de “desfrutar” ou qualquer outro que denotasse uma relação interativa ou mesmo dialética. O verbo “tirar” nos mostra uma perspectiva unilateral. Não há o que oferecer, isso nem sequer se coloca. O poder de retirar dos outros a companhia desejada, a capacidade pressuposta de canalizar apenas para si algo que, em princípio, seria recíproco, traz outra vez à cena o seu
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individualismo. Do ponto de vista da satisfação pessoal, nenhum de seus atos é gratuito ou sem utilidade. Do ponto de vista de uma razão transcendental para existir, todos são. Aquilo que o protagonista de O quieto animal da esquina representa em cada um de seus passos, outro protagonista de Noll expressa com rara exatidão e autoconsciência:
E naquele dia tenso da minha volta ao Brasil, eu estava sendo muito especialmente o que tinha sido até ali: um verdadeiro utilitarista. Só me interessavam aqueles que me abriam um pouco mais a clareira do sonho. (NOLL, 2008c, p. 114).
Como pontuado anteriormente, na caracterização do personagem enquanto protótipo, esse comportamento lhe é inerente, constitutivo, é uma premissa e não está atrelado a uma determinada situação. Há, sim, diferenças em sua manifestação nas diferentes situações, como temos visto, mas a pressuposição dessa manifestação atrela-se à própria composição do personagem. Manifestação que, para Lipovetsky, representa “a revolução das necessidades e sua ética hedonista que, atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos de massa” (LIPOVETSKY, 2005, p. 34-35).
A expressão literária desse “valor” de nosso tempo apresentada por João Gilberto Noll, no entanto, se apresenta de forma mais radical. Não revestida de eufemismos como a proposição de Lipovetsky, a criatura nolliana encontra a “direção” de sua existência – dizer “sentido” seria um exagero – na procura por um teto, melhor se revestido de conforto; na garantia do alimento, se possível com fartura; no extravasamento da libido, sem implicações sentimentais; e na recusa, enquanto possível, dos embaraços de precisar empreender algum esforço para conseguir qualquer desses privilégios. Sua trajetória não oferece ao leitor nenhum ideal mais longevo que a segurança de ter algum chão sob o próximo passo. Quanto mais suave, acolchoado ao toque das plantas dos pés for esse chão, mais aprazível.