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O regime que predominou em Portugal, de 1926 até 1974, é o totalitarismo. O país estava sob um sistema parlamentarista, cujo poder executivo é, geralmente, exercido por um primeiro-ministro. Uma situação governamental diferente do Brasil. Para Rosas159, o governo português abrange três períodos. O primeiro começa em

1926 e se estende até 1933 e é conhecido como Ditadura Militar. O segundo acontece quando é instituído no país o Estado Novo, com a entrada em vigor da nova Constituição, e é chefiado diretamente por António de Oliveira Salazar160, e

durou de 1933 a 1968. O último período é quando o governo passa para as mãos

158 Op. Cit. LOPES, Sonia de Castro. p. 87

159 ROSAS, Fernando; BRITO, J. M. Brandão de. Dicionário de História do Estado Novo. Volume I e II. Venda Nova: Bertrand Editora, 1996.

160 Foi Ministro das Finanças e presidente do Conselho de Ministros, cargo com poderes de Primeiro-Ministro..

de Marcello Caetano e encerra com a Revolução de 25 de abril de 1974, conhecida como a Revolução dos Cravos, um movimento social que pôs fim à ditadura.

Deve-se registrar que foi entre 1937 e 1945, durante oito anos, que Portugal e o Brasil viveram, ao mesmo tempo, sob um regime ditatorial denominado de Estado Novo. A designação idêntica para esse período nos dois países se deve, certamente, para os governos demarcarem o início de um novo momento político, deixando para trás uma república que não tinha, por exemplo, resolvido os problemas sociais e econômicos da nação.

O Estado Novo em Portugal deve ser analisado dentro do contexto político, social, econômico e cultural, certamente com características diferentes daquelas registradas no Brasil. Também é importante enfatizar que o rádio se consolidou na Europa quando os regimes autoritários e totalitaristas estavam em plena expansão. Era, de acordo com Ribeiro, uma reação “à democracia liberal e aos movimentos operários161”. Foi a partir de 28 de maio de 1926, depois da revolta das Forças

Armadas, que o país mergulhou na Ditadura Militar e abriu espaço para a “instauração de um novo regime, o Estado Novo, caracterizado por uma matriz católica e uma hibridez constitucional na medida em que, em simultâneo com a recusa da democracia, foi mantido o princípio eleitoral162”. António de Oliveira

Salazar, explica o autor, se distanciou da “mobilização política das massas163” e

desprezava o “papel da opinião pública164”.

O Estado Novo em Portugal foi diferente do que se verificou na Alemanha, onde o poder tinha a capacidade e o objetivo de mobilizar e incluir a sociedade no projeto do Estado e do partido. Conforme Manuel Braga da Cruz, o levante militar foi um protesto contra, por exemplo, a ineficiência parlamentar, a instabilidade governamental e o descrédito das instituições. O Golpe Militar foi o primeiro passo para o novo regime se estabelecer em março de 1933, quando ocorreu o plebiscito da nova Constituição. O texto foi aprovado com a soma das abstenções com os votos favoráveis. Fica comprovado que previa a existência de um governo forte, para coexistir com o parlamento e para realizar as funções legislativas e fiscalizadoras. Na verdade, o legislativo tinha um poder bem menor do que o do

161 RIBEIRO, Nelson. A Emissora Nacional nos primeiros anos do Estado Novo. Lisboa: Quimera Editores, 2005. p. 63

162 Idem. p. 63 163 Idem. p. 63 164 Idem. p. 63

governo. E na prática, as iniciativas do legislativo diminuíram nos primeiros anos do regime autoritário. Isso demonstrou que o poder estava concentrado no governo, uma posição política ratificada na revisão constitucional de 1945.

O Estado Novo teve um duplo pragmatismo político-institucional que combinou “numa única direita as várias e frequentemente contraditórias direitas políticas que em Portugal conspiravam contra o liberalismo republicano agonizante165”. Dessa maneira, Salazar conseguiu realizar a transição da Ditadura

Militar para o Estado Novo e ainda estabelecer uma “plataforma política e ideológica indispensável para que as várias direitas da direita forjassem um compromisso de unidade indispensável não só a conservação do poder, mas à instauração de um regime autoritário estável e duradouro166”. O novo momento

político instituído foi conduzido pela força autoritária de Salazar que teve o cuidado de manter em equilíbrio cinco fontes principais:

a matriz corporativa, antidemocrática e antiliberal do catolicismo conservador do Centro Católico salazarista; os contributos do ultramontanismo monárquico e tradicionalista do Integralismo Lusitano; as preocupações da direita republicana conservadora- liberal; as ambições desenvolvimentistas da ‘direita das realizações’, dos ‘engenheiros’ e dos ‘técnicos’ que associavam a viabilidade do fomento industrial ou da ‘reforma agrária’ à existência de um Estado forte, esclarecido e interventor167.

Tornou-se assim um estado organizado para a sua burguesia, atendendo, principalmente, às questões econômicas e sociais de interesse de alguns setores ou regionais. E, é claro que o Estado Novo também incluiu, na prática, o radicalismo adotado pelo fascismo e a autoridade de uma única pessoa que em Portugal estava nas mãos de Salazar. Segundo Rosas e Brito, os anos de 1934 a 1940 foram de consolidação e de maior prestígio do governo. Foi quando “cria-se e alarga-se a organização corporativa; o regime domestica e reforma as Forças Armadas; [...] e conhece uma nítida crispação fascizante no contexto da guerra civil de Espanha e da vitória franquista [...]168”. Em 1936, surgem organizações

milicianas como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa e, em 1940, o

165 Op. Cit. ROSAS, Fernando; BRITO, J. M. Brandão de. p. 316 166 Idem. pp. 316-317

167 Idem. p. 317 168 Idem. p. 318

Estado estabelece “uma sólida aliança com a Igreja Católica169” por meio de uma

Concordata com a Santa Sé.

Rosas enfatiza que a chefia se organizou como uma grande empresa corporativista, viabilizando assim o “surgimento de um poder político como o Estado Novo, dotado de elevado grau de autonomia e autoridade relativamente à sua base social de apoio, e que explica a importância do papel pessoal nele desempenhado por Oliveira Salazar170”. Dessa maneira, o Estado Novo forma um

equilíbrio social embasado em três pilares. Um deles era o de conter e reprimir o movimento operário e para isto,

suprime e proíbe os sindicatos livres pela legislação de setembro de 1933, reprime as lutas operárias, prende e deporta seus dirigentes, mas tenta igualmente contê-las através de uma política de enquandramento do operariado consentânea com as necessidades de acumulação dos diversos sectores da burguesia 171”.

Essa medida não significava que havia uma preocupação com a estabilidade social, mas, explica Rosas, demonstrava o interesse das empresas em manter os operários mais concentrados nos seus trabalhos nas indústrias modernas com um salário razoável, a fim de negar as afirmações de que os operários estavam na miséria. Para controlar a agitação social entre os trabalhadores, o Estado Novo institucionalizou a repressão policial.

O segundo pilar que sustentava o equilíbrio do regime descrito por Rosas “realiza-se entre os principais blocos de interesses contraditórios que compõem a classe dominante da sociedade portuguesa nos anos trinta172” e a “arbitragem entre

as estratégias da indústria e da grande agricultura, e entre os interesses produtivos e os do comércio internacional em geral e colonial em particular173”. O terceiro pilar

era a “composição dos grandes com os pequenos interesses da agricultura e da indústria174”. Para Rosas, “este triplo equilíbrio social foi realizado, no essencial,

com êxito até a II Guerra Mundial175”.

169 Op. Cit. RIBEIRO, Nelson. p. 318

170 ROSAS, Fernando. O Estado Novo nos anos trinta. Elementos para o Estudo da Natureza

Económica e Social do Salazarismo (1928-1938). Lisboa: Editorial Estampa, 1986. p. 121

171 Idem. p. 121 172 Idem. p. 123 173 Idem. p. 123 174 Idem. p. 123 175 Idem. p. 123

No aspecto político, a Constituição de Portugal previa um sistema presidencial bicéfalo, estando os poderes concentrados no Chefe de Estado e no Chefe de Governo. Nos primeiros anos do Estado Novo, Salazar tem uma ascendência superior ao presidente da República, o general Óscar Carmona. Num determinado período, Salazar era o primeiro ministro e também o presidente do Conselho de Ministros, enfraquecendo assim o papel de Carmona. Salazar governou com uma ditadura própria e pessoal de chefe de governo e considerava “uma perda de tempo as discussões do Conselho de Ministros176” e quase não

comparecia às reuniões. O estilo dele era evitar os encontros pouco produtivos e, por isso, preferia despachar diretamente com os ministros.

Caetano observa que depois que o Movimento Militar de 28 de maio de 1926 acabou com a 1ª República e foi proclamada a Ditadura, todos concordavam que não queriam

o regime demagógico em que faltava a autoridade ao Poder, a segurança às pessoas, a paz nas ruas e nos espíritos. Não queríamos a ficção de um governo parlamentar em que uma classe profissional de políticos se arrogava a representação nacional para jogar um jogo de ambições e interesses do qual a Nação estava ausente. Não queríamos a esterilidade de uma política que agitava todos os problemas sem resolver nenhum e nos conduzira á ruína financeira, à miséria econômica, à ineficácia da Administração177.

Caetano afirma que Salazar, que era ministro das Finanças no governo de Carmona, transformou-se, durante o Estado Novo, num chefe e num mestre, cargos superiores a um primeiro-ministro. Para Caetano, o regime ditatorial, implementado por Salazar, era o oposto do que diziam seus adversários e se caracterizou por ser um período de

notável florescimento das letras, das ciências e das artes em Portugal. Não é verdade que os tempos conturbados sejam os mais propícios à criação intelectual e artística, embora possam dar ensejo a que se revele algum talento na expressão das angústias, dos dramas, das tragédias da crise. A segurança e a paz permitem que a cultura se enriqueça, que o trabalho se processe com rendimento fecundo, que toda a inspiração possa procurar forma de manifestar-se adequadamente178

176 Op. Cit. RIBEIRO, Nelson. p. 64

177 CAETANO, Marcello. Minhas memórias de Salazar. Rio de Janeiro: Record, 1977. p. 387 178 Idem. p. 462

O poder que Salazar tinha se sobrepondo ao governo de Carmona estava previsto na estrutura do Estado Novo. O chefe de governo, explica Ribeiro,

podia gerir ele próprio, uma ou mais pastas, além de ter na sua direta dependência o sub-secretariado das corporações e previdência social, o conselho corporativo, o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, o Supremo Tribunal Administrativo, o Secretariado da Propaganda Nacional, o Conselho Superior de Defesa e o Conselho Nacional do Ar. Estes dois últimos conselhos, bem como o Conselho Corporativo, eram presididos pelo próprio Presidente do Conselho.179

O novo regime estabelecido em Portugal previa a existência de quatro estruturas da nação que eram “o indivíduo, a família, os organismos corporativos e o município180”. Cada pessoa tinha garantido direitos previstos na Constituição

como igualdade perante a lei e direito de propriedade. Mas, dentro da estrutura de Salazar, o sistema defendia os valores liberais e a base era a família e não o indivíduo. O artigo 12º do texto constitucional de 1933 diz que o Estado “assegura a constituição e defesa da família, como fonte de conservação e desenvolvimento da raça, como base primária da educação, da disciplina e harmonia social [...]181”. A

posição da família foi reforçada mais tarde no Código Administrativo, aprovado em dezembro de 1936.

Salazar explicou em algumas entrevistas, concedidas em 17 e 18 de maio de 1932, que o Estado Novo “não tem como enveredar para o totalitarismo182”. O

governante repudiava o fascismo e o nazismo, apesar de defender um regime autoritário com um ideal próximo da democracia cristã. Ele definia o comunismo como um sistema que

converteu-se por necessidade de combate, de defesa ou de infiltração nas massas, numa doutrina totalitária, como hoje se diz, em sistema completo de vida e organização social; constitui a grande heresia da nossa idade; e tende à subversão de tudo e na sua fúria destruidora não distingue o erro e a verdade, o bem e o mal, a justiça e a injustiça e pouco se lhe dá da história e das experiências seculares da humanidade, da vida e dignidade da inteligência, dos puríssimos afectos da família, da honra e pudor da

179 Op. Cit. RIBEIRO, Nelson. p. 64 180 Idem. p. 65

181 Constituição de 1933.

182 NOGUEIRA, Franco. Salazar – Os Tempos Áureos (1928-1936) – Volume II. Coimbra: Atlântida Editora, 1977. p. 254

mulher, da existência e grandeza das nações, contando que da sua falsa concepção da humanidade tenha podido arrancar a escravidão do homem e a sua máxima abjecção183.

O Estado Novo em Portugal estava fundamentado num regime monopartidário e cabia à União Nacional cuidar das atividades políticas, e o partido era o agente responsável para divulgar o ideário da ditadura. Ao partido não cabia dirigir o governo. E era o próprio Salazar que presidia a comissão central da União Nacional184. Na opinião dele, o Estado não era uma “entidade onipotente, uma vez

que o seu poder deveria ser limitado pela moral católica, sob pena de se transformar num regime semelhante ao nazismo185”, apontado como um

nacionalismo agressivo.

Além disso, a trajetória pessoal de Salazar contribuiu para que o regime tivesse também uma aproximação com a igreja católica por causa da sua amizade com o cardeal Manuel Cerejeira. Eles eram amigos desde quando estudaram na Universidade de Coimbra e participaram ativamente no centro Acadêmico de Democracia Cristã. Durante o período salazarista, a igreja se tornou autônoma em relação ao Estado. No entanto, apesar dessa separação, em 1935, quando a Constituição foi revisada, “o ensino de religião e moral católica foi considerado como tradicional no país, passando a fazer parte do ensino público186”.