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A literatura baseada no conhecimento da firma é rica em termos de análises que avaliaram os contextos e os mecanismos organizacionais envolvidos com a complexidade e a efetividade da estratégia que acessa variados tipos de conhecimentos (GRANT, 1996; COHEN; LEVINTHAL, 1990; MARCH, 1991; BENNER; TUSHMAN, 2001). Mais especificamente no contexto de diversidade de portfólio de alianças esse universo também foi abordado (FAEMS, et al., 2010; HOFFMANN, 2005; DYER; KALE; SINGH, 2001).

A diversidade de portfólio de alianças – da forma que está sendo enfatizada nesta tese – destaca e pressupõe a existência simultânea das atividades de exploração (exploration) e de explotação (exploitation), em diversos estágios da cadeia de valor da firma. As atividades de exploração e explotação são fundamentais para o desenvolvimento tecnológico da firma, mas exigem processos organizacionais contraditórios (BENNER; TUSHMAN, 2001). O alcance de desempenho superior e de vantagens competitivas envolvem sutis trade-offs entre exploração e explotação, causados pelas interações e distribuições dos custos e dos benefícios gerados por essas duas atividades (MARCH, 1991).

A relação entre a diversidade/distribuição do conhecimento da firma com a estrutura de comunicação necessária para o efetivo fluxo dessa diversidade de conhecimento dentro da firma e entre firmas, é um importante exemplo de trade-off, apontado por Cohen e Levintha l

(1990). As organizações que tentam equilibrar as atividades de explotação e exploração tem que conciliar subunidades internas muito diferentes e pouco integradas entre si, em termos de estrutura (BENNER; TUSHMAN, 2001). As unidades exploratórias são menores, descentralizadas e com processos flexíveis. As unidades explotativas são maiores, centralizadas e com cultura e processos consolidados e mais rígidos (BENNER; TUSHMAN, 2001). As primeiras possuem graus de incerteza em termos de resultados bem maiores do que as segundas, porém, podem proporcionar combinações únicas de novas ideias (MARCH, 1991). Assim, manter um equilíbrio apropriado entre exploração e explotação reduz a ameaça de ter muitas ideias, porém, pouco desenvolvidas – quando o foco é na primeira – e reduz a ameaça de tornar as competências da firma obsoletas no longo prazo – quando o foco é na segunda (MARCH, 1991).

Os desafios expostos nos parágrafos anteriores são bem presentes no contexto de diversidade de portfólio de alianças. Na medida em que a complexidade do portfólio de alianças aumenta, “a firma precisa introduzir uma função no nível corporativo da organização, especialmente dedicada às alianças” (FAEMS, et al., 2010, p. 7). A gestão da firma deve então se envolver com atividades de coordenação e promoção do portfólio, aumentando o número de tarefas e habilidades e, consequentemente, alterando a estrutura interna de custos da firma (FAEMS, et al., 2010; KALE; SINGH, 2009).

Em níveis muito amplos de variação, custos crescentes relacionados à integração dessa diversidade de novo conhecimento podem exceder os benefícios (GRANT, 1996; KATILA; AHUJA, 2002). Um exemplo desses custos são os relacionados com a criação de redes de relacionamento e comunicação entre a firma e o ambiente externo (HENDERSON; CLARK, 1990). A confiabilidade do conhecimento também pode ser afetada negativamente. Para Martin e Mitchell (1998), a capacidade da firma de assimilar corretamente um novo conhecime nto decresce com o excessivo aumento de diversidade do conhecimento acessado.

Outros tipos de dificuldades podem ser explicados por problemas relacionados com a capacidade de absorção – quando a firma tem um leque de ideias para gerenciar e selecionar – com a administração do tempo – quando muitas ideias surgem na hora e lugar errados – e com a dedicação de atenção – quando a firma em meio a tanta informação dedica esforços a apenas algumas poucas (KOPUT, 1997; LAURSEN; SALTER, 2006).

Investigando esse contexto, alguns estudos abordaram ambientes de alta tecnologia, altamente competitivos. Lee (2007) estudou as indústrias convergentes de comunicações por telefonia e redes de computadores, nas quais abordou os recursos de uma rede de alianças de

empresas desenvolvidas entre 1989 e 2001. Lee definiu esses recursos não apenas como oportunidades, mas também como restrições. Os resultados empíricos desse estudo mostraram que alta qualidade, grande quantidade e maior diversidade de informações, possibilitam às firmas, que entrem no mercado com mais rapidez. No entanto, os resultados também mostraram que a rigidez de configuração e os custos dessas redes podem neutralizar parte desses benefícios. “Em grandes redes, o benefício gerado pelo acréscimo de um novo parceiro diminui o efeito na entrada de mercado, podendo até ser negativo” (LEE, 2007, p. 34).

Goerzen e Beamish (2005) examinaram como reagiram 580 gigantes multinacio na is japonesas que desenvolveram Joint-Ventures internacionais. Examinaram aquelas que desenvolveram estratégia de portfólio focada (homogênea) e aquelas que desenvolvera m estratégia de portfólio múltipla (diversa). Seus resultados empíricos mostraram que ambas as estratégias levam a desempenhos superiores, todavia, as firmas que decidiram pela segunda opção,

[...] combinando os dois extremos opostos, parecem sofrer, na média, resultados econômicos mais fracos [...] na medida em que as redes de alianças aumentam em diversidade, os benefícios são difíceis de se apropriar e possivelmente tornam a firma mais difícil de gerir [...] e os benefícios da diversidade de rede de alianças parecem diminuir, enquanto os custos aumentam (GOERZEN; BEAMISH, 2005, p. 351).

Faems, et al. (2010) desenvolveram uma estrutura conceitual a partir dos estudos de 305 firmas de manufatura belgas, na qual propuseram a abordagem separada dos efeitos do aumento da criação de valor e o aumento dos custos, ambos causados por alianças tecnológicas no desempenho financeiro da firma. Seus resultados deram um caráter indireto ao impacto positivo da diversidade de portfólio de alianças no desempenho, e caráter direto ao impacto negativo. Assim, a diversidade do portfólio de alianças impacta o desempenho inovador positivamente que, por sua vez, impacta o desempenho financeiro. No entanto, o aumento da diversidade de portfólio desencadeia custos adicionais de controle e monitoramento que tornariam o efeito líquido negativo (FAEMS, et al., 2010).

Jiang, Tao e Santoro (2010) estudaram as relações entre portfólio de aliança e desempenho em 138 multinacionais da indústria automobilística global. Encontrara m resultados semelhantes aos de Goerzen e Beamish (2005), mas atribuíram aos mecanismos de governança, a responsabilidade de anular o benefício proporcionado pelo último parceiro adicionado ao portfólio. Assim, implícita aos contextos mencionados nos parágrafos anteriores e considerando as contribuições teóricas e empíricas aqui revistas, este estudo apresenta a primeira hipótese a ser testada:

Hipótese 1: a Diversidade de Portfólio de Alianças possui relação curvilinear em forma de U-invertido, com o desempenho inovador da firma. Ou seja, a diversidade de parceiros com os quais a firma desenvolve alianças proporciona benefícios à firma focal até certo ponto. Após esse ponto, os benefícios marginais são negativos.

Para completar o modelo teórico-empírico que aqui será testado, são incorporadas mais duas variáveis (ou fatores organizacionais) conforme destacado na introdução deste texto – a capacidade de P&D e os ativos complementares especializados da firma. Pela proposta desta tese, essas duas variáveis moderam a relação entre a DPA e o desempenho inovador, em pontos distintos da firma. Assim, com o objetivo de construir o modelo teórico desta tese e para respaldar as hipóteses nele inseridas, são enfatizadas em conjunto a partir do próximo parágrafo, as teorias da capacidade de absorção (CA) e a visão das capacidades dinâmicas na cadeia de valor da firma.

2.3 Capacidade de absorção e capacidades dinâmicas na cadeia de valor da firma –

Benzer Belgeler